09/01/2018

Presidenciáveis defendem posições que criticavam

 

Rosto velho, roupa nova. A expressão “se não me falha a memória…” deverá ser muito usada neste ano eleitoral. Afinal, “se não me falha a memória”, o candidato que hoje prega contra a reforma da Previdência já foi mais simpático às mudanças no setor. “Se não me falha a memória”, outro presidenciável que hoje garante que vai privatizar diversas estatais já jurou que jamais tocaria em nenhuma delas. Políticos realmente mudam de opinião ou apenas adaptam seus discursos de acordo com a plateia ou conveniência eleitoral?

Quando a memória falha ainda é possível ir ao Google ou às redes sociais para se certificar daquilo que foi dito em outro “momento”. Veja o caso do deputado e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que acaba de se acertar com o PSL e reforça a ideia de ser um defensor da economia de mercado. Recentemente, Bolsonaro escreveu que “o Brasil precisa de um Banco Central independente!”. Para ele, com a independência do BC, “profissionais terão autonomia para garantir à sociedade que nunca mais presidentes populistas colocarão a estabilidade do País em risco”.

Em 2016, porém, questionado sobre o tema, proferiu: “Daí eles decidem a taxa de juros de acordo com os interesses dos colegas do mercado financeiro? Então é melhor o pessoal do BC governar o País como se uma junta fosse”. Procurada, a assessoria do deputado informou que ele não se manifestaria.

Além de Bolsonaro, outros presidenciáveis também mudaram ou adaptaram seus discursos. Se hoje o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chama a reforma da Previdência de “crime contra o povo mais pobre”, em 2015 ele pensava um pouco diferente. Em entrevista, Lula falou: “A gente morria com 60 anos de idade, com 50 anos de idade, agora a gente tá morrendo com 75 (…). Você não pode ficar com a mesma lei que você tinha feito há 50 anos”.

Questionada, a assessoria do petista afirmou que não há contradição e que Lula é contra “essa reforma da Previdência, proposta por Michel Temer”.

Já o governador Geraldo Alckmin (PSDB), que, em novembro passado, declarou que “um terço das estatais federais foi criada pelo PT e que a maioria delas deve ser privatizada”, já teve opinião diferente. Na eleição de 2006, quando disputou o segundo turno com Lula, ele dizia não existir nenhum projeto de privatização. “Vamos investir em empresas públicas, como Banco do Brasil, Correios, Caixa e Petrobrás.” Na mesma eleição, Alckmin chegou a vestir jaqueta com o logotipo de estatais para indicar que não iria privatizá-las.

Questionado agora, o tucano disse que em 2006 procurou “contestar Lula”. “Ele dizia que eu ia privatizar Banco do Brasil e Petrobras. Eram mentiras. Mas eu sempre fui favorável à redução do tamanho do Estado”, afirmou.

Discursos

Para o cientista político Claudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), essas “reorientações de discursos” têm ocorrido em um grau cada vez mais forte. “Isso acontece porque o discurso que se faz dentro dos partidos para animar as militâncias costuma ser muito diferente do discurso que é produzido para conquistar o eleitor comum.”

A obsessiva busca dos partidos brasileiros por um político de 'centro'

Nas últimas semanas, virou mania no país a busca por um candidato de centro. Em tese, esse nome serviria para se contrapor aos extremistas que atualmente lideram as pesquisas: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro, agora filiado ao PSL. Para ocupar esse vácuo, em tese, são citados o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin; o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ); e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. O debate, no caso brasileiro, é inócuo. Em nossa história recente pós-democratização, não importa quem seja o vitorioso nas urnas: para governar, o político, inevitavelmente, migra para o centro. A novidade, desta vez, é que esse movimento está acontecendo já durante a campanha eleitoral.

“Nosso modelo impede que o desfecho seja diferente. Existe uma fragmentação partidária e o presidente necessita formar uma maioria no Congresso se quiser governar. O centro político, no caso do Brasil, não é ideológico. É a capacidade do governante de compor com a maior parte das correntes políticas possíveis”, explica Cristiano Noronha, cientista político da Arko Advice.

Esse mix acaba prevalecendo também na sociedade. O eleitor de centro defende uma rigidez fiscal, mas não dá as costas à necessidade de programas sociais que beneficiem os mais carentes. Nada daquele perfil sisudo, que combina mais com a direita, de alguém avesso aos direitos humanos e/ou liberal econômico a ponto de defender o Estado mínimo. Ele tem medo de ser assaltado quando sai à rua, evidentemente. Mas não é adepto da cultura de que bandido bom é bandido morto.Continua depois da publicidade

“O eleitor brasileiro é de centro e não ideológica. E por que isso? Porque, tirando alguns integrantes de movimentos sociais, filiados aos partidos ou quem participa do movimento estadual, a única preocupação do cidadão comum é com o dia a dia: emprego, segurança, escola para os filhos. Ele só vai pensar em política às vésperas da eleição, quando para para escolher em quem vai votar”, justificou o professor de ciência política do Ibmec-MG, Lucas Azambuja.

