13/01/2018

O Brasil e os seus sete pecados capitais

 

Se há uma disposição de ânimo que vem movendo esta inclinação conservadora que hoje impera mundo afora, é a do ressentimento. Este encontra o seu correlato na hipocrisia que domina o estilo dos políticos que tentam se afinar com ele. Foi o ressentimento dos que se julgam prejudicados pela “invasão” dos “alienígenas” que instruiu boa parte da votação vitoriosa no Brexit, no Reino Unido. Foi ele que insuflou a votação em Trump, por parte da classe média baixa e branca, nos EUA. Foi ele que motivou os coxinhas a irem para a rua contra Dilma Rousseff a partir de 2013. Hipocrisia é o estilo de Trump; de Temer et caterva; ou dá para acreditar na “sinceridade” do presidente penteado à Glostora quando diz que tudo vai bem no país, idem em Meirelles, Padilha, Cristina Brasil, etc., etc., e ponhamos etc. nisto. Dá pra acreditar na sinceridade de jornalões que promovem o Huck, ou colocam a foto das caixas de dinheiro do Geddel embaixo de uma manchete que fala do Lula e da Dilma, por exemplo? Acredite se for pandorga.

Mas além desta dupla quase musical, Ressentimento & Hipocrisia, há outros sentimentos movendo os moinhos de hoje. E são ligados, descobri, aos antigos Sete Pecados Capitais da tradição cristã. Senão, vejamos:

  1. A Ira, o Ódio.

É evidente que grande parte dos coxinhas de 2013, 14, 15 e 16, hoje com o rabo e as panelas entre as pernas, foram movidos pelo ódio aos pobres, e o ódio às políticas que favoreciam os despossuídos, bem como a diminuição das aberrantes diferenças sociais que caracterizam o Brasil e a América Latina como um todo, da qual fazemos parte. Certas frases ficaram gravadas para a posteridade: “Aeroporto é para rico”; “Por que tenho de pagar saleiro mínimo para a empregada?”. Além disto, há o permanente ódio a Lula, assim como houve o ódio a Vargas – não por ser este autoritário, mas por se arvorar a “Pai dos Pobres” – e a João Goulart – não pela inépcia, mas pelas reformas de base.

  1. A Inveja.

O ódio é irmão da Inveja. Aquela que quer o que é de outrem. Os pobres foram beneficiados demais nos últimos anos. Então vamos tomar deles o que “por direito de nascença” é “nosso”. É o pecado que confunde “direito” com “privilégio” e status com “casta”. Qualquer direito conquistado por “outrem” é uma ameaça ao “meu”, ou seja, o “meu privilégio de ter direitos”. A inveja se dirige assim contra, em geral, “minorias”: mulheres (que não são “minoria”), negros (idem), homossexuais, lésbicas, índios… é o complemento ideal para o ressentimento. E é claro que há uma enorme inveja em relação ao Lula, este “pobre” que “chegou onde não deveria chegar” e é amado pelas multidões. Com Cristo não foi diferente, na legenda dos Evangelhos. A Inveja é a melhor criadora de mártires que há.

  1. A Gula.

É só ver a sofreguidão com que Temer e seus asseclas, PSDBês inclusos, se atiraram sobre tudo, as verbas públicas, o pré-sal, a Petrobras, os direitos trabalhistas, etc. Perderam completamente a vergonha diante do botim que tinham pela frente, e animados pela proteção da mídia e do Judiciário.

      IV.   A Avareza.

Este pecado complementa a Gula. Não querem abrir mão de nada: cargos, pacotes e caixotes de dinheiro em casa, fundos em paraísos fiscais, a exclusividade por parte dos coxinhas de fazerem compras nos supermercados de Miami, enfim… Toda esta exposição de mau gosto que caracteriza boa parte das “élites” brasileiras…

  1. A Luxúria.

Erram os que pensam que este pecado se refere apenas ao sexo. Ele se refere na verdade, ao império destravado dos “baixos instintos”. Convenhamos: instinto que é instinto não é baixo nem alto, ele simplesmente é. Como a busca da comida diante da fome. Mas há um “baixo instinto”: aquele que se compraz na dor alheia. Esta chusma que tomou conta do governo brasileiro e arredores prima pela maldade. São maus e más. No dizer do profeta Isaias, não se comovem com o pranto da viúva nem do órfão. Ao contrário, a começar pelos seus arautos na mídia, que promoveram o golpe e o ódio às esquerdas e ao povo, se comprazem na função de promover a desgraça e o desacorçoo do país.

