07/01/2018

Quando as drogas conservam a ordem social

 

Não há nenhuma novidade no uso individual ou coletivo de drogas. Muitos chás, plantas e ervas com propriedades alucinógenas são usadas pelos homens há muito tempo, seja para fins recreativos, espirituais ou religiosos.

Deveras, há uma diferença substancial no propósito e na forma de uso se compararmos histórico e socialmente o consumo de drogas em tempos passados em relação ao consumo nos dias atuais. A natureza mística e ritualística do uso de drogas na antiguidade e nas comunidades primitivas – principalmente aborígenes – envolvia a utilização na forma de um verdadeiro rito sagrado, que constituía uma ponte entre a comunidade e as entidades divinas – geralmente presentes na própria natureza.

As propriedades entorpecentes e alucinógenas das ervas e chás proporcionavam aos seus usuários a sensação de elevação e desprendimento das vulgaridades da vida terrena que os impediam de enxergar a verdade da natureza e, portanto, a realidade extracorpórea e mágica que habitavam paralelamente.

No uso antigo, entre as comunidades primitivas, as drogas tinham como finalidade o transcender, individual ou coletivo, rumo ao encontro esfíngico com o divino e o extramundano. Estar sob o efeito das drogas era sobrepujar a simplicidade e a inescrutabilidade da profundidade do imediato, envolvendo nesse rito hierático a descoberta de significados superiores.

Mas na antiguidade as drogas também tinham finalidades mais simples como o gozo de suas propriedades medicinais, ou até mesmo simplesmente para fruirdo prazer que ela poderia proporcionar. O próprio ópio, por exemplo, era utilizado como fármaco, um hipnótico e analgésico extremamente potente (utilizado até hoje medicinalmente como analgésico com propriedades soníferas).

Uma breve análise do percurso histórico do uso dos mais variados tipos de drogas nos mostra que ele se estende desde a idade antiga até a idade média e moderna, prevalecendo vigorosamente até hoje. E não só o uso de drogas em geral, como também o uso recreativo de drogas já não é nenhuma novidade, mas algo próprio dos processos antropotécnicos de hominização e humanização das comunidades humanas.

Entretanto, com exceção do uso religioso, ritualístico e/ou espiritual de drogas como o Peiote e o chá do Santo Daime, atualmente as drogas são conhecidas quase que somente pelo seu uso recreativo. Isto porque supostamente as drogas, como denota Huxley a partir de suas experiências com a mescalina, contém a capacidade potencial de abrir as “portas da percepção” que originalmente trancadas privam o homem da enxergar e experienciar a infinitude da natureza.

Um pequeno retorno às décadas passadas e veremos como essa premissa generalíssima advogava pelo uso recreativo de drogas: basta uma olhada ao contexto de Woodstock, ao surgimento do rock junto ao lema “drogas e sexo” e ao discreto, porém crescente uso de drogas no meio universitário ao longo das décadas de 80, 90 e 2000, para visualizarmos como o seu uso devém com a usual finalidade de transcender o real e “experimentar” a vida efetivamente.

Diante do marasmo, da rotina programada e melancólica do viver e da opressão das exigências da sociabilidade – principalmente moderna – a droga surge como um suspiro, como um gole de vida, como a possibilidade de suspender num hiato temporal (e possivelmente espacial) o ritmo frenético de um viver muitas vezes mantido pela simples (com)pulsão – de vida, mas também de morte.

Nesse moderno contexto, o consumo de drogas surge como um ato revolucionário e transgressor.

Principalmente quando as drogas são vista como um inimigo da produtividade social. Pois a intensidade do consumo de drogas é comumente calculada como inversamente proporcional ao quociente de produtividade pessoal – e, consequentemente, coletivo. Num modo de vida alienado, em que o produto de nossos esforços físicos e intelectuais é mantido estranhado de nós como um mero dejeto consequente de nosso ato produtivo, o consumo de drogas se torna uma tentativa de reintegração do Eu diante de si mesmo.

O ato de internalização de uma substância estranha representa simbolicamente a tentativa de fazer entranhar o mundo estranhado do Eu, no esforço de desfazer a sensação de habitar um mundo cindido.

No entanto, a experiência tende a pôr o indivíduo diante do isolamento do Eu do mundo; a experiência não o coloca diante de uma reapropriação do mundo, mas diante de uma afirmação ainda mais radical do estranhamento do mundo diante do seu Eu. O mundo se torna mais “morna e colorida”, mas somente porque é a percepção do indivíduo sobre o mundo que se torna mais “morna e colorida”.

