17/01/2018

Como os EUA de Obama resistem após um ano de Governo Trump

 

Um ano depois da posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, o ambiente político propiciado pela Casa Branca é exatamente o contrário que o seu antecessor, Barack Obama, buscava cultivar. No mesmo país onde durante os dois mandatos do democrata (2009-2017) se debatia se uma sociedade pós-racial já havia se consolidado, tendo como símbolo a eleição do primeiro presidente afro-americano, o novo mandachuva do Salão Oval, o heterodoxo republicano Trump, aviva com sua retórica o fantasma da discriminação e da divisão e se vê obrigado a se desvincular da imagem que ele mesmo desenha, com afirmações próprias de um tempo que parecia superado pela era Obama: “Não sou racista”, afirmou no domingo, após supostos comentários em que teria qualificado Haiti, El Salvador e outros como “países de merda”. Obama, um bacharel em direito que estudou em Harvard e representava a cicatrização da ferida racial, foi substituído por seu oposto. Um magnata inoportuno que atira punhados de sal nessa ferida.

“Esse era o maior legado de Obama, a culminação do ideal liberal dos Estados Unidos como país da integração e da tolerância, e agora estamos vendo como esse espírito está sendo golpeado por um movimento reativo que busca desvirtuá-lo”, diz Eduardo Gamarra, cientista político da Universidade Internacional da Flórida. “Mas, sob o ruído de Trump, permanece esse projeto de inclusão impulsionado pela figura de Obama. Sem ele não acredito que hoje pudéssemos estar falando na possibilidade de uma presidenta afro-americana”, acrescenta, referindo-se aos rumores de uma candidatura de Oprah Winfrey, a apresentadora de televisão mais célebre do país, que na semana passada, durante a cerimônia de premiação do Globo de Ouro, irrompeu no debate político com seu discurso contra o machismo e a xenofobia.

Julian E. Zelizer, professor de História e Assuntos Públicos da Universidade de Princeton, acredita que o legado de inclusão de Obama poderia ser reativado como uma reação social orgânica às tendências divisionistas de Trump, a começar pelas eleições de 6 de novembro deste ano, que renovarão toda a Câmara de Representantes (deputados) e um terço do Senado. Ambas as casas do Congresso são atualmente controladas pelo Partido Republicano. “Ele energizou todo um contingente eleitoral que continua por aí, entre eles os afro-americanos, os latinos, os millenials. Todos eles são parte de uma coalizão obamista que não serviu aos democratas para ganhar em 2016, mas eles não sumiram, e acredito que podem chegar a ter muito mais impacto político do que se acredita.”

George C. Edwards, especialista em estudos presidenciais e professor na Universidade Texas A&M, avalia que, com relação à herança de Obama, o primeiro ano de Trump está “apresentando um efeito demolidor que não é tudo isso”. Embora concorde que os avanços nos direitos civis estão sendo erodidos, salienta a permanência de dois pilares da política de Obama: a lei de cobertura sanitária – conhecida como Obamacare –, “que Trump não poderá destruir, no máximo retocar nas margens”, e a recuperação econômica dos Estados Unidos. “Obama deixou para Trump uma economia forte”, diz. “Foi ele [o democrata] quem teve que lutar contra a crise financeira e criou regulações bancárias, e quem impulsionou uma estratégia de estímulo que permitiu uma guinada na economia, até agora com benefícios.” Para Edwards, os elementos da presidência de Obama mais ameaçados pelo modelo de Trump são a proteção ambiental, em processo de “desregulação administrativa” e com os Estados Unidos abandonando o Acordo de Paris – um dos feitos do democrata na questão climática –, e a política de imigração, com a deportação de indocumentados como prioridade da Casa Branca e a colocação em xeque do programa criado por Obama para dar cobertura legal aos dreamers, imigrantes irregulares que chegaram aos Estados Unidos ainda menores de idade.

