04/01/2018

Futebol: Por que os técnicos duram tão pouco no Brasil

 

Os 12 maiores times do futebol brasileiro promoveram 33 trocas de treinador nas últimas duas temporadas. Na soma, 35 nomes diferentes rodaram por essa dúzia de cargos, somente em dois anos. Os números escancaram a cultura imediatista que persegue o melhor resultado no prazo mais curto possível, independentemente das circunstâncias, alimentando a impaciência dos torcedores e as seguidas demissões de técnicos ano após ano. Embora bem remunerada no alto escalão, a profissão é uma das mais instáveis do mercado de trabalho brasileiro, e isso não afeta apenas a sequência da temporada dos clubes, mas também a evolução da qualidade do futebol jogado por aqui.

Até mesmo os maiores ídolos da história de um clube sofrem com a cobrança por resultados. Rogério Ceni, por exemplo, iniciou a temporada como treinador do São Paulo e, mesmo depois de a diretoria garantir que teria tempo para trabalhar, foi demitido em julho. Levir Culpi, treinador há mais de 30 anos, é outro exemplo de quem sofreu com exigências de curto prazo. Ele tem dois títulos notórios na profissão: as Copas do Brasil de 1996, com o Cruzeiro, e de 2014, com o Atlético-MG. Levir passou apenas duas vezes mais de uma temporada no comando de um clube brasileiro: em 1998-99, no Cruzeiro, e em 2014-15, no Atlético, onde, além da Copa do Brasil, foi vice-campeão do Brasileiro. Curiosamente, na temporada de 96, quando foi campeão, o técnico disputou mais jogos do que durante o período 98-99 pelo time azul de Minas. Os títulos de Levir vieram nos trabalhos mais longevos de sua carreira. “Sem dúvidas, aumentou a pressão [sobre o treinador]. Sem contar (...) a péssima escolha do calendário brasileiro, que disputa quase o dobro de jogos comparado ao espanhol, por exemplo”, argumenta o treinador, justificando os períodos curtos nos clubes do Brasil. “Costumo brincar com uma verdade: ‘o técnico é uma ilha de ignorância cercada de inteligentes por todos os lados”. O time em que Levir Culpi mais durou na carreira foi no Japão: o Cerezo Osaka, onde ficou de 2007 a 2011 e do meio de 2012 até o fim de 2013.

Do lado oposto de Levir está Claudio Tencati, ex-treinador do Londrina. Ele trabalha no futebol profissional há pouco mais de dez anos e comandou a equipe paranaense de 2011 até o fim da temporada 2017, quando pediu demissão. Ao longo desses sete anos, levou o Londrina ao título do Campeonato Paranaense em 2014, ao vice-campeonato da série C em 2015 e à conquista da Primeira Liga, eliminando Cruzeiro e Atlético-MG no mata-mata, em 2017. Além dos títulos, deixou o clube a três pontos da elite brasileira em 2016 e a somente dois pontos do acesso em 2017, uma realidade inimaginável para o clube a três ou quatro temporadas atrás. “O torcedor do Londrina, hoje, pensa que tem que ver seu time na série A, independentemente dos outros 19 clubes que a disputam”, comenta Tencati sobre o aumento da expectativa dos torcedores após os sucessivos bons resultados.

O comportamento do torcedor, além da influência da imprensa esportiva, também é um dos motivos para que o ciclo de treinadores no Brasil não seja tão longo quanto o necessário. “A direção do clube é muito influenciada. Às vezes a imprensa pontua algo que não é verdade, e o torcedor age pelo momento”, diz Tencati. “Tem jogo que não jogamos nada, mas ganhamos e o torcedor saiu satisfeito. Não pode tomar decisões precipitadas; é uma mudança de mentalidade”. O treinador, no entanto, agradece a proteção da diretoria do clube, essencial para os sete anos de um trabalho vencedor. “Só consegui esses resultados por causa da confiança. Muitas vezes não tive o resultado, mas a diretoria, ao ver produtividade, acreditou”.

Ao mesmo tempo que ter o resultado é a chave do sucesso para o trabalho de um treinador, o contexto do futebol brasileiro dificulta a missão. “Aqui, técnicos estão mais para mágicos. Precisa dar resultado em quatro jogos e isso é impossível. Você não consegue desenvolver nada; é absurdo ter que assumir já pensando na necessidade de vencer o próximo jogo”. Tencati ainda aponta o calendário apertado de jogos como grande vilão: “O treinador não tem três dias em uma semana para trabalhar. Grandes clubes europeus fazem 60 jogos no ano [o Flamengo, clube mais popular do Brasil, fez 83 em 2017]. Os treinadores de fora que vêm para cá ficam assustados. O Paulo Bento, por exemplo, não conseguiu construir sua ideia de jogo e aplicar sua filosofia porque o Cruzeiro tinha a necessidade curta de ganhar”. Bento, português, esteve no time mineiro por 17 jogos em 2016.

