21/01/2018

O que é preciso (des) aprender com o Partido Novo

 

Adoro conversar com motoristas de táxi. Sim, eu ando de táxi. Quando não estou no ônibus ou no metrô. No Rio de Janeiro, onde moro, ou em qualquer viagem que faço, puxo assunto. Ele liga o taxímetro, eu ligo meu politicômetro. Desde os primeiros passos como repórter aprendi que pouca gente entende mais de política do que um taxista. O sujeito passa o dia inteiro ligado no rádio – em notícias mais do que em músicas, pode acreditar. Ouve e conversa com uma quantidade enorme de pessoas que, do banco de trás, transmitem sua visão de mundo. Forma sua própria opinião. E, claro, tenta catequizar o passageiro desavisado. Religião? Futebol? Não, o assunto preferencial segue sendo política.

Numa corrida entre Copacabana e a Barra da Tijuca, no conforto do ar condicionado, em um dia de verão com sensação térmica de 45ºC, conversei com um jovem morador da periferia do Rio, muitíssimo bem informado, que, ao saber que eu era jornalista, me deu um conselho: preste atenção no Partido Novo!

O novíssimo Partido Novo, da supostamente renovada safra de legendas nacionais, cujo futuro a Deus e ao eleitor pertence – repare que são todas de direita, como o Livres e o Patriotas, e os chamados “movimentos cívicos”, como o Agora!, do Luciano Huck, e o Acredito -, foi fundado em 2011 com apoio de empresários no Rio, base em São Paulo e teve seu registro deferido pelo TSE só em 2015. Se as redes sociais são um termômetro, é assustador. Mais de 1,5 milhão de pessoas segue o Novo, nome de guerra do partido, no Facebook. Preste atenção, 1,5 milhão! Ou contrataram gênios em mídias sociais, ou montaram um esquema azeitado de robôs ou tem coelho nessa cartola. O PT e o PSDB têm, cada um, cerca de 1,2 milhão de seguidores.

Bolsonaro? Nem pensar. Meu taxista-analista político disse que votará em – compreensível que muitos de vocês não tenham ouvido falar nele, essa é a ideia – João Amoêdo para presidente, candidato-boi de piranha do partido ao Planalto, anunciado em novembro passado. O empresário de 55 anos, ex-Citibank, tem um currículo invejável, bem longe da política. Ex-BBA-Creditansalt, ex-vice-presidente do Unibanco, ex-membro do conselho de administração do Itaú-BBA, é atualmente membro do Conselho de Administração da João Fortes, função que ocupa desde 2011.

Outro bam-bam-bam do partido é Ricardo Coelho Taboaço, que também construiu carreira no alto escalão de instituições financeiras. Foi sócio diretor do Grupo Icatu e vice-presidente do Citibank. O partido sonha em fazer 20 a 30 deputados federais nas próximas eleições. A ideia, claro, não é fazer o próximo presidente, mas projetar a legenda.

O Novo é o típico partido que surfa na onda da anti-política, de tão desmoralizada que está, embora já tenha compreendido que, para entrar no jogo, precisa dela. Entre os fetiches para atrair eleitores está a ideia de que, para se filiar ao partido, é preciso “preencher um questionário”, como me explica meu consultor para assuntos além-trânsito, uma espécie de triagem que significa só admitir aqueles que têm ficha limpa. Para as eleições de 2018, a legenda adotou um método, no mínimo, inusitado, para escolher seus candidatos ao Congresso: se inspirou na seleção dos trainees de grandes empresas.

O processo seletivo do Novo conta com várias etapas, que passam por análise curricular, teste sobre valores e entrevista por uma banca examinadora. No total, 460 pessoas de 13 estados se inscreveram neste ano. Todos os pré-candidatos do Novo tiveram que pagar uma taxa de inscrição de 600 reais. Metade do valor para aspirantes aos legislativos locais.

Outra bandeira é o fim do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral, uma cenoura a mais para atrair os coelhinhos desiludidos com a política. Reduzir as “mordomias políticas”, o número de assessores de gabinete, “aprofundar” as privatizações, tudo muito bonito vindo de empresários ricos. Recentemente, o partido anunciou aquisições-chamariz, que empolgaram meu cientista do volante. O ex-tucano e técnico de vôlei Bernardinho, amigo de Aécio Neves, que pode sair candidato ao governo do Rio. E o ex-presidente do Banco Central do governo FHC, Gustavo Franco, que se desfiliou, decepcionado, do PSDB. Como se vê, o Novo é tudo, menos novo. Mas parece estar convencendo muita gente.

O PR mostra o tamanho do prego fincado no Caixão. Por Rudolfo Lago

Num estranho vídeo publicado nesta quinta-feira (18) no blog do jornalista Gerson Camarotti, o líder do PR na Câmara, José Rocha (BA), faz um resumo preciso do tamanho do rolo político que provoca essa história do Caixão (Helena Chagas foi absolutamente precisa: o nome vai pegar! Aqui, já pegou). Diga-se: o vídeo é estranho na sua forma, a imagem é gravada de baixo para cima.

