27/01/2018

Mau colesterol oferece riscos à saúde mesmo a um adulto saudável

 

Conhecida como “mau colesterol”, a lipoproteína de baixa intensidade (LDL-C) pode ser o motivo pelo qual muitas pessoas aparentemente saudáveis sofrem infarto ou derrame na meia-idade, mesmo não tendo outros fatores de risco cardiovascular, como tabagismo, hipertensão, obesidade, diabetes e dislipidemia (níveis elevados de lipídio no sangue). Depois de faixa etária (ter mais de 50 anos) e de sexo (ser homem), o LDL-C, mesmo em taxas consideradas normais, é o maior preditor da presença de placas ateroscleróticas nas artérias, segundo estudo do Centro Nacional de Investigações Cardiovasculares Carlos III (Cnic), da Espanha, publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC).

De acordo com os autores do trabalho, o resultado sugere a necessidade de estratégias mais agressivas para reduzir os níveis de mau colesterol voltadas, inclusive, aos indivíduos que teriam baixas chances de sofrer eventos cardiovasculares. “Por isso, precisamos definir novos marcadores de placas ateroscleróticas precoces nessas pessoas aparentemente saudáveis”, explica Leticia Fernández-Friera, principal autora do estudo. Ela destaca também que, de todos os fatores de risco associados a esses problemas, o LDL-C é, por sorte, o mais fácil de modificar, facilitando na prevenção de infarto e derrame.

O novo artigo é uma subanálise do estudo Progressão de Aterosclerose Precoce Subclínica (PESA), e avaliou 1.779 participantes que não apresentavam os fatores de risco clássicos. O principal objetivo foi definir quais elementos poderiam levar à formação de placas nas artérias dessa população. Para isso, os pesquisadores analisaram a associação de dados biométricos e padrões de estilo de vida à presença desses depósitos de gordura.

Usando tecnologia de imagem não invasiva (PET scan, ressonância magnética, tomografia computadorizada e ultrassom 2D e 3D), os cientistas conseguiram visualizar quando e como a aterosclerose começou a se instalar, e o que ocorreu para ela se manifestar clinicamente. Normalmente, a condição é detectada apenas em estágio avançado, depois de ter provocado eventos como infarto e derrame. Depois que esses problemas ocorrem, geralmente os pacientes sofrem com um declínio permanente da qualidade de vida, pois as opções de tratamento para as sequelas são ainda limitadas. Do ponto de vista da saúde pública, o impacto financeiro é imenso, observa o artigo.

“Graças ao ultrassom vascular, podemos visualizar diretamente a presença de placas de colesterol nas artérias carótidas, na aorta e nas artérias iliofemorais. Com a tomografia computadorizada, somos capazes de detectar calcificação nas artérias coronarianas. Então, com essas abordagens, pudemos avaliar o progresso da doença nos indivíduos”, conta Javier Sanz, coautor do estudo. Os exames demonstraram que as placas estavam presentes em 50% dos indivíduos entre 40 e 54 anos, não tabagistas e sem histórico de hipertensão, diabetes mellitus ou dislipidemia.

Os resultados também mostraram que, depois de sexo e idade, o preditor mais forte da formação de placas era o “mau colesterol”. “Mesmo em pessoas com taxas ideais de pressão sanguínea, açúcar no sangue e colesterol total, detectamos uma associação independente entre o nível de LDL-C circulante e a presença e a extensão de aterosclerose subclínica (sem sinais aparentes)”, diz Javier Sanz.

“Isso pode ajudar a melhorar a prevenção cardiovascular na população em geral, mesmo antes que apareçam os fatores de risco convencionais. A habilidade de identificar pacientes com a doença antes do aparecimento dos sintomas pode ajudar a evitar ou a reduzir as complicações associadas, o que se traduziria em um enorme benefício social e econômico”, completa Leticia Fernandez-Friera. Ela afirma, contudo, que só daqui a 15 ou 20 anos será possível avaliar o benefício da intervenção precoce. O projeto PESA é de longo prazo, e os participantes serão acompanhados ao longo de toda a vida.

Principal causa de morte em todo o mundo, as doenças cardiovasculares têm alta prevalência e, por isso, considera-se que as estratégias de prevenção devem ser prioridade para a saúde pública. No ano passado, as principais sociedades cardiológicas, inclusive a brasileira, reviram os parâmetros de colesterol (veja arte), tornando as diretrizes mais rígidas.

