04/02/2018

Como operam os clãs que formam a máfia italiana

 

Em uma ampla e extensa operação contra a máfia, a polícia italiana tem prendido nos últimos dias dezenas de suspeitos em Nápoles, Roma e na Sicília. A lista de crimes atribuídos aos presos é extensa: tráfico de drogas e de armas, extorsão, suborno e roubos de obras de arte.

As ações desses grupos criminosos fizeram com que a máfia italiana fosse conhecida em todo o mundo.

  • Mas quem são os atuais clãs que a compõem?

Máfia siciliana: Cosa Nostra

Os sicilianos estabeleceram um modelo para outras máfias. Os membros do grupo começaram a transmitir seus preceitos no século 19 e, a partir daí, cresceram em poder e sofistificação.

A Cosa Nostra, que significa algo como "assunto nosso" em tradução livre, é considerada a primeira máfia baseada em clãs familiares. Ela é famosa pelo omertà, um código de silêncio que serve para demonstrar lealdade total ao grupo. Quem a descumpre é considerado traidor e pode ser torturado ou morto. Casos de descumprimento das punições podem levar a castigos a famílias inteiras.

Os membros da Cosa Nostra continuam resolvendo disputas de negócios dessa forma, desafiando a autoridade das cortes italianas.

Muitos sicilianos odeiam a máfia por causa do pizzo, uma forma de extorsão de comerciantes locais.

A Cosa Nostra ganhou notoriedade nos Estados Unidos ao conquistar territórios. Ela acabou por se tornar uma força no crime organizado em Chicago e Nova York. Seus membros ganharam muito dinheiro vendendo bebida alcoólica durante os anos de Lei Seca, na década de 1920.

O principal negócio da Cosa Nostra atualmente é o tráfico de heroína. Segundo o FBI, a organização criminosa nos Estados Unidos hoje pouco tem a ver com os clãs da Itália.

A palavra máfia é derivada do adjetivo siciliano mafiusu, que pode ser traduzido como "arrogante" ou "audaz". O termo também é usado de maneira incorreta para qualquer quadrilha que se dedique ao crime.

Alguns clãs da máfia italiana operam de maneira global, concorrendo com outras, como a russa, a chinesa e a albanesa. Porém, algumas vezes essas gangues compartilham os crimes e os lucros.

Ao mesmo tempo, a Cosa Nostra busca influenciar a política nacional, tanto na Itália como nos Estados Unidos.

A Cosa Nostra e outros três clãs familiares, que atuam em outras regiões da Itália - a Camorra, a Ndrangheta e a Sagrada Coroa Unida -, têm cerca de 25 mil membros, além de 250 mil filiados no mundo, segundo dados do FBI.

A Cosa Nostra entrou em guerra contra o Estado italiano quando seu líder era Salvatore Riina. Conhecido como "padrinho" e "Toto", Riina assumiu seu comando em meados da década de 1970.

Em maio de 1992, seus homens detonaram a bomba que matou o juiz Giovanni Falcone, sua mulher e seus seguranças. Falcone era responsável por uma série de processos contra a máfia.

Dois meses depois, capangas de Riina voltaram a atacar com explosivos e mataram o substituto de Falcone, além de cinco de seus seguranças.

Riina morreu em novembro do ano passado, aos 87 anos, enquanto cumpria 26 sentenças de prisão perpétua por homicídios.

Buscando "diversificar" os negócios, a Cosa Nostra chegou a financiar projetos nos Estados Unidos. Uma investigação da BBC revelou em 2010 que investimentos em parques de energia eólica estavam entre os objetivos da organização.

A sociedade siciliana tem lutado contra a máfia com determinação. Um grupo antimáfia chamado Libera Terra coordena novos negócios, como hotéis, com dinheiro e propriedades apreendidos da máfia.

O professor Federico Varese, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, afirmou que a Cosa Nostra tem praticado extorsão em abrigos de imigrantes na Sicília. Por outro lado, além da repressão policial, algumas quadrilhas de imigrantes estão competindo com a máfia em algumas áreas, como a prostituição, disse Varese à BBC.

