13/01/2018

Armas do crime organizado têm selo de procedência

 

A Polícia Federal concluiu um mapeamento completo da entrada das armas que entram ilegalmente no Brasil e abastecem as quadrilhas do crime organizado em todo o país. O rastreamento, iniciado em 2014, revela que a boa parte de pistolas, revólveres e munição é proveniente do Paraguai, enquanto rifles e fuzis automáticos têm origem dos Estados Unidos.

O estudo mostra ainda que 99% desse tráfego vêm pelas fronteiras secas, em especial da Tríplice Fronteira (Paraguai, Argentina e Brasil), embora um grande contingente também tenha como porta de entrada a fronteira entre Brasil e Bolívia, por Rondônia, Colômbia, no norte do Amazonas, e até mesmo via Suriname.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapev), Luís Antônio Boudens, diz que a divulgação desses dados representa uma quebra de paradigma dentro da própria Polícia Federal. Uma nova lei agora obriga as entidades policiais a divulgarem os resultados de seus trabalhos.

"É uma constatação do que já vinha sendo analisada pelas polícias em vários estados. O rastreamento do tipo de arma, da marca, série e lote de fabricação possibilitou determinar a origem dessas armas", diz o dirigente. Segundo Boudens, a Fenapev tem um projeto que já fez um mapeamento de todos os problemas de fronteira no Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul e agora vai prosseguir o levantamento nas regiões Centro-Oeste e Norte.

O presidente da Fenapev afirma que a questão do contingente continua sendo um problema que pode ser minimizado com a realização de um concurso público para preenchimento de vagas de mais 150 agentes federais, delegados, peritos e escrivães para suprir um mínimo da demanda imediata. Outra conquista da classe foi a regulamentação da indenização de fronteiras. Após quatro anos, esse verba vai permitir a fixação de pessoal nesses locais. Boudens diz que a entidade também luta para que seja revista a estratégia de deslocamentos. Hoje, os policiais que se formam são enviados para as áreas fronteiriças, quando o ideal é que essa fiscalização seja feita por agentes há mais tempo em serviço e com mais experiência. "É preciso combater a terceirização. É um absurdo você colocar empresa privada para fazer trabalho policial em região de fronteira."

Em relação à Tríplice Fronteira, o presidente da Fenapev diz que a região é apontada como um local de tráfico intenso de armas e drogas e sustentação até de outros crimes como terrorismo. "Os EUA durante muito tempo nos cobraram isso. Foi um erro o Brasil e a Polícia Federal não terem se manifestado e feito um trabalho mais intenso para dar uma resposta."

"A expressão que temos as fronteiras abertas no país é real. Fui a dois postos em Chuí — o ponto mais meridional do Brasil, na fronteira com o Uruguai — e Santo Angelo (ambos no Rio Grande do Sul), onde não há quantidade de policiais suficiente. No posto de Aceguá, em Chuí, uma região estratégica para nós, há equipes de um policial para fazer plantão de 24 horas", critica.

Hoje, segundo Boudens, há cinco portas de entrada para a corporação, e a Fenapev trabalha para que seja adotado o critério de porta única, como em vários países, com um treinamento mais longo na academia. Hoje um concurso da PF demora em média um ano e o treinamento custa cerca de R$ 120 mil por agente e leva de quatro a cinco meses.

"Tem entrado também na PF muitas pessoas sem o perfil, de olho na estrutura, status, questão salarial. Isso é revelado na nossa evasão que é enorme. Já chegamos em períodos de um a dois anos de saírem 200 policiais para um efetivo total de perto de 12 mil na ativa. A Abin (Agência Brasileira de Informação), por exemplo, tem um salário inicial maior que o da PF, e naturalmente vai haver uma evasão enorme no próximo ano (quando for aberto concurso)."

Para Paulo César Amêndola, secretário de Ordem Pública do Município do Rio de Janeiro, um dos fundadores do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope) e da Guarda Municipal do Rio, o trabalho realizado pela Polícia Federal vai permitir a ação de ações integradas de União, estados e municípios. Considerado um dos maiores especialistas do país em segurança pública, Amêndola contou à Sputnik Brasil as ações em andamento de combate à criminalidade atualmente no município.

"Eu já tinha recebido alguma notícia a respeito desse fato (o rastreamento) que foi tratado de maneira sigilosa pela área de inteligência da Polícia Federal. Esta aí a explicação para que as favelas aqui no Rio possuírem um grande arsenal de fuzis automáticos, armas, pistolas e revólveres. Agora é tomar as ações de caráter operacional não só através do Ministério da Defesa, empregando efetivos das Forças Armadas, uma vez que os efetivos da Polícia Federal serem insuficientes para fazer a fiscalização dos acessos por via terrestre do Brasil", diz Amêndola, lembrando que as Forças Armadas hoje têm poder de polícia criado pela lei do então senador Marcelo Crivela, hoje prefeito do Rio. A nova lei permite o direito de Exército, Marinha e Aeronáutica possam revistar veículos suspeitos.