  1. A Preguiça.

Ah, este pecado é muito complicado. Porque existe uma preguiça que é boa. A de Macunaíma, por exemplo (ai! que preguiça!), que faz tudo errado por causa dela mas no fim dá tudo certo, ate sua morte porque vira estrela. Ou como o ócio para os filósofos gregos. Na linguagem destes ócio era “skhole”, de onde veio a palavra latina “schola”, que derivou no português “escola”, no espanhol “escuela” e no inglês “scholar”, que quer dizer “erudito”. Ou seja, o ócio era fundamental para se aprender algo através do diálogo. Mas há um significado pernicioso da preguiça, que envolve o desprezo pelos outros. É o que faz com que as pessoas não queiram fazer direito o seu trabalho, ou dever. Exemplo: um procurador vai à TV e exibe um power point canhestro, ridículo, mal feito nas coxas, querendo com isto atacar o ex-presidente que é seu alvo, achando que está abafando a banca. Ou uma penca de juízes, se apoiando em doutrinas mal lidas e mal digeridas, dispensando a laboriosa busca de provas nos inquéritos, condenando e prendendo em nome apenas das próprias “convicções”. Aqui retornamos ao tema da hipocrisia. Frase atribuída a Goebbles diz que se deve repetir uma mentira tantas vezes até que vire verdade; isto é de fato verdadeiro, pelo menos em relação a quem repete a mentira.

  1. Finalmente, a Soberba.

Este é a mãe, o pai, o tio, a vó de todos os outros pecados. São os juízes, os procuradores, os jornalistas, os policiais, os curas que renegam a virtude da caridade, os políticos que se entregam à cupidez da própria Gula, da Inveja, da Luxúria, que se julgam “melhores do que os outros”. Daí vem o juiz que dispensa as provas: por que ele as precisaria, se é um “enviado”, ele mesmo um “messias”, alguém que se dá o direito de aconselhar – com a esposa de quebra – em quem se deva votar e em quem não, não como um arrazoado, mas como uma manifestação de “autoridade”. Daí vem o bando de procuradores que tiram uma foto como se fossem os Intocáveis de Eliot Ness, a “Liga da Justiça” dos super-heróis de araque, quando são na verdade apenas “os intragáveis”. E assim por diante…

Enfim, pecados há de sobra. Deste da Soberba não escapam nem mesmo figuras da extrema-esquerda (não são todas, óbvio) que manifestam seu ressentimento porque Lula não fez a revolução que elas queriam que fosse feita, um estranho caso de narcisismo…

O caminho da convulsão social. Por Eugênio José Guilherme de Aragão

A inocência política subiu no telhado. Em 2017, o golpe parlamentar-judicial-midiático manifestou-se com toda sua perversidade: venda do País, manobras para inviabilizar a responsabilização de atores políticos, extinção de direitos e desvio sistemático de recursos públicos para a compra de bancadas inteiras para aprovação de sórdidos projetos de lei e para bloqueio do recebimento de denúncias criminais contra o traidor Michel Temer.

Para piorar o quadro de deterioração da estatalidade, o Judiciário perdeu a vergonha de escancarar sua seletividade política. Condenou Lula sem provas, calcado em meras suposições partidariamente inspiradas e anunciou aos quatro ventos que a apelação teria rito processual sumaríssimo para reexame da sentença condenatória, já qualificada pelo presidente do tribunal como “irretocável”, mesmo sem tê-la lido. Procuradores tagarelas tornaram pública sua expectativa de ver Lula preso.