Já tínhamos comentado por aqui como a pressão política vai complicando ainda mais a vida do presidente Michel Temer. Seja no rolo da nomeação da deputada Cristiana Brasil (PTB-RJ) seja na história do Caixão, um grande problema é a necessidade de construção da maioria na base política num tempo de escolha na bacia das almas. Num ano de eleição, o governo Temer tem baixa popularidade. Os partidos pendurados no poder não querem largar o osso. Mas, ao mesmo tempo, hesitam em emprestar um apoio incondicional que compromete suas chances no pleito. Aumentam o calor da pressão.

O PR no momento ainda não definiu quem apoiará nas eleições presidenciais. Avalia até mesmo a hipótese de vir a apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nas duas vezes em que Lula foi eleito, era o PR seu parceiro, com o vice José Alencar. Mas, como mostra José Rocha no vídeo, quer manter seus nacos de poder preservados. Pressiona Temer porque entende que o presidente e seu governo precisam do partido. E, de fato, precisam.

Assim, mantém a indicação da vice que indicou, Deusdina dos Reis, fazendo a ressalva de que assim será se, ao final do processo, ela sair isenta da apuração. Em caso contrário, quer manter o direito de fazer nova indicação para o cargo. Essa pressão não é só do PR. Os partidos da base de Temer ameaçam não votar a reforma da Previdência caso percam o poder de indicar os nomes para a Caixa Econômica Federal.

Veja-se o tamanho da complicação. Mesmo depois da denúncia de existência de um esquema de desvio de recursos na Caixa, os partidos e seus políticos insistem em manter intacto o sistema e os mecanismos que produziram tal esquema. E, se o governo vier a resistir, declaradamente corre o risco de perder os apoios que tem.

Diga-se em defesa do atual governo que está longe de ser uma particularidade sua a indicação política para cargos que deveriam ser técnicos como esses do Caixão. O atual ocupante de uma cela no presídio da Papuda Geddel Vieira Lima foi vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa no governo Dilma Rousseff, para citar um exemplo. Ao contrário, essa prática rotineira é uma de nossas tragédias…

Serra joga a toalha e expõe dilema de senadores alvos da Lava Jato. Por Andrei Meireles

José Serra ciscou daqui e dali e, por prudência, desistiu de testar o humor do eleitorado este ano. Saiu do páreo pelo Palácio Bandeirantes. Ele é um caso peculiar entre senadores envolvidos na Lava Jato. Diferente da grande maioria de seus colegas enrolados, Serra ainda tem mandato até 2022.

Outra exceção é Fernando Collor, também enrascado na Lava Jato.Franco atirador de sempre, ele anunciou nessa sexta-feira (19), em entrevista a uma rádio de Arapiraca, que é de novo candidato ao Palácio do Planalto. Parece piada. Mas, com mais quatro anos de mandato no Senado, ele nada tem a perder se levar a aventura adiante.

Nesses tempos em que investigações do Ministério Público e da Polícia Federal escancararam a corrupção generalizada de cardeais, médio e baixo cleros de todos os naipes, o maior valor dos mandatos virou o tal foro privilegiado.

Daí o desespero de estrelas no Senado com a hipótese de perderem eleições e seus casos passarem à jurisdição de Sérgio Moro, em Curitiba.

Aécio Neves avalia riscos. A favor de tentar a reeleição ao Senado apenas o fato de o governador petista Fernando Pimentel – hoje seu principal adversário — também estar envolvido em escândalos de corrupção.

Aécio sabe, no entanto, que suas conversas gravadas com Joesley Batista e os vídeos das malas de dinheiro recebidas pelo primo Fred serão intensamente explorados na campanha eleitoral. O problema é que eles são indefensáveis.

A senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, é pragmática. Vai tentar manter o foro privilegiado concorrendo à Câmara dos Deputados. Outros colegas de Senado planejam seguir o mesmo caminho.

Há os que aguardam o resultado do julgamento de Lula e seus desdobramentos. O petista Lindbergh Farias é um deles. Se Lula poderá ou não ser candidato é uma decisão que reflete nas mais variadas eleições.

Uma banda do PMDB no Senado – Renan Calheiros, Edison Lobão, Eunício Oliveira, Eduardo Braga, Jader Barbalho, entre outros – querem estar na foto com Lula.

Renan, por exemplo, chegou a cogitar uma candidatura a deputado federal. Desistiu porque era ilegal. Teria que mudar a legislação que hoje o impede a concorrer a qualquer outro cargo porque o governador Renan Filho é candidato à reeleição.

Os trunfos de Renan são o apoio de Lula, o fato de seus principais concorrentes também serem alvos de investigações sobre corrupção, e o comando da máquina pública em Alagoas.

Sem os mesmos empecilhos legais, o senador Jader Barbalho pode disputar uma vaga de deputado federal enquanto seu filho Helder Barbalho entra no páreo pelo governo do Pará. Helder é ministro de Michel Temer. Antes foi ministro de Dilma Rousseff, indicado pelo pai, com o aval do próprio Temer. Em abril, Helder deixa o governo e volta a se aliar à turma de Lula em seu estado.

Como sempre, os políticos buscam o poder a qualquer preço. Dessa vez, lutam também pela própria liberdade, entendem o foro privilegiado como uma espécie de alvará de soltura para crimes de corrupção. Confiam em juízes como Gilmar Mendes. Até agora, com raríssimas exceções, o Supremo Tribunal Federal tem lhes dado razão.

 

Fonte: Por Ricardo Miranda, em Os Divergentes/Municipios Baianos

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