O consultor lembra que a esses efetivos se somam também o da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que realiza, segundo sua avaliação, um trabalho importante de busca e apreensão desse armamento ilegal. Segundo Amêndola, essa integração vai reduzir bastante a chegada das armas às comunidades do Rio de Janeiro, reduzindo os índices de violência e dos efeitos do crime organizado. "Isso estimula também um comércio clandestino, não só venda por preços elevados, como aluguel de armas para o cometimento de determinados crimes." Ele lembra que o trabalho de inteligência das autoridades têm obtido grandes resultados, como na apreensão de um contêiner com 60 fuzis recentemente no Aeroporto Internacional Tom Jobim, que foi realizada pelo Departamento de Desarmamento da Polícia Civil (Desarme). 

No âmbito do município, Amêndola informa que o prefeito Marcelo Crivela trabalha com a concepção de proteção de "quintais" em termos de segurança pública. Ele explica: o governo federal cuida da segurança nacional, os governos estaduais fr suas áreas de atuação e os do município das fronteiras de suas cidades, todos, contudo, com concepção de integração em termos operacionais. O consultor diz que o município do Rio está investindo pesado em tecnologia de fiscalização em todos os acessos à cidade.

"Todos os acessos por terra e mar serão monitorados eletronicamente, mandando as mensagens para um centro de operações que já está construído há oito anos e funcionando muito bem n Prefeitura, na Cidade Nova. Quando os sensores forem acionados, eles acionarão a polícia na frequência de rádio, permitindo que ela (polícia) dê o bote na certeza de que estão entrando armas e drogas, numa integração perfeita com a PRF, as polícias Militar e Civil. Do segundo semestre para frente, a coisa tenha condições de mudar completamente", diz o consultor.

Amêndola diz que, no caso do patrulhamento marítimo, a Prefeitura já procurou o 1º Distrito Naval para estabelecer uma parceria que permita treinar parte da Guarda Municipal para atuar na fiscalização da Baía da Guanabara, onde chegam armas que são distribuídas para comunidades do Rio, de Caxias e Nova Iguaçu. A ideia é adestrar parte dessa tropa, que será armada, para realizar esse trabalho. Os recursos para a compra de lanchas e equipamentos estão sendo negociados com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Exército investiga se munição de depósito foi desviada para tráfico

Uma carga de 14 mil cartuchos de fuzil 7.62, usados por traficantes do Rio, furtada de um dos quartéis da 10ª Região Militar (10ª RM) no Ceará, foi recuperada pelo serviço de inteligência do Exército e da Secretaria da Segurança Pública (SSPDS). Pelo menos dois soldados do Exército estariam presos desde a semana passada, em Fortaleza, apontados como os autores do crime. Em nota, o Comando da 10ª Região Militar, informa que o sumiço foi constatado em vistoria realizada no dia 29 de dezembro de 2017 em um dos paióis da companhia.

Segundo o jornal O Povo, do Ceará, um dos militares teria trocado a munição por uma moto e um imóvel com integrantes da facção criminosa GDE. O POVO entrou em contato, na manhã de ontem, com o comando da 10ª RM e enviou um e-mail com dez perguntas sobre o caso. Até o fechamento desta edição, o comando do Exército em Fortaleza não retornou com as respostas.

O furto das 14 mil munições teria sido descoberto por acaso. Foi quando um contingente do Exército, lotado no 23° Batalhão de Caçadores (23º BC), teve de ser deslocado para o Rio Grande do Norte por causa da greve de policiais militares, civis e bombeiros do estado potiguar.

Ao disponibilizar o armamento para uma tropa de pelo menos 800 homens, militares notaram que milhares de cartuchos haviam sido desviados. Também há a suspeita, não confirmada pela 10ª RM, de que um dos soldados teria levado outras munições além dos cartuchos de 7.62 e algumas armas.

O Exército teria registrado um Boletim de Ocorrência (BO) sigiloso e abriu um inquérito Policial Militar (IPM) para investigar como a munição saiu da unidade militar sem que ninguém notasse qualquer movimentação suspeita.

A munição, levada do paiol (depósito de arma) de um quartel do Exército em Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), tem poder de dilacerar e é capaz de perfurar um veículo blindado.

Nota fala em divergência de material

"Foram constatadas divergências quantitativas entre a existência física e o Sistema de Controle Físico (Siscofis), instrumento de controle sistemático vigente em todo o território nacional que permite a gestão contínua de todo o material controlado do Exército Brasileiro", diz a nota.

