23/01/2018

Base Nacional Curricular tornará educação financeira obrigatória

 

Como já diz o ditado: é de pequeno que se torce o pepino. Uma criança que receber lições sobre como lidar com o mundo capitalista, consumo, dinheiro e orçamentos terá mais facilidade de se tornar um adulto capaz de controlar seus gastos e administrar com eficiência sua independência financeira. O Banco Central (BC) participou da elaboração de um documento que, com a homologação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), tornará a educação financeira obrigatória e deverá ser abordada como um tema transversal, principalmente em Matemática e Ciências da Natureza para crianças do ensino fundamental.

A Base Nacional estabelece as áreas de conhecimento obrigatórias, mas são os estados e municípios que decidem como os temas entrarão na grade. Para Ronaldo Vieira da Silva, Marcos Brandão e Bárbara Blanco, do departamento de promoção da cidadania financeira do BC, a expectativa é de que o tema seja implantando o quanto antes Brasil afora. “É um tema que vai ser transmitido no contexto de cada uma das áreas de conhecimento. A gente vai lidar com uma referência mais ampla, na qual entra consumo sustentável, sustentabilidade, gestão de recursos econômicos e muitos outros”, diz Bárbara.

“Na língua portuguesa, por exemplo, vai ter leitura e interpretação de boletos, faturas e carnês. Conhecer os documentos da sua vida financeira é extremamente importante para o cidadão. A área que abordará de maneira mais tradicional será matemática, com juros, financiamento”, destaca Marcos. Ronaldo observa que termos da economia em geral, como taxa de juros, investimento, impostos, também serão introduzidos. “São palavras sobre a economia que muitas pessoas não conhecem e nem sabem o que significa. O objetivo é que o jovem, quando inicie sua vida financeira, já esteja familiarizado com algumas coisas básicas”, afirma. Os representantes do BC lembraram que primeiramente o processo precisa ser adequado ao cotidiano das crianças e que o desenvolvimento do material didático, o treinamento de professores e introdução da disciplina pode levar alguns anos.

O presidente da União Nacional de dirigentes Municipais de Educação, Alessio Costa Lima, afirma que o tema já era trabalhado por muitas escolas e municípios. “Era abordado por materiais transversais, com cartilhas de orientação voltadas para a temática desse mundo como juros, compras, como poupar, o consumo mais consciente, o uso do dinheiro. Trata-se de uma medida, um avanço que tornará isso algo permanente, mais bem estruturado e planejado”, diz.

Na visão dele, o ano letivo de 2018 servirá para uma discussão de como implementar na base do regime de educação. “Até o fim do ano, esperamos que a maioria dos currículos estejam devidamente atualizados, prontos para serem encaminhados e aprovados e, a partir de 2019, de fato, chegarão à sala de aula”, comenta.

A escritora e jornalista Paula Andrade, autora do livro infantil O barato da dona baratinha, decidiu escrever um livro sobre educação financeira direcionado para o público infantil, adotado em 60 escolas do país, após um momento de reflexão de como seria mais fácil aprender quando criança a controlar os hábitos de consumo e suas ações quanto ao dinheiro. “Escrevi muitas dicas sobre como sair de alguma enrascada financeira e me peguei pensando que as pessoas se enrolam por não terem o hábito de se educar financeiramente. A melhor idade para isso seria quando pequeno, porque acaba virando parte de quem a pessoa se torna”, explica.

Desejo

No livro, a autora trabalha noções do consumo, o que é comprar e a diferença entre necessidade e desejo. “A educação começa esclarecendo o ato de consumir e suas consequências. Menciono ainda o outro lado do consumo, que é o de produzir lixo, consumir recursos naturais”, observa. Ela, que já tenta educar financeiramente o filho de três anos, explica que as crianças também precisam aprender sobre planejamento de vida, ter uma meta e como alcançá-la. “O sonho de ter um patins ou uma bicicleta, é legal mostrar que ela pode chegar lá de pouquinho em pouquinho. Quando ela ficar adulta, aplicará essa ideia em metas maiores”, argumenta.

A enfermeira Anna Christina Bezerra, 41, é mãe da Maria Luiza, 10, e conta que, desde muito cedo, procura atribuir valor a algumas coisas dentro de casa. “Ensinar o que é caro e barato, o que podemos comprar ou não, o que é essencial ou supérfluo”, diz. Há dois anos, Maria Luiza recebe uma mesada, a qual gerencia com a ajuda dos pais, para gastar “como quiser”. “A gente tenta mostrar as possibilidades como ela pode gastar, mas ela que resolve. Às vezes ela pede algum brinquedo específico, mais caro, e eu falo que não vou comprar e ela decide que vai usar a mesada e é para isso que serve, dessa forma eu acho que ela vai aprendendo”, conta.

