14/01/2018

Projeto busca formar nova geração de políticos em favelas do Rio

 

Daqui a 20 anos você se imagina sendo prefeita do Rio de Janeiro? A estudante do terceiro ano do ensino médio Larissa Vieira nunca havia pensado nessa possibilidade quando ouviu essa pergunta. O sonho da adolescente de 17 anos, moradora da favela Vila Kenedy, em Bangu, no Rio, é ser atriz. E ela se esforça para alcançá-lo tendo aulas gratuitas em um espaço na comunidade mantido pela força de vontade de quem frequenta e do professor.

Larissa nunca havia conversado sobre política. Nem entendia bem o que isso significava na prática.

Ela não sabia que "uma pessoa da comunidade podia estar lá (na prefeitura)". E sua percepção sobre políticos era de que "só sabem roubar". Agora, sua visão é de que a realidade pode ser outra. "Eu nem sabia o que eu podia fazer para mudar as coisas, agora tô começando a aprender. Tenho esperança que aqui volte a ser um lugar melhor", diz, fazendo referência à comunidade em que vive.

A adolescente conta ter aprendido um monte sobre política, inclusive que é algo "que se faz no dia a dia, com pequenas ações ou até se engajando", em uma noite de conversa na casa de Carol, uma moradora da sua comunidade que ela nem conhecia. Ela soube no grupo de teatro que haveria por lá um bate-papo sobre problemas da comunidade e outros temas e decidiu ir ver. Agora, a filha de um mecânico e de uma técnica de radiologia de um hospital público se imagina um dia sendo política - e quem sabe comandando a cidade onde vive.

Política em pauta

O encontro informal fazia parte do festival TodoJovemÉRio, um evento que leva para a sala de 40 casas de jovens da periferia, das favelas e do subúrbio do Rio o debate de questões políticas e sociais e tem como um de seus objetivos formar novas lideranças.

O festival, que acontece até 27 de janeiro, é promovido pela Agência de Redes para A Juventude, criadora de uma metodologia que ajuda jovens a desenvolverem suas próprias soluções para as favelas onde vivem - A Rede teve seu método exportado para o Reino Unido, já sendo usado em projetos em Londres e Manchester.

Pela primeira vez desde que foi criada em 2011, a agência decidiu mudar o foco de seu trabalho e falar de política, num momento em que o Brasil vive uma grande polarização e não vê novas lideranças surgindo.

Polarização que Larissa, por exemplo, vê e reprova. Ela já havia ouvido falar sobre direita e esquerda, não fazia ideia de como "definir isso" em termos ideológicos, mas acha "que é muito rótulo". "As pessoas gostam de falar isso para dividir as pessoas. E não serve para nada. Tem que pensar no que o povo precisa, não ficar separando o povo", diz.

Engajamento

Os capacitadores do projeto, a maioria jovens saídos de outros trabalhos da agência, mostram como as pessoas podem participar politicamente da vida em sociedade - ensinam, por exemplo, como contatar a prefeitura para pedir melhorias efetivas para as comunidades (iluminação, conserto de equipamentos) e indicam também como ocupar o espaço público para falar a mais pessoas, seja por meio da arte ou de alguma outra atividade.

Para o produtor cultural, escritor e diretor Marcus Faustini, fundador da Agência de Redes para a Juventude, é preciso antes de tentar fortalecer um único movimento político, voltar a fazer com que a política em si ganhe espaço na sociedade e assim surjam vários movimentos ao mesmo tempo. E, com eles, aumente a diversidade. "Estamos preparando esses jovens para que eles sejam respeitados e escutados no próximo ciclo eleitoral", diz ele, também crescido na periferia, à BBC Brasil.

Até o final do ano ele espera que 200 casas de periferia estejam conectadas com o propósito de debater/fazer política local. "Quisemos que os moradores abrissem suas casas porque as casas também são espaços políticos. É um lugar de subjetividade. No ano passado a casa mais importante do Rio foi a do Caetano Veloso (vários políticos como Marina Silva e Ciro Gomes, entre outros, se reuniram lá para conversas com artistas e intelectuais), na frente da praia. Se a casa dele é importante, por que a da periferia não é? Se os políticos vão a casas de pessoas na zona sul do Rio (região mais rica da cidade), por que não ir às casas da periferia", diz Faustini.

