14/01/2018

Bestiário jornalístico de 2015 a 2018, no Brasil

 

As opiniões expressadas pelos jornalistas durante o governo Dilma Rousseff mudaram um pouco desde que começou o desgoverno Michel Temer. Por isso resolvi fazer esse bestiário.

  • Governo Dilma Rousseff

Gasolina 2,50: isso é inadmissível, alguma coisa tem que ser feita, o povo não aguenta mais pagar a gasolina mais cara do planeta.

Pedaladas Fiscais: isso é crime de responsabilidade, o motivo para o impedimento existe e a presidenta deve ser afastada do cargo.

Política Externa: o imperialismo canarinho é ridículo, o Brasil não pode se alinhar ao BRICS.

Cotas Raciais: não somos racistas, a política de cotas é uma aberração.

Rombo orçamentário: o país tem que cortar gastos sociais, em razão do rombo orçamentários teremos uma nova década perdida.

Juros: a taxa de juros está muito alta e isso impede os empresários de modernizar suas fábricas.

Juízes: o aumento que eles querem é justo e deve ser concedido, Dilma Rousseff criou um conflito entre os poderes ao vetar o reajuste dos juízes.

Bolsa Família: o PT está comprando os votos dos pobres, isso é um incentivo absurdo à procuração dos pobres e faz mal a economia do Brasil.

Bolsonaro: ele pode ser uma alternativa para barrar um terceiro mandato de Lula.

Lula: ele sabia de tudo e será condenado, a popularidade dele é fruto do populismo.

Planeta Terra: é redonda.

Modernidade: aquilo que não temos com o PT.

Desemprego: a redução do desemprego pressiona os salários para cima e prejudica a economia.

Salário Mínimo: está muito alto, prejudica os empresários e arrebenta com a previdência.

Eduardo Cunha: ele deve iniciar o processo de Impedimento, somos milhões de Cunhas.

Manifestações de rua: não é só pelos 30 centavos.

  • Desgoverno Michel Temer

Gasolina 5,00: os preços estão sendo realinhados, pois o combustível estava sendo subsidiado pelo governo.

Pedaladas Fiscais: o presidente pode fazer ajustes orçamentários, nenhuma irregularidade está sendo cometida.

Política Externa: o alinhamento do Brasil aos EUA é natural, nosso país deveria intervir na Venezuela e na Bolívia.

Cotas Raciais: o fato da maioria dos presidiários e desempregados serem negros e pardos não quer dizer que somos racistas.

Rombo orçamentário: o déficit orçamentário aumentou, mas os bancos estão tendo lucros excepcionais e isso é muito bom para a economia.

Juros: a taxa de juros está elevada, mas isso é culpa da herança maldita do PT.

Juízes: eles tiveram reajuste, mas estão ganhando pouco, o governo deve pagar o auxílio-moradia dos juízes.

Bolsa Família: Japão e Itália estão adotando o programa do bolsa-família e isso fará bem à economia daqueles países.

Bolsonaro: ele não está em condições de ser presidente.

Lula: ele foi condenado e não deve retornar ao poder, a popularidade dele é fruto de uma patologia luso-brasileira (o sebastianismo).

Planeta Terra: tem gente dizendo que a terra é chata.

Modernidade: aquilo que teremos após o fim do governo Temer, mas só se Lula não for eleito.

Desemprego: o aumento do desemprego faz bem para a economia porque acarreta redução de salários.

Salário Mínimo: a redução não prejudica o comércio, mas não vai salvar a previdência.

Eduardo Cunha: ele é um criminoso, está preso e é melhor vocês esquecerem dele (pois só assim ele poderá continuar interferindo no governo Temer).

Manifestações de rua: a passagem está mais cara porque o combustível subiu e o povo deve ficar tranquilo porque a economia vai melhorar.

Os jornalistas brasileiros não apuram fatos. Eles apenas emitem opiniões. O critério utilizado para a construção da notícia não é científico e sim político-partidário e ideológico. Milhares de jornalistas fazem o que é necessário para manter o emprego. Alguns puxam descaradamente o saco do dono da empresa. Há profissionais movidos pelo preconceito de classe ou pelo cinismo, mas também há fanáticos religiosos e racistas despudorados.