Maurício Galiotte, presidente do Palmeiras desde novembro de 2016, tentou repetir a receita do seu antecessor, Paulo Nobre, no que diz respeito aos seus técnicos. Em 2016, Nobre demitiu Marcelo Oliveira durante a fase de grupos da Libertadores e contratou Cuca, que acabou campeão brasileiro. Na última temporada, Galiotte demitiu Eduardo Baptista, que iniciou a temporada, também durante a fase de grupos da competição e apostou em Cuca novamente, esperando ter o mesmo resultado. Mas o clube alviverde acabou eliminado em todos os mata-matas e perdeu o título nacional para o rival Corinthians, com Cuca demitido em outubro. “Muitas vezes o futebol é dinâmico e acaba ocorrendo [a demissão], mas eu acredito no trabalho de longo prazo. O ideal é que o treinador tenha tempo para trabalhar, para implementar sua metodologia”, afirma o presidente palmeirense. Ele também promete que o treinador do Palmeiras para 2018, Roger Machado, terá tempo e confiança da diretoria para trabalhar. Por sua vez, Eduardo Baptista, após o Palmeiras, foi para o Atlético Paranaense e terminou o campeonato rebaixado com a Ponte Preta. Em agosto, os treinadores brasileiros reivindicaram na sede da CBF um limite de técnicos por clube durante Copa do Brasil e Brasileiro, que seria de dois por temporada. É o mesmo limite que já existe para jogadores, determinado por regra da FIFA.

As demissões cada vez mais rotineiras estão diretamente relacionadas à queda de qualidade do futebol jogado no Brasil. “É um dos limitadores para que consigamos avançar”, comenta Fernando Diniz, atual treinador do Guarani. “Faz com que os treinadores joguem de maneira mais defensiva ao invés de criar soluções. Eles ficam mais guiados pelo medo de perder do que pela vontade de ganhar”. Diniz teve destaque à frente do Audax, clube que foi vice-campeão do Campeonato Paulista em 2016 e chamou a atenção pelo estilo de jogo ousado e ofensivo, baseado no toque de bola e na troca de posições em campo. “Todo mundo espera que tenham passes envolventes e jogo ofensivo no Brasil, mas [o que acontece atualmente] vai diretamente na direção contrária do que é o futebol do país.”

Se importar apenas com o resultado, para Diniz, está se tornando a “areia movediça” do futebol brasileiro. “No fim das contas, se o resultado é positivo, o treinador é bom. Aqui no Brasil, se não ganha, está totalmente equivocado. Só um time ganha. E os outros 19?”, questiona. Tencati faz coro ao colega. “Tem essa resistência ao ‘jogo bonito’. O Fernando [Diniz] desenvolveu uma forma de jogar que deixou um impacto muito positivo. Mas a partir do momento que veio para a série B e quase caiu, já passou a não valer mais”. Diniz treinou o Oeste na divisão de acesso em 2016 e foi 16º colocado. E o treinador paranaense volta à questão do nível do futebol praticado nos gramados nacionais, apontando as dificuldades por conta do imediatismo. “Os treinadores teriam condições de melhorar suas ideias de jogo com mais tempo. Hoje tem muita transição e pouca qualidade no futebol daqui, principalmente em função dos poucos treinos que temos para aprimorar o jogo coletivo”. Fernando Diniz conclui que, “enquanto a Europa está se baseando no que fazíamos nas décadas de 70 e 80, nós estamos copiando os europeus de bastante tempo atrás”.