Para a escritora Paula, as etapas teóricas, logo cedo na infância, são essenciais antes de apresentar o dinheiro material para a criança. “Se você ensinar os conceitos antes, quando chegar à fase de mexer realmente com o dinheiro, ela fará um uso melhor. Não é algo fácil, não é um trabalho que se faz uma ou duas vezes, é para o resto da vida”, completa.

Linguagem

O universo dos pequenos é diferente e mais simples do que o dos adultos e, por isso, é importante utilizar uma linguagem própria ao levar a educação financeira para o dia a dia deles. O educador financeiro Rogério Olegário sugere, por exemplo, uma adaptação da mesada para um período menor, já que um mês, para algumas idades, pode significar muito tempo. “Uma opção é a semanada. Uma semana para eles já é tempo o bastante. Mas não é só dar o dinheiro. É preciso um acompanhamento, ensinar as finalidades, as importâncias”, recomenda.

Olegário indica que os pais ensinem os filhos a separarem em categorias como: gastar hoje, que inclui consumos do dia a dia; gastar amanhã, que aborda compras planejadas e um pouco mais caras; o não gastar, que se trata de guardar e economizar; e o doar, que apresenta o conceito de caridade para a criança. “Assim ela pode ajudar alguém e até aprender a diferença que o dinheiro pode ter”, esclarece.

Gabriela Vale, planejadora financeira, compara a educação financeira infantil com o hábito dentário brasileiro. “No Brasil, a criança nem sequer tem dente e o pai já está escovando e ensinando que precisa daquela higiene. Já com o dinheiro é diferente: não há conversa com as crianças sobre dinheiro e muito menos ensinamentos”, diz. Ela observa que, para cada família, os valores são diferentes, assim como as economias e hábitos com dinheiro.

Para que serve o dinheiro

O objetivo de inserir a educação financeira na grade curricular das escolas é mostrar para as crianças para que serve o dinheiro, de onde vem, o que acontece se guardar. “Mostrar o caminho do dinheiro ajuda a estabelecer limites e a faz as crianças enxergarem que é finito. Tem que ensinar a função do dinheiro e deixar claro que gastar tem consequências”, defende a planejadora financeira Gabriela Vale. “Para se tornar financeiramente independente, a pessoa precisa saber quando vale a pena gastar e quando é preciso guardar para conseguir lidar com as ações”, acrescenta.

A servidora pública Arlene Costa Nascimento, 42, começou a tratar a questão financeira quando sua filha Cecília, 8, se interessou, aos 6, em montar uma barraquinha para vender bolos, cupcakes, pulseiras e outros produtos feitos por ela mesma. “Na primeira vez, veio alguém de fora e comprou dela e ela usou o dinheiro para comprar uma bateria. A partir daí, ela pediu para fazer isso mais vezes e iniciamos com o projeto Feirinha - Suco de limão, no qual as crianças podem vender coisas que produziram durante as férias”, conta. Arlene mostra para os filhos, Cecília, Emanuel, 4, e Nina, 3, que o dinheiro não nasce do nada, exige esforço e promove realizações.

Pesquisa

A psicóloga Angélica Rodrigues Santos defende que o processo deva ser feito de forma gradativa, de acordo com a idade e a medida que avança na educação tradicional da escola. “A educação financeira vai muito além do dinheiro. É importante tirar a ideia negativa. A moeda é um instrumento de troca, tudo depende do que se faz com ela, da atitude, da missão com a ferramenta”, afirma. Ela destaca que as crianças aprendem por meio da observação e que trabalhar esses conceitos tanto na escola como em casa, com auxílio dos pais, é essencial.

A fisioterapeuta Priscila Valadares Queiroz, 37, mãe do Caio, 7, e do Rafael, 5, diz que os meninos gostam de uma determinada bala e, quando pedem para comprá-la, ela os leva para pesquisar preços em diversas lojas. “Explico que, se vamos comprar, temos que ter noção de quanto custa para saber qual o melhor local para comprar”, comenta. Neste início de ano, Priscila está inserindo a cultura da pesquisa de preços ao levar os filhos para comprar o material escolar. Assim, podem escolher o que querem após analisar o valor e a qualidade. “Ensino que as coisas mudam de valor de acordo com as marcas, qualidade, quantidade e que temos que avaliar o que vale a pena comprar. Tento fazer eles entenderem o que é o consumo e como funciona. Quero que cresçam conscientes, pessoas melhores”, observa.

 

Fonte: Correio Braziliense/Municipios Baianos

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