12/01/2018

Nas eleições, estaremos entre um futuro e a mesmice

 

A leitura dos intérpretes do Brasil, particularmente de Raymundo Faoro, nos permite concluir que a história brasileira anda em círculo e, a rigor, permanece sempre no mesmo lugar. Não há uma espiral capaz de projetar o País para o futuro. De décadas em décadas ocorrem pequenas rupturas na linha desse círculo, mas logo são recompostas, seja pela via do recurso às armas, seja de arranjos conciliadores ou de golpes parlamentares-judiciais, como foi o último caso.

O caráter circular da história brasileira é impositivo, determinado pela vontade das elites, cujos grupos hegemônicos podem variar, mas mantêm sempre o mesmo objetivo: aprisionar o Estado e usá-lo como instrumento de acumulação de capital, numa relação de extorsão contra a sociedade e contra os trabalhadores, lançando mão de vários mecanismos para alcançar as metas.

Os resultados desses processos têm se traduzido na ausência de um Estado universalizante, na precariedade dos direitos sociais, civis, quando não dos políticos. Numa ordem jurídica e policial enviesada contra os pobres, os índios, os afrodescendentes, as mulheres e outros grupos minoritários. Na perpetuação da desigualdade e da pobreza. No fomento proposital na produção de carências em áreas como saúde, educação e cultura. Na inviabilização do desenvolvimento industrial e tecnológico e na degradação ambiental.

A história tem mostrado que os grupos de interesse que lideram esse verdadeiro assalto ao Estado se alternam e se compõem, ora as elites agrárias, o estamento, setores industriais, comerciais, militares, setores financeiros, e assim por diante. De modo geral, esses setores se compõem com interesses internacionais de forma subalterna para bloquear a projeção global do País.

Os instrumentos fiscais regressivos, os subsídios, políticas públicas igualmente regressivas, a sonegação e a corrupção são os meios prediletos que esses grupos utilizam para se apoderar dos recursos retirados da sociedade, intermediados pelo Estado e entesourados e capitalizados por essas facções predatórias das elites.

A livre competição de mercado por meio de métodos racionais e um capitalismo ascendente orientado pela inovação passam longe das terras brasileiras. O discurso liberal sempre foi uma farsa para acobertar o assalto aos recursos públicos. Os destinos do Brasil enquanto nação, o seu lugar no mundo e o bem-estar do povo não são preocupações fundamentais desses grupos particularistas.

Apenas em três momentos foi possível produzir tênues rupturas na linha circular da nossa história: com Getúlio Vargas, que teve de lançar mão de instrumentos de força para se impor. Com João Goulart, que chegou à Presidência pelas circunstâncias do acaso.

E com Lula, que, pela sua liderança e seu carisma, gerou imensa esperança entre os pobres e espoliados do nosso povo. Apesar de se compor com grupos das elites, a continuidade desses processos no sentido de usar o Estado como meio de universalização de direitos, de justiça e de igualdade foi interrompida pelos golpes militares ou judicial-parlamentares.

A condição necessária para o Brasil ter um futuro minimamente razoável consiste na superação da pobreza e da desigualdade, na garantia de direitos, na revolução educacional (condição de um salto tecnológico) e no acesso à saúde e educação para o povo. Somente a superação desse nó será capaz de gerar emprego, renda e inclusão de forma mais sustentável e, consequentemente, o desenvolvimento econômico e social.

A grande batalha política e ética de 2018 consiste em saber se faremos uma aposta nessa possibilidade de futuro ou se vamos permanecer na mesmice do círculo histórico que nos aprisiona. A questão dramática que se apresenta é que ainda estão em curso desdobramentos do golpe judicial-parlamentar, cujo principal ponto consiste em barrar a candidatura do único com chances eleitorais de chegar lá e provocar uma fenda nesse círculo perverso: Lula.

Com Lula na liderança de todas as pesquisas, com Jair Bolsonaro em segundo lugar, com o governo incapaz de gerar um polo atrativo de poder, com um candidato de centro-direita como Geraldo Alckmin apresentando dificuldades e com o fracasso do aventureirismo do novo via João Doria e Luciano Huck tem-se aqui um retrato de como deverá marchar o cenário até o início da campanha. Podem surgir em variações aqui e ali, se apresentarem novos candidatos, mas mudanças substantivas deverão ocorrer  somente após o início da campanha. A Lava Jato deve continuar a produzir alguns efeitos sobre esse ambiente.

Se o cenário se definir em torno das candidaturas que estão mais ou menos postas, sem a entrada de uma grande novidade, de um outsider que tenha a capacidade de desequilibrar, mesmo com todas as dificuldades apresentadas pela candidatura Alckmin, o fato é que o efeito contágio que a figura de Temer e de seu governo suscitam deve levar o centro-direita a se articular com o candidato tucano em uma chapa PSDB-PMDB. Seria a chapa do golpe. Assim, aos  poucos, Alckmin tenderá a ser o desaguadouro das articulações e dos votos anti-Lula. Sem estrutura e com um perfil agressivo que beira a violência, Bolsonaro irá aos poucos se desinflar.

