14/01/2018

Michel Temer: A criação de uma candidatura

 

Ao mesmo tempo em que cresce o número de pré-candidatos que se dizem comprometidos com a agenda de reformas e com a continuidade da política econômica do governo, uma tese ganha força no Palácio do Planalto: se é para dar sequência às iniciativas da atual gestão, é melhor não perder tempo com nomes de intermediários e apostar logo na reeleição do próprio Michel Temer. O tema é tratado evidentemente com reservas. Mas as articulações correm numa raia paralela à principal preocupação do governo agora, a aprovação da reforma da Previdência. Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco reconhece que a reeleição não está fora dos planos, mas só será considerada após a votação das mudanças na Previdência, marcada para 19 de fevereiro. Mesmo assim, o marqueteiro Elsinho Mouco já trabalha a imagem do presidente.

O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Márcio Freitas, atesta que o objetivo imediato de Temer é a aprovação da sonhada reforma. Até agora, diz Márcio, o presidente não deu sinais de que pretende se candidatar. Mas, se não fala em continuar no cargo, também não se manifestou em contrário.

Na opinião do experiente cientista político Antônio Lavareda, o governo buscar nomes alternativos ao de Michel Temer contraria a lógica do poder. “Na sucessão de um governo que pretende ter continuidade, o candidato natural é o incumbente”, afirma ele. Ou seja, um governo que insiste em ter candidato à sua sucessão deve investir, em primeiro lugar, na reeleição do presidente. O novo ministro da Secretaria do Governo, Carlos Marun, que não costuma medir palavras, concorda e já defendeu de público a reeleição: “A nossa primeira opção deve ser o presidente Temer. Se ele decidir concorrer é o candidato natural do PMDB”.

“Nossa primeira opção deve ser o presidente Temer. Se ele decidir concorrer, é o candidato natural do PMDB” – Carlos Marun, ministro da Secretaria de Governo

Os gestos recentes de Temer são sintomáticos. No mínimo, mesmo que não seja o candidato, ele se torna o grande motor da própria sucessão. Em outubro, o presidente foi recebido em almoço pelos herdeiros de Roberto Marinho. No domingo 7, Temer se reuniu em São Paulo com o empresário Silvio Santos, e deixou acertadas gravações na TV e no programa do apresentador Ratinho, nas quais fará a defesa de sua administração e da reforma da Previdência. Se aprová-la, poderá pavimentar o seu projeto político. Qualquer que seja ele.

O tempo corre a favor de Temer. O presidente não precisa se desincompatibilizar do cargo em abril. Pode aguardar tranquilamente até as convenções em junho. E, se candidato, fará a campanha no exercício da Presidência. Apesar de toda cautela que cerca a reeleição, estrategistas do governo afirmam que tudo vai depender da reforma da Previdência. Em suas previsões, no caso de aprovação, haverá um cenário risonho para o governo, com inflacão sob controle, juros baixos mais investimentos, mais crescimento e mais empregos. Por conta de adiamento de aposentadoria haverá uma economia de R$ 4 bilhões. Se a reforma ratear, o cenário muda de ponta cabeça. A vitória no Congresso vai aplainar o caminho do candidato governista. E, certamente, poderá dar vida ao projeto de reeleição de Michel Temer, que está na política há mais de 40 anos e não veio a passeio.

  • Os próximos passos de Temer

1- Ganhar prestígio internacional com a sua plataforma de mudanças a ser apresentada em Davos, na Suíça, ao final do mês.

2- Articular apoios empresariais aos seus projetos de reformas

3- Arbitrar os interesses partidários para uma coalizão que siga unida na corrida presidencial em torno de uma única candidatura de centro

4- Conquistar apoio popular, diminuindo as taxas de rejeição nas pesquisas, através de uma intensa divulgação das realizações de seu governo que melhoraram a economia e já apresentam notórios resultados.

Reforma da Previdência: base aliada trabalha no recesso para convencer indecisos

As articulações em torno da reforma da Previdência devem se intensificar nos próximos dias à medida que alguns líderes partidários estão voltando do período de férias e se aproxima a data da votação da matéria no plenário da Câmara. A notícia do rebaixamento da nota de investimento do Brasil reacendeu o debate e deve reforçar os argumentos da equipe favorável à reforma.

