13/01/2018

Quem assume o centro na política brasileira?

 

Busca-se um candidato de centro: a nove meses da eleição presidencial, a viabilização de uma candidatura que aglutine forças "moderadas" tem sido tópico frequente do debate político brasileiro. Os que defendem isso dizem ser necessária a união das "forças não extremadas" (termo usado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, em artigo recente) como alternativa aos dois líderes nas pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL). Nomes identificados com o liberalismo econômico, uma bandeira tradicionalmente de direita, têm postulado essa posição.

É o caso do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), com longa carreira no mercado financeiro até se tornar presidente do Banco Central no governo Lula (2003-2010), do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). Já Marina Silva, que buscou se apresentar como "terceira via" entre PT e PSDB em 2014 e agora é pré-candidata da Rede, tem sido menos citada, mas foi lembrada no artigo de FHC como outro nome possível. Tal discussão levanta questionamentos: o que, afinal, seria o centro na política brasileira? E Lula representaria um radical de esquerda, exato oposto do radical de direita Bolsonaro?

Centro, lugar indefinido

Para analistas políticos ouvidos pela BBC Brasil, o "centro" é um lugar dinâmico que se define dentro da disputa eleitoral, a depender de quão à esquerda ou à direita estão os candidatos.

Nesse sentido, o fato de Lula e Bolsonaro no momento polarizarem as intenções de voto abre caminho para que outros concorrentes usem o espaço "entre" eles como estratégia eleitoral.

Isso não significa, porém, que os dois ocupem os "exatos opostos" do espectro político, nem que nomes como Alckmin, Meirelles e Maia estejam no "centro exato" entre os dois. "A estratégia desses nomes (que se colocam como centro) é radicalizar e reificar o que significa Lula e Bolsonaro. É muito mais uma resposta racional à estrutura da competição atual do que propriamente uma consistência ideológica", afirma o cientista político Rafael Cortez, da Consultoria Tendências. Em recente entrevista ao jornal O Globo, Maia defendeu que "o centro não é um ponto entre direita e esquerda, ou seja, um meio do caminho entre o Bolsonaro e o Lula. (…) Centro é onde vai se dialogar com a sociedade".

O que é esquerda e direita?

Cortez considera que há dois eixos principais que servem de termômetro para o quão um candidato é de esquerda ou direita - os candidatos de centro são aqueles entre os que tendem mais claramente para um dos polos. Um desses eixos identifica o posicionamento em relação à "questão redistributiva". No extremo à esquerda, está a visão de que a melhor forma de gerar igualdade é por meio da atuação do Estado, que deveria corrigir as injustiças criadas pelo mercado. Já no outro extremo, da direita, ficam os que acreditam que o mercado é a melhor mecanismo de regular a distribuição de bem-estar, de acordo com as decisões e méritos individuais, evitando que grupos dentro do Estado capturem recursos para si. "O grosso da discussão na política brasileira vinha se dando em torno do eixo redistributivo, com o PT assumindo a defesa de maior peso do Estado e o PSDB com discurso mais liberal. Na eleição de 2014, Marina aparecia como algo intermediário, combinando em seu discurso uma certa responsabilidade do ponto de vista econômico, mas ainda dando peso a valores igualitários", lembra Cortez. "Agora, para 2018, outra dimensão vem ganhando relevância, o eixo dos valores, e é por isso que está mais difícil definir o centro", ressalta.

Nesse segundo eixo apontado por Cortez, em uma das pontas fica a visão mais progressista, que defende uma clara divisão entre Estado e questões morais e religiosas. Já na outra ponta estão os conservadores, que têm uma postura mais moralista quanto às liberdades individuais. O primeiro grupo em geral defende, por exemplo, os direitos humanos e a legalização do aborto, das drogas e do casamento homossexual. Já o segundo costuma combater essas propostas e apoiar um Estado mais repressor. No Brasil, as visões progressistas costumam estar mais associadas à esquerda e as conservadoras, à direita. "O Bolsonaro não emerge a partir da discussão redistributiva, mas recuperando supostos valores que teriam sido perdidos em função de práticas de corrupção. Ele chama atenção para uma suposta desconexão entre reais valores da sociedade e o comportamento da classe política", nota Cortez. "É aí que vemos também discussões sobre ideologia de gênero, escola sem partido, o papel das forças armadas", exemplifica.