Para Azambuja, no caso dos candidatos, é natural a migração de uma posição mais ideológica ao longo da campanha para um tom mais conservador quando chega ao poder. “Durante a campanha, ele está em busca do eleitor. Começa mais radical, vai amansando o discurso para ampliar o número de apoios. Quando chega ao Planalto, ele tem de negociar com a política e os partidos. O tom radical gera embates que paralisam a administração”, completou o professor.

O especialista em marketing digital Marcelo Vitorino afirma que esse discurso centrista dos candidatos está sendo antecipado por uma questão de conveniência: a percepção de que os votos brancos, nulos e a abstenção vão aumentar no próximo pleito eleitoral. “Os candidatos perceberam que não existe mais espaço — e isso vem num crescendo desde o escândalo do mensalão — para discursos radicalmente ideológicos porque o eleitor está desencantado com a política”, resumiu.

FHC, Lula e Dilma

À exceção de Fernando Collor, que em 1989 foi eleito com um discurso claramente de centro, especialmente do ponto de vista econômico – foi o responsável pela abertura do nosso mercado, sobretudo no setor automotivo –, todos os demais presidentes eleitos no período de redemocratização – Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT) (foto) – tiveram que ser mais conservadores no governo do que eram antes de chegar ao Planalto.

Eleito em 1994 e 1998, FHC era um dos ícones do PSDB, partido formado após o rompimento de alguns políticos com o então PMDB de Orestes Quercia, considerado fisiológico demais. Mesmo ancorado no sucesso do Plano Real, FHC precisou, para ser eleito e governar, aliar-se ao PFL (hoje DEM) comandado por Antônio Carlos Magalhães e que dava as cartas nos grotões brasileiros.

Em 2002, desgastado após perder três eleições, Lula não apenas criou a figura “Lulinha paz e amor” para provar que não era radical. Foi obrigado a escolher um empresário como vice – José Alencar –, redigir a “Carta ao povo brasileiro” para acalmar o mercado e ainda fez um governo, sobretudo no primeiro mandato, com Antonio Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central, extremamente fiscalista. Tanto que os radicais petistas abandonaram o navio e fundaram o PSOL. Lula acabou reeleito em 2006.

Até Dilma, que foi guerrilheira e presa durante o regime militar, teve que se alinhar ao então PMDB de Michel Temer para ser eleita e reeleita. Mas não soube lidar com o Congresso e implantou uma linha econômica desastrosa, pouco simpática ao mercado. Acabou sendo afastada do poder pelo impeachment. (PTL).

Maia diz que Meirelles deveria apresentar agenda pós-Previdência

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), acredita que o ministro da Fazenda e possível candidato à Presidência da República, Henrique Meirelles (PSD), deveria apresentar à sociedade uma agenda que avance além da reforma da Previdência. “Na minha opinião, a agenda do ministro Meirelles, e não estou aqui querendo criticar… Ela comete (um erro), do meu ponto de vista, e já disse (isso) a alguns assessores dele. Ela vai só na primeira parte do processo. A sociedade quer saber como você faz a segunda”, disse o deputado, em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, exibida no início da madrugada desta segunda-feira, 8. “Todos nós que temos essa agenda (da reforma) como prioritária, temos que falar da segunda parte da agenda. Senão fica muito árida. Fica só a parte que, em tese, vai tirar alguma coisa de alguém. Que não é verdade, mas é o que se vende aí, pelos campos da esquerda.”

Ao responder uma questão sobre a convergência de pensamento de pré-candidatos que se colocam como alternativas de centro nas eleições deste ano – caso de Meirelles e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) -, Maia demonstrou distanciamento do ministro da Fazenda. “Discordo frontalmente de que a minha agenda necessariamente é 100% igual ao que pensa o Meirelles”, afirmou, para então dizer que o possível candidato do PSD à Presidência deveria apresentar à sociedade um discurso que justifique a reforma da Previdência e que mostre o impacto que ela terá na vida das pessoas. “Por que vai fazer a reforma da Previdência? Ela existe porque na hora que tem uma rebelião em Goiás (como ocorreu no início deste ano), os governadores fazem uma carta e todos os pedidos deles têm relação com dinheiro. Porque está faltando recurso para a segurança. A gente quer a reforma da Previdência para reduzir o gasto aqui para sobrar recurso e cuidar da segurança”, afirmou o parlamentar.

