16/01/2018

Febre amarela volta a pôr Brasil em estado de alerta

 

O registro de novas mortes decorrentes da infecção pelo vírus da febre amarela em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais assustou a população neste início de ano. Em agosto do ano passado, o Ministério da Saúde havia dado como encerrado o maior surto da doença no país desde 1980.

O número de mortes em São Paulo subiu de 13 para 21 nesta sexta-feira (12/01), ao menos sete delas em 2018. O Rio detectou dois novos casos, um deles com óbito, e Minas Gerais confirmou nove mortes pela doença desde o fim do ano passado.

Cerca de 20 milhões de pessoas deverão ser vacinadas contra a doença a partir de fevereiro em Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo, como forma de evitar a propagação do vírus em lugares que, até então, não possuíam recomendação para a vacinação.

Especialistas ouvidos pela DW Brasil dizem que o aumento de casos no verão já era esperado, pela característica sazonal da doença. Com a elevação da temperatura e dos índices pluviométricos, estão dadas as condições para que os mosquitos transmissores se reproduzam, assim como acontece com a dengue.

Num período em que muitas pessoas das grandes cidades tiram férias e viajam para regiões rurais, o risco de uma transmissão urbana não está descartado por autoridades e pesquisadores. O contágio da doença nas cidades não é observado no país desde 1942.

Coordenador de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Renato Alves diz que o governo trabalha com essa possibilidade somente no campo teórico, sem considerá-la provável.

"Embora, esporadicamente, pessoas que não estão vacinadas se exponham às áreas de mata, como nos casos observados em São Paulo, grande parte do contingente populacional urbano tem uma cobertura vacinal boa, o que oferece uma proteção maior. Além disso, todo o trabalho de controle feito nas doenças transmitidas pelo Aedes aegypti se intensifica no verão. Essas situações nos dão uma segurança muito grande", afirma.

Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), o médico epidemiologista Pedro Luiz Tauil também considera remotas as chances do que chama de "reurbanização" da doença. Entretanto, diz que os casos registrados em São Paulo nas últimas semanas acendem um alerta.

"São casos terríveis, de pessoas que estão vindo para as cidades. Nelas, o vírus pode estar ainda no sangue circulante, entre o início dos sintomas e o terceiro ou quarto dia, quando é transmissível para o [mosquito] Aedes aegypti. O mesmo vale para pessoas das áreas rurais que vêm às zonas urbanas em busca de tratamento médico. Por isso, todos devem estar vacinados", alerta o especialista.

Vacina fracionada ou vacina completa?

Para conter a expansão do vírus, o Ministério da Saúde comunicou, nesta semana, que as vacinas seriam oferecidas à população em doses fracionadas nas regiões onde há alto risco de contaminação da doença. Enquanto a dose padrão leva 0,5 ml de soro e protege o paciente para o resto da vida, esta contém apenas 0,1 ml e seu efeito dura cerca de oito anos.

A medida foi adotada pela primeira vez durante as epidemias de febre amarela na República Democrática do Congo e em Angola, em 2016. Nos dois países, a oferta de doses fracionadas da vacina permitiu a interrupção da epidemia.

O professor da UnB aprova a escolha do Ministério da Saúde. Mas destaca que só deve ser empregado em caráter excepcional e ressalta a importância de a vacinação ser mantida nos períodos em que o vírus não representar ameaças à população.

"O Brasil é o maior produtor de vacina contra a febre amarela no mundo. Mas, mesmo em nível global, não existem vacinas suficientes para atender a toda a população brasileira. Se houver disponibilidade, deve-se dar preferência para a vacina completa, porque a duração do efeito já foi testada. No caso da dose fracionada, esse tempo ainda precisa ser confirmado", explica.

Mantendo a vigilância

Entre dezembro de 2016 e junho de 2017, foram confirmados 777 casos e 261 mortes por febre amarela no país. Foi o surto com o maior número de casos em humanos desde 1980.

Na época, houve muita especulação em torno das possíveis motivações para um repentino aumento do número de infectados pela doença. Chegou a ganhar força a hipótese de que a causa principal fosse o desastre ambiental de Mariana, em Minas Gerais, pelo desequilíbrio ambiental que gerou. Nem esta nem as outras teorias foram comprovadas cientificamente.

Fato é que o nível de vacinação não passava de 60% na região do surto, chegando a menos de 20% em alguns municípios. A recomendação é de 90% para áreas de risco. Para o coordenador do Ministério da Saúde, um conjunto de fatores pode ajudar a explicar o quadro de surto do ano passado.

"Eu destacaria as condições ambientais como o principal, pois favorece tanto a ocorrência do vetor como a dispersão do vírus entre os primatas na região silvestre. Além disso, quando a gente passa por um período longo sem surtos, como o que aconteceu desde 2008, há um fenômeno de relaxamento da população em procurar a vacina. Nosso grande desafio é manter esse alerta".

