01/02/2018

Nunca na história deste país a cultura popular foi tão desvirtuada

 

Nunca devemos ter ilusões plasmadas desde discursos sem materialidade concreta. Nunca devemos acreditar que a vida é estática, sem possibilidade de mudança.

Nunca devemos construir nossas histórias, sobre bases frágeis de inclusão aparente, de artificialismo hegemônico, de vida mecanizada pela compra e venda, em um abandono concreto do que de fato tem valor para além do capital.

Nunca estivemos tão distantes de um projeto societário alternativo ao capitalismo como hoje. E nunca como esquerda estivemos tão distantes de uma unidade de classe, a partir das nossas diferentes lutas com um foco comum na formação política dirigida na estratégia e tática de consolidação do poder popular.

Nunca o capitalismo foi tão explícito sobre suas concretas relações materiais de poder ancoradas na inclusão de alguns poucos e na exclusão de muitos no acesso à vida em geral. Nem os mandatários do poder no sistema capitalista foram tão verdadeiros no seu domínio sobre o mundo, na sua condição miserável de estereotipar e negar a vida em suas diversas formas à maioria.

Nunca na história recente do capitalismo a ética protestante foi tão associada à desumana naturalização de um processo socialmente construído como a exclusão, a criminalização, frutos da propriedade privada sobre a vida e sobre a morte. A cotidianidade da violência é tal que, não é necessário ler textos sobre as desigualdades para que qualquer um de nós a veja em todas as partes do globo.

Nunca, apesar das múltiplas crises cotidianas protagonizadas pelo capital, foi tão difícil acreditar em mudança como na conjuntura atual do mundo. Nem o medo foi tão vitorioso, a solidão e o abandono e a tristeza tão reais como no dia a dia de nossas vidas.

Nunca o trabalho foi tão desvalorizado, as mulheres tão violentadas dentro e fora de casa, nem as dívidas tão estratosféricas para nós que vivemos na era da especulação e da miserável condição humana atrelada a ela.

Nunca na história…

Nunca na história da América Latina e do Caribe tivemos a oportunidade de ter exemplos tão explícitos sobre o que é a dialética, a contradição, a desigualdade estrutural. Sem precisar ler Marx, Engels, Lenin, Rosa, é possível falar sobre a dialética no dia a dia, tamanho o fosso entre os que têm a partir do saqueio dos que com nada ficaram.

Nunca na história da América Latina e do Caribe o extrativismo foi tão degradador e violento contra os povos originários, e contou com tanta tecnologia a seu favor para as expulsões e os crimes e castigos de nossos tempos. Nunca também o agronegócio foi tão pop, tão tudo, como na sanguinária capacidade de envenenar a terra e os alimentos responsáveis por fazer das espécies seres capazes de se reproduzirem em seus habitats naturais e sociais.

Nunca na história recente da América Latina a dependência estrutural se agigantou tanto a partir da era da dívida como carro-chefe da sociedade especulativa, e o imperialismo comprou tanta terra no campo, terreno nas cidades e representantes na política. Nunca também o ideário de revolução foi tão necessário e ao mesmo tempo figurou como tão distante de nosso cotidiano como agora.

Nunca na história contemporânea tivemos tantos condenados da terra, tantos cativeiros revelados e tanto pavor ao convívio social. Nem tivemos tantas perdas, assassinatos e violências generalizadas, sem julgamentos (crimes dos mandatários do capital), em contrapartida a ausência de defensoria pública para um grupo massivo de sujeitos da classe trabalhadora, suspeito de algo que ainda não foi julgado, mas que mofam no sistema prisional aguardando uma absolvição que não chega, com base em uma suposição, não confirmada, sobre os furtos, e/ou atentados sobre patrimônios e pessoas.

Nunca na história contemporânea havíamos chegado a tão alto nível de dependência econômica, social, psíquica e química como agora. Nunca na história contemporânea havíamos nos deparado de forma tão aberta para a condição de compreensão cotidiana sobre a prática do poder de uma classe sobre a outra e para o significado concreto sobre o papel do estado de direito em uma sociedade de classes.

Nunca na história recente havíamos tido tão rapidamente, dada a velocidade técnico-científica da geração online (4g), acesso às regras do poder e seus usos políticos a partir de seus aparelhos ideológicos, na condução da vida de todos a partir de seus preceitos (i)morais. Nunca, na historia recente do capitalismo, havíamos aprendido tão rapidamente qual o papel da educação, da religião e da família: educar para uma individualidade desmedida, para uma concorrência atroz, para um consumo sem freios e para um futuro a partir de um presente sem história, sem passado, sem encontros.

Nunca na história da humanidade foi tão difícil definir a condição humana, reforçar valores ético-morais com primazia para o ser, e não para o ter, e valorizar as relações afetivas como ato político de quem constrói relações sociais cotidianas.

Nunca na história deste país…

Nunca na história deste país o medo e a letargia tinham vencido tão rapidamente a esperança, os gritos e os sonhos. Nunca na história desse país nós trabalhadoras e trabalhadores, havíamos estado tão órfãos de projetos, de representações e de acesso às disputas como agora.