Durante o governo Dilma Rousseff a economia do Brasil afundou por causa da crise política amplificada pela imprensa. A situação econômica do país não vai melhorar porque os jornalistas minimizam a imbecilidade da política econômica do desgoverno Temer. Estamos sendo condenados a viver no pior dos mundos. A imprensa fez o país perder a oportunidade de desenvolver sob um governo desenvolvimentista moderadamente nacionalista. E agora apoia um governo que fará o Brasil perder tudo o que tinha de bom e de valioso em troca de uma terra arrasada que garante apenas os lucros dos banqueiros e dos especuladores internacionais.

A reforma que precisamos não é política. O Brasil precisa desesperadamente de uma reforma jornalística. O poder dos donos das empresas de comunicação tem que ser reduzido, a liberdade profissional dos jornalistas deve aumentar. Mas eles devem usar a liberdade jornalística para apurar fatos. Quando se limitarem a emitir opiniões baseadas em critérios político-partidários e ideológicos os jornalistas devem dizer claramente no texto que partido político defendem e que ideologia prestigiaram, caso contrário eles devem ser punidos por um órgão estatal.

O que o brasileiro pensa sobre o viés partidário da imprensa

O brasileiro quer uma mídia imparcial, mas quando comparado aos cidadãos de outras nacionalidades, é um dos povos com maior tolerância ao viés partidário da imprensa, segundo pesquisa realizada pelo Pew Research Center. Apesar das diferenças nos meios de comunicação e estruturas políticas, três quartos dos entrevistados em 38 países concordam que nunca é aceitável para uma organização de notícias favorecer um partido político em detrimento de outro. O Brasil ficou abaixo da média mundial: 60% dos participantes rejeitam o partidarismo da imprensa, um resultado que só é maior do que o registrado no Vietnã (57%), Filipinas (52%), Israel (47%) e Índia (25%).

Mesmo entre os brasileiros com maior nível de escolaridade (ensino médio ou mais), a porcentagem dos que não aceitam o partidarismo (72%) é mais baixa do que a média global (75%). E essa tolerância fica maior entre os entrevistados com menos estudo: 50% rejeitam o viés partidário. A maior rejeição ao viés partidário da mídia foi identificada nos países europeus pesquisados. Espanha (89%), Grécia (88%), Polônia (84%) e Suécia (81%) são os países que apresentam uma oposição mais forte. Apesar de uma rejeição ainda alta, os europeus que censuram menos o partidarismo são os italianos (74%) e os franceses (76%).

Há uma tendência mundial em achar que a imprensa não cobre de maneira equilibrada os temas políticos. Na América Latina, esse aspecto é acentuado: na média, 54% acham que os órgãos de imprensa não reportam diferentes posições sobre as questões políticas do debate público. Na Argentina, 55% acham que a imprensa falha neste ponto. No Brasil, o índice atinge 48%.

Os dados são resultado de uma pesquisa com quase 42.000 pessoas realizada entre fevereiro e maio de 2017 e publicada nesta quinta-feira. No consenso global contra o viés da mídia, há exceções em países como Índia, Israel e Filipinas, onde quatro em cada 10 entrevistados consideram aceitável que um meio de comunicação, às vezes, favoreça um partido político. 27% dos brasileiros também aceitam o partidarismo "as vezes", um percentual superior ao da média mundial de 20%. O trabalho diário da mídia, para leitores e espectadores, também foi abordado pela pesquisa. O estudo  identificou uma satisfação geral em relação ao desempenho da mídia impressa, rádio e televisão –, 73% dos entrevistados consideram que a mídia faz um trabalho bom na cobertura de grandes acontecimentos. Mas o grau de satisfação muda em diferentes regiões pesquisadas, sendo os latinos são os mais críticos em relação a qualidade da cobertura de grandes eventos da imprensa. Para uma parte dos chilenos (43%), argentinos (41%) e colombianos (41%), a mídia não faz uma cobertura adequada.

Há apenas dois países em que a maioria dos entrevistados disseram que a mídia não faz um bom trabalho no quesito acontecimentos: Grécia (57%) e Coreia do Sul (55%). No Brasil, 28% dos entrevistados afirmam que a imprensa não faz uma boa cobertura; 66% afirmam que a imprensa tem uma cobertura boa ou muito boa. Embora sejam moderadas na maioria dos casos, as maiores críticas estão em relação a membros dos governos. Os gregos e os sul-coreanos são os mais críticos: 72% consideram que seus meios de comunicação não informam bem sobre o desempenho do Executivo e seus membros. A avaliação dos holandeses (82%), indonésios (85%) e tanzanianos (89%) nesse aspecto é mais positiva: a grande maioria considera que a imprensa faz seu trabalho “bem” ou "muito bem". Entre os brasileiros, 37% criticam o trabalho de supervisão do Governo, enquanto 57% elogiam.