Duas décadas até a eleição

Alguns movimentos surgidos nos últimos anos tentam colocar a política em pauta e buscam lançar dali algum possível novo nome a disputar eleições, é o caso do Agora!, por exemplo, que cogitou lançar o apresentador Luciano Huck à Presidência em 2018. Mas a maioria é formada por pessoas de maior poder aquisitivo, empresários, advogados.

"O debate sobre as futuras lideranças políticas do Brasil não pode ficar restrito à classe média. Se queremos uma renovação, precisamos ir também para a periferia", afirma Faustini.

Para Faustini, pensar em começar a formar lideranças agora para que elas apareçam como possíveis candidatos/as daqui a 20 anos não é um tempo demasiado longo.

"É muito sério o que estamos propondo. Estamos estimulando um desejo para que a periferia queira ter alguém assumindo a Prefeitura do Rio daqui a 20 anos. Isso precisa de uma construção, não é para falar 'eu vou' agora, que vão dizer que é café com leite."

Até lá, ele diz, esses jovens também poderão criar novos partidos, já que nas reuniões do festival há uma falta de identificação total com as siglas existentes.

Como funciona

Segurando uma cartolina que diz "Lideranças Confiáveis, Representante da Favela", Rebecca Vieira, 26, fala para um grupo de jovens, todos em pé, em uma casa na comunidade Batan, dentro de Realengo. "Mandei mensagem no zap (Whatsapp), no inbox (mensagem direta do Facebook), liguei, pertubei a pessoa. E esse tema (escrito no cartaz) foi o que mais apareceu", explica a estudante de publicidade. "O que quer dizer? Muitas vezes a gente não sabe como ter uma conversa com aquela pessoa que é uma liderança na favela, é da associação de moradores". Depois, pede para o grupo dizer quais seriam as vantagens e desvantagens de um candidato a prefeito saído da periferia, como eles.

Entre os pontos positivos, os jovens dizem que um candidato saído dali conheceria de fato quais os problemas da periferia e poderia de fato ajudar a solucioná-los. Também seria alguém que falaria a mesma língua que eles, olharia com mais cuidado para essas áreas. Curiosamente, elegem também como ponto negativo essa procedência da região mais pobre, porque, dizem alguns, sofrerá preconceito e poderá ficar fascinado pelo poder - e pela corrupção.

Rebecca já tinha participado de um projeto de empreendedorismo da Redes para a Juventude e agora ajuda como uma espécie de líder do festival TodoJoveméRio. Ela, além de conduzir toda a dinâmica, ajuda a selecionar as casas que abrigarão os debates e chama as pessoas da comunidade. A estudante diz que foi "ousada" a criação do festival. "Porque vivemos um momento político em que as pessoas se 'reúnem' é nas redes sociais, fazendo textão, reclamando, mas ninguém efetivamente faz nada para mudar."

Do seu grupo de debates, saíram já pessoas que se propuseram a ter diálogo com a associação de moradores para ver o que precisa ser feito na comunidade e também a ideia de ocupar as ruas do Batan com saraus realizados da maneira que der.

A ideia do festival, segundo o idealizador Faustini, é essa: plantar uma semente para que os jovens se tornem atuantes da maneira que der e quiserem em suas comunidades e que não olhem com desprezo para algo importante como a política.

Mudar

O camelô e rapper Bruno Souza, 17, mora na comunidade Costa Barros, perto da Pavuna, no Rio, e sempre desprezou o tema "política" por achar que só tem "ladrão" e que nada vai mudar. Soube por um amigo de um dos debates do festival e decidiu ir "pra ver qual era" e para saber se, de fato, poderia fazer algo para melhorar a vida na sua comunidade.

"Sei que aqui é difícil mudar algo, área de risco, o tráfico atrapalha muito. Não tem pista de skate pra gente dar um rolê, precisa ir até Madureira. Não tem piscina pro banho. A única coisa que tem aqui é tiro", diz.

Ele não se arrisca a pensar que um dia poderá trabalhar em algo relacionado à política, mas acha importante que pessoas da periferia "entrem para esse sistema". "Tem que ser um cara que veio da periferia, não adianta colocar cara lá em cima (na prefeitura) outra pessoa pra mudar algo que não conhece. Tem que ser um cara que tá aqui, que sabe o que passa no dia a dia."