Se nada de extraordinário surgir, a tendência é a de que haverá um segundo turno entre Lula e Alckmin, repondo a polarização das duas últimas décadas. Além da movimentação dos candidatos, haverá uma disputa preliminar para a montagem das duas frentes. Lula deveria buscar agregar todo o campo democrático e progressista e tentar cindir o PMDB, capturando parte dele.

Uma questão que surge é se Lula e Ciro Gomes poderão se compor. Do ponto de vista dos interesses sociais e do futuro do País, a composição é desejável e necessária. As idiossincrasias pessoais de um e de outro deveriam se submeter aos ditames do interesse da sociedade. Líderes autênticos, em regra, devem submeter os seus humores pessoais às determinações dos interesses da sociedade e do País.

O campo que apoia Lula precisa enfrentar outras batalhas.

A mais importante consiste em garantir sua candidatura, mesmo que pela força das mobilizações de rua. A interdição de sua candidatura deve ser algo inaceitável e essas forças devem estar dispostas a produzir um impasse se sua candidatura não for acolhida. É preciso deixar claro que uma eleição sem Lula será ilegítima e que isso abrirá as portas para a desobediência civil e para a exasperação dos conflitos sociais e políticos.

Não se pode aceitar naturalmente as decisões e o jugo de um Judiciário parcial e persecutório, que contribuiu para destruir a constitucionalidade do País. Um Judiciário que tem na sua cumieira o STF, que rasgou a Constituição ao entregar ao Senado e à Câmara dos Deputados o poder de decisão judicial para salvar Aécio Neves e outros corruptos.

O outro desafio da candidatura Lula consiste em construir um programa que supere os limites do que foram os 13 anos de governos petistas. Além de enfrentar de forma mais contundente os desafios da desigualdade, da pobreza, do trabalho, da renda, dos direitos, com destaque para educação e saúde, esse programa deveria ter uma forte ênfase reformista.

* Em dois sentidos:

1. Remoção dos mecanismos iníquos que geram a desigualdade e a injustiça.

2. Reconstruir as instituições e a economia, buscando criar um Estado ágil, eficaz e confiável e uma economia sustentável, compatibilizada com os desafios tecnológicos, sociais e ambientais do século XXI.

Somente assim o Brasil poderá almejar um lugar melhor no mundo. As candidaturas dos partidos de esquerda terão um papel importante para pressionar Lula e o PT a saírem dos limites a que se enredaram nos 13 anos de governos petistas. Farão isso se apresentarem programas sérios, viáveis e se fizerem um debate convincente com a sociedade.

Lula precisa defender imagem de mediador, diz Rodrigo de Almeida

Enquanto tentam escancarar as contradições e arbitrariedades do julgamento de Luiz Inácio Lula da Silva, o PT e aliados do ex-presidente precisarão trabalhar muito em defesa do que o economista Luiz Gonzaga Belluzzo definiu com clareza: “Lula está longe de ser um radical. É um mediador”.

Na lúcida entrevista que deu ao Valor, Belluzzo foi ao ponto certo. Ou melhor, a 2 pontos. Primeiro, sua rejeição à ideia, falsamente difundida nos últimos meses, de que o “Lula 2018” é radical, contraparte exposta ao que representa o deputado Jair Bolsonaro –como se ambos fossem símbolos, em lados opostos e extremos, da mesma face violenta, intolerante, tóxica e a serviço da matança do espírito de quem não concorda com ele.

Bolsonaro é isto. É a expressão (odiosa) do ódio que emerge numa sociedade tipicamente dilacerada como a brasileira destes tempos. Mas colocar Lula como parte da mesma linhagem significa muito mais do que ignorar os oito anos de seu governo (2003-2010). É desonestidade intelectual, malandragem política e oportunismo eleitoral.

Em seu governo, fiel ao seu estilo conciliador, Lula agregou agendas do mercado a políticas sociais, numa estratégia sem trade-offs extremados: estava muito mais para um jogo de ganha-ganha do que para um radicalismo que divide a sociedade entre ganhadores e perdedores. Dois mandatos claramente incrementais, como o são os mandatos das democracias avançadas. No seu caso, sem qualquer medida anticapitalista, mesmo nas mais intervencionistas. Muito menos sem qualquer demonstração de desapreço pelos fundamentos da democracia e da liberdade –por mais que os radicais antilulistas digam o contrário.

O 2º ponto de Belluzzo que merece ser replicado aqui é o seu reconhecimento de que, diante da polarização e da forma como tem evoluído, é ilusório imaginar que a eleição presidencial deste ano possa acomodar tensões. Não pode. As tensões em curso são a expressão política de um conflito que se tornou ainda mais agudo com o retrocesso social deflagrado pela política econômica dos últimos anos.