A respeito da votação da reforma na Câmara, marcada para a semana do dia 19 de fevereiro, Maia manteve o discurso otimista. “Dia 19 vamos ter voto”, afirmou. “O deputado é pragmático. É um tema polêmico, mas fundamental.” O parlamentar afirmou que o governo, “em um primeiro momento”, falhou na comunicação das mudanças na Previdência. Agora, no entanto, ele acredita que o “que está colocado para a população é facilmente explicável para a sociedade”. Maia contou um episódio recente em que teria saído aplaudido após fazer um discurso em defesa da reforma em um “bairro simples” (sem identificar a cidade).

O presidente da Câmara voltou a lamentar que a reforma não tenha sido aprovada no ano passado, por causa das denúncias da Procuradoria-Geral da República contra o presidente Michel Temer. “Em março ia votar. A gente estaria hoje com previsão de crescimento de 4% a 4,5% da economia. Ia ter que estar controlando o consumo de energia por causa disso.”

Presidenciável

Maia participou do programa Canal Livre no âmbito de uma série de entrevistas dedicada aos possíveis candidatos à Presidência. Apesar disso, disse que, no momento, a chance de ser o escolhido do DEM é “zero”, embora reconheça que seu nome esteja “colocado no debate”. “O DEM vai ter um candidato nessa bancada aqui (durante as eleições), o candidato do DEM, não estou dizendo que sou eu.” Ele citou como outros possíveis nomes do partido o ministro da Educação, Mendonça Filho (PE), e o prefeito de Salvador, ACM Neto. A última vez que o DEM encabeçou uma chapa presidencial foi em 1989, com Aureliano Chaves (o partido ainda se chamava PFL).

Maia disse que, acima da discussão sobre candidaturas ou sobre a eventual união de partidos de centro-direita, é preciso que seja definido um projeto “que saia do populismo, da demagogia”. “Quero fazer parte de um projeto que seja muito transparente com a sociedade, que fale pra sociedade de forma clara: ‘tem aqui um volume de despesas que é incompatível com a realidade do Brasil’.” Não é possível, no entanto, “misturar o governo com a construção de um projeto”, disse Maia. “O governo é beneficiário desse candidato (que defenderia a agenda reformista e de corte de gastos). A agenda que o governo colocou na pauta é uma agenda que é convergente com a desse candidato. Agora se você começar a estar preocupado com candidato que é pra defender governo, não vai sair do lugar. Você vai perder a oportunidade de atrair outros polos da sociedade em um primeiro momento.”

O presidente da Câmara acredita ser possível participar da eleição com o discurso da austeridade. “Se for pra ganhar mentindo, é melhor perder falando a verdade.” Em tom de brincadeira, Maia afirmou que o centro está congestionado (por causa do grande número de pré-candidatos), mas ao mesmo tempo vazio (pois não há um pré-candidato dessa linha que apareça bem nas pesquisas). “Tem que ver como se constrói um cento com votos.” Maia declarou “apostar tudo” na ideia de que a aprovação da reforma da Previdência irá gerar efeitos econômicos positivos ainda em período eleitoral, o que tem o potencial de beneficiar eleitoralmente seus defensores. “Se (a reforma) não for aprovada, o cenário econômico será pior para a eleição e ruim para quem está na base do governo, mas o debate da reforma do estado está colocado”, disse.

Lula

Sobre o líder das pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Maia disse preferir que ele seja vencido nas urnas. “Queria disputar com o Lula. Ele sairá derrotado da eleição. Vamos acabar com o mito.” Segundo o presidente da Câmara, a campanha servirá para mostrar que o petista é o “culpado” pela crise. “Lula está bem nas pesquisas porque o governo do presidente Michel está injustamente muito mal avaliado”, disse. “O candidato que for para o debate, colocar o dedo na ferida, tem espaço para que ele (Lula) não tenha os 30% (de intenção de voto) que tem hoje.” Maia disse não crer em “convulsão social” caso a condenação de Lula seja confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, no dia 24.

Regra de ouro

O presidente da Câmara afirmou que a flexibilização da chamada “regra de ouro”, que impede o governo de emitir dívida em volume superior a investimentos, é necessária para 2019. Segundo ele, com o atual crescimento das despesas, “a regra de ouro fica impossível de ser atingida” no próximo ano. Maia disse que a discussão sobre a medida é a “prova” da necessidade de aprovar a reforma da Previdência.

O parlamentar aproveitou a discussão sobre o tema para alfinetar o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Paulo Rabello de Castro. O deputado lembrou que o cumprimento da regra para este ano pode ser assegurado com a devolução de R$ 180 bilhões pelo banco ao Tesouro Nacional. Rabello, no entanto, já mostrou resistência em devolver os recursos. “Ele deve ter sido nomeado pelo presidente (dos Estados Unidos, Donald) Trump e aí não quer devolver”, comentou Maia.

 

 

Fonte: Agencia Estado/em.com/Municipios Baianos

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