O ‘MILAGRE’ ARGENTINO NO MERCADO DE TREINADORES

Geograficamente ao lado do Brasil, a Argentina está bem distante da nossa realidade quando o assunto é treinador de futebol. Além dos profissionais que ganharam mercado na Europa, como Jorge Sampaoli, Diego Simeone, Maurício Pochettino e Marcelo Bielsa, times argentinos que tiveram mais destaque que brasileiros nas últimas competições continentais contam com treinadores há pelo menos duas temporadas. É o caso de Marcelo Gallardo no River Plate, campeão da Libertadores em 2015 e vice argentino em 2017, Guillermo Schelotto no atual campeão argentino Boca Juniors e Jorge Almirón no Lanús, campeão nacional em 2016 e vice da Libertadores 2017. A ATFA, Associação de Técnicos de Futebol Argentino, exige um curso de 25 meses, nascido em 1963 e o único da América do Sul reconhecido como similar à Licença Pro da UEFA, para qualquer um que queira ser treinador no país. O irmão brasileiro, CBF Academy, foi criado no ano passado e só terá exigência cobrada a partir de 2019. Fernando Diniz atenta para outro facilitador que os argentinos têm quando vão treinar clubes da Espanha, caso da maioria: “O idioma deixa a porta de entrada mais acessível”. Claudio Tencati observa que as peculiaridades dos torcedores locais fazem diferença. “Eu vejo que o argentino é mais fiel com quem alcança marcos no clube”, diz. “Também se vê poucos treinadores de fora, isso valoriza os de lá”.

Efeito Guardiola: a Inglaterra domina a Champions

O dinheiro para contratar técnicos inovadores e competir com vantagem no mercado de atletas está provocando uma lenta transformação no futebol inglês. Uma mudança profunda que se projeta na Champions League. A injeção financeira que as televisões proporcionam à Premier League desde 2016 começa a repercutir nos resultados da principal competição de clubes do continente, após uma década de hegemonia espanhola. Manchester United, Manchester City, Liverpool, Tottenham e Chelsea pisam mais forte que nunca.

“É parte de um ciclo”, reflete Fernando Torres, que jogou no Liverpool e no Chelsea entre 2007 e 2014. “Depois do êxodo de grandes jogadores e treinadores alguns anos atrás, os times se enfraqueceram. Com a chegada de técnicos como Guardiola, Klopp, Mourinho, Pochettino e Conte, os grandes jogadores voltaram a se interessar em ir jogar na Premier sob as ordens dos melhores. Pogba, Morata, Pedro, Salah, Gabriel Jesus, De Bruyne, Ibrahimovic... Parece que nos próximos três ou quatro anos os ingleses voltarão a estar no topo.”

As equipes inglesas nunca antes haviam começado com tanta força na competição continental. United, City, Liverpool, Chelsea e Tottenham lideram seus grupos. O último precedente similar, com quatro equipes inglesas à frente nesta fase, foi na temporada 2006-07. Há uma década.

Juande Ramos, que treinou Tottenham entre 2007 e 2008, acha isso natural. “Com os orçamentos que os clubes ingleses têm, não é nada extraordinário que sejam primeiros ou segundos de seus grupos”, diz o técnico espanhol, que cita o faturamento anual dos clubes da Premier League: cerca de 4,4 bilhões de euros (17 bilhões de reais) na temporada 2014-15, em contraste com a Alemanha (2,4 bilhões de euros) ou Espanha (dois bilhões).

“Muitas vezes”, prossegue Juande, “os ingleses enfrentam na Champions adversários que, na melhor das hipóteses, têm a metade do seu faturamento: o United maneja um orçamento de 700 milhões de euros (2,7 bilhões de reais), enquanto que seu rival mais forte no grupo, o Benfica, tem 150 milhões. Não é nenhuma surpresa que sejam os primeiros! O clichê diz que são 11 contra 11. A realidade é que isso não reflete a verdade”.

Juande observa que, graças à vantagem financeira, o futebol inglês passou a atualizar suas ideias em matéria de preparação física, metodologia tática e de treino, entre outras questões que ancoravam os clubes a ideias tradicionais amplamente superadas neste século. Fernando Llorente concorda. O atacante do Tottenham, que conseguiu um empate e uma vitória contra o Real Madrid nos dois jogos da fase de grupos, acredita que os ingleses são competitivos na medida em que se aproximam da mentalidade de seus adversários da Espanha, Alemanha e Itália.

“Esta é uma tendência há anos”, reflete Llorente. “Mas não é só uma questão de poder econômico. O futebol inglês se abriu ao resto do continente. A maioria dos treinadores das equipes grandes se formou fora: Pochettino na Espanha, Mourinho em Portugal e na Espanha, Guardiola na Espanha, Conte na Itália... Isto faz com que cada jogo da Premier seja um mundo. Você nunca sabe o que vai encontrar. Os times estão muito trabalhados taticamente, e cada um propõe coisas completamente diferentes. O ritmo físico e as dificuldades táticas são muito elevados. Isto melhorou o nível competitivo, o que se nota quando essas equipes disputam a Champions”.

