03/02/2018

O mito do negro passivo vai caindo por terra

 

O pesquisador Richard Santos, no artigo O negro objetificado na obra de Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes: uma análise das narrativas sócio-históricas na construção do pensamento social brasileiro, publicado na revista Africa e Humanidades, ao desmontar o espetáculo em volta da objetificação do negro na obra de Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes, afirma a importante contribuição do marxista brasileiro Clóvis Moura em tal empreitada.

É a partir do trabalho desse pesquisador que buscamos neste texto destacar alguns pontos da excelente análise advinda de Clóvis Moura, não somente respondendo aos usos dos autores referidos, mas também de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque.

Como parece ficar claro com os argumentos de Richard Santos, a sociologia moderna brasileira está repleta de objetificação de toda ordem sobre o negro. Ao tratar dessas questões, o sociólogo Jessé Souza acusa a forte influência weberiana entre os principais pensadores brasileiros na modernidade. Na mesma direção de Richard Santos, ele não poupa ninguém, apenas Florestan Fernandes, este não poupado por Richard Santos em suas críticas.

O negro vem sendo objetificado na literatura científica brasileira na suposta resposta ao racismo biológico do século XIX. É preciso antes de tudo perceber a raiz conservadora de Gilberto Freyre, bastante ignorada por vários setores intelectuais da esquerda brasileira que passaram a utilizar, sem criticar, os termos “casa grande” e “senzala” de uma maneira tão naturalizada como se esses itens fossem fenômenos da natureza, como a chuva ou o sol.

Não obstante, a repetição de Gilberto Freyre é utilizada intimamente durante a Era Vargas, de maneira que, como este era nacionalista, usou a ideia de unidade morena para corroborar uma identidade nacional que unia todos os povos e raças. Talvez venha daí o uso mais direto de Gilberto Freyre, ao ignorar suas predisposições conservadoras, de maneira que a popularização de sua teoria se deu através de uma política de Estado na Era Vargas visando promoção de uma miscigenação que ignorava o sofrimento e a resistência histórica do povo negro.

Por outro lado, ao criticar essa versão de análise, Sérgio Buarque não avança. Em Raízes do Brasil, principal obra do autor, faz uso de uma crítica deliberada da cordialidade do brasileiro e elege o Estado como seu principal alvo. O problema dessa teoria é que ela entende o mito fundador de nossa brasilidade pela mesma ótica de Gilberto Freyre, não a desconstruindo. Porém, ao contrário dele, essa visão demoniza o equilíbrio e cordialidade, deixando entrever uma posição de passividade do povo brasileiro que não permitiria transformações mais radicais.

Quando digo que esse é o ponto de partida para a esquerda brasileira, isso se dá em três medidas fundamentais:

a) a ideia de submissão calcada na visão genética de submissão em nossa brasilidade, ignorando séculos de revoltas e movimentos insubmissos do próprio povo;

 

b) a visão do intelectual enquanto superior a essa cumplicidade com a cordialidade brasileira, que supostamente leva à inércia política desse povo;

c) a construção de um espaço de privilégio de quem analisa, não desnudando sua condição ao seu interlocutor-leitor, o que tem influenciado um espaço de análise da esquerda brasileira até hoje, de maneira que, mais do que ouvir o povo, de quem busca confiança, essa esquerda (com fortes raízes na branquitudedo Sudeste/Sul) apenas fala em nome desse povo, atribuindo a ele condições que supostamente não lhe permitem falar, como a falta de cidadania e conhecimento pleno de sua realidade.

Eu poderia dissecar neste texto todos esses argumentos (o que pretendo fazer em outros textos), mas pretendo apresentar brevemente alguns pontos acertadíssimos advindos da obra de Clóvis Moura que melhor respondem a Gilberto Freyre e Sérgio Buarque.

Em sua principal obra, Rebeliões na Senzala, Clóvis Moura, que vem de tradição não acadêmica, esgota os dados sobre os processos civilizatórios de insubmissão do povo negro ao trabalho escravo durante séculos. Em primeiro lugar, afirma ele, houve sempre resistência à escravidão onde o trabalho escravo mais se concentrou. Ou seja, em todos os lugares onde houve concentração do trabalho escravo houve resistência. A resistência ganhou qualidades distintas, desde a participação de negros forros, livres ou escravos em movimentos de independência do país, até a organização em torno de quilombos e guerrilhas.