No âmbito da política internacional, o primeiro ano de Trump não representou uma alteração substancial, segundo Zelizer. Sem deixar de lado a retórica mais inflamada entre o novo presidente e a Coreia do Norte e a sacudida no vespeiro do Oriente Médio causada pelo reconhecimento norte-americano de Jerusalém como capital de Israel, o professor de Princeton afirma que “o acordo sobre armas nucleares com o Irã permanece, e os arremedos que Obama fez depois das guerras do Iraque e Afeganistão continuam aí”. No aspecto geopolítico, Edwards destaca o fato de Trump ter retirado os Estados Unidos do tratado comercial com países do Pacífico, apresentado por Obama com o objetivo primordial de conter a expansão comercial da China. “Este foi um esforço que Trump de fato desmontou e que garantiu mais liderança mundial a Pequim”, afirma.

Gamarra salienta a “crise de representação política” como a questão central do primeiro ano pós-Obama. “As pessoas não acreditam mais nos partidos, nas instituições da democracia. A cultura cívica dos Estados Unidos, que radicava no profundo respeito dos cidadãos às instituições, está se perdendo. Obama construiu sua política já dentro de um cenário que refletia esse problema, com um clima de polarização e sem consensos bipartidários. Nesse sentido, o edifício de esperança social e política que o presidente Barack Obama levantava tinha os pés de barro”.

CUBA DE VOLTA À GELADEIRA. Por P. DE LLANO, MIAMI

O último golpe de efeito de Barack Obama em seu mandato foi o degelo com Cuba depois de mais meio século de guerra fria entre os EUA e seu vizinho socialista do Caribe. Quando ele deixou o poder, as relações estavam azeitadas e com sinais de que progrediriam pouco a pouco, mas o programa de Trump de reversão das políticas do democrata incluiu a retomada da briga com a ilha.

Dias depois de sua vitória eleitoral, Trump comemorou abertamente a morte do “brutal ditador” Fidel Castro. Já no poder, em junho, viajou a Miami para cercar-se dos mais duros ativistas do exílio anticastrista e lançar um discurso em que se conjurava contra o castrismo e anunciava a limitação das viagens de norte-americanos à ilha e a proibição de fazer negócios com empresas das Forças Armadas cubanas. “Não apoiaremos o monopólio militar que oprime o povo”, declarou Trump.

A degradação dos vínculos bilaterais alcançou seu auge com o escândalo dos supostos ataques a diplomatas norte-americanos em Havana. O caso dos chamados “ataques sônicos” eclodiu quando fontes ligadas a uma investigação norte-americana revelaram à imprensa as suspeitas de que 21 norte-americanos, entre funcionários da embaixada e seus familiares, haviam sido alvo de alguma arma que funcionava por meio de ondas sonoras. O episódio se transformou em uma novela confusa e sem responsabilidades claras. Os Estados Unidos, incapazes de identificarem os culpados pelas agressões, já se distanciam da hipótese do “ataque sônico”, e Cuba continua afirmando que isso nunca existiu, e que a segurança dos diplomatas norte-americanos em Havana sempre esteve garantida.

Fica para trás o discurso de Obama em um teatro de Havana pedindo a abertura do regime, diante da cúpula do poder cubano. E também sua descontraída presença com Raúl Castro em um jogo de beisebol na capital cubana. Com Trump, interessado por razões eleitorais em fortalecer seus laços com a comunidade anticastrista da Flórida, os EUA voltam a dar as costas a Cuba.

Trump é o principal fator de risco para 2018

Há um ano, no início de 2017, Donald Trump já aparecia como um perigo para a ordem mundial, um estímulo para regimes e líderes populistas e autoritários e um fator de incerteza por sua personalidade imprevisível e seu programa disruptivo. Mas não tinha passado pela prova dos fatos nem pela sujeição às exigências do Governo. Um ano depois parece haver poucas dúvidas de que Trump é o principal fator de risco mundial, como acaba de comprovar sua desenfreada exibição nas redes sociais neste início de ano, intervindo com seu característico estilo irresponsável precisamente nos pontos mais sensíveis do planeta.

