13/01/2018

Bolsonaro prova do gosto amargo do patrulhamento

 

Uma vizinha de Jair Bolsonaro (PSC-RJ) seria uma funcionária fantasma do político na Câmara dos Deputados. É o que diz uma reportagem publicada pela “Folha de S. Paulo” na noite de quinta-feira (11).

De acordo com o jornal, Walderice Santos da Conceição, de 49 anos, consta como funcionária do gabinete parlamentar de Bolsonaro, em Brasília, recebendo salário bruto de R$ 1.351,46. No entanto, ela trabalha em um comércio de açaí na Vila Histórica de Mambucaba, que fica a 50 km do centro de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Ao que parece, uma modesta “ajuda de custo” a uma prestadora de serviços domésticos que tem uma portinha onde vende açaí em Mambucaba, distrito de Angra dos Reis onde o “mito” tem casa de veraneio. O marido, “encostado no INSS”, presta pequenos serviços ao “mito”, também, de “olhar” a casa – nada luxuosa, aliás –  como caseiro, no que o próprio deputado descreve como “dar comida aos cachorros”.

Bolsonaro se segura numa versão – destas de rir – de que ela é sua “correspondente” na pequena vila, de onde “reporta” problemas ao gabinete mítico.

Maracutaiazinha mais que comum entre os deputados, a de pagar empregados domésticos com cargos “mixurucas” na Câmara, o arranjo só é notícia porque gente como Jair Bolsonaro criou o “patrulhismo” 24 horas.

É claro que a “Wal do Açaí” não é, nem de longe, um símbolo das mazelas da política no Brasil. Vai, coitada, perder a “boquinha” de R$ 1.300 que têm na Câmara, e ser sacrificada para manter o mito do “mito”. Mas presta o serviço de mostrar de que matéria são feitos os moralistas da política brasileira, todos com os seus pezinhos enlameados.

O “mito”, afinal, é só um mito.

PORTAS FECHADAS

A “Folha” relatou na matéria que enviou jornalistas à Mambucaba nesta quinta-feira (11) para apurar o caso, mas as portas do estabelecimento “Wal Açai” foram fechadas às pressas “assim que se espalhou a informação sobre a presença de repórteres na região”.

A reportagem, entretanto, afirma ter encontrado Walderice sainda da casa do deputado, porém, ela pediu um “minutinho” e voltou para a residência. Um outro vizinho apareceu e convidou os jornalistas para uma entrevista com Bolsonaro.

O deputado negou que Walderice seja uma funcionária fantasma. “Ela reporta a mim ou ao meu chefe de gabinete qualquer problema na região”, explicou. “Não tem uma vida constante nisso. É o tempo todo na rua? Não. Ela lê jornais, acompanha o que acontece”, completou.

MUDANÇA DE CARGOS

Segundo a “Folha”, Walderice passou por uma “intensa mudança de cargos no gabinete” em 15 anos. “Em 2011 e 2012 ela alcançou alguns dos melhores cargos chegando ao topo no segundo semestre de 2012. A função, com salário que pode chegar a R$ 14,3 mil, é normalmente reservada a chefes de gabinete”, diz a matéria.

Perguntado sobre qual seria o trabalho desempenhado por ela, Bolsonaro respondeu: “Ela reporta a mim ou ao meu chefe de gabinete qualquer problema na região”. E acrescentou: “Não tem uma vida constante nisso. É o tempo todo na rua? Não. Ela lê jornais, acompanha o que acontece”. A reportagem pediu ao presidenciável algum exemplo de serviços parlamentares prestados pela funcionária. “Peraí, ela fala com o chefe de gabinete”, se limitou a dizer. “Como é que eu vou saber? Se eu mantiver um contato diário com meus 15 funcionários, eu não trabalho”.

Em entrevista, Bolsonaro diz que usou auxílio-moradia para 'comer gente'

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC/RJ), pré-candidato à Presidência da República, defendeu nessa quinta-feira o uso do auxílio-moradia de R$ 4.253,00 pago aos parlamentares além dos R$ 33.763 de salário. O presidenciável, que recebe a verba mesmo tendo imóvel próprio em Brasília, afirmou que, como era solteiro, usou o dinheiro para “comer gente”.

Em entrevista a repórteres da Folha de São Paulo na frente de sua casa em Angra dos Reis, onde foi pego de surpresa, Bolsonaro afirmou que pretende vender seu apartamento em Brasília para usar um apartamento da Câmara dos Deputados e, com isso, deixar de usar o auxílio. “Inclusive tem mais ou menos 60 m² o meu apartamento e vou passar para um de 200 m². Espero que pegue com hidromassagem, ok? Eu vou morar numa mansão, não vou pagar segurança, não vou pagar IPTU, no meu eu pago”, disse.

Ao ser confrontado, o pré-candidato negou ter usado verba do auxílio para financiar um de seus apartamentos. “Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio-moradia eu usava para comer gente. Tá satisfeita agora ou não?”, respondeu. Bolsonaro disse ainda que aquela era a resposta que a repórter merecia e perguntou se ela queria que ele prestasse “continha”.

