06/02/2018

Algoritmos podem estar decidindo sobre sua vida

 

Um vídeo que mostra o médico David Dao sendo removido de um voo da United Airlines em um aeroporto de Chicago, nos Estados Unidos, viralizou em abril passado.

O episódio gerou prejuízos à imagem da empresa americana, cuja tripulação queria que Dao cedesse seu lugar a um funcionário para que ele fosse ao destino do voo, Louisville, para render a equipe local. Mas quase nenhuma das críticas tratou de um elemento crucial do ocorrido: a necessidade de retirar o médico do voo foi decidida por uma máquina, mais especificamente por um programa de computador.

É exemplo clássico de como esses programas, conhecidos como algoritmos, estão tomando decisões que afetam nossas vidas, muitas vezes sem que a gente sequer saiba disso.

Especialistas já manifestaram sua preocupação com a falta de transparência no uso de sistemas de inteligência artificial nesta tomada de decisões. Mesmo assim, seu uso está se popularizando: um algoritmo já pode decidir se você será escolhido para uma entrevista de emprego ou se conseguirá um empréstimo, com quem você se relacionará e até mesmo quanto tempo de prisão um criminoso "merece".

* Reunimos a seguir alguns exemplos de como sua vida já pode estar sendo afetada por algoritmos.

1. O computador decide se você fará ou não uma entrevista de emprego

Currículos são cada vez mais descartados sem sequer passar por mãos humanas. Isso porque as empresas estão empregando sistemas automatizados em seus processos seletivos, principalmente na análise de centenas de milhares de inscrições.

Nos Estados Unidos, estima-se que mais de 70% dos candidatos sejam eliminados antes de serem avaliados por pessoas. Para as companhias, isso economiza dinheiro e tempo, mas alguns questionam a neutralidade dos algoritmos.

Em um artigo na revista Harvard Business Review, Gideon Mann e Cathy O'Neil argumentam que esses programas não são desprovidos de preconceitos humanos, então, isso pode levar a decisões tendenciosas por parte da inteligência artificial.

2. Quer dinheiro emprestado? Seu perfil na rede social pode afetar isso

Historicamente, quando alguém pede dinheiro a uma instituição financeira, a resposta vai depender da análise das chances do empréstimo ser pago, com base na proporção entre a dívida e a renda desta pessoa e seu histórico de crédito.

Não é mais assim: agora, algoritmos reúnem e analisam dados de múltiplas fontes, que vão desde padrões de compra a buscas na internet e sua atividade em redes sociais.

O problema é que esse método usa informações coletadas sem o conhecimento ou colaboração de quem pede o dinheiro. Também há uma questão em torno da transparência do código do algoritmo e seu comportamento tendencioso.

3. Um algoritmo pode te ajudar a achar um amor, mas pode não ser quem você espera

Não é uma surpresa que sites de namoro usam algoritmos para identificar duas pessoas compatíveis. É um dos seus principais apelos para o público, na verdade. Mas a forma como isso é feito não é muito clara, especialmente após o eHarmony, um dos principais deste mercado, ter revelado no ano passado que fez ajustes na preferências de seus clientes para aumentar suas chances de encontrar um par ideal, algo que pode incomodar quem perdeu tempo para respoder às 400 perguntas necessárias para se ter um perfil no site.

Mas até mesmo em alternativas como o aplicativo Tinder, em que as variáveis são bem menos complexas (geografia, idade e orientação sexual), as combinações não são tão simples assim. Quem usa o serviço recebe uma nota secreta sobre o quanto essa pessoa é "desejável", calculada para "permitir melhores combinações", segundo o Tinder. A fórmula é mantida em segredo, mas os executivos da empresa por trás do aplicativo já indicaram que o número de vezes que o perfil de alguém é curtido ou rejeitado tem um papel crucial sobre isso.

4. Um programa pode determinar se você é viciado em drogas e se conseguirá contratar um plano de saúde

O mal uso de medicamentos e drogas é a principal causa de mortes acidentais nos Estados Unidos, e especialistas com frequência se referem a esse problema como uma epidemia.

Para lidar com isso, cientistas e autoridades estão se unindo em projetos baseados em dados. Recentemente, no Estado do Tennessee, nos Estados Unidos, a operadora de planos de saúde Blue Cross e a empresa de tecnologia Fuzzy Logix anunciaram a criação de um algoritmo para analisar nada menos do que 742 variáveis e, assim, avaliar o risco de um comportamento abusivo com medicamentos.