Já no "eixo redistributivo", não está clara qual é a posição de Bolsonaro. Embora ele venha tentando se associar ao liberalismo econômico, os analistas ouvidos pela BBC Brasil o consideram uma incógnita nesse campo. "Na sua carreira como deputado, os projetos que apresentou eram muito corporativistas, atendendo interesses dos militares, e isso vai contra os princípios do liberalismo", afirma Cortez.

Alckmin, Meirelles e Maia são centro?

Os atores políticos tendem a transitar por esses "eixos" ao longo do tempo, mudando sua postura de acordo com a própria dinâmica da disputa político-eleitoral. Vejamos o caso do PSDB, por exemplo, do pré-candidato Alckmin. Segundo a pesquisadora da FGV Lara Mesquita, o partido nasce como uma legenda de centro-esquerda - e isso fica claro nas posturas adotadas na Assembleia Constituinte (1987-1988). Durante os governos Itamar Franco (1992-1994) e FHC (1995-2002), porém, com a implementação do Plano Real para debelar a hiperinflação, o PSDB vai se deslocando para a direita, ao adotar políticas econômicas neoliberais.

E mais recentemente, nota Cortez, o partido também passou a flertar com um maior conservadorismo no campo dos valores, por exemplo com a filiação de parlamentares como o deputado estadual Coronel Telhada (SP), que já deu declarações como "direitos humanos é para defender a pessoa, não para defender bandido". E, assim como o PSDB se deslocou para o liberalismo e o conservadorismo, o PT também se movimentou para a direita, observa o analista da Tendências: o partido, inicialmente associado ao "socialismo", passou a ocupar o espaço de legenda "social-democrata" que era dos tucanos. "Os governos Lula nunca foram de esquerda. Eram governos que faziam parte de uma aliança muita ampla que iam da centro-direita até a esquerda. E do ponto de vista redistributivo, foi um governo que subsidiou o capital muito mais do que fez política social", avalia o sociólogo Sérgio Abranches, conhecido por ter cunhado o termo "presidencialismo de coalizão" para classificar o sistema político brasileiro.

Na visão de Mesquita, Lula e o PT voltaram a radicalizar o discurso à esquerda - por exemplo com forte oposição à Reforma da Previdência, medida que o próprio governo Dilma Rousseff chegou a defender - como uma estratégia de recuperar suas bases (movimentos sociais e sindicais, por exemplo) após o desgaste sofrido com a operação Lava Jato e o impeachment.

Nesse novo contexto, a pesquisadora da FGV considera correto classificar Alckmin, Meirelles e Maia como possíveis candidatos de centro. "São nomes que estão à esquerda de Bolsonaro e à direita de Lula", afirma. Já para Abranches, os três representam a continuidade do governo Temer, uma administração conservadora "de homens brancos" cuja única agenda é a econômica. O sociólogo classifica todos como centro-direita. Na sua avaliação, o debate atual está confundindo a posição de "centro" com o governo Temer. "Digo centro-direita porque tem o Bolsonaro. Se ele estiver na disputa, ele define a extrema-direita, por seu viés autoritário. Com isso, o Temer se desloca para a centro-direita. O Bolsonaro ajuda o Temer, nesse ponto de vista", ressalta.

Para Abranches, o deputado é uma figura menor da política brasileira. "Eu diria que todo mundo polariza com o Bolsonaro, pois ele representa uma volta ao passado autoritário", completa. O sociólogo acredita que a candidatura do deputado tende a perder fôlego. Se isso acontecer, afirma, a eleição deve se polarizar entre um candidato de centro-direita que represente o governo Temer e outro de centro-esquerda, que pode vir a ser Lula, caso consiga evitar ser barrado pela Lei da Ficha. Se for condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá no julgamento previsto para ser realizado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) a partir do próximo dia 24, o petista dependerá de recursos para poder concorrer.