Multifatorial

“A aterosclerose é um iceberg. Conhecemos a ponta, mas não a base, ou seja, a causa genuína”, afirma o ex-presidente e atual conselheiro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) Lázaro Fernandes de Miranda, coordenador de Cardiologia do Hospital Santa Lúcia. De acordo com ele, o que se sabe é que inflamações crônicas favorecem o surgimento das placas e, de todos os fatores causadores desse processo inflamatório, o “mau colesterol” é considerado o principal. “Outros que estão sendo estudados são a elevação das proteínas PCR, IL1 beta e IL 6. Pesquisas muito recentes demonstraram que uma vez tratada a inflamação, reduziu-se ou inibiu-se a propensão à aterosclerose”, diz.

Inclusive, a substância canaquinumabe, um anticorpo monoclonal com indicação para o tratamento de artrite idiopática juvenil, demonstrou ter efeito secundário em estudo divulgado em agosto: a redução de padrões inflamatórios e, consequentemente, de eventos cardiovasculares. Ela age inibindo a produção IL 1 beta, aumentada em indivíduos que sofreram infarto e derrame.

Miranda destaca que, apesar da influência do LDL-C e das substâncias apontadas nas pesquisas mais recentes sobre o tema, a aterosclerose não é consequência de um único fator. “Existe um programa de estilo de vida do cardiologista norte-americano Dean Ornish que inclui atividade física vigorosa, dieta vegetariana, medicação e controle do estresse, que é um dos fatores de gatilho dos eventos cardiovasculares. Uma pesquisa mostrou que 82% das pessoas que seguiram o programa tiveram redução ou estabilização das placas. Os 18% continuaram progredindo, o que poderia ser explicado por predisposição genética”, diz o médico.

Essa, aliás, é uma crítica que ele faz ao estudo do Centro Nacional de Investigações Cardiovasculares Carlos III: os pesquisadores não consideraram o histórico familiar dos participantes, excluindo, dessa forma, os fatores genéticos como um risco em potencial. Ainda assim, o médico considera que o trabalho deve reforçar a importância de medidas preventivas voltadas às pessoas que, independentemente de outras taxas, têm “mau colesterol” elevado. Inclusive, ele cita o epidemiologista canadense Salim Yousef, presidente da Federação Mundial do Coração, que sugeriu, há duas décadas, a adição de estatina à água, para prevenir doenças cardiovasculares. “Claro que teríamos de saber qual a dosagem ideal, mas essa é uma estratégia que poderia ser pesquisada”, observa.

Cigarro eletrônico é "isca" para tabagismo entre os jovens, diz pesquisa

Eles surgiram como alternativa menos nociva ao cigarro comum e, desde que apareceram no mercado internacional, em 2005, levantam debates entre usuários, especialistas, indústria e formuladores de políticas públicas sobre os riscos à saúde e o potencial de reduzir danos aos tabagistas. Uma busca rápida no PubMed, maior banco de dados de artigos científicos, revela a existência de 2.254 trabalhos a respeito de cigarro eletrônico - somente no ano passado, foram 604 publicações. À medida que aumenta a adesão a esse produto, uma das maiores preocupações é o uso que os adolescentes podem fazer dele.

Por causa dessa e de outras dúvidas sobre o cigarro eletrônico, em 2016, o governo norte-americano encomendou uma análise de tudo que já foi publicado a respeito à Academia Nacional de Ciência, Engenharia e Medicina. O resultado, divulgado nesta terça-feira (23), conclui: as evidências de que o produto ajude adultos tabagistas a parar de fumar são limitadas, ao mesmo tempo em que há provas “substanciais” de que ele funciona como uma isca para os jovens, induzindo o caminho contrário. Eles começam com os vaporizadores e passam para o cigarro comum. O relatório foi produzido por um painel de cientistas que avaliaram mais de 800 estudos revisados pelos pares (que passaram pelo crivo dos colegas).

Para a psiquiatra Helena Moura, especialista em dependência química, a publicação vem em um momento oportuno, quando o cigarro eletrônico se torna a menina dos olhos da indústria do tabaco. No início do mês, por exemplo, a Philip Morris anunciou que pretende parar de vender cigarro na Inglaterra. Não vai, porém, deixar de investir nesse mercado, mas substituir o produto gradativamente pela versão eletrônica.