Os negros, ao participarem da Inconfidência mineira, Cabanagem, Revolução Farroupilha, Balaiada, ou terem liderado a Inconfidência baiana, o faziam elegendo como prioridade a luta contra o colonialismo, visando que, com a independência, a abolição da escravatura seria o próximo passo de luta.

Como nos lembra Clóvis Moura, dificilmente houve algum movimento pró-independência do país sem a participação dos negros. Entretanto, é com os movimentos mais radicais contra a escravidão que o papel do negro vai se delinear melhor. Onde houve concentração do trabalho escravo também se deram narrativas em jornais e documentos sobre sujeitos negros, aquilombados ou não, que cercavam pessoas (geralmente feitores, donos de fazendas etc.) na estrada a caminho de suas propriedades e roubavam mantimentos e armas, além de libertar os irmãos negros.

A formação de guerrilhas, urbanas ou não, tem relação simbiótica com o surgimento de quilombos, seja nas matas ou na própria área urbana, como é o caso do quilombo do Cabula, em Salvador. Como observamos ainda, esses sujeitos donos de sua história trabalhavam contra a escravidão entre si, mas também compuseram movimentos grandes, como se deu na Inconfidência baiana, que obteve apoio dos quilombos que iam de Salvador até Cachoeira. A consciência racial desses negros era impressionante, de maneira que líderes negros chegaram a criar reinados africanos na Bahia, enquanto outros se organizavam naquela que foi a primeira greve de trabalhadores no país, a revolta no Engenho de Santana, atual Rio de Engenho-Ilhéus, BA, em 1789 (no mesmo ano da Revolução Francesa).

Desmontar a tese cordial do negro submisso fica mais fácil quando a pesquisa precisa de Clóvis Moura alcança a organização dos quilombos. Os muitíssimos quilombos analisados em sua obra permitem concluir altos níveis civilizacionais de auto-organização, de maneira que alguns deles constituíram reinados, com exércitos, com mais de 20 mil homens e com duração de mais de 20 anos.

Não se pode negar a importância dessa tese para desconstruir os mitos em volta do racismo epistêmico reforçado através da obra de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque. O autor não somente mostra insubmissão, mas elevada capacidade de organização, como o que se deu na República de Palmares, um gigantesco complexo de quilombos que resistiu à escravidão durante mais de 20 anos na antiga Capitania de Pernambuco (hoje estado de Alagoas), com exército próprio e níveis hierárquicos complexos.

Estamos aqui falando não somente de auto-organização bélica, mas também de subsistência, através da alta qualidade de cultivo e de condições sexuais que desafiariam a moralidade constituída em volta da branquitudee da burguesia (como é o caso da poliandria presente na República, de modo que havia menos mulheres do que homens).

Uma tese que fala de estratégias e levantes do povo negro não pode ser ignorada durante muito tempo, e é de se abismar que o pensamento social brasileiro tenha feito isso de maneira tão natural durante quase um século. Por outro lado, esse mesmo pensamento social promove força ilocucionária racista toda vez que imagina o negro como parte integrante natural da atividade econômica do país nesses séculos sem produzir nenhuma crítica dessa condição.

Ignoram que o trabalho escravo não era e não é um fenômeno da natureza e veem sempre a “casa grande” e “senzala” numa dialética radical da branquitude

Em que essas “paisagens” são vistas a partir de um Sudeste no século XIX, depois de ocorrida a maior parte das revoltas populares e negras contra a escravidão, cujo debate da abolição teve absorção dos meios de comunicação e daqueles que já viam a escravidão como um prejuízo contra a atividade econômica do país e não como um processo imanente de direito do povo negro. Além disso, essa visão pare uma análise caolha e muito romantizada do negro.

É esse o negro da obra de Bernardo Guimarães, muitas vezes escrito como cúmplice do seu senhor. Ou então esses pensadores dinamizam uma visão nietzschiana da moral do escravo, não historicizando essa noção.

Por último, ignoram a máxima defendida por Clóvis Moura de que o fim oficial do trabalho escravo se deu através dos imensos prejuízos produzidos pelos negros ao sistema escravocrata durante séculos, através de levantes, quilombos e guerrilhas, e não através de posturas monocráticas e plutocráticas de meia dúzia de intelectuais do Sudeste. É preciso, antes de tudo, dar voz a quem fala há muito tempo para os surdos epistêmicos, estes sendo aqueles que veem o racismo e o ignoram, tornando-se cúmplices dele.