Analisando seus defeitos, Huck é ainda pior do que Bolsonaro.  Por Carlos Fernandes

Do intrincado universo de bizarrices surgidos após o desmantelamento da democracia brasileira, poucas coisas são mais ignomínias do que o que sobrou de seus autores para serem oferecidos como “solução” para o caos criado. É curioso, e de certa forma revelador, que no sofisticado esquema internacional e multi-institucional que se formou para depor uma presidenta legítima e honesta, não tenham tido a menor preocupação de postular alguém com capacidades intelectuais mínimas para dar cabo ao projeto de poder que, por vias democráticas, há quatro eleições consecutivas é simplesmente rejeitado. Michel Temer, o beneficiário primeiro do golpe, é o que tem se mostrado: o mais odiado e incompetente presidente já visto na história republicana desse país.

DEM e PSDB, partidos ícones da antidemocracia e campeões incontestes nos escândalos de corrupção, patinam miseravelmente no mar de lama cujos baluartes como FHC, Aécio, Alckmin e Serra tanto se banharam. Os rameiros do chamado “centrão” e os nanicos que só existem em função do fundo partidário, esses sequer fazem questão de aparecer. Na prática da rapina, há sempre os que preferem a escuridão.

Contabilizada as perdas, o que sobrou da escumalha com alguma chance de pelo menos disputar um segundo turno com Lula, o líder isolado em todas as pesquisas, são justamente os que deveriam representar a escolha derradeira dos desesperados. De um lado, ninguém menos do que Jair Messias Bolsonaro, a síntese acabada da ignorância, da perversão e da intolerância. Civilizações ancestrais teriam náuseas de cogitar alguém com tamanho despreparo para ser o seu líder.

A entrevista que o iluminado concedeu à Folha de São Paulo entrará para a história desse país como uma das mais grotescas demonstrações de incivilidade, estupidez, brutalidade, deselegância e inurbanidade já proferidas por alguém com pretensões a ocupar o cargo maior de uma nação. Não fossem desprovidos da mais limiar noção de decência, seus seguidores estariam acometidos por uma sensação desconcertante bastante parecida com vergonha. Em contrapartida, eis que surgiu direto das instalações Globo, um mercenário que ganha a vida fazendo da pobreza alheia o seu trampolim para a autopromoção.

Com a vantagem descomunal de estar a serviço de uma das maiores máquinas de manipulação e idiotização de massas do mundo, Luciano Huck ainda pode dizer que possui pelo menos o discernimento de não demonstrar em praça pública o mal que provocará caso seja eleito.

Uma personagem mal-acabada como Huck na presidência da República seria uma novela tão desastrosa que faria com que o próprio Aguinaldo Silva conseguisse enxergar alguma relevância na sua produção insignificante. Desastrosa, deixemos claro, para todos aqueles que não pertencem a malfazeja família Marinho. E está aí, nesse ponto, o que torna Luciano Huck um candidato mais danoso para o Brasil do que Jair Bolsonaro.

Bolso é um idiota completo. Um sujeito incapaz de compreender a complexidade do próprio cargo que pleiteia. O coitado simplesmente não possui as condições pessoais mínimas necessárias para ser um Chefe de Estado e tudo o que isso incorre. Ainda mais tolo do que Fernando Collor, não seria problema algum para o establishment se desfazer dele como o imprestável que é.

Já Luciano Huck sabe exatamente o que teria que fazer uma vez na presidência da República: defender caninamente os interesses de seus patrões. Imaginar um país sendo conduzido, sem intermediários, pelos herdeiros de Roberto Marinho, é um destino que esse país jamais deveria se submeter. Luciano Huck precisa ser revelado para além de suas latas velhas e suas morenas a rebolarem seminuas no seu programa.Para a desmoralização última da política, já basta que tenhamos um candidato à presidência que pensa que Manaus está localizado no Nordeste.

Huck, o Trump do Brasil. Por Apolo Silva

Os desesperados devem tomar enorme cuidado com o entusiasmo envolvendo o nome do apresentador de TV Luciano Huck para a disputa da Presidência em 2018. Apesar do carisma e da popularidade, ele não tem experiência para o cargo e traz uma bagagem complicada. Há políticos no Brasil bem mais preparados. Se fosse o caso, haveria uma lista para citação.

Sem dúvida, existem fatores a favor de Huck. Primeiro, está a capacidade de se comunicar como se fosse nosso amigo de infância. É das pessoas com maior empatia no Brasil e mesmo no mundo. Em segundo lugar, tornou-se um milionário e uma grande estrela da TV do Brasil. Por último, Huck é popular entre políticos que defendem a economia liberal, tem certa preocupação social, e é muito admirado na maior empresa de comunicação do país. Sua base eleitoral não é calculável e tem espaço ilimitado para crescer num país em que o eleitorado ainda não tem uma parcela relevante de militantes na causa negra. E que a postura da mulher na sociedade ainda é difusa.