Detecção antecipada

Na quinta-feira (11/01), foi confirmado que os 86 macacos bugios que habitavam o Horto Florestal, parque da Zona Norte de São Paulo, morreram pela aparição do vírus no local, detectada em outubro do ano passado. Renato Alves explica que não há, hoje, um mecanismo que possibilite evitar a circulação do vírus nos primatas.

"A vigilância no macaco tem o objetivo de antecipar a circulação do vírus e poder vacinar pessoas. Temos trabalhado em conjunto com os órgãos ambientais, que têm os olhos voltados para as populações de primatas. Assim, pretendemos detectar mais precocemente essa ocorrência", diz.

Especializado no aspecto clínico da febre amarela, o pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) André Siqueira reforça a importância de os serviços de saúde estarem estruturados para um diagnóstico mais minucioso dos pacientes nessas condições.

"Deve-se aumentar o índice de suspeição sobre deslocamentos para áreas silvestres e ter uma abordagem mais detalhista na parte ambulatorial, especialmente com relação ao acometimento dos rins e do fígado. Um grande gargalo é a disponibilidade de testes diagnósticos rápidos. Ainda não temos uma disponibilidade boa, o que limita a rapidez do tratamento", conta.

Surto de febre amarela é tragédia anunciada, diz historiador

Há mais de cem anos, o sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu, numa campanha até então inédita, acabar com focos do mosquito Aedes aegypti e erradicar as recorrentes epidemias de febre amarela nas grandes cidades do país – isso numa época em que não havia vacina contra a doença.

Agora, no entanto, a enfermidade ameaça voltar aos centros urbanos, com a confirmação de 47 casos entre os 272 suspeitos, e 25 mortes em Minas Gerais; e a luta contra o mosquito – que também transmite os vírus da dengue, da chicungunya e do zika – parece perdida.

Por que um problema resolvido há mais de um século volta a assombrar a população? Para o historiador Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz, trata-se de um retrocesso e também de uma tragédia anunciada. "Na história das epidemias do século 21, muitas vezes a dengue antecede a febre amarela. Mas aqui as lições da História não são levadas em conta", afirma o especialista, que é também editor científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

Na virada do século 19 para o 20, as condições de saneamento nos principais centros urbanos do país eram insalubres. Mesmo na antiga capital, o Rio de Janeiro, o problema era grave e responsável, diretamente, pelas recorrentes epidemias de febre amarela. A situação era tão séria que muitos navios estrangeiros evitavam aportar por aqui em determinadas épocas do ano – o que trazia consequências econômicas.

Rodrigues Alves assumiu a Presidência da República em 1902 disposto a dar um basta àquela situação. Logo no ano seguinte, Oswaldo Cruz foi chamado a assumir a diretoria-geral de Saúde Pública – um cargo similar ao de ministro da Saúde – com a espinhosa missão de acabar com a febre amarela.

O médico criou o Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, que logo colocou nas ruas as chamadas brigadas de mata-mosquitos – grupos de agentes sanitários cujo objetivo era eliminar os focos de mosquito a qualquer custo. O modelo de ação era truculento, com os agentes de saúde percorrendo todas as casas e destruindo todos os locais de desova do mosquito transmissor. Mas surtiu efeito: em 1907, a epidemia foi considerada erradicada. E desde 1942 não há registros de transmissão de febre amarela nos centros urbanos.

"No Brasil e em muitos países da América do Sul este era um problema considerado controlado; restrito a regiões amazônicas", afirma Cueto. "Desde o fim dos anos 20, praticamente não houve nenhum surto epidêmico nas cidades. E desde 1937 existe uma vacina".

Para Cueto, no entanto, de lá para cá, predominou no país uma atitude passiva e tolerante com o mosquito transmissor da febre. "Os controles foram ficando cada vez mais relaxados [e por essa mesma razão houve um aumento da dengue e do zika]. Não houve uma política de vacinação entre a população urbana e o número de moradores das cidades só aumentou", explica o especialista.

As cidades cresceram de forma desordenada, e as áreas mais pobres e sem saneamento são os maiores focos de proliferação do mosquito. No caso de novos surtos da doença, são justamente as parcelas menos favorecidas da população que mais sofrerão com o problema.

Para Cueto, medidas individuais para controle de larvas – como apregoa hoje o governo – não são suficientes. "Temos que resolver os problemas de água, moradia e pobreza que fazem com que existam muitos reservatórios nas favelas", diz o especialista. "E além disso, temos que resolver o problema da criminalidade nas favelas, que impede o trabalho de sanitaristas no controle dos reservatórios e na educação higiênica."

Para o historiador, Oswaldo Cruz é um exemplo de liderança a ser seguido, embora não represente mais um modelo. "Agora existem novos desafios, temos problemas novos, precisamos de respostas mais complexas", afirma. "Precisamos resolver a questão da pobreza urbana e fazer com que a vacina seja acessível para todos."

 

Fonte: Deutsche Welle/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!