Bolsonaro está entre os deputados que recebem o auxílio-moradia em espécie, sem precisar apresentar recibos. Por isso, é descontado o imposto de renda do recurso. O deputado disse que receber a verba tendo imóvel é um direito, já que não há disposição em contrário.

obre a divulgação do crescimento do seu patrimônio, Bolsonaro reclamou o fato de os bens dos filhos também terem sido informados e disse que daqui a pouco vão querer falar da mãe dele. “Se meu filho assaltar um banco ou ganhar na Mega Sena agora, é problema dele, não é meu”, afirmou.

Bolsonaro também disse que quando falou em sonegar impostos em entrevista em 1999 fazia apenas um “desabafo”. “Falei sonego tudo o que é possível. Como posso sonegar o ICMS, por exemplo?”, questionou.

Nessa quinta-feira (12/1), Bolsonaro divulgou um vídeo no Facebook mostrando sua casa de Angra dos Reis, que segundo ele não era uma mansão e por isso seria mostrada pela imprensa.

O “mito” solta os cascos

Jair Bolsonaro bem que tentou se vestir num figurino neoliberal, aceitável ao mercado. Arranjou uns economistas algo aloprados para lhe darem aulas. Mas não deu certo.

A besta-fera, o cafajeste que o habita foram mais fortes. Na primeira “pegadinha” da imprensa, com seus imóveis e auxílios-moradia, perdeu as estribeiras.

Claro que todo mundo está sujeito a isso, mas Bolsonaro dá coices compulsivamente, a toda hora.

E sexo, aliás, não sai da sua cabeça, sempre com alto teor romântico: estupro, “comer gente”, etc. A máquina de moer da mídia começou a cuidar dele.

E ele já soltou os cascos, como se vê na ilustração, em cima da repórter da Folha. Até para a estupidez há limites.

Líder do PT diz que, por “falta de conteúdo”, Bolsonaro não vai ao segundo turno

Novo líder da bancada do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS) avalia que o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) não terá fôlego eleitoral para chegar ao segundo turno da eleição presidencial e disse que o principal adversário do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não surgiu. Pimenta afirmou que Bolsonaro não é eleitoralmente “auto suficiente”. “Ele tende a desidratar à medida em que ele seja chamado a falar”, concluiu o petista.

Para o deputado gaúcho, quanto mais Bolsonaro for instado a opinar na campanha eleitoral sobre os temas que vieram ao debate, “mais vai se complicar”. De malas prontas para o PSL, Bolsonaro terá poucos recursos do partido para investir em sua campanha eleitoral. Os petistas contam com a falta de estrutura partidária, a baixa capilaridade de Bolsonaro junto aos movimentos sociais e acreditam que a suposta “falta de conteúdo” do deputado fluminense falarão mais alto ao eleitorado.

Na avaliação de Pimenta, o candidato capaz de se contrapor a Lula ainda não se consolidou e os partidos que fazem oposição ao PT ainda “testam” seus nomes. O novo líder do PT na Câmara lembra que inicialmente o candidato mais forte era o tucano Aécio Neves (MG), mas após virar foco da Operação Lava Jato abriu espaço para nomes como o prefeito de São Paulo, João Dória Jr. (PSDB), cuja pré-candidatura não decolou, e agora o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

NOME NA URNA

Como os tucanos não têm empolgado os partidos de centro, outros possíveis presidenciáveis estão sendo apresentados ao eleitorado, como o apresentador Luciano Huck (sem partido), o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), e mais recentemente o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “O adversário de Lula ainda não está definido”, comentou o petista. O PT avalia que o nome de Lula estará na urna eletrônica mesmo se sua candidatura ao Planalto for impugnada. A estratégia consiste em levar a campanha do ex-presidente até o último recurso judicial, se necessário no Supremo Tribunal Federal (STF).

Mesmo se o registro da candidatura for indeferido, Lula recorrerá ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, por fim, ao Supremo. Advogados constitucionalistas e especialistas em Direito Eleitoral consultados pela cúpula do PT asseguraram que, com essa tática, até a eleição de outubro ainda não haverá decisão final da Justiça sobre a possibilidade de o ex-presidente concorrer.

“Impugnado ou não, Lula estará na urna”, disse o líder do PT na Câmara. O comando petista recebeu informações de que, na disputa de 2016, 145 candidatos foram eleitos prefeitos, mesmo sob impugnação. “Com ele eleito, ninguém vai lhe tirar o cargo. A pressão internacional será fortíssima”, afirmou.

Nem censura moral, nem dirigismo cultural. Por Frederico de Almeida

Anunciado esta semana, o acordo celebrado pelo Ministério Público Federal e pelo banco Santander encerrou a intervenção da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão na polêmica do cancelamento da exposição Queermuseu, patrocinada pelo banco em seu centro cultural em Porto Alegre. A emenda ficou pior do que o soneto.

