31/01/2018

Como funciona o algoritmo capaz de prever ataques cardíacos

 

Imagine se você pudesse saber que vai sofrer um ataque do coração horas antes de ele ocorrer.

Embora pareça cena de filme ou série de ficção científica, isso já é realidade - pelo menos para alguns pacientes de hospitais nos Estados Unidos.

A FDA, agência americana que regula os setores de medicamentos e alimentos, acaba de aprovar o primeiro algoritmo que pode prever mortes repentinas por episódios cardiorrespiratórios.

Trata-se de um software que analisa os dados de pacientes monitorados em hospitais e calcula o risco que existe de eles virem a sofrer um ataque cardíaco ou uma falha respiratória.

O algoritmo, que foi desenvolvido utilizando os registros médicos de milhares de pacientes, pode detectar qualquer um desses episódios até seis horas antes de sua ocorrência e alertar médicos e enfermeiros.

"Hoje em dia, os serviços de saúde estão atravessando uma tempestade perfeita: as pessoas vivem mais anos, mas têm mais doenças crônicas. E muitos dos médicos com mais experiência estão se aposentando", diz à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Lance Burton, diretor-geral da ExcelMedical, empresa médica tecnológica que desenvolveu o algoritmo.

"Os pacientes estão sendo monitorados, mas muitas vezes os médicos e enfermeiros só reagem quando ocorre um evento catastrófico, não antes", afirma ele.

Em muitos hospitais, os profissionais do saúde precisam cuidar de muitos pacientes ao mesmo tempo. E mesmo que houvesse pessoas dedicadas exclusivamente a coletar e a analisar os sinais vitais, é improvável que pudessem antecipar todos os problemas.

"Nós, humanos, não podemos processar toda a informação de um paciente. Fica muito difícil poder saber quando ele irá piorar", explica Burton.

O sistema, batizado de Plataforma Clínica WAVE, cruza toda a informação e "antecipa padrões nas informações que não são reconhecidas pelo olho humano".

Mas mesmo que o sistema pareça promissor, ele ainda não pode ser utilizado fora do ambiente de uma unidade de terapia intensiva.

Os criadores da plataforma esperam, porém, um dia também conseguir desenvolver um sistema que antecipe e previna ataques cardiorrespiratórios na população em geral.

Outra limitação do WAVE é que ele não pode antecipar derrames cerebrais, outra das causas mais frequentes de invalidez e de morte.

Terceira causa de morte

De acordo com uma pesquisa da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, 10% de todas as mortes ocorridas nos Estados Unidos se devem a erros médicos.

Essas mortes inesperadas ou evitáveis que ocorrem nos hospitais, muitas vezes devido à incapacidade das equipes de saúde para detectar os riscos, comunicá-los e atuar antes dos sinais clínicos de piora, representam a terceira causa de morte no país.

Os criadores da plataforma WAVE acreditam que muitas das mais de 250 mil pessoas que morrem em decorrência disso todos os anos no país (números da pesquisa da John Hopkins) poderiam ter sido salvas.

O sistema é muito simples de usar e não necessita de nenhum equipamento específico - ele utiliza o sistema de monitoramento já existente na maioria dos hospitais.

O software analisa cinco variáveis-chave: o ritmo cardíaco, o respiratório, a pressão sanguínea, a temperatura corporal e a saturação de oxigênio.

Por meio de um aplicativo de celular, tablet ou computador, a equipe de saúde dos hospitais pode acessar esses dados em tempo real.

Ou seja, é possível monitorar os pacientes sem estar a seu lado - e até sem necessariamente estar no hospital.

Mas a grande novidade do WAVE é seu algoritmo único, que tem o nome oficial Visensia Safety Index.

Esse algoritmo - o primeiro do tipo a receber o selo de "bom" da FDA - cruza toda a informação sobre cada paciente e quantifica seu nível de risco em uma escala que vai de 0 a 5.

Isso permite aos médicos e enfermeiros precisar checar apenas esse dado para saber o estado dos pacientes.

Se algum deles ultrapassa o número 3 na escala, o sistema automaticamente envia um alerta para que a equipe médica faça alguma intervenção.

Os testes clínicos com o ExcelMedical no Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, foram bem-sucedidos.

Entre os pacientes que não utilizavam o WAVE, houve seis mortes inesperadas em um período de oito semanas. Entre aqueles monitorados com o software, nenhuma.