A conexão com a natureza – que, em última instância, possui uma consistência ontológica afeta somente ao homem como o conhecemos – é uma ilusão da experiência lisérgica ou alucinógena projetada pela própria experiência do consciente, e não o reestabelecimento de uma real conexão do intercâmbio homem-natureza.

Mas, como nos truques de mágica, o que o espectador quer não é a verdade da ilusão, mas a ilusão propriamente. É a cisão com o mundo ou, mais especificamente, com a ordem superegóica do grande outro que o sujeito deseja. O sujeito quer gozar, pois o imperativo da ordem simbólica é o “produza!” e não o “goze!”. Nesse sentido, o uso de drogas ganha seu caráter eminentemente transgressor, já que contraria a lógica da produtividade. Gozar não é produzir. Produzir é produzir, e gozar é gozar. Ou ao menos assim pensamos.

E se, nos dias atuais, estivermos diante de uma ordem simbólica que põe a repressão do desejo de lado e alia o desejo à produtividade? Isto é, e se hoje as drogas estiverem diretamente ou indiretamente ligadas à produtividade social, isto é, ao acúmulo e à reprodução do valor? E se gozar for produzir? E se o a lei fundamental do desejo não for mais o “produza” contra o “goza”, mas o “produza e goze”? E se o dever fundamental da lei do desejo for fundado sobre o imperativo do gozo? “Goza!” é o imperativo definidor do sujeito contemporâneo narcisista empenhado no cuidado de si, cujo apelo desesperado ao encontro de si – através do crossfit, das roupas descoladas de marca, das tatuagens esteticamente únicas, ou, quem sabe, do uso de drogas – é apenas um sintoma do cada vez mais fragmentado Eu.

O sujeito fragmentado da vida espetacular: não é preciso ir longe para percebê-lo. A existência dele não pode ser rapidamente abstraída dos dados estatísticos alarmantes que apontam para o crescimento de suicídios entre jovens e jovens adultos? Ou do notável crescimento de indivíduos com ansiedade, depressão e outras psicopatologias? É, evidentemente, difícil estabelecer uma relação de causalidade direta.

Mas a intensificação dos processos e mecanismos de alienação – e não é em torno disso que, v.g., a bem sucedida série de Black Mirror gira? – nos mostram uma proliferação cada vez maior de sintomas que envolvem um processo de desindentificação e desintonização do homem com o mundo. Como bem demonstra Postone, a contemporaneidade – leia-se capitalismo em sua forma cada vez mais aguda – escancara de maneira cada vez mais gritante a existência de um mundo duplicado, onde, por um lado, habitam produtores independentes privados, e por outro, um sistema de abstrações objetivas que dominam socialmente a esfera da produção e da circulação.

Nesse cenário, o consumo, e consequentemente, a demanda cada vez mais intensa pela liberação do consumo de drogas, revela um horizonte sintomático em que os conclames pela observância ao princípio da liberdade converge com as demandas irracionais do capital – nada novo no horizonte, não é mesmo?

O próprio ato de consumir drogas ganha o status de reprodutor da ordem simbólica do capital, ou seja, se torna algo próprio da sociabilidade ordinária, da vivência comum, uma forma de ação conservadora do status quo, que não o afeta de forma alguma, mas, ao contrário, o afirma, na medida em que é desencadeado como uma consequência e um sintoma quase natural dessa forma social. E não é de se espantar que o consumo de drogas seja não apenas cada vez mais tolerado, mas inclusive rentabilizado, como podemos ver em países europeus e nos Estados Unidos, onde o comércio de maconha se tornou um negócio bilionário.

Sem falar na “mais nova onda” – brinquemos com a apresentação própria da lógica publicitária mercantil – conhecida como “microdosing”, uma forma de consumo de drogas (cogumelos ou outros tipos de drogas alucinógenos ou de efeito lisérgico) a partir de microdosagens periódicas e de quantidade calculada utilizada para aumentar a produtividade, a criatividade e o desempenho – cá estamos, na sociedade da performance!

Há assim algo de perturbadoramente contraditório na demanda pela liberação das drogas que junta desejo e produtividade, reencontro do Eu e alienação, repressão e libertação. No entanto, não queremos entoar o coro totalitarista da proibição. Queremos, contudo, indagar: ainda é possível ser transgressor? Ou todas as nossas transgressões serão tragadas na roda d’água ininterrupta do capital?

Usar drogas, ao que parece, nunca foi tão conservador.

 

Fonte: Por Diogo Mariano Carvalho de Oliveira, no Justificando/Municipios Baianos

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