Não chore pela morte do PT e do PSDB, será um alívio para os brasileiros

Felizmente para os brasileiros, o PT e o PSDB acabaram. Podem até ganhar eleições porque isso não depende no Brasil de projetos, programas nem de idoneidade dos políticos. Mas são partidos que não existem mais, não têm mais qualquer ligação com o que os constituiu. Podem até mesmo ganhar as eleições de 2018, mas não creio que possam ser refundados.

Creio que não devemos lamentar esse fim. Seria pior se estivessem vivos e fortes. O campo democrático vai ter de inventar outra coisa. Tem a oportunidade e o desafio de inventar outra coisa melhor. Talvez nem tenha de ser outro partido.

CÚMPLICES DO PT

Deixei o PSDB no começo de 2017, depois de 15 anos de filiação. Não poderia continuar num partido da base do governo Temer, sendo para o PMDB o que este foi para o PT. A meu ver, Aécio e outros importantes dirigentes do PSDB foram cúmplices dos governos do PT e cometeram os mesmos crimes. Isso ficou evidente com as revelações dos donos da JBS e já tinha sido denunciado nas delações da Odebrecht e outras tais.

O partido fez corpo mole, se omitiu, fez oposição de mentirinha ao PT. Portanto, traiu os seus próprios quadros, traiu milhões de eleitores, milhões de cidadãos que depositaram esperanças no partido como alternativa democrática aos governos do PT.

OLIGARQUIA ATRASADA

O PT no poder foi governado pela oligarquia mais atrasada do país e pelo que existe de pior no capitalismo brasileiro. Por trás da cortina de bandeiras vermelhas obedeceu a empreiteiros malandros, banqueiros espertos e aos coronéis de sempre, que controlam grandes currais eleitorais.

Lula, Dilma e associados transformaram a corrupção em política pública e em arma de reprodução do velho poder. Manipularam a vontade do voto para que a esperança de mudança levasse à consagração do mesmo. Docilizaram e calaram sindicatos e movimentos sociais.

TRAIÇÕES EM SÉRIE

A traição do PSDB foi tão grave quanto à do PT. Traiu a crítica, traiu a sociedade. Só não traiu os supostos adversários que tiveram vida fácil e fizeram o que queriam com a sua cumplicidade, com a falsa oposição. O PT desmoralizou a esquerda e o PSDB desmoralizou a política. Jogou a pá de cal na democracia brasileira.

O falecimento dos dois partidos não nos livra deles, porque os seus fantasmas continuam a nos assombrar, nos lembrando toda hora que não devemos chorar por eles e sim acabar de exorcizá-los.

Dirigentes e líderes do PT e do PSDB mostram que são capazes de tudo para impedir investigações de seus crimes, escapar de processos e fugir de condenações. Os que têm mandatos e privilégio de foro sabem que podem ser deletados da vida política e ir para prisão quando deixarem o poder. A mesma coisa vale para o presidente da República, seus ministros e dirigentes do PMDB e partidos aliados. Todos os bandidos estão no mesmo barco. E os democratas estão nadando contra a corrente e sem direção.

LAVA JATO AMEAÇADA

Suspeito que a Lava Jato e mesmo a legitimidade das eleições deste ano estão ameaçadas por essas quadrilhas. As tarefas do campo democrático são, portanto, difíceis e imensas: defender as investigações e as instituições republicanas que ainda funcionam, tentar aglutinar forças e identificar candidatos para a eleição presidencial e para as majoritárias nos estados. Tudo isso tendo de enfrentar o desespero do que estão no poder e a descrença na política fomentada pelos bandidos e pelos extremistas que se aproveitam da confusão.

Confesso que já fui mais otimista. Mais uma vez os democratas têm de empurrar a grande pedra da política montanha acima. Não tenho dúvidas de que é este trabalho sem fim que constrói e sustenta a democracia. Não existe ponto final na política e a caminhada tem de ser feita com esperança e alegria. Mas me pergunto se ainda podemos apostar que a democracia vai renascer no Brasil, ou enfim nascer.