“A indústria parece ter deixado os adultos de lado e, agora, está focando mais os jovens. As pesquisas mostram que o cigarro eletrônico é uma forma de iniciação. Os mais novos não vivenciaram o boom da campanha antitabagista e se tornaram alvo dos fabricantes. Esses cigarros eletrônicos têm vários sabores diferentes, e isso é uma estratégia para iniciar os jovens”, explica a especialista, que é preceptora da residência de psiquiatria do Hospital de Base na área de dependência química. Entre os quase 8 mil sabores artificiais existentes, alguns parecem especialmente atraentes aos jovens, como de uma balinha muito popular entre as crianças (gummy bear), cupcake, algodão-doce, cereais e chocolate.

No relatório divulgado, os especialistas destacam que 33,8% dos estudantes de ensino médio já usaram esse tipo de cigarro nos Estados Unidos. A incidência no 10º ano do ensino fundamental (correspondente ao 9º brasileiro) é de 29%. Os estudos avaliados pelos cientistas mostraram que a probabilidade de os jovens que já usaram o cigarro eletrônico evoluírem para o tabagismo convencional é de 23,2% (com resultados variando de 40,4% a 8,8%, dependendo da pesquisa). Já o risco de começar a fumar entre os que jamais utilizaram esse dispositivo é de 7,2% (variação de 3% a 10,6%).

No Brasil, o cigarro eletrônico não pode ser comercializado, pois a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe a venda e a importação de dispositivos eletrônicos para fumar. No ano passado, a Associação Médica Brasileira (AMB) enviou um documento ao órgão regulador apoiando a manutenção da proibição. “Ainda que não haja combustão do tabaco, esse produto não é inócuo, como erroneamente vem sendo anunciado. Nesse produto, a nicotina encontra-se na forma líquida, sendo aquecida, aspirada e também liberada no meio ambiente sob a forma de vapor, imitando, do ponto de vista comportamental, o cigarro convencional e carregando substâncias tóxicas para as vias respiratórias e o sistema cardiovascular”, advertiram Antônio Pedro Mirra, da Comissão de Combate ao Tabagismo, e Florentino de Araújo Cardoso Filho, então presidente da AMB. Contudo, apesar da proibição da Anvisa, o produto é facilmente encontrado à venda, principalmente pela internet.

Questão complexa

Em nota, David Eaton, presidente da comissão que elaborou o relatório norte-americano, afirmou que a discussão sobre os cigarros eletrônicos não é simples. “Os e-cigarros não podem ser simplesmente categorizados como benéficos ou perigosos. Em algumas circunstâncias, como quando usados por adolescentes e jovens adultos, seus efeitos adversos claramente levantam preocupação. Em outros casos, como os de adultos fumantes que os usam para parar de fumar, eles oferecem uma oportunidade de reduzir as doenças relacionadas ao tabagismo.”

A declaração de Eaton, porém, não significa que o painel de especialistas dá aval ao cigarro eletrônico. Reduzir danos significa que “dos males, o menor”. Se por um lado, quando o fumante troca o produto convencional pelo eletrônico, a exposição a substâncias tóxicas e carcinogênicas diminui, por outro, o relatório mostra que as evidências de que ele ajuda a abandonar de vez o vício são limitadas (há alguns estudos que dizem que sim, e outros que não).

A psiquiatra Helena Moura afirma que, no caso de quem, de fato, quer parar de usar qualquer produto com tabaco, não há por que recorrer ao cigarro eletrônico. “Existem produtos, como adesivos e medicamentos, que são comprovadamente seguros para esse fim. Para que usar o cigarro eletrônico como tratamento? Além disso, há muitas evidências de que ele pode causar recaídas: o ex-fumante que usa cigarro eletrônico corre o risco de voltar a fumar”, observa.

"Os mais novos não vivenciaram o boom da campanha antitabagista e se tornaram alvo dos fabricantes. Esses cigarros eletrônicos têm vários sabores diferentes, e isso é uma estratégia para iniciar os jovens”. Helena Moura, especialista em dependência química e preceptora da residência de psiquiatria do Hospital de Base

 

Fonte: em.com/Municipios Baianos

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