A exposição foi encerrada abruptamente pelo banco, em setembro do ano passado, após a ação do Movimento Brasil Livre (MBL) que denunciava o conteúdo da mostra – voltada para a temática da diversidade sexual – como sendo depravado, apologista da pedofilia e da zoofilia, e ofensivo a religiões. Além de gerar um intenso debate público sobre liberdade de expressão, moralidades e censura, a decisão do banco levou a uma intervenção do MPF, que resultou no recente acordo.

Segundo o combinado entre Santander e MPF, o centro cultural do banco deverá realizar uma série de exposições, no prazo de 120 dias, sobre temas como gênero e sexualidade, diversidade racial, cultural e sexual, e liberdade de expressão. Além disso, o banco está obrigado a adotar medidas de indicação de conteúdos das obras de acordo com uma classificação indicativa por idade. A multa para o descumprimento das cláusulas do acordo é de R$ 800 mil.

Resumo da ópera: saímos de uma situação de patrulhamento moral e censura da expressão artística para um dirigismo estatal da atividade de curadoria realizado por um órgão público não eleito e sem controle social efetivo.

É evidente que há um sentido pedagógico aparentemente positivo no resultado final da intervenção do MPF sobre o assunto, já que se garante a possibilidade de novas exposições com conteúdo que valorize a diversidade e a liberdade de expressão. Mas a que custo chegamos a esse resultado? E mais:o quanto ainda pode ser considerada positiva e eficaz uma ação pela diversidade feita dessa maneira pouco transparente?

Parece-me razoável que em um acordo como esse o banco se comprometesse a adotar medidas de educação para a diversidade e a liberdade de expressão, mas que não precisassem ser necessariamente exposições culturais. Da mesma forma como é inaceitável que moralistas conservadores (e o poder privado do banco, sensível economicamente àquele moralismo) determinem unilateralmente o encerramento de uma exposição de arte, também me parece pouco adequado que um órgão de funções judiciais sem qualquer vocação específica ou mandato para a elaboração de políticas culturais determine calendário e temática de exposições de um centro cultural.

Confio tanto nas habilidades curatoriais do MPF quanto nas do MBL.

Os reais problemas levantados pelo episódio são outros. Em primeiro lugar, a falta de políticas culturais que valorizem espaços públicos e diversidade de conteúdo e formas de expressão, reduzindo a centralidade do mecenato privado na oferta de bens culturais no Brasil. É inegável que foi o patrocínio privado que propiciou muitas das melhores atividades culturais nos grandes centros urbanos nas últimas décadas, e podemos definir um espaço para ele em uma política cultural num país diverso e grande como o Brasil; mas foi justamente o caráter capitalista desse mecenato que fez com que o Santander censurasse a exposição, sensível aos possíveis impactos da repercussão negativa sobre sua marca e sua clientela.

Além disso, as medidas acordadas pelo banco não reparam a situação ocorrida em setembro. Como bem criticou o curador da exposição Queermuseu, o centro cultural do banco simplesmente se obrigou, nesse acordo, a continuar fazendo o que faz ou deveria fazer. Não há qualquer medida de reparação em relação ao curador, aos artistas ou ao público daquela exposição específica – a melhor saída, na minha opinião, seria a obrigação do banco em retomar a exposição por prazo igual ou maior do que o da mostra original.

Precisamos lembrar também que o banco Santander teve lucro líquido de R$ 2,33 bilhões no segundo trimestre de 2017, o que torna tanto as obrigações curatoriais quanto a multa estabelecidas no acordo irrisórias.

Também não há nenhuma responsabilização dos patrulheiros morais que forçaram o cancelamento da exposição. Nem punição, nem advertência, nem educação, apesar de todos serem facilmente identificáveis pelas suas manifestações públicas na internet.

Por fim, voltamos ao papel do MPF nessa história toda. Além de suas questionáveis expertise e legitimidade para a elaboração de políticas culturais, é preciso lembrar que os acordos feitos pelo MPF extrajudicialmente não estão submetidos a nenhum controle externo, judicial ou social, o que dificulta avaliar não só a pertinência das medidas acordadas, como os efetivos graus de coação e consenso que orientaram a elaboração do acordo.

Tenho dito que o protagonismo judicial que viabilizou o golpe e tem viabilizado diversos retrocessos políticos e sociais não é diferente daquele protagonismo das instituições de justiça a favor da cidadania e dos direitos que muitos de nós, progressistas, aplaudimos na sequência da Constituição de 1988.

O MP e os instrumentos judiciais e administrativos que ele mobiliza para obrigar mecenas privados a cumprirem determinados calendários e temas de exposições são os mesmos utilizados para patrulhar o pensamento crítico nas universidades públicas, para se ocupar das cores das ciclovias em São Paulo, para (não) realizar o controle externo das polícias e para promover cruzadas morais contra a corrupção e a política representativa.

Creio que já temos exemplos suficientes para perceber que a construção de uma sociedade mais justa, plural e democrática não pode ficar a cargo de instituições elitizadas, voluntaristas e pouco submetidas a controles sociais democráticos.

 

Fonte: Tijolaço/Correio Braziliense/O Tempo/Agencia Estado/Justificando/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!