Com o recesso do Congresso Nacional até fevereiro, quando está previsto o início do debate da reforma no plenário da Câmara, muitos parlamentares estão se movimentando em seus estados para angariar os votos necessários para aprovar a proposta. A estratégia envolve encontro com governadores, prefeitos e outras autoridades locais com o objetivo de aproximar o debate da reforma das bases eleitorais dos deputados.

Em Brasília, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, tem se reunido desde o início do ano com vários parlamentares para definir as próximas estratégias de articulação em busca dos votos para aprovar a reforma. Responsável pela articulação política do governo, Marun disse à Agência Brasil que a reforma da Previdência “está em todos os diálogos” da agenda da equipe de governo e o clima em torno da reforma tem melhorado e se tornado mais “favorável”.

Por se tratar de uma emenda constitucional, são necessários pelo menos 308 votos favoráveis entre os 513 deputados para ser aprovada, em dois turnos. Desde o fim do ano passado, os principais articuladores da base governista tem evitado comentar o número atual de votos já conquistados em prol das mudanças na Previdência. Segundo líderes governistas, a contabilidade dos votos deve ser fechada com mais precisão no início de fevereiro, quando as lideranças já estarão em contato mais direto com as bancadas.

Grau de investimento

Na visão dos líderes governistas, a redução da nota de crédito do Brasil por uma agência internacional de classificação de risco gerou um “impacto preliminar” na motivação dos parlamentares. “Isso melhora na narrativa para nós que defendemos [a aprovação da reforma”, disse o líder da maioria na Câmara, Lelo Coimbra (PMDB-ES), que completa: “agora é torcer pra gente reunir a tropa, né? Não é tropa de choque, é tropa de convencimento”.

O presidente Rodrigo Maia também acredita que a avaliação negativa do país pode contribuir para convencer os parlamentares. Já para o ministro Marun, a notícia do rebaixamento do grau de investimento do Brasil ajuda na conscientização da sociedade e consequentemente dos parlamentares, mas “a notícia em si não vai trazer votos”.

“A consciência de que nós temos que reformar a Previdência já é consolidada. Claro que eu vejo a notícia do rebaixamento como ruim, porque não deixa de corroborar o que nós estamos afirmando: que o Brasil precisa reformar sua Previdência pra ter a perspectiva de um futuro de menos incerteza e de mínima prosperidade”, disse Marun.

O ministro disse que esta semana ainda não deve ter nenhuma grande reunião em Brasília sobre o assunto, pois ele e outros articuladores, como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estarão fora da capital.

Marun foi convidado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para participar de um evento na terça-feira (16), na capital paulista, para falar sobre a situação macroeconômica do Brasil. O evento é organizado por um grupo de profissionais favoráveis às mudanças na legislação previdenciária e deve contar com a participação de vários líderes governistas.

Rodrigo Maia embarcou neste sábado (13) para os Estados Unidos, onde tem extensa agenda marcada com o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterrez, empresários e parlamentares norte-americanos. Maia viajou com outros quatro deputados e voltará para o Brasil na sexta-feira (19).

Por que Alckmin não decola

No abre-alas do ano eleitoral, o PSDB se depara com um problemão para resolver. Depois de perder quatro eleições em 16 anos, o partido esperava nadar de braçada, ao apresentar um candidato mais identificado com o centro do espectro político para fazer frente aos representantes dos extremos Lula, à esquerda, e Bolsonaro, à direita. Tudo muito bom, tudo muito bem se o nome ungido pela cúpula do partido não fosse o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. O tucano se transformou numa batata quente na mão da legenda. Ninguém sabe como ele vai fazer para conseguir desempacar nas pesquisas – hoje Alckmin encontra-se estacionado nos 6%, bem atrás dos mais bem colocados Lula (34%) e Bolsonaro (27%), e registra a maior rejeição.