O prognóstico não deixa de ser sombrio a partir de qualquer decisão do Tribunal Regional Federal, quando se julgará o recurso para avaliar a sentença de 9 anos e meio proferida pelo juiz Sérgio Moro. Se Lula for condenado e, mais tarde, impedido de concorrer, vai crescer a virulência do debate nas redes sociais e nas ruas. Numa eventual vitória do petista –na Justiça e, mais tarde, nas urnas, a reação também promete ser virulenta.

POR UMA MEDIAÇÃO DEMOCRÁTICA

O grande perigo é a ausência de mediação democrática entre os dois polos. Para alguns, a polarização se dá sobretudo entre ricos, bem-nascidos, e os pobres que avançaram nos anos pré-Temer – modestamente, mas avançaram. Mediou-se o conflito com o avanço da democracia e com a ampliação de direitos sociais e econômicos. Para outros, a polarização ocorre entre extrema direita e extrema esquerda, com ambos os lados adotando virulentos discursos contra o outro e a favor de certas práticas. Sem mediação.

Possivelmente a explicação mais complexa e mais adequada é a que mistura diferente combinações. Há, sem dúvida, o componente econômico-financeiro, especialmente numa sociedade conflagrada pelo desemprego e pela desigualdade de renda e de oportunidades. Mas há também a beligerância e a intolerância em práticas, pensamentos e valores cotidianos.

Exemplos disso são a crítica à defesa de minorias, como se significasse a retirada de direito das maiorias; o deboche do politicamente correto, como se significasse meramente a crítica ao politicamente incorreto e o engessamento da vida e dos valores; o tratamento de desperdício e/ou populismo a qualquer política social; o moralismo artificial e oportunista, que vê na política o símbolo do capeta. Do outro lado ideológico, o desprezo ao pensamento conservador; a dificuldade de enxergar possibilidades de um liberalismo que vai além da economia; a tendência à vitimização e às dicotomias.

O Lula não-radical –ou, como escreveu Alberto Carlos Almeida neste Poder360, o Lula “radicalmente moderado”– terá o desafio de conquistar o centro que acredita na mediação democrática entre os 2 polos formados. Isso inclui atrair empresários confiáveis assustados com a beligerância de Bolsonaro e seus artificialismos. Como diz o sociólogo Celso Rocha de Barros, ou o sujeito é liberal, ou apoia Bolsonaro. Afinal, segundo suas palavras, “o teste do liberal sincero é a defesa do liberalismo político, das liberdades individuais, da democracia” –e dos direitos humanos. Coisas que definitivamente não passam pela cabeça e pelo discurso de Bolsonaro.

O Lula “radicalmente moderado”, assim como qualquer outro candidato “não Bolsonaro”, também precisará oferecer respostas críveis para a escalada da violência urbana. Um dos desafios será mostrar aos leitores que não se resolve a criminalidade só com bala e polícia. Convém concordar com o documento Insight-Prospectiva, serviço de análise e construção de cenários produzido pela Insight Comunicação: o medo será um dos grandes cabos eleitorais de 2018. Ali se diz:

“A rigidez no combate à criminalidade em todas a escalas – do menor infrator ao político que desvia milhões em recursos – galvaniza parte relevante dos 144 milhões de eleitores brasileiros. (…) A força da bandeira de Bolsonaro (…) torna-se mais frágil quando se observa que qualquer candidatura pode se apoderar desse mote e roubar-lhe milhares de votos”.

AOS RICOS, AOS POBRES E À CLASSE MÉDIA

O Lula mediador deverá modular suas ações em benefício dos mais ricos, oferecer gestos à classe média tradicional –tolhida no meio do caminho entre os ganhos dos pobres e dos muito ricos– e propor alternativas consistentes para uma reindustrialização abrangente e necessária, para montar projetos eficientes em articulação com o mundo privado, para a intensificação de tecnologias, maior eficiência do Estado e melhoria ampla dos serviços. Tarefas nada fáceis em meio a um estrangulamento fiscal histórico e restritivo.

o contrário do que muitos petistas podem pensar, o mesmo Lula também precisará rever o que tem a dizer e fazer em relação aos pobres. Em abril do ano passado, a Fundação Perseu Abramo, braço intelectual do PT, divulgou pesquisa realizada com um grupo de eleitores pobres da periferia de São Paulo que deixaram de votar no PT após 2010. Os entrevistados disseram não se considerar vítimas de exploração pelos patrões num contexto de luta de classes. Pobres e ricos, concluíram, são vítimas de um inimigo comum: um Estado que lhes cobra impostos mas não presta serviços pelos quais a população paga. Evitar o maniqueísmo sobre o indivíduo, a família, a religião e a segurança. Antes disso, ou em meio a tudo, há a mão punitivista da Justiça.

 

Fonte: por Aldo Fornazieri, na CartaCapital/Poder 360/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!