Máfia napolitana: Camorra

Estima-se que 4,5 mil pessoas pertençam aos clãs da Camorra, baseada em Nápoles e Caserta, no sudoeste da Itália.

Seu principal negócio é o tráfico de drogas e seus métodos são extremamente brutais. A organização também consegue dinheiro extorquindo construtoras, empresas de descarte de resíduos tóxicos e a indústria têxtil. A Camorra produz ainda falsificações de artigos da moda italiana.

A forma de atuar da Camorra foi documentada pelo jornalista italiano Roberto Saviano no best-seller Gomorra. Depois de receber diversas ameaças de morte, o repórter passou a viver com proteção constante de guarda-costas.

Em uma entrevista à TV pública americana PBS, Saviano explicou que a Camorra e a 'Ndrangheta eram menos hierárquicas que a Cosa Nostra, mas eram mais violentas, conquistaram mais poder e eram comandadas por chefes jovens.

Segundo ele, os grupos também estão menos envolvidos com política.

Apesar de a Camorra ter chegado à Espanha, suas principais bases permanecem em bairros pobres de Nápoles, como Scampia e Secondigliano.

Outro aspecto importante da máfia napolitana é que as mulheres desempenham um papel importante na organização, ocupando cargos como mensageiras, contadoras e responsáveis por pagamentos a outros membros.

Máfia calabresa: 'Ndrangheta

A Calábria, na região sul da Itália e próxima da Sicília, hoje é polo de negócios da 'Ndrangheta. Originalmente, era um dos redutos da Cosa Nostra.

Seu nome vem do grego "andragathia", que significa coragem e lealdade.

O FBI estima que a máfia calabresa tenha cerca de 6 mil membros, concentrados em uma das regiões mais pobres do país.

O grupo se especializou no tráfico de cocaína. Varese, da Universidade de Oxford, aponta que a quadrilha tem relação direta com organizações criminosas no México e na Colômbia.

Estima-se que a máfia, em comunhão com os cartéis mexicanos, controle boa parte do tráfico de cocaína na Europa.

Uma demonstração da brutalidade da 'Ndrangheta ocorreu em 2007 na cidade alemã de Duisburg, quando foram assassinados seis italianos apontados como membros de grupos mafiosos. Os corpos foram encontrados dentro de vários veículos próximos de um restaurante italiano.

A 'Ndrangheta também é acusada de desviar fundos oficiais destinados a imigrantes que vivem nas ruas da Calábria.

Máfia da Puglia: Sagrada Coroa Unida

Este é o menor grupo mafioso da Itália e é conhecido apenas como Sagrada Coroa Unida, ou Sacra Corona Unita, em italiano. A sede da organização é na Puglia, no sul do país.

Segundo o FBI, essa organização tem 2 mil membros especializados em contrabando de cigarros, drogas e armas, além do tráfico de drogas, armas e pessoas.

A Puglia é uma entrada natural para o comércio nos países Bálcãs. Acredita-se que muitos dos clãs da máfia tenham relações estreitas com quadrilhas do leste europeu.

Como uma reunião de líderes descoberta por acidente revelou a dimensão da máfia nos EUA

A máfia operava na clandestinidade nos Estados Unidos até 1957. Mas naquele ano o sargento Edgar Croswell, da polícia de Apalachin, um pequeno vilarejo rural do Estado de Nova York, expôs essa organização criminosa e colocou sob os holofotes seus líderes, os capos.

"Ele sabia que (os criminosos) estavam se apoderando dos negócios, que a máfia estava colocando sua gente em estabelecimentos legítimos para usá-los de acordo com seus propósitos", disse à BBC Robert Croswell, filho do sargento - e que é policial, assim como seu pai.

"Ninguém havia pedido ao meu pai que investigasse isso. Ele simplesmente sabia que se tratavam de pessoas não corretas, que não ganhavam dinheiro por meios legítimos. Foi uma iniciativa independente dele, para entender o que estava acontecendo."

Em 14 de novembro, ele e seu delegado toparam com uma reunião secreta da máfia em uma casa de Apalachin, que pertencia a uma das pessoas vigiadas por Croswell.