O pessimismo invadiu até os poros do PSDB. Sem carisma, o presidenciável encarna o anti-candidato: não tem mostrado habilidade política para celebrar alianças, padece de um discurso consistente para encantar o eleitorado, recorrendo sempre a evasivas e a generalidades, e ao contrário do que prometeu quando assumiu a presidência da legenda, não conseguiu unir o tucanato – hoje mais dividido do que nunca. Tucano histórico e adversário de Alckmin no PSDB, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, é um dos que já jogam a toalha. “Geraldo é um candidato sem pegada, sem posições definidas. No ritmo em que ele vai, o PSDB ficará de fora do segundo turno”, afirmou. A direção do partido, que mais uma vez escolheu o candidato a partir de uma convenção de cúpula, ou seja, de modo vertical, de cima para baixo, não é poupada das críticas: “Olho para eles (a direção do partido) e vejo todos felizes, rumo à quinta derrota seguida. Parece que jogam para perder”, disparou Virgílio. Na mesma linha de Virgílio, o próprio ex-presidente Fernando Henrique está convencido de que, com Alckmin, a candidatura do PSDB não alçará vôos mais altos.

Hoje, ao se vislumbrar o quadro político, o melhor cenário para Alckmin seria que as forças de centro, diante da mais absoluta falta de alternativas, convergissem em torno de seu nome. A questão é que, em política, nada ocorre por gravidade. Daí a dificuldade de Alckmin. O advogado Murillo Aragão, da Arko Advice, aponta outro obstáculo. “Nas três vezes em que o centro precisou do PSDB, seja para proteger o presidente Temer ou para encaminhar a reforma da Previdência, o partido titubeou.

Como então o centro vai aceitar a candidatura do PSDB sem questionar? Esse é o ponto que se coloca hoje”, afirmou. A postura claudicante de Alckmin abriu uma avenida para nomes que correm na mesma raia que ele, como Rodrigo Maia (DEM) e Henrique Meirelles (PSD). Não por acaso, no PSDB, o caldeirão está fervendo. A pressão exercida sobre ele é inversamente proporcional à contagem regressiva do relógio. Ainda mais levando-se em conta que a eleição de outubro será a mais curta da redemocratização. Se Alckmin não emocionar o eleitorado até o fim do primeiro trimestre, nomes com maior potencial de crescimento já se insinuam para substituí-lo: o apresentador Luciano Huck e o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). Huck, inclusive, atraiu os holofotes nesse início do ano ao sugerir em entrevista ao Domingão do Faustão que não estaria fora do jogo. Embora, na quarta-feira 10, ele tenha voltado a negar a candidatura, o frenesi gerado por Huck entre os eleitores mais identificados com o centro do debate político embalou comparações com a popularíssima apresentadora de TV norte-americana, Oprah Winfrey, cotada para concorrer em 2020 à Presidência dos EUA. Na segunda-feira 8, o próprio presidenciável do PSDB disse acreditar que até junho ou julho o cenário dificilmente vai ser alterado de forma consistente.

Riscos

Também joga contra Alckmin o fato de ele representar o velho, enquanto o eleitor busca novos rostos. “O eleitor está cansado de Alckmin, sobretudo porque ele não resolveu a crise de Segurança no Estado, apesar de ser governador por 14 anos”, disse o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV. O tucano encontra dificuldades para decolar também no Paraná e em Santa Catarina, considerado “o Nordeste do PSDB”, regiões onde o senador Álvaro Dias e o deputado Jair Bolsonaro demonstram bom desempenho. O tucano também não vai bem no Rio Grande do Sul, patina no Rio e não encanta no Nordeste.

“Geraldo pensa que é o candidato do centro, mas não é. Há candidatos mais credenciados que ele” – Arthur Virgílio (PSDB), prefeito de Manaus

Os aspectos éticos, flancos que poderiam ser explorados contra o PT na campanha, não deixam de assombrá-lo. Além de estar às voltas com denúncias em obras no Rodoanel e Metrô, Alckmin vem sendo investigado no Superior Tribunal de Justiça, devido à acusação de delatores da Odebrecht de que teria recebido R$ 10 milhões de caixa dois, durante as campanhas eleitorais de 2010 e 2014. Para tentar turbinar a campanha, Alckmin adiantou na última semana o coordenador do seu plano econômico: o economista Pérsio Arida, um dos pais do Real. Mas ninguém no próprio PSDB, à exceção dos aliados mais próximos de Alckmin, acredita que o gesto será suficiente para desencadear uma agenda positiva que se traduza em índices mais robustos de aceitação popular. Se o quadro não mudar e o céu não converter-se a brigadeiro, certamente o PSDB e os partidos da órbita governista ligarão o radar por um nome com turbinas mais potentes.