Isso é o que se deduz de um bom número de análise de governos, instituições financeiras, consultoras e think tanks, nas previsões de riscos econômicos e políticos que costumam ser feitas a cada início de ano.

“Os EUA são, atualmente, o ator mais imprevisível do mundo e isso está causando uma grande inquietação”, observou Paul Stares, pesquisador do Center for Foreign Relations, o maior think tank norte-americano, na apresentação de sua previsão de riscos bélicos para 2018. Exatamente dois dos pontos de maior risco bélico para este ano, a Península Coreana e o Golfo Pérsico, foram alvo dos tuítes desestabilizadores e ameaçadores do presidente. Em ambos os pontos críticos, um deles com o perigoso adicional das armas nucleares, os analistas temem um conflito militar que envolva diretamente os Estados Unidos.

O impulso disruptivo trumpista inicial, que encontrou admiradores nos líderes populistas de todo o mundo, desde Farage até Le Pen, já foi estancado. Nas urnas, o populismo europeu já deu quase tudo o que tinha que dar, sobretudo com a vitória de Macron sobre Le Pen e as dificuldades que o Brexit vem enfrentando. Mas enquanto Trump estiver na Casa Branca, os líderes autoritários terão seu aval, Rússia e China se verão com maior margem de ação e prosperarão as rivalidades entre potências regionais, como Índia e Paquistão ou Irã e Iraque, que a presidência disruptiva de Trump estimula mais do que evita. Para a consultora Eurasia Group, o perigo mais destacado para 2018 é a China, pronta para ocupar o vazio de poder criado pelos EUA sob a presidência de Trump e disposta a fazê-lo seguindo suas próprias regras, não as estabelecidas nos últimos 70 anos em uma ordem internacional de cuja construção não participou.

Um ano foi já suficiente para saber o que Trump representa para a destruição da arquitetura multilateral internacional. Mas ainda não passou plenamente à ação em suas prometidas ofensivas de protecionismo comercial. Washington se retirou do Tratado Transpacífico, deixando espaço para a China na Ásia, mas está ainda renegociando o NAFTA e o acordo comercial com a Coreia do Sul. Sua intenção é impor sanções à China neste ano por violações de propriedade intelectual e subsídios ilegais ao aço e ao alumínio, que poderiam suscitar sanções por parte de Pequim e iniciar uma guerra comercial. Tudo isso em um difícil equilíbrio para não afastar esses países vizinhos da Coreia do Norte e, portanto, imprescindíveis em uma política de contenção de sua escalada nuclear.

Mas a questão multilateral mais preocupante na agenda de 2018, porque poderia frear o atual impulso da economia global, é a erosão a que Trump está submetendo a Organização Mundial do Comércio por uma dupla via: Washington, por um lado, está boicotando a renovação da comissão de arbitragem de disputas, uma instituição fundamental para o bom funcionamento do organismo internacional e, por outro, pretende resolver as disputas através de arbitragens fora da OMC.

Outro perigo sobre o qual numerosos analistas estão de acordo é a escalada na utilização da informação como arma (weaponization of information), território bem conhecido por Trump com seus fake news e sua campanha presidencial com a suposta ajuda do serviço secreto russo. “Até agora – diz a análise de riscos do think tank barcelonês CIDOB – parecia que quem tinha de estar assustado com a proliferação de canais de informação eram os regimes autoritários”. Agora o medo mudou de lado e, quando há eleições à vista, os temores se multiplicam nas democracias. Este é um ano eleitoral em países como Itália, Brasil, México, EUA e Colômbia, onde novamente podem aparecer essas fake news às quais Trump é tão afeito.

Um presidente fraco e inepto, cercado de equipes incompletas e caóticas, tem pela frente um 2018 que Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, qualificou como o ano geopoliticamente mais perigoso desde o fim da Guerra Fria. Os EUA, até agora fator de ordem e superpotência estabilizadora e previsível, transformaram-se no oposto neste ano presidencial tão agitado e de retração diplomática e política.