O que eles interromperam não era uma reunião comum, mas nada menos do que o encontro entre cem capos e seus subordinados para ungir o novo capo de tutti capi, o "chefe de todos os chefes".

Uma rede nacional de crime organizado

A máfia havia chegado ao país com os imigrantes italianos no século 19, mas foi a proibição de venda de bebidas alcoólicas nos anos 1920 que lhe deu poder. Foi montado um exército de contrabandistas e alambiques ilegais, o que fez surgir uma rede nacional de crime organizado. Gângsteres como Al Capone, que atuava em Chicago, chegaram às manchetes.

Mas nos anos 1950, J. Edgar Hoover, diretor do FBI, a polícia federal americana, insistia que se tratava de um problema local e não nacional, e proibia seus agentes de usar a palavra "máfia".

"Como qualquer outro delito, isso pode ser controlado por autoridades locais de ordem pública", declarou Hoover na época. As autoridades locais sabiam, no entanto, que se tratava de algo mais sério.

O mafioso Joseph Barbara era conhecido em Apalachin como Joe, o barbeiro. "Pessoas como ele diziam ser apenas homens de negócios e faziam todo o possível para não ter problemas com a lei. Dirigiam carros de luxo, doavam dinheiro para organizações de caridade. Pareciam ser cidadãos ilustres", disse Croswell.

Mas é claro que não eram. Barbara aparentava ser um respeitável proprietário de uma engarrafadora de refrigerantes. Mas na verdade era o matador de aluguel da família Bufalino, que controlava esquemas de extorsão, jogos de azar e tráfico de drogas no Estado da Pensilvânia, vizinho a Nova York.

'Pura sorte'

O vínculo de Barbara com os Bufalino foi a razão de sua mansão ter sido escolhida como a sede da reunião de 1957. Todos os grandes capos estavam presentes, incluindo os chefes de cinco famílias da cidade de Nova York, além de outras de Nova Orleans, Los Angeles e até mesmo da região da Sicília, na Itália.

"Descobriram a reunião por pura sorte. Meu pai e seu colega estavam investigando um cheque fraudulento que não tinha nada a ver com os assuntos da máfia. Estavam em um motel local quando o filho de Barbara chegou para reservar uma grande quantidade de quartos, mas não queria preencher os formulários de registro", contou Robert Croswell.

"Ele disse que os hóspedes se registrariam ao chegar. Supostamente, era um grupo de homens que trabalhavam na empresa de bebidas que seu pai engarrafava e que vinham visitá-lo porque ele estaria doente."

Edgar Croswell achou isso suspeito e decidiu ir no dia seguinte até a casa de Barbara. Encontrou carros de luxo estacionados do lado de fora, enquanto seus donos comiam um assado lá dentro. Pediu reforços, que montaram uma blitz na estrada.

"Quando viram a polícia checando os carros, saíram correndo. Não conheciam a área, então foi fácil pegá-los", conta Robert.

Golpe para a máfia

Dois dos mafiosos, vestidos com terno e chapéu de feltro, saíram dos bosques aos tropeços e entraram em uma granja, para o assombro do seu dono, e perguntaram qual era o caminho para a Pensilvânia.

Outro perguntou a um morador local se podia usar seu telefone. "Foi muito educado", disse essa pessoa a jornalistas. "Inclusive, pagou a chamada."

No primeiro automóvel parado por Croswell, estava o capo di tutti capi, o líder da máfia de Nova York, Vito Genovese. O policial deixou que ele seguisse para ser detido mais adiante, na blitz, onde os colegas não podiam vê-lo de longe.

Cerca de 70 homens foram detidos. Foram encontrados maços de dinheiro, mas nenhuma arma. Como na época não havia normas federais que permitissem prendê-los, a maioria acabou sendo liberada.

Mas, segundo Robert Croswell, foi um golpe para a máfia ter sido pega naquele dia.

"Aquela zona rural ficou repleta de jornalistas por semanas, e o noticiário nacional falou diariamente de Apalachin. Dali em diante, ninguém mais podia negar a existência da máfia. Expô-la foi mais poderoso que prendê-la."

 

Fonte: BBC Brasil/Municipios Baianos

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