O desespero dos que promoveram o golpe em 2016 é indisfarçável. Passa-se o tempo e a cada dia ficam mais claras as imorais intenções dos que apearam Dilma Rousseff da Presidência. Com o desmascaramento dos golpistas, a tendência do eleitorado de votar maciçamente em Lula nas eleições presidenciais vindouras cresce de pesquisa em pesquisa. E a direita, travestida de centro que não é, não consegue apresentar um único nome minimamente viável e aceitável para o establishment para fazer o contraponto ao preferido perseguido.

É nesse cenário que se descortina 2018. A pressa de tornar Lula inelegível é enorme. O tribunal que apreciará sua apelação da sentença do juiz partidário marcou o julgamento para dia 24 de janeiro. Diante da elevada probabilidade de se querer, no TRF, confirmar a condenação, a sociedade se mobiliza. Porto Alegre vai virar o primeiro palco de enfrentamento do golpe, num ambiente claramente hostil.

O ano político será intenso. De um lado, forças democráticas tentarão consolidar seu avanço sobre o eleitorado, incluindo muitos que foram iludidos com a propaganda de ódio contra os governos populares e, hoje, conscientes do engodo de que foram vítimas, se juntam aos que nunca aceitaram o golpe. Do lado oposto, os protagonistas do fraudulento impeachment tentarão criar fatos consumados e, na agenda imediata do entreguismo, estão o desmonte da Previdência Social, a privatização da Eletrobras e a incorporação agressiva da Embraer à Boeing.

Com o reajuste do salário mínimo abaixo do índice previsto no Orçamento da União, abre-se nova frente contra os direitos dos trabalhadores. No entanto, em 2018 a massa assalariada vai conhecer a prática dos estragos sobre seus direitos, com demissões dos celetistas estáveis, para serem trocados por contratados temporários, sem direito a férias, sem 13° salário, sem licença de gravidez, sem FGTS, sem aviso prévio, sem seguro-desemprego e com precarização previdenciária.

Perceberá que não terá escolha: ou se submete ao novo regime desprovido de direitos ou ficará desempregada. Trata-se da formalização do subemprego, a se espalhar rapidamente no mercado, sem amparo sindical.

A indecente campanha publicitária governamental, prevista a custar dezenas de milhões de reais para os contribuintes, vai tentar convencer que tudo ficou melhor e que o desmonte da Previdência favorecerá os trabalhadores. Jogará com a mentirosa culpabilização dos servidores públicos, apontados como os causadores do suposto déficit insustentável da seguridade social. Chamá-los-á de privilegiados, mas não mexerá um dedo nos privilégios de juízes, promotores, delegados, auditores e advogados públicos.

Ao se aumentar a massa dos que pretendem votar em Lula, o roteiro dos golpistas tende a nos aproximar criticamente da convulsão social. Mesmo com a mídia trabalhando diuturnamente para iludir a chamada “opinião pública”, será inevitável sentir-se na própria pele o colapso da qualidade de vida de milhões de brasileiros. E isso será água no moinho da candidatura democrática.

A resposta dos golpistas à disseminação da insatisfação e ao crescimento do eleitorado pró-Lula vai ser policial e judicial, com maior criminalização de movimentos sociais e inviabilização completa da candidatura de Lula. Haverá ataques maciços a seu partido, o PT. A resposta do abismo é mais abismo, até o limite do sustentável pela repressão. Abyssus abyssum invocat.

Mas sempre é bom lembrar duas coisas: uma, como já dizia Lafayette, pode-se fazer muitas coisas com baionetas, menos sentar-se em cima delas; outra, a história é um processo contínuo e sua marcha é inexorável; quanto mais se reprime, mais a resposta será dura. Se não hoje, amanhã ou depois. Por isso, a saída negociada ainda é a que oferece menos riscos e pode desembocar num cenário de transição mais suave. Lula é essa saída. Fechá-la é abrir espaço para o descontrole do processo político, que vitimizará, em primeiro lugar, os repressores e seus instigadores.