Autonomia curta

• Alckmin com 6% se mantém muito distante dos líderes Lula 34% e Bolsonaro 17%, e perde até para Marina, com 9%

• Sua rejeição é muito alta, com 27%, só atrás de Lula

• Deveria obter melhor desempenho no seu estado. Lidera a corrida em São Paulo, com 23,7%, segundo o Instituto Paraná Pesquisas, mas só um pouco à frente de Bolsonaro (19,9%) e Lula (19,4%)

• Perde em redutos tradicionais do PSDB, como Paraná e Santa Catarina. Não tem penetração no Rio de Janeiro e muito menos no Nordeste

• Está desgastado depois de 20 anos de PSDB no poder em São Paulo

• É investigado no STJ por ter recebido ilegalmente R$ 10 milhões da Odebrecht para as campanhas de 2010 e 2014.

Para manter o foro privilegiado, senadores preferem a eleição para deputado

Enquanto o Supremo condenou apenas cinco políticos envolvidos na Operação Lava Jato, as instâncias inferiores já mandaram para a cadeia 116 acusados. Esse balanço explica por que vários políticos desistiram de tentar a reeleição no Senado e preferiram se candidatar à Câmara. Eles acreditam que têm mais chance na eleição proporcional do que na disputa majoritária. E, caso eleitos deputados federais, vão manter uma condição essencial para continuarem em liberdade: o foro privilegiado, exatamente a prerrogativa de serem processados pelo STF. Sem o escudo do mandato parlamentar, serão alvo da Justiça Comum. Ali, os processos correm mais rápido.

Com o receio de não conseguir se reeleger para o Senado, os petistas Gleisi Hoffmann (RS), Lindbergh Farias (RJ) e Humberto Costa (PE), além do tucano Aécio Neves (MG) e do peemedebista Renan Calheiros (AL) decidiram disputar um cargo de deputado federal em outubro, abrindo mão de novo mandato na Alta Casa. Sabem que, processados na Lava Jato, teriam muita dificuldade em obter milhões de votos. É mais fácil buscar alguns milhares e garantir a vaga na Câmara.

ASSUSTADÍSSIMOS

Os três petistas estão assustadíssimos com o risco de perderem direito ao foro privilegiado. Eles estão atolados na lama da Lava Jato, mas seus processos correm a passos lentos no STF. Segundo a assessoria do Supremo, apenas Humberto Costa ainda não é acusado.

A investigação está nas mãos da PF, mas deve subir logo para o crivo dos ministros do tribunal. Gleisi, que é também presidente do PT, está prestes a acertar as contas com a Justiça. A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu ao Supremo a condenação da senadora por ter recebido propina de R$ 1 milhão no esquema de corrupção na Petrobrás.

Lindbergh foi denunciado por suspeita de corrupção passiva por ter recebido propina da Odebrecht entre 2008 e 2010.

RENAN ENROLADO

O ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, é alvo de 17 inquéritos abertos com a autorização do STF e sabe que dificilmente repetirá a mesma votação que o elegeu em 2010, quanto obteve 840 mil votos para o Senado. Outro que vai disputar cadeira de deputado federal é o ex-presidente do PSDB, Aécio Neves (MG). De postulante à Presidência da República em 2014, o senador chegou a ser afastado de suas funções após pedir R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista.

A tática, no entanto, pode ter vida curta. O ministro Dias Tóffoli pediu vistas no processo que determina a restrição do foro privilegiado aos crimes de parlamentares relacionados ao exercício do mandato em vigor. Os demais crimes competem à Justiça Comum. Qualquer que seja o voto de Toffoli, a decisão do STF já está tomada por 8 a zero. O privilégio está com os dias contados.

 

Fonte: IstoÉDinheiro/Agencia Brasil/Municipios Baianos

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