Nem todos podem ser salvos

O diretor-geral da ExcelMedical, que desenvolveu o algoritmo, reconhece que nem sempre uma detecção precoce irá salvar um paciente de um iminente ataque cardíaco ou falha respiratória.

"Há pacientes que entram em um hospital e que sabemos que não irão sair", afirma Burton.

"Queremos ajudar especificamente aqueles que morrem de maneira inesperada, que sofrem uma piora seja por complicações após uma operação de rotina ou devido ao efeito de certos medicamentos", exemplifica.

Burton conta que a empresa está trabalhando no desenvolvimento de outros algoritmos que poderiam antecipar - e no final prevenir - causas conhecidas de morte. "Nosso próximo projeto é sobre septicemia", diz, referindo-se à infecção que afeta 20 milhões de pessoas por ano no mundo e mata 8 milhões.

Por que mulheres morrem mais do que homens após ataques cardíacos

Menos mulheres morreriam depois de sofrerem ataques cardíacos se recebessem o mesmo tratamento dado aos homens, revelou um estudo feito por pesquisadores britânicos e suecos.

Cientistas analisaram os casos de 180.368 pacientes suecos nos dez anos que sucederam um infarto. Eles descobriram que as mulheres tinham três vezes mais chances de morrer de um ataque cardíaco no ano seguinte após sofrer um.

Segundo a Fundação Britânica do Coração, infartos geralmente são erroneamente vistos como um problema masculino. Mas lembra que o número de mulheres que morrem vítimas de doenças cardíacas supera o daquelas que morrem de câncer de mama, por exemplo.

Pesquisadores da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e do Instituto Karolinska, da Suécia, analisaram dados de um registro sueco online de ataques cardíacos. Com base nessas informações, eles perceberam que as mulheres tinham menos chance de receber tratamento adequado após um infarto que os homens.

"Há uma concepção equivocada do público em geral e de profissionais de saúde sobre as características de um paciente cardíaco", afirma o professor Chris Gale, da Universidade de Leeds, coautor da pesquisa.

"Quando pensamos num paciente que sofreu ataque cardíaco, imaginamos um homem de meia-idade, acima do peso, com diabetes e fumante. Mas esse não é o sempre o caso. O infarto afeta uma fatia bem maior da população, inclusive mulheres."

Diferença de gênero

O estudo revelou que as mulheres têm 34% menos chance de serem submetidas a procedimentos para desbloquear artérias, como ponte de safena.

Elas também têm 24% menos possibilidade de receberem prescrição para medicamentos com estatina, que podem prevenir um segundo ataque cardíaco, e têm 16% menos chance de receberem prescrição para uso de aspirinas, que ajudam a prevenir coágulos sanguíneos.

O protocolo médico indica esses tratamentos tanto para homens quanto para mulheres.

A pesquisa revelou que, quando as mulheres recebem os tratamentos recomendados, a diferença de mortalidade entre os dois sexos cai em quase todas as circunstâncias.

Segundo Gale, mulheres têm menos chance de serem submetidas aos mesmos testes ao darem entrada nos hospitais, o que faz com que tenham risco 50% maior de receberem um diagnóstico errado.

Na avaliação do pesquisador, esse primeiro erro contamina todos os procedimentos médicos subsequentes.

"Se você erra na primeira oportunidade para tratamento, você tem mais chance de errar o próximo atendimento necessário. E isso vai se acumulando, levando a uma mortalidade maior."

Outras doenças

A pesquisa revelou ainda que as mulheres correm mais risco de sofrerem de outras doenças, como diabetes e pressão alta, mas isso não explica por completo a diferença na proporção de mortes.

Para os cientistas, a discrepância na mortalidade e no tratamento médico entre homens e mulheres pode ser ainda maior em outros países, onde há mais casos de problemas cardíacos e maior variação nos serviços de saúde.

"A Suécia é líder em serviço de saúde de qualidade, com uma das menores taxas de mortalidade por ataque cardíaco, e, mesmo assim, ainda vemos disparidades nos tratamentos entre homens e mulheres", diz Gale.

O professor Jeremy Pearson, do Instituto Britânico do Coração, afirma que os achados da pesquisa são "preocupantes".

"Nós precisamos urgentemente nos conscientizar desse problema, que pode ser facilmente corrigido. Ao assegurar que mais mulheres recebam tratamento adequado, estaremos ajudando a evitar que famílias passem pela dor de perder entes queridos por problemas cardíacos."

 

Fonte: BBC Brasil/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!