O ano de 2018 será inegavelmente um divisor de águas. Ou se conseguirá seguir na restituição da democracia pelo voto livre ou se aprofundará o esgarçamento do tecido institucional, com a tentação de se usarem vias alternativas para desalojar do poder quem dele vem se servindo contra os interesses da maioria das brasileiras e dos brasileiros.

A segunda opção não pode ser descartada se as instituições continuarem a ignorar a vontade política da Nação. E, desta vez, não será a mídia que logrará engambelar as massas para impedir sua marcha pela devolução da dignidade ao Brasil.

Huck, o Trump do Brasil. Por Apolo da Silva

Os desesperados devem tomar enorme cuidado com o entusiasmo envolvendo o nome do apresentador de TV Luciano Huck para a disputa da Presidência em 2018. Apesar do carisma e da popularidade, ele não tem experiência para o cargo e traz uma bagagem complicada. H Sem dúvida, existem fatores a favor de Huck. Primeiro, está a capacidade de se comunicar como se fosse nosso amigo de infância. É das pessoas com maior empatia no Brasil e mesmo no mundo. Em segundo lugar, tornou-se um milionário e uma grande estrela da TV do Brasil. Por último, Huck é popular entre políticos que defendem a economia liberal, tem certa preocupação social, e é muito admirado na maior empresa de comunicação do país. Sua base eleitoral não é calculável e tem espaço ilimitado para crescer num país em que o eleitorado ainda não tem uma parcela relevante de militantes na causa negra. E que a postura da mulher na sociedade ainda é difusa.

O problema, no entanto, é que Huck está longe da perfeição. Primeiro, os jornais ainda não compilaram tópicos que poderão ser usados contra Huck numa campanha. Em segundo lugar, os seus adversários vão passar a eleição dizendo que Luciano Huck não tem experiência para ser presidente do Brasil. Como argumentar, agora, que o defeito de Trump seria uma qualidade de Huck?

Alguns argumentam que Huck não é uma exceção entre celebridades que entraram para a política e citam o nome de Ronald Reagan. A comparação, no entanto, não é totalmente correta. Reagan, quando virou presidente, havia sido governador da Califórnia, maior estado dos EUA, por dois mandatos e tinha disputado primárias presidenciais. Ele não tentou ser presidente diretamente, como fez Trump e faria Huck caso ele decida ser candidato.

Claro, nada impede que Huck se candidate, já tem um partido à disposição (PPS) e seja um excelente presidente. Seria, no entanto, mais seguro e correto para as forças econômicas e políticas buscar um nome de alguém dentro dos partidos — uma pessoa com experiência política, como governador ou senador. Ser administrador público ou legislador não torna a pessoa pior do que alguém que nunca entrou na política. Nada contra um empresário ou celebridade tentar se candidatar, mas o melhor caminho é o de Reagan, não o de Trump. E há ótimos quadros dentro da política brasileira para quem simpatiza com a economia liberal.

Não falo de nomes conhecidos como o do Geraldo Alckmin (SP) e do presidente da República, Michel Temer. Falo de nomes como os dos senadores Antonio Anastasia (MG) e Aloysio Nunes Ferreira (SP), do governador Marconi Perillo (GO), do prefeito de Salvador (BA), ACM Neto, e do presidente da Fiesp, Paulo Skaf. E há mais para serem citados. Vale a pena pesquisar sobre estes e outros nomes. Os republicanos venceram em 2016 com Trump. Parece que agora os democratas podem fazer o mesmo com a apresentadora Oprah. Mas o ideal seria algum político, assim como para os americanos teria sido melhor um ex-governador ou um governador em vez de Trump. Agora é a vez do Brasil definir se quer o seu Trump.á políticos no Brasil bem mais preparados. Se fosse o caso, haveria uma lista para citação.

 

Fonte: Por Flávio Aguiar, no blog da Boitempo/DCM/Os Divergentes/Municipios Baianos

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