O estudo também avaliou o tipo de informação que é mais seguida. Mais de duas em cada três pessoas entrevistadas seguem notícias locais ou nacionais, uma proporção menor quando se trata de informações internacionais (com uma média de 57% em todo o mundo). O interesse informativo dos habitantes de outros países em relação aos Estados Unidos, a grande potência mundial, é ainda mais baixo, apenas 48% na média global. A América Latina é a região com menor interesse nos EUA 32%, contra 53% da Ásia, 52% da África e 51% da Europa.

ELEITORES DE TRUMP APOIAM MENSAGEM DO PRESIDENTE CONTRA MÍDIA

A atitude em relação à mídia depende mais da orientação política do leitor do que de outros fatores, como idade, nível educacional ou gênero, de acordo com o estudo do Pew Research Center. Os que se identificam com o partido no Governo estão mais satisfeitos com a mídia do que aqueles que não o apoiam. No Canadá, a diferença entre os dois grupos é de 22 pontos. Somente em dois dos 38 países analisados ocorre o contrário. Em Israel e nos Estados Unidos, os que estão mais insatisfeitos são aqueles que apoiam o partido no poder. Apenas 24% dos republicanos estão satisfeitos com a mídia. Entre os não republicanos, a parcela é mais do que o dobro.

Maioria dos brasileiros vê cobertura política imparcial, aponta pesquisa

Menos de metade dos brasileiros -45%- acredita que a imprensa do país noticia assuntos políticos de maneira justa, enquanto 66% acreditam que a mídia nacional faz um bom trabalho ao relatar acontecimentos importantes.

Quando as notícias envolvem políticos, pouco mais da metade -54%- vê imparcialidade nas reportagens, e 57% acham que os fatos são noticiados com precisão no país.

Os dados são de um estudo do Centro de Pesquisas Pew. O instituto americano entrevistou quase 42 mil pessoas em 38 países na tentativa de medir a percepção pública do desempenho de órgãos de imprensa no mundo.

Nos EUA, os números são parecidos com os brasileiros -só 47% dos entrevistados acreditam que assuntos políticos são relatados com imparcialidade. Os americanos ainda registram a maior diferença entre as impressões dos apoiadores e de opositores do atual governo.

Só 21%, ou pouco mais de um quinto, dos favoráveis a Donald Trump, por exemplo, veem imparcialidade na imprensa americana, enquanto 55% dos que não apoiaram o presidente republicano pensam de maneira semelhante.

Em linhas gerais, o estudo identificou que a percepção do desempenho da mídia nos países pesquisados é mais afetado por preferências partidárias e ideológicas do que pela idade, o gênero ou a escolaridade dos entrevistados.

Levando em consideração as respostas de todos os ouvidos pela pesquisa, a esmagadora maioria -75%- acredita que nunca é aceitável que um órgão de imprensa favoreça um partido em detrimento de outro no noticiário.

Essa oposição é maior na Europa, com índices altíssimos na Espanha, onde 89% se opõem a viés partidário nas notícias, e na Grécia, onde 88% pensam dessa forma.

No Brasil, no entanto, mais de um quarto dos entrevistados -27%- acredita que às vezes é aceitável haver um viés partidário em notícias políticas. A rejeição a um noticiário enviesado é maior entre os brasileiros mais educados -72% dos entrevistados com alto índice de escolaridade se opõem a preferências partidárias em reportagens e só 50% dos demais concordam.

Esse índice supera um terço dos ouvidos pela pesquisa em apenas três países -Israel, com 43%, e Índia e Filipinas, ambos com 41% concordando com o enunciado.

O estudo também identificou que em países onde a população demonstra confiança no atual governo os índices de satisfação com a mídia local tendem a ser mais altos.

Não é o caso do Brasil. Segundo a pesquisa, menos de 20% dos brasileiros pensam que o governo federal faz a coisa certa para o país e menos de metade da população, cerca de 40%, está satisfeita com o desempenho do jornalismo do país de modo geral.

Nem tudo na Internet tem o mesmo valor

No debate sobre a neutralidade da Internet, como em muitos outros nesta época de realidades emocionais, a semântica condicionou argumentos opostos. A decisão da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (CFF, na sigla em inglês) de acabar com as normas que obrigam os provedores a garantir acesso igualitário dos usuários a todo o conteúdo on-line gerou polêmica, pois os defensores dessa neutralidade advertem que isso pode dar margem a uma Internet de duas velocidades – e até mesmo à censura na web. Mas existem nuances que esse termo, “neutralidade”, não reflete de maneira fiel.

