07/01/2018

Sambas populares da Bahia imortalizados em gravação

 

Que o samba nasceu na Bahia, ainda há quem duvide. Mas o que não se pode duvidar é que o estado é um imenso terreiro desse ritmo e de seus subgêneros, como o samba de roda.

Foi por isso que, em janeiro de 2017, o músico e pesquisador Betão Aguiar, 39 anos, decidiu percorrer cerca de 2,5 mil quilômetros pelo interior do estado, procurando pelo samba e seus derivados em comunidades populares de cidades como Cachoeira, Santo Amaro e Cruz das Almas.

Daquela viagem, resultou o álbum Mestres Navegantes Edição Bahia (Natura Musical), formado por 40 canções e dois curtas-metragens documentais. Na primeira fase, Betão conheceu 24 grupos. Dali, 13 foram escolhidos para gravar as músicas, todas já disponíveis gratuitamente  no  Soundcloud, em streaming ou download.

Projeto

O volume dedicado à Bahia dá continuidade ao projeto Mestres Navegantes, que começou em 2011, registrando a música produzida em São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo. Depois, passou pelo Cariri cearense - região que engloba municípios como Crato e Juazeiro do Norte -, que resultou em gravações lançadas dois anos depois.

Aquela caixa com 10 CDs ficou em quarto lugar na lista de melhores lançamentos de 2013 do crítico Ben Ratliff, no New York Times. Em 2015 e 2016, foram lançados os volumes sobre o Pará, terra do boi bumbá e do carimbó.

Com o álbum duplo da Bahia, a importante coleção sobre a cultura popular brasileira chega a 21 discos, com 482 músicas gravadas por 105 mestres ou grupos populares. Tudo isso está disponível  online, além de 17 vídeos no site Vimeo.

Betão Aguiar, que nasceu em São Paulo e foi criado entre a Bahia e o Rio de Janeiro, é autor e produtor de todo o projeto Mestres Navegantes. Seu interesse por música é fácil de ser explicado: ele é é filho de Paulinho Boca de Cantor, ex-Novos Baianos, e foi criado no meio musical. Também tocou baixo com artistas como Baby do Brasil e Arnaldo Antunes.

“Comecei a pensar no projeto em 2007, quando saí rodando o Brasil, conhecendo essas manifestações populares. Passei por Recife, onde conheci os afoxés regionais, e pelo Ceará. Tive uma vontade muito grande de registrar a cultura popular brasileira”, revela Betão.

Na época, com apoio técnico de amigos, começou a gravar um piloto, registrando os grupos do Cariri . Dali, nasceram os discos Reisado do Mestre Aldenir (2009) e Terreiradas Cariri (2010).

Após a viagem para realizar a pesquisa, Betão retornou às comunidades para as gravações, em março. Em vez de levar os grupos locais a um estúdio, preferiu ir até eles e gravar perto de onde moravam. Nas gravações, que duraram cerca de duas semanas, era criado um clima de festa, juntando quatro ou cinco grupos. Para deixar os músicos mais à vontade, também era preparado um pequeno banquete, respeitando o cardápio local.

“Como os grupos não costumam frequentar estúdios, se a gente os leva para um lugar fechado, perde o ‘quente’ da apresentação. Às vezes, a gente gravava até num quintal de uma casa e, enquanto um grupo gravava, o outro assistia ou ensaiava”, diz Betão.

Foram registrados artistas e grupos populares como Dona Zinha, Mestre Aurino, Samba Chula João do Boi e Samba de Dona Dalva. Também está presente outro grande representante da cultura popular local, Bule Bule, que colaborou especialmente com as canções de samba rural. O repentista foi responsável pela indicação de alguns grupos que entraram na seleção.

Bule Bule

Betão diz que, por pouco, não passa pela frustração de ver Bule Bule fora das gravações: “Ele estava hospitalizado havia um tempo e não podia gravar. A gente estava nas gravações quando ele fez um transplante de rim. Achamos que ele não ia gravar, mas ele acabou recebendo alta quando a gente estava terminando a gravação. Saiu do hospital num sábado e gravou num domingo”, diz Betão em um tom que mistura alívio e felicidade. Bule Bule canta e toca pandeiro em cinco músicas, incluindo algumas dele mesmo, como Cadê Joaninha e outras de domínio popular, como Mulher que Engana Tropeiro.

O músico e etnomusicólogo Cássio Nobre também contribuiu na pesquisa, especialmente nos sambas de roda e sambas chula. Além disso, toca viola machete em algumas gravações. O instrumento de cinco cordas era muito comum no samba da Bahia em tempos passados, mas tem sido cada vez mais raro, pela dificuldade de ser tocado. É uma forma de resgatar as tradições, já que ela vem sendo substituída pelo cavaquinho.

Encerrada essa etapa, Betão pretende dar seguimento ao projeto e a Bahia tem chances de ganhar ao menos mais um volume. “Infelizmente, muita coisa ficou de fora, como a marujada e o candomblé. Tenho muita vontade de continuar”. Para isso, já está negociando com o patrocinador.