O problema, no entanto, é que Huck está longe da perfeição. Primeiro, os jornais ainda não compilaram tópicos que poderão ser usados contra Huck numa campanha. Em segundo lugar, os seus adversários vão passar a eleição dizendo que Luciano Huck não tem experiência para ser presidente do Brasil. Como argumentar, agora, que o defeito de Trump seria uma qualidade de Huck?

Alguns argumentam que Huck não é uma exceção entre celebridades que entraram para a política e citam o nome de Ronald Reagan. A comparação, no entanto, não é totalmente correta. Reagan, quando virou presidente, havia sido governador da Califórnia, maior estado dos EUA, por dois mandatos e tinha disputado primárias presidenciais. Ele não tentou ser presidente diretamente, como fez Trump e faria Huck caso ele decida ser candidato.

Claro, nada impede que Huck se candidate, já tem um partido à disposição (PPS) e seja um excelente presidente. Seria, no entanto, mais seguro e correto para as forças econômicas e políticas buscar um nome de alguém dentro dos partidos — uma pessoa com experiência política, como governador ou senador. Ser administrador público ou legislador não torna a pessoa pior do que alguém que nunca entrou na política. Nada contra um empresário ou celebridade tentar se candidatar, mas o melhor caminho é o de Reagan, não o de Trump. E há ótimos quadros dentro da política brasileira para quem simpatiza com a economia liberal.

Não falo de nomes conhecidos como o do Geraldo Alckmin (SP) e do presidente da República, Michel Temer. Falo de nomes como os dos senadores Antonio Anastasia (MG) e Aloysio Nunes Ferreira (SP), do governador Marconi Perillo (GO), do prefeito de Salvador (BA), ACM Neto, e do presidente da Fiesp, Paulo Skaf. E há mais para serem citados. Vale a pena pesquisar sobre estes e outros nomes. Os republicanos venceram em 2016 com Trump. Parece que agora os democratas podem fazer o mesmo com a apresentadora Oprah. Mas o ideal seria algum político, assim como para os americanos teria sido melhor um ex-governador ou um governador em vez de Trump. Agora é a vez do Brasil definir se quer o seu Trump.

Para dar espaço a um nome de “centro”, Bolsonaro é demolido pela mesma mídia que o criou. Por Kiko Nogueira

Jair Bolsonaro está sendo destruído pela mesma mídia sem a qual ele não existiria. Nem Sheherazade o quer mais. Há dias a Folha de S.Paulo, depois que a Globo iniciou o serviço, se dedica a esmiuçar os hábitos corruptos do candidato da extrema direita. A devassa demorou a ser feita, dado que Bolso está na Câmara dos Deputados há 27 anos, mas antes tarde do que mais tarde.

Além dos filhos na carreira do pai — um deles, Flávio, fenômeno do mercado imobiliário no RJ —, ele empregou ex e atual mulher, tem funcionária fantasma, usa auxílio moradia (“pra comer gente”, admite) etc. Não vai perder um único voto, já que seus seguidores analfabetos funcionais o amam por motivos outros. Basicamente, seu jeitinho fascista de ser. Mas não vai ganhar novos.

Finalmente descobrimos que JB é um político como qualquer outro.  Quer dizer, na verdade, alguns são mais iguais que outros. Esse esforço de reportagem, que só se vê quando o assunto é Lula, jamais foi ou será feito para investigar Alckmin, Serra, Doria ou algum outro tucano amigo. Bolsonaro é fruto da polarização e do discurso de ódio cultivado pela imprensa nos últimos anos.

A demonização da esquerda, a papagaiada “anticomunista” nos protestos pelo impeachment, a radicalização débil mental da classe média, o antipetismo mais rasteiro, a obsessão com a Venezuela e o bolivarianismo — tudo isso foi estimulado em TVs, jornais e revistas.

Bolso incorporou esse sentimento e surfou nele sem ser incomodado. Agora precisa ser tirado do caminho para abrir espaço para um nome de “centro”. No momento é o Geraldo. Amanhã pode ser o Huck. E por aí vai. Bolsonaro é o otário que achou que podia comer na mesa deles. Puxou o saco de poderosos, tentou se travestir de liberal, foi atrás de Sergio Moro como uma biebermaníaca. Está descobrindo que nunca passou de um cachorro louco e seu lugar é no canil da Casa Grande.

Fonte: BBC Brasil/DCM/Os Divergentes/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!