O Inquérito Policial Militar foi instaurado no 10º Depósito de Suprimento, ao qual a 2ª Companhia de Suprimento é subordinada, e as investigações contam também com a colaboração da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS).

O Comando da 10ª Região Militar não confirmou oficialmente o tipo nem a quantidade de munição que desapareceu. A assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança declarou que não se pronuncia sobre o caso.

'Ninguém pode dizer quando a Lava Jato estará concluída', diz líder de delegados da PF

Após se reunir com a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Fernando Segóvia, afirmou que o órgão pretende concluir até o final deste ano de 2018 as investigações da Operação Lava Jato que tramitam no Supremo por envolver políticos com prerrogativa de foro privilegiado.

Na mesma quarta-feira em que se reuniu com a ministra, Segóvia comunicou o aumento de nove para 17 o número de delegados exclusivamente dedicados às investigações que tramitam no STF. O diretor da PF também aumentou o número de peritos criminais nestes processos de modo a acelerar a confecção de laudos que contribuam para o esclarecimento dos inquéritos.

Contudo, nem todos alimentam o mesmo otimismo de Segóvia. Em entrevista à Sputnik Brasil, o delegado federal Edvandir Paiva, novo presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), a meta de concluir as investigações da Lava Jato no STF até o final do ano é, no mínimo, discutível.

"É muito difícil dizer se é factível ou não esta meta porque nós não conhecemos as investigações. O que posso dizer é: se a PF aloca recursos materiais e humanos como foi anunciado, há a possibilidade de encaminhar (ou mesmo terminar) com mais rapidez as investigações", avaliou Paiva, fazendo ainda outras ressalvas.

"Agora, uma investigação depende de muitos fatores: se em determinados níveis das investigações aparecerem mais dados que demandarem mais trabalho, mais análise, mais períodos para busca e coleta de provas, isso vai consumir mais tempo. Então, é muito difícil definir o tempo em que uma investigação termine", destacou.

Esforços elogiados

No entanto, Edvandir Paiva aplaude o reforço das equipes empenhadas nestas tarefas. Segundo o presidente da ADPF, a entidade sempre defendeu o incremento de pessoal e de meios materiais para otimizar o trabalho dos agentes e delegados.

"É muito salutar que haja priorização destas investigações. A nossa associação sempre defendeu que as equipes da Lava Jato de Curitiba e do Rio de Janeiro sejam reforçadas, assim como sempre defendeu que as equipes responsáveis por outras importantes operações sejam igualmente reforçadas. Investigações que disponham de recursos humanos e materiais irão avançar e disso, nós não temos dúvida nenhuma", disse.

Sobre o desfecho e conclusão da Lava Jato, Paiva afirmou que é preciso ter toda a cautela. Na opinião do delegado, ninguém tem o poder de dizer hoje quando de fato a Lava Jato estará concluída.

"O diretor-geral da PF disse que os inquéritos da Lava Jato que tramitam no STF deverão estar concluídos até o final deste ano de 2018. Ora, isso não é algo que dependa deste ou daquele colega. O que determina o fim de uma investigação é o esgotamento da sua linha investigativa. E isso não ocorre pela vontade deste ou daquele delegado. Ninguém pode dizer quando a Lava Jato estará concluída. Somente os fatos irão dizer o momento em que as investigações terão chegado ao fim", explicou.

Fatores políticos

Paiva também pontuou o fato de existirem obstáculos para o prosseguimento das investigações pela PF, já que elas envolvem políticos.

"A dificuldade de lidar com políticos é o fato de que, como eles detêm o poder, têm também a possibilidade de fazer com que recursos deixem de estar disponíveis para a Polícia Federal poder prosseguir com as suas investigações", afirmou.

Estão hoje no Supremo todas as investigações conduzidas pela PF envolvendo parlamentares, ministros de Estado e o próprio Presidente da República, Michel Temer (MDB). Pela natureza dos cargos que exercem, todos têm foro privilegiado e, portanto, os procedimentos investigatórios contra estas pessoas precisam ser autorizados pelo STF conforme determina a Constituição Federal.

Segundo o ministro Edson Fachin, que assumiu a relatoria da Lava Jato na Corte, sucedendo o então relator ministro Teori Zavascki (morto em acidente aéreo em 19 de janeiro de 2017), tramitam no STF 140 inquéritos resultantes de investigações da Lava Jato. Destes, 73 inquéritos foram redistribuídos para outros ministros do STF por não estarem diretamente relacionados a desvios na Petrobras, alvo central desta operação. 

 

Fonte: Conexão Jornalismo/ Sputinik Brasil/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!