Mauricio Pellegrino, manager do Southampton, mostra-se ligeiramente cético: “Acredito que sejam fases. Na última década a Espanha sempre mandou na Champions e na Europa League. Atualmente há na Inglaterra quatro times muito fortes. United, City, Tottenham e Chelsea têm projetos consolidados por treinadores que estão há um tempo, e com ótimos jogadores”.

Os bons jogadores que Pellegrino menciona são consequência, em boa medida, do dinheiro que Juande menciona. O ranking do portal Transfermarkt dos clubes que mais dinheiro investiram em contratações nos últimos cinco anos é esclarecedor: City (879 milhões de euros, ou 3,4 bilhões de reais), United (777 milhões de euros), Chelsea (691), PSG (684), Barça (637), Juventus (584), Liverpool (503), Atlético (474), Real Madrid (463), Monaco (454), Roma (427) e Tottenham (418).

“Talvez não tenham conseguido as estrelas maiores, mas controlam o escalão abaixo”, observa Juande. “Não regulam economicamente absolutamente nada. E quem chega às quartas de final da Champions, salvo acidente? A norma é que os clubes com orçamentos mais altos. O potencial real dos times se verá a partir das quartas de final.”

A atualidade pode ser enganosa, mas o indício é claro. O precedente mais parecido com a atual fase de grupos, na temporada 2006-07, resultou em semifinais notavelmente inglesas: United, Chelsea, Liverpool e Milan. O título, entretanto, foi para o Milan.

UMA MUDANÇA DE MENTALIDADE

“Cada concentração era como um casamento”, conta um treinador espanhol, para descrever a surpresa que teve ao descobrir o espírito amador que reinava há alguns anos no futebol inglês de mais alto nível profissional. Os jogadores espanhóis e italianos dos clubes mais importantes estavam há mais de uma década cuidando de cada grama que ingeriam, vigiados por fisiologistas e nutricionistas, mas seus colegas ingleses continuavam devorando muffins e bebendo álcool sem controle antes das partidas. O trabalho de campo tampouco diferia dessa aproximação sentimental e irreflexiva. O estranho não é que o United, Chelsea ou City liderem a tabela de classificação da Champions. O que é raro, considerando seus recursos materiais, é que isso não tenha acontecido com mais frequência.

O influxo de treinadores estrangeiros, como Arsène Wenger, pioneiro, desde sua chegada ao Arsenal em 1996, da introdução de novos métodos na Premier, contribuiu para a mudança. O espanhol Lauren, um dos pilares do Arsenal fundacional de Wenger, argumenta que a transformação vem de baixo: “Houve um salto qualitativo no futebol inglês a partir do futebol de base, como se viu nas seleções sub-17 e sub-21. Os ingleses sabem que a Liga espanhola tem os melhores jogadores e eles foram espertos para formar os melhores técnicos: Guardiola, Pochettino, Mourinho, Klopp, Wenger... Essa preparação está sendo notada, especialmente no caso de Guardiola”. “Esses treinadores fizeram com que o futebol inglês mudasse substancialmente”, disse Lauren. “Raras vezes vemos equipes jogarem esse futebol direto que víamos nos 90, nem sequer o Stoke ou o Leeds, os mais conservadores. Agora vemos mais toque. Jogam direto só se saem no contra-ataque. Antes o faziam como norma”.

Auxiliar de Rafa Benítez no Newcastle e de Nuno no Valencia, o escocês Ian Cathro é um dos jovens treinadores britânicos marcados pela nova onda continental. “A evidência mais chamativa é que cada ano que passa as equipes inglesas são menos inglesas em seu estilo porque tentam controlar mais o jogo por meio da bola. Nota-se a influência dos treinadores, especialmente nas equipes que estão na Champions. A cultura dos torcedores e a tradição na Grã-Bretanha diziam que até os 45 minutos do segundo tempo tudo podia acontecer no futebol. Agora essa crença já não tem amparo na realidade, já que as equipes são mais capazes de controlar a partida quando estão à frente no marcador.”

“Ninguém quis mudar até que as novas ideias demonstrassem que são claramente superiores às velhas”, disse Cathro. “Diria que agora a porta está aberta: alguns técnicos a atravessarão e outros, não. Mas a verdadeira transformação cultural não será completa enquanto não for um treinador britânico a se posicionar à frente de um desses grandes clubes para comandar a mudança. Precisamos de um Guardiola nascido nas ilhas.”

 

Fonte: El País/ Municipios Baianos

 

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