Ilê Aiyê promove oficinas para candidatas a Deusa do Ébano

A candidata norte-americana que disputa com mais 15 finalistas a coroa de Deusa do Ébano 2018, no concurso do bloco afro Ilê Aiyê, desembarcou nesta sexta-feira, 5, em Salvador, para participar das oficinas que antecedem a Noite da Beleza Negra, marcada para o próximo dia 20.

Embora não domine ao pé da letra a língua portuguesa, Shereland Oneal, 35 anos, natural da Pensilvânia (EUA), consegue compreender os brasileiros.

Durante a oficina de teatro ministrada pelo ator Sulivã Bispo – do coletivo Frases de Mainha –, na sede da entidade, no Curuzu, a concorrente arriscou o português para participar das dinâmicas realizadas.

"As meninas têm um potencial gigantesco. Me surpreendi quando vi uma norte-americana no meio delas. A gente percebe a junção das culturas. Ter ela aqui no nosso meio é bacana e é muito importante", afirma Sulivã.

Promovida, no ano passado, para exercer a função de co-líder do grupo de percussão de estilo brasileiro "Timbeleza", a norte americana diz, orgulhosa, que seu grupo é "a única batucada em Pittsburgh [cidade do estado americano da Pensilvânia]".

Shereland conta que conheceu o Ilê após passar uma temporada em Salvador para conhecer a cultura. A intenção era ficar por uma semana e, acabou ficando duas a mais. "Assisti ao desfile do Ilê quando minha batucada passou pelo Brasil para estudar música brasileira e fiquei encantada".

Ela lembra que a primeira vez que viu uma Deusa do Ébano [Larissa Oliveira-Deusa do Ébano 2016], não conteve as lágrimas. "Ela era forte, alta, elegante, graciosa, e eu me vi nela. Chorei porque sua beleza era o mesmo tipo de beleza que eu tenho. Foi um alívio vê-la sendo celebrada por esses traços. Por muitas décadas nos Estados Unidos, não fui considerada bonita. Eu era estranha. Achavam minha pele muito escura. Meus braços e pernas muito grandes", pontuou.

Sobre a participação da candidata internacional, o fundador do Ilê Aiyê, Antônio Carlos dos Santos, conhecido como Vovô, acredita "que a presença da concorrente de outro país, possibilite uma visibilidade ainda maior para a festa, além de atrair novos parceiros para o evento".

Participando pela terceira vez, a arte educadora Milena Sampaio Nascimento, 33, moradora do Cabula, já foi princesa, em 2015, e ficou entre as 15 finalistas no ano passado. "É o desejo de uma mulher negra, que vem amadurecendo e sente que tem o potencial de representar a instituição. É uma experiência maravilhosa e continuo lutando pela coroa de Deusa do Ébano".

A persistência e o preparo não eram tão comuns nos primeiros anos do concurso. "Hoje elas se produzem, se preparam. A ideia é exatamente essa: resgatar a beleza da mulher negra. Esse concurso viabilizou a valorização da estética negra e da auto estima das mulheres", explica Vovô.

Agenda

Na próxima terça-feira, acontece um bate papo com Deusas do Ébano das edições anteriores com mediação da jornalista e influenciadora digital Maíra Azevedo, mais conhecida como Tia Má. No mesmo dia ocorrerá oficina com Edilene Alves (Deusa do Ébano 2009) e, no dia 15, com o Grupo de Estudos em Dança das Rainhas dos Blocos Afros (Gedar).

Estátua de Gregório de Matos é inaugurada em frente a teatro com nome do poeta

Uma estátua de Gregório de Mattos foi inaugurada nesta sexta-feira (5) em frente ao teatro que leva o nome do poeta, no Centro.

A iniciativa é parte da programação especial em homenagem a um dos maiores nomes da Literatura Brasileira e pela passagem dos 30 anos de existência da Fundação Gregório de Mattos.

A obra foi elaborada em fibra de vidro pelo artista plástico baiano Tati Moreno e tem o tamanho real do poeta.

A estátua possui ainda um dispositivo de presença, que permite a quem chegar perto dela ouvir poemas de Gregório, declamadas na voz do ator Jackson Costa. "É muito bom podermos resgatar a nossa história, valorizar a nossa cultura e homenagear nossos ícones. Salvador é reconhecida no Brasil e no mundo pela capacidade criativa do povo. Isso não é de hoje, vem há muitos séculos", comentou o prefeito ACM Neto, que participou da inauguração.

Após a inauguração do monumento, foi aberta a exposição Gregórios, promovida pela FGM para celebrar as três décadas de existência da autarquia.

A mostra relembra vida e obra do poeta homenageado no espaço. Ela é gratuita e acontece no Teatro Gregório de Mattos até maio, com visitação de quarta a domingo, das 14h às 19h.

 

 

 

Fonte: Correio/A Tarde/BN/Municipios Baianos

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