05/02/2018

Os que fritam o planeta e a geoengenharia

 

Na semana passada, vazou na imprensa um relatório sobre mudança climática que está sendo preparado pelo Painel Intergovernamental de Especialistas sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Trata-se de um relatório sobre os impactos do aquecimento global a 1.5ºC sobre os níveis pré-industriais. Segundo dados obtidos por Reuters, caso se siga no ritmo atual de emissões, este limite já será superado em 2040, o que acarretará impactos graves sobre muitos países, principalmente estados ilhas e com costas baixas, danos provavelmente irreversíveis a recifes de coral (que são o primeiro elo da cadeia alimentar marinha) e o derretimento do gelo na Groenlândia e Antártida ocidental. Embora o relatório seja um esboço e o IPCC tenha declarado que pode mudá-lo após as revisões pelas quais passará, os dados da ciência não mudarão. O que pode – e deveria – mudar são as propostas que o IPCC faz diante desta realidade.

O Acordo de Paris sobre mudança climática que foi assinado por 197 governos, em 2015, estabeleceu a meta de que o aumento do aquecimento global seja “muito abaixo de 2ºC” até 2100. Com os dados revelados, há um risco muito alto de que se ultrapasse essa meta muito antes dessa data. A única maneira de evitar tal situação seria que, imediatamente, fosse colocado em andamento reduções drásticas de emissões de gases de efeito estufa (GEI) em nível global. O IPCC havia afirmado desde antes a necessidade destas reduções, mas este relatório apresenta, além disso, que será necessário remover o excedente de dióxido de carbono da atmosfera por outros meios, como tecnologias de geoengenharia.

O clima planetário já esquentou 1ºC em média, desde de seus níveis pré-industriais, mas, na realidade, três quartos ocorreram nos últimos 50 anos, devido ao aumento vertiginoso de emissões de gases do efeito estufa. Essas emissões são provocadas em sua maioria pelas economias industriais baseadas em combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão). As principais atividades emissoras são a indústria de extração e produção de energia, o sistema alimentar agroindustrial e o crescimento urbano descontrolado, incluindo os transportes, que envolvem todos esses itens.

O IPCC não está olhando, agora, quais atividades causam as emissões. Supõe-se que isto já foi realizado nos relatórios de avaliação globais que elaboram periodicamente. O mais recente é seu Quinto Relatório, que foi publicado em 2014. O próximo será publicado em 2021.

Um aspecto de enorme relevância que o IPCC não considera é a enorme desigualdade que existe entre aqueles que causam as emissões de gases do efeito estufa. 10% da população mais rica do planeta é responsável pela metade de todas as emissões globais. No outro extremo, 50% da população mundial, começando a partir dos mais pobres, não causa nem 10% das emissões totais. O nível médio de emissões geradas por uma pessoa que faz parte dos 10% mais pobres da população mundial é 60 vezes inferior ao de alguém que pertence aos 10% mais ricos. (Oxfam, 2015). Segundo Kevin Anderson, do Centro Tyndall de pesquisa sobre mudança climática, se a população mais rica do planeta reduzisse seu nível de vida a média europeia, se reduziriam 30% das emissões de gases do efeito estufa.

Não obstante, estes dados não são considerados pelo IPCC. Em geral, nas negociações de mudança climática – e também no IPCC, que finalmente é uma instância não só técnica, como também política – há um pacto dos governos nas regiões que mais emissões causam para não interferir nos lucros dos mais ricos, incluídas as transnacionais petroleiras e outras que lucram com as atividades que geram o caos climático.

Ao invés disso, que seria o necessário, o IPCC propõe técnicas de geoengenharia, como grandes plantações para bioenergia com sistemas de captura e armazenamento de carbono em fundos geológicos (BECCS). No Quinto Relatório global do IPCC, já incorporaram esta técnica como uma das possíveis “soluções” para amenizar o aquecimento global, o que motivou muitas críticas, tanto de organizações da sociedade civil, como de cientistas, porque a necessidade de terra, água e nutrientes das grandes plantações para “bioenergia”, para realmente afetar a mudança climática, seria maior que toda a terra usada atualmente na agricultura. Portanto, competiria de forma devastadora com a produção de alimentos e deslocaria camponeses e indígenas, com forte impacto na biodiversidade.

BECCS, assim como todas as propostas de geoengenharia, nunca vai às causas da mudança climática – propõe remover carbono quando já foi emitido –, razão pela qual esta continuaria em curso, gerando assim um negócio cativo para aqueles que vendem as tecnologias para absorver e armazenar carbono. Casualmente, muitas vezes, são as mesmas empresas petroleiras (Exxon, Shell e outras). Empresas que, como explicamos em um artigo anterior, inclusive, possuem dois de seus empregados aceitos pelo IPCC como autores deste relatório.