Em termos gerais, quem pode se opor à premissa de que a Internet seja neutra? E mais: quem pode defender que qualquer tecnologia, seja ela qual for, não pode ser neutra? Por isso, muitos dos criadores da Internet, as pessoas que pensaram na arquitetura digital que mudou o mundo, como Robert Kahn e David Farber, são contrários ao uso desse termo e se referem a tal princípio como “regulação da Internet”. Considerando os argumentos de críticos e defensores, é uma expressão que reflete de forma mais adequada a natureza desse debate.

Nem todo conteúdo da Internet é igual. A diferença é evidente – como afirmou Nicholas Negroponte, fundador do Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), numa palestra de 2014 onde colocou em dúvida a máxima de que “todos os bits foram criados iguais”. Negroponte deu um exemplo esclarecedor: um livro inteiro, um romance, pesa aproximadamente um mega; por sua vez, somente um segundo de vídeo em streaming já pesa mais do que um mega, e um impulso elétrico de um marca-passo é uma fração desse mesmo mega. É óbvio então que nem todo conteúdo pesa a mesma coisa. E, portanto, não pode ser considerado igual.

Essa afirmação permite também outras reflexões. Do ponto de vista de um jornalista que trabalha num veículo de comunicação generalista, com rígidos processos de verificação das informações, é lógico não considerar que todo conteúdo tenha o mesmo valor. É fato que existem portais que publicam notícias falsas, material plagiado e conteúdos criminosos, ao passo que outros não publicam. Todos eles devem ser tratados do mesmo modo, numa Internet nivelada onde todos valem a mesma coisa? Sou consciente de que essa é uma questão polêmica e que levanta outro dilema, muito maior e para o qual não tenho resposta: quem decide, então, qual conteúdo é lícito e qual não é?

De certo modo, é lógico que as normas da chamada neutralidade na Internet tenham tido uma vida tão curta nos EUA, pois significam conferir ao Estado a capacidade de decidir a forma em que os provedores privados de Internet tratam o conteúdo, num país geneticamente contrário a qualquer tipo de intervenção governamental. Os argumentos expostos pelos membros da CFF, que acabaram com essas regras de neutralidade, concentram-se justamente no respeito ao livre mercado e na importância de reduzir a regulação num setor que sempre se caracterizou pelo dinamismo e a inovação.

Nesse debate, tem sido crucial a atividade em defesa dessas normas por parte das grandes plataformas de conteúdo da web, como Facebook, Google e Netflix. Todas mobilizaram os recursos ao seu alcance para focar o debate em torno do princípio de neutralidade, situando-se como defensores da liberdade de expressão e da transparência, pedindo que todos sejam tratados de maneira igualitária, e que a largura da banda não discrimine seus conteúdos.

Chama a atenção o fato de que tenha sido esse o seu argumento principal, já que praticamente todas essas plataformas discriminam o conteúdo que os usuários publicam nelas por meio de opacos algoritmos que sofrem constantes mutações e que são projetados, em última instância, para maximizar seus benefícios, normalmente gerados através de publicidade. Pedem neutralidade para serviços intrinsecamente opacos e desiguais. No acalorado debate das notícias falsas, foram esses os algoritmos que fizeram com que rumores de todo tipo tenham tido um peso excessivo para cidadãos do mundo inteiro, que deram credibilidade às mentiras dos partidários de Donald Trump e do Brexit [a saída do Reino Unido da União Europeia] e às campanhas de desestabilização russas.

Não há dúvidas de que a Internet deveria ser barata ou gratuita. E que as conexões deveriam ser todas de alta qualidade em todos os lugares do mundo, sem discriminar os usuários e respeitando o direito deles à intimidade. Mas também é certo – fato incontestável – que nem todo conteúdo da Internet pesa nem vale a mesma coisa. E pode ser que, fora dos EUA, em mercados mais afeitos à regulação, como o europeu, decidamos que é necessária uma maior regulação da Internet. Para elaborá-la e aplicá-la corretamente, porém, deveríamos começar chamando as coisas pelo nome. E, neste caso, “regulação” é mais adequado que “neutralidade”.

 

 

Fonte: Por Fábio de Oliveira Ribeiro, GGN/El País/Pagina 3/Municipios Baianos

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