Maia roda o país em busca de maior popularidade

Prestes a se declarar oficialmente candidato à presidência da República, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não está poupando esforços para conquistar 10% das intenções de voto até abril. Esse é o patamar que ele quer atingir para ser considerado, de fato, um candidato viável para as eleições de outubro. Na busca por apoio, a agenda do deputado tem incluído encontros com governadores e líderes partidários nos últimos dias. Até ontem, ele já podia contar com a aprovação e provável engajamento do PP e do Solidariedade numa eventual campanha. Agora, mira no PSD, no PR e no PSC.

Ontem, o presidente da Câmara recebeu para um café da manhã na residência oficial o ex-deputado Valdemar Costa Neto, um dos principais caciques do PR. O partido ainda se recusa a fechar questão sobre a reforma da Previdência, que seria o motivo do encontro, mas é considerado um forte aliado em potencial para a candidatura ao Palácio do Planalto. Já o almoço foi em Florianópolis, com o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD). Colombo é do partido do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que também tem intenção de substituir Michel Temer no Planalto e com quem Maia disputa, além da atenção do centrão, a paternidade da reforma da Previdência. O ex-senador Jorge Bornhausen e o deputado Heráclito Fortes (PSB-PI) também participaram da reunião.

Ainda que a mesma pauta econômica e reformista seja defendida por Meirelles, Maia tem algumas cartas na manga. Uma delas é a juventude, já que ele tem 47 anos, contra os 72 de Meirelles. A equipe do parlamentar apostará nessa vantagem para conseguir os votos de eleitores mais novos — 36% do eleitorado brasileiro é formado por pessoas de 16 a 34 anos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Outra vantagem é o bom trânsito no Congresso, tendo feito uma presidência considerada de sucesso na Câmara. Pessoas próximas ao parlamentar também apontam como positivo o fato de o presidente Michel Temer ter sinalizado preferir Meirelles na Fazenda do que no Planalto, embora ele tenda a apoiar governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), como sucessor.

Na quarta-feira, Maia se encontrou com os presidentes do PP, Ciro Nogueira (PI), e do Solidariedade, Paulinho da Força (SP), que se mostraram inclinados a apoiá-lo na disputa presidencial. Paulinho, que é presidente da Força Sindical, se opõe à candidatura de Meirelles, que é o principal concorrente de Maia. Além dos parlamentares, dois ministros do governo Michel Temer participaram do encontro: Alexandre Baldy, das Cidades, e Mendonça Filho, da Educação. No mesmo dia, o deputado esteve em um evento em Vitória (ES) e aproveitou para discutir os rumos da eleição com o governador baiano ACM Neto, que será presidente do DEM a partir de fevereiro, e com o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung (MDB), um dos nomes cogitados para integrar a chapa como vice.

Previdência

Maia juntou o útil ao agradável ao unir as agendas da campanha e da principal pauta política atual, que é a reforma da Previdência. A estratégia dele para conseguir os pelo menos 40 votos que faltam para pautar a matéria com sucesso tem sido viajar o país, encontrar os governadores e convencê-los da necessidade de se atualizar as regras de aposentadoria e pensão ainda este ano. “Vamos tentar construir a participação dos governadores neste debate”, disse Maia, em uma rede social. Nessas viagens, ele aproveita para discutir os rumos das eleições.

Ao buscar votos, mesmo não tendo a obrigação operacional de fazer isso, o presidente da Câmara “sinaliza engajamento para o governo, para os aliados, mas também para o mercado financeiro”, explicou o analista político Leandro Gabati, diretor da Dominium Relações Governamentais. Após a agência de classificação de risco Standard and Poor’s ter rebaixado, ontem, a nota de crédito do Brasil de BB para BB-, essa sinalização é importante tanto no convencimento dos parlamentares quanto para encorpar o discurso eleitoral. Sem reforma da Previdência, o país pode voltar a ser rebaixado —- assim como a candidatura de Maia e Meirelles.

 

Fonte: BBC Brasil/Site Medium/Correio Braziliens/Municipios Baianos

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