O racismo é implacável: as diferenças entre privilégio e vantagem social. Por Juliana Borges

Estes dias, eu estava participando de um diálogo sobre machismo. Em um dado momento, afirmei categoricamente, e sem me aprofundar, que homens negros não tem privilégios, mas vantagens sociais. Fui indagada depois sobre isso, já que não me aprofundei, e acabei não respondendo porque penso que para explicar o que eu estava afirmando, eram necessárias mais do que meia dúzia de linhas numa rede social.

Daí que acontece uma situação que eu vejo como um case para esta diferença de conceitos que precisamos começar a trabalhar de modo mais coerente em nossos ativismos e militâncias. Essa semana mesmo, eu tive que alertar uma companheira negra de pele clara que ela não tinha privilégios, mas vantagens no sistema de opressão. Parece pouco, mas isso é importantíssimo porque garante e denota sentido de coletividade e evita que caiamos nas armadilhas racistas do colorismo, por exemplo.

Voltando ao tema, eu poderia estar escrevendo um super textão de apoio e defesa de homens negros em relação ao que duas “rappers” brancas fizeram sobre eles em um vídeo. Mas, diante das complexidades e de como o racismo opera ao ponto de fazer com que muitos homens negros (eu já garanto aqui, ao usar o “muitos”, de que eu sei que “nem todos”, portanto, guarde seu comentário) ataquem e desqualifiquem mulheres negras e muitos outros, quiçá, defenderão aquele vídeo e posicionamentos de conteúdo racista. Por isso, penso que o debate deve ser outro. O de aproveitar determinadas situações para discutirmos estruturalmente, e não como “troco” ou “revenge”, as opressões que vivemos.

Quando Neusa Sousa Santos nos fala sobre o processo de “tornar-se negro”, ou quando Isildinha Nogueira também se utiliza da psicologia e psicanálise para tratar da opressão racial, aprendemos com elas que o racismo afeta não apenas as relações sociais, econômicas, culturais, políticas, institucionais e de gênero, atinge também nossa psiquè. E a atinge ao ponto de conseguirmos constatar um padrão comportamental entre uma maioria de homens negros que ascendem seja culturalmente seja economicamente: de abandonar parceiras negras e passar a se relacionar apenas com brancas. Isto pode ser discutido tanto como os estudos e conceitos de “solidão da mulher negra”.

É a busca, mesmo que inconsciente, e na maioria das vezes o é, de demonstrar publicamente esta ascensão buscando o pólo de positividade em uma sociedade de desigualdades baseadas em hierarquias raciais. Ora, se tudo o que é negativo é negro, logo, a busca de parceria afetiva pública para demonstrar, também, esta ascensão é o relacionamento com mulheres brancas. Isto ocorre mais em relação a homens negros do que em relação a mulheres negras, porque temos aí a intersecção com a opressão machista.

Ou seja, esse seria mais um exemplo e consequência desta “vantagem”, e não privilégio, que o homem negro tem em relação a mulher negra na pirâmide das desigualdades.

Pois bem, e por que, então privilégios são diferentes de vantagens?

Segundo a definição em dicionário, “privilégio” está mais acompanhado de uma denotação “coletiva”. Ou seja, seria a prerrogativa de um grupo em relação a outro; riqueza ou conforto de uma minoria política, étnica, social em detrimento de uma maioria; uma superioridade determinada, amparada ou não por leis que, ainda segundo o dicionário, seria “decorrente da distribuição desigual de poder político e/ou econômico”.

Se formos a raiz etimológica da palavra, “privilégio” vem de privilegium no sentido de excepcionalidade, inclusive garantida em lei, para poucas pessoas. É como se a “graça”, ou a “sorte”, no sentido clássico destas palavras, fosse atribuída a um grupo de escolhidos. Aliás, é dessa ideia toda que há conflito entre os conceitos e ideias de “diferença” e “desigualdades”, papo para outro artigo.

Já “vantagem” aparece, normalmente, com um viés mais individual. Seria o “adiantamento” de um indivíduo em relação a outro; algo que beneficia quem tem a vantagem. A raiz etimológica é francesa, de “avantage”, que significa “estar à frente”.