Nem o principal fator de risco mundial em 2018 está livre de riscos. Trump não só não conseguiu estabilizar seu Governo, como tropeça constantemente em turbulências, quase sempre provocadas por ele mesmo. Graças às escandalosas revelações do livro Fogo e Fúria: Dentro da Casa Branca de Donald Trump, do jornalista Michael Wolff, Trump rompeu virulentamente com Steve Bannon, que foi seu chefe de estratégia e guru eleitoral, em um novo episódio que revela a fragilidade do presidente, mas reconforta o Partido Republicano, alarmado com a tendência extremista da direita alternativa ou alt-right defendida pelo assessor defenestrado.

O promotor especial Robert Mueller, por sua vez, continua avançando sigilosamente em sua investigação sobre a cooperação entre o serviço secreto russo e os colaboradores de Trump para derrotar Hillary Clinton na eleição presidencial, em que o envolvimento do filho do presidente foi confirmado pelo próprio Bannon.

Entre as previsões para o ano há muitas conjecturas sobre a abertura de um processo de impeachment, que requereria a aprovação dos congressistas republicanos, ou a alternativa mais provável, que os democratas assumam o controle da Câmara de Representantes e do Senado nas eleições de meio de mandato em novembro e possam, então, tentar o impeachment. Trump é o maior perigo de 2018, mas 2018 pode acabar com Trump ou, pelo menos, deixá-lo sem maioria no Congresso, em outras palavras, manco, sem unhas nem dentes e pronto para se despedir do poder.

Erdogan acusa EUA de criar "exército terrorista" na Síria

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, acusou nesta segunda-feira (15/01) os Estados Unidos de criar um "exército terrorista" na região síria que faz fronteira com a Turquia e ameaçou enviar uma operação militar para Afrin e Manbij, áreas controladas por milícias curdas aliadas aos EUA, para acabar com os planos americanos.

"As Forças Armadas turcas resolverão o problema de Afrin e Manbij. Os preparativos já estão completos. A operação pode começar a qualquer momento", disse Erdogan num discurso em Ancara.

Neste domingo, os Estados Unidos anunciaram que apoiam a criação de força com 30 mil soldados para patrulhar fronteiras e defender o território recuperado por combatentes curdos. Para isso, os EUA pretendem armar as milícias curdo-sírias e concentrar o grupo em zonas fronteiriças com a Turquia e o Iraque. Desde 2014, os EUA lideram uma coalizão internacional que promovia ataques aéreos contra o "Estado Islâmico” (EI).

No projeto para criar uma guarda fronteiriça cooperariam as Forças da Síria Democrática (FSD), das quais a milícia curda Unidades de Proteção Popular (YPG) é o principal integrante, e a coalizão internacional antijihadista, liderada pelos EUA. Juntos eles conseguiram no ano passado retomar o controle de Raqqa, bastião do Estado Islâmico no norte sírio.

"OS EUA agora admitem que estão criando um exército terrorista ao longo da nossa fronteira. O que temos que fazer é acabar com esse exército antes que nasça", afirmou Erdogan, que insistiu que seu país limpará de "terroristas" os 900 quilômetros de fronteira com a Síria. O presidente ressaltou ainda que Ancara "baterá com dureza" em qualquer força que ameace a Turquia.

As Forças Armadas turcas deslocaram tanques e tropas à fronteira com Afrin e a artilharia atacou nos últimos dias posições das YPG.

Tanto a região de Afrin, no noroeste da Síria e fronteiriço com a Turquia, como a de Manbij, ao oeste do rio Eufrates, são controladas pela YPG. Ancara, porém, considerada as tropas curdas "terroristas" e vê essas milícias como uma mera filial da guerrilha curda da Turquia, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Já os Estados Unidos consideram a YPG como uma das forças mais eficazes para combater o EI no norte da Síria.

Os curdos e outras minorias do norte da Síria autoproclamaram um sistema federal nas zonas sob o domínio das FSD, um projeto que causa receio em Ancara porque poderia avivar tensões na própria minoria curda na Turquia.

 

Fonte: El País/Deutsche Welle/Municipios Baianos

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