Nunca na história deste país o extermínio da população pobre e negra, a judicialização dos trabalhadores e movimentos sociais e a criminalização dos oprimidos foram tão massivos no massacre, em um período dito democrático, como na civilizada ordem burguesa atual. Nunca na história desse país um político, com seu histórico discurso de esquerda, havia se vendido tanto para o capital a partir das coligações efetuadas em nome de uma ideia de progresso e desenvolvimento. Tampouco havia sido tão defendido pelos movimentos de massa, como na história recente.

Nunca na história deste país a cultura popular foi tão desvirtuada pelos meios de comunicação, o território popular tão apresentado como periferia, do mal, e o popular tão desconfigurado em seu sentido. Nunca na história desse país a educação foi tão financiada por grupos de interesses mercantis, abrigados nas asas do moderno estado de direito. Nem homens e mulheres da classe trabalhadora haviam vivenciado a exposição de suas vidas, suas ideias tão ridicularizadas e seus dorsos tão curvados como agora.

Nunca na história deste país a mídia foi tão rapidamente manipuladora e os agitadores da direita foram tão ofensivos na sua capacidade de manejar o leme do navio sobre os diversos corpos atirados na água devido às migrações forçadas.

Nunca na história deste país o sistema prisional foi tão robusto: 726 mil presos, sendo mais de 50% jovens e 65% negros, dados atuais do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (2017).

Nunca na história deste país a periferia foi tão grande nas cidades e tão obrigada e remoções forçadas como agora. Nunca na história desse país os transgênicos foram tão hegemônicos, os enlatados a forma de consumo central e o sistema prisional dos condomínios com projeção ampliada frente a morte dos espaços públicos.

Nunca na história deste país ficamos tão distantes de um projeto e de um poder realmente popular. Nunca como hoje foi tão evidente a necessidade de sermos muitos e organizados para frear a sanguinária máquina mortífera do capital sobre e contra a classe trabalhadora.

As condenações

A famosa frase dita pelo ex-presidente em diversas ocasiões, sempre esteve demarcada por uma postura ideológica com aparência de nova (neodesenvolvimentismo), mas sua essência não tirou o capital dos trilhos de sua bonança, servirá de guia dialógica para a reflexão.

O dia 24 de janeiro de 2018 entra para a história do Brasil como mais um momento de consolidação, na coerção, da brutal ofensiva do capital sobre o trabalho. A centralidade da judicialização sem provas, a criminalização dos que lutam e a primazia do direito penal e civil sobre os direitos sociais, o capitalismo no Brasil segue fluindo de vento em poupa.

Demarcado pelo julgamento do ex-presidente Lula, em uma acelerada correria para não legitimar sua candidatura às eleições de 2018, a condenação foi muito mais do que um juízo político sobre um indivíduo e/ou um partido político. Foi a explicitação de que a luta de classes se acirra e com ela a potencialidade do aparelho do Estado armado contra o trabalho, em benefício do capital transnacional, são a única feitura possível em tempos de queda da taxa de lucro para o capital.

O dia 24 de janeiro entra, pois, para a história do Brasil como mais uma cena macabra, ao longo da jovem república burguesa, de brutalidade e violência escancaradas contra os trabalhadores. Porque não se tratava somente de uma condenação cujas provas são frágeis, mas de um processo explícito de esvaziamento de qualquer outro tipo de poder, que não o dos senhores da casa grande do passado e do presente.

O judiciário segue sendo o território dos donos das algemas objetivas e simbólicas e ascendeu o alerta vermelho na possibilidade de terremotos sociais. Agora, após este e outros atos sumários, o judiciário está apto, a partir das regras feitas por ele mesmo, para armar-se contra a classe trabalhadora e a favor das contrarreformas. Processos estes que definem a estrutura jurídico-política inerente ao contínuo exercício militar historicamente dirigido contra os trabalhadores.

Ante o cenário de barbárie política, definida como ascensão, na base da força, via intensificação da superexploração da força de trabalho e da agudização da precarização, nunca na história desse país foi tão necessário recobrar as energias para lutar e conformar projetos políticos em unidade.

Porque nunca na história desse país, foi tão explícita a necessidade de consciência sobre o que está em jogo no desmonte desta nação. Processo que não foi interrompido no período de governo do PT, tampouco o será nos próximos anos de continuidade, sem freios, das políticas neoliberais que tentam contrarrestar a estrutural situação de crise inerente ao capital.

Sempre! Sempre na história! Sempre na historia deste continente e deste país encontramos brechas para sair adiante, levantar a poeira, dar a volta por cima. E, se não a encontramos, a criamos. Porque nunca, nunca na história desse país, deixou de haver movimentos de resistências, luta cotidiana nos territórios e mídias alternativas[5] relatando outros mundos necessários e possíveis em meio à desordem do capital. Porque sempre nossa história foi o palco da luta de classes. E da capacidade de nos reinventarmos como esquerda atuante sem deixar de lutar.

 

 Fonte: Roberta Traspadini, no Le Mpnde Diplomatique Brasil/Municipios Baianos

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