Se pensarmos estes conceitos de modo sociológico, político, filosófico, antropológico, podemos estabelecer, portanto, estas diferenças importantes para tratarmos de um sistema de desigualdades baseado em hierarquias raciais. Com isso, “privilégio” seria o conceito para o campo sistêmico-estrutural, posto que envolve controle de poder econômico, político, cultural, institucional e uma utilização das diferenças como desigualdades, ao passo que se constrói um nivelamento e relação entre superiores e inferiores nas sociedades.

Já o conceito de “vantagem” seria utilizado para denotar estas vantagens, no interior destas desigualdades e experiências diferentes neste sistema de opressão. Para se aprofundar mais sobre isso, há importante literatura sobre o que se costumou chamar “teoria do privilégio” (Du Bois, 1935; Ignatin; Allen; 1967; Bourdieu, 1989; etc.).

Neste sentido, o vídeo das “rappers” brancas que objetificam e aprofundam os estereótipos que são utilizados para manter em plena e efetiva execução o genocídio da população negra, prioritariamente de homens negros é um case importante, porque retoma que mulheres brancas podem oprimir e que se beneficiam dos privilégios, agora sim!, da branquitude.

Um vídeo que se pretende feminista, se utiliza do racismo para, sem o menor pudor, afirmar “empoderamento” (sic) de mulheres brancas. Angela Davis, em “Mulheres, Raça e Classe”, tem capítulos inteiros em que exemplifica e conceitua como se realizam estas relações e como, com isso, se consolida a pirâmide político-econômico-sócio-racial que, posteriormente, Michelle Alexander chamará, muito bem, de sistema de castas raciais.

Recentes estudos do IPEA explicitaram o sistema de castas raciais em nosso país. Mesmo em períodos de ampla expansão econômica, geração de trabalho, emprego e renda, acesso a bens de consumo, a pirâmide racial não se moveu no país. Homens brancos seguem no topo; seguidos de mulheres brancas; seguidas de homens negros; seguidos de mulheres negras – e é cada vez mais preciso que estudos passem a visibilizar em qual lugar desta pirâmide sócio-racial encontram-se os homens e mulheres indígenas.

Isto, contudo, não significa apagar que homens negros podem e são machistas. Isto não apaga que homens negros seguem com um padrão comportamental que pretere e exclui mulheres negras.

Contudo, homens negros, machistas ou não, seguem não detendo os meios de produção e poder.

Nisso, as estruturas de opressão interseccionadas garantirão o privilégio à branquitude. Homens negros seguem sendo os mais assassinados, como já disse, são o alvo preferencial da violência policial. Por isso que Patricia Hill Collins afirmará que o Feminismo Negro, necessariamente, defende liberdade para mulheres e homens negros, dado que o sentido de luta de liberdade relacionada a liberdade coletiva é um princípio de ser e existir do feminismo negro.

Ou mesmo retomando Angela Davis, ao dizer que nunca se afirmou feminista, que é uma mulher negra revolucionária não porque nega o feminismo, mas porque luta contra estruturas de opressão e por libertação radical nas sociedades – isso, sem antes esquecermos de pontuar que ao fazer esta afirmação, a filósofa faz questão de pontuar que é o feminismo interseccional que tem mais garantido esta visão de construção das diferenças como potências de transformação radical.

Ao feminismo liberal, e necessariamente branco, conforme alerta Davis, cabe reflexão e se enxergar e racializar. Às parcelas consideráveis de homens negros também cabe a reflexão de até que ponto se pode continuar em negação interna contínua, preterimento de mulheres negras sob o argumento de “gosto” como se não fossemos seres políticos e, portanto, condicionados socialmente.

As relações sociais também são políticas.

Não se trata aqui de defender ou não a negação de um padrão comportamental para estabelecer outro. Mas de fazermos reflexões mais profundas das nuances e da profundidade do racismo discriminatório em nosso país. Lutar contra o racismo passa também por nos repensarmos não apenas como sociedade do ponto de vista econômico, político e institucional, mas também cultural, comportamental, psíquico.

Infelizmente, “ a regra é clara”, a matemática explícita e o racismo implacável.

 

Fonte: Por Gabriel Nascimento, no Justificando/Municipios Baianos

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