Desmatamento pode intensificar o processo de aquecimento global

O alerta foi publicado na Nature Communications por um grupo internacional de cientistas. Entre os autores do texto estão os brasileiros Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP), e Luciana Varanda Rizzo, professora do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Unifesp.

“Se continuarmos destruindo as florestas no ritmo atual – cerca de 7 mil km2 por ano no caso da Amazônia –, daqui a três ou quatro décadas teremos uma grande perda acumulada. E isso vai intensificar o processo de aquecimento do planeta independentemente do esforço feito para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, disse Artaxo à Agência FAPESP.

As conclusões do estudo se baseiam em trabalhos de modelagem computacional e medidas coletadas em florestas sob a coordenação de Catherine Scott, pesquisadora na Universidade de Leeds, no Reino Unido.

Após anos coletando informações sobre o funcionamento das florestas tropicais e temperadas, os gases emitidos pela vegetação e seus impactos na regulação do clima, o grupo foi capaz de reproduzir matematicamente as condições atmosféricas atuais do planeta, incluindo concentrações de aerossóis, compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês) antropogênicos e biogênicos, ozônio, dióxido de carbono, metano e também os demais fatores que influenciam na temperatura global – entre eles o chamado albedo de superfície (a fração da radiação solar refletida de volta para o espaço em comparação à fração absorvida, que muda de acordo com o tipo de cobertura da superfície).

Foi usado no estudo um modelo numérico da atmosfera desenvolvido no Met Office, agência nacional de meteorologia do Reino Unido.

“Depois que conseguimos regular o modelo para reproduzir as condições atuais da atmosfera terrestre e o aumento da temperatura do planeta ocorrido desde 1850, fizemos uma simulação em que o mesmo cenário era mantido, mas todas as florestas eram eliminadas. O resultado foi uma elevação significativa de 0,8 ºC na temperatura média. Ou seja, hoje o planeta estaria em média quase 1 ºC mais quente se não houvesse mais florestas”, comentou Artaxo.

Os estudos revelaram ainda que a diferença observada nas simulações se deve principalmente às emissões de BVOCs (compostos orgânicos voláteis biogênicos) pelas florestas tropicais.

“Ao serem oxidados, os BVOCs dão origem a partículas de aerossol que esfriam o clima refletindo parte da radiação solar de volta ao espaço. Uma vez que a floresta é derrubada, ela deixa de emitir BVOCs e este resfriamento deixa de existir, levando a um aquecimento futuro. Este efeito não estava sendo levado em conta em modelagens anteriores”, comentou Artaxo.

Segundo o pesquisador, as florestas temperadas produzem VOCs diferentes e com menor capacidade de dar origem a essas partículas esfriadoras.

Coleta de dados

Como destacado no artigo, atualmente a vegetação cobre um terço da área continental do planeta – fração bem menor do que a existente antes da intervenção humana. Grandes áreas florestais na Europa, Ásia, África e América já foram derrubadas.

As informações sobre o funcionamento das florestas tropicais começaram a ser coletadas em 2009 na Amazônia, sob a coordenação de Artaxo, no âmbito de dois Projetos Temáticos apoiados pela FAPESP: “GoAmazon: interação da pluma urbana de Manaus com emissões biogênicas da Floresta Amazônica” e “Aeroclima: efeitos diretos e indiretos de aerossóis no clima da Amazônia e Pantanal”.

Os dados sobre as florestas temperadas foram obtidos na Suécia, na Finlândia e na Rússia, sob a coordenação de Erik Swietlicki, da Universidade de Lund (Suécia).

“Vale ressaltar que não tratamos neste artigo do impacto direto e imediato das queimadas, como a emissão do carbono negro [considerada um fator importante no aquecimento global devido à alta capacidade dessa partícula de absorver a radiação solar]. Ele existe, mas dura somente algumas semanas. Estamos olhando para efeitos de longo prazo na variação da temperatura”, afirmou Artaxo. Segundo o professor do IFUSP, o desmatamento altera em definitivo a quantidade de aerossóis e de ozônio na atmosfera do planeta, o que muda todo o balanço radiativo da atmosfera.

“A partir deste estudo aumentou a importância relativa de se manter a floresta em pé. Não só é urgente parar a destruição, como também pensar em políticas de reflorestamento em larga escala, principalmente em regiões tropicais. Caso contrário, pouco vai adiantar o esforço para reduzir as emissões de gases estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis”, disse Artaxo.

 

Fonte: America Latina en Movimiento (ALAI)/Agencia Fapesp/Municipios Baianos

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