Isso levantou uma questão ética: os dados analisados incluem o histórico médico e até mesmo o endereço residencial. O argumento a favor desse tipo de intervenção é que isso pode salvar vidas e mitigar prejuízos ao sistema de saúde - viciados em opioides têm, por exemplo, 59% mais chances de serem usuários de alto custo.

O mercado de inteligência artificial em saúde deve crescer de US$ 670 milhões (R$ 2,13 bilhões) em 2016 para quase US$ 8 bilhões (R$ 25,4 bilhões) até 2022, segundo um estudo feito pela consultoria MarketsandMarkets, e essa previsão foi feita antes do anúncio de que a gigante do varejo Amazon entrará neste mercado. Acredita-se que o uso de algoritmos e da inteligência artificial nesta área deve tornar a tomada de decisões mais eficiente e reduzir o número de erros humanos.

5. Eles determinam até se um filme será feito

Essa não é a primeira vez que alguém dirá que Hollywood tem uma fórmula para produzir sucessos. Mas é diferente do processo baseado na experiência e instinto de produtores ao selecionar um roteiro ou elenco.

Algoritmos são usados para analisar não só as chances de um filme ir bem nas bilheterias, mas também quanto dinheiro ele fará. Esse serviço é oferecido por várias empresas, e Paramount, Universal e Warner Bros, alguns dos principais estúdios de Hollywood, contratam essas consultorias.

Além de comparar um novo filme com uma base de dados de produções passadas, esses serviços afirmam que podem detectar o impacto de mudanças na história e até mesmo entre os atores.

6. Algoritmos influenciam em quem você vota e quem será presidente

Em uma época em que dados tornaram-se mais importantes do que empatia e carisma no mundo da política, algoritmos são cruciais para candidatos em busca de votos. Não foi só a retórica de Barack Obama que impressionou em sua ascensão rumo à indicação do Partido Democrata para disputar a Presidência dos Estados Unidos em 2008, mas também seu uso desta tecnologia.

A campanha de Obama mirou incessantemente nos eleitores indecisos, usando uma série de informações para individualizar ao máximo os perfis do eleitorado.

Quase dez anos depois, Emmanuel Macron conseguiu uma vitória inesperada na França com uma estratégia similar - algoritmos ajudaram a identificar distritos e bairros que eram os mais representativos do país como um todo. Isso ajudou a guiar sua equipe na realização de 25 mil entrevistas usadas para estabelecer as prioridades e estratégias de sua campanha.

7. A polícia usa algoritmos para prever se você será um criminoso

O sistema de vigilância da China sobre seus 1,3 bilhão de habitantes é bem conhecido, mas parece haver espaço para expandi-lo. O governo anunciou em 2015 o desenvolvimento de um sistema capaz de "prever crimes" com base em dados pessoais, como o histórico médico e entregas de compras.

Grupos de direitos humanos acusaram as autoridades chinesas de violar a privacidade dos cidadãos, dizendo que o real propósito do sistema é monitorar dissidentes. A China não é, no entanto, o único país a usar algoritmos para prever crimes: o policiamento baseado em dados é aplicado nos Estados Unidos há mais de uma década, e algumas forças de segurança britânicas começaram em 2012 a usar softwares de mapeamento e previsão de crimes.

O programa é bem simples em comparação com algo como o mundo retratado pelo filme Minority Report (2002): dados sobre os tipos de crimes, sua localização, data e hora geram um mapa identificando as áreas onde eles provavelmente voltarão a ocorrer.

Segundo uma pesquisa do centro britânico Royal United Services Institute for Defence and Security Studies, algoritmos podem ter até dez vezes mais chances de prever a localização de um crime futuro em comparação com o policiamento comum.

No entanto, um destes sistemas, o PredPol, usado pela polícia da Grande Manchester, no Reino Unido, gerou uma polêmica. Pesquisas mostraram que ele criava uma distorção em que policiais eram enviados para os mesmos bairros repetidamente, independentemente das reais taxas de criminalidade nestas áreas.

8. Um computador pode te mandar para a prisão

Juízes em ao menos dez Estados americanos estão tomando decisões em casos criminais com a ajuda de um sistema automatizado chamado COMPAS, baseado em um algoritmo de análise de risco para prever a probabilidade de uma pessoa cometer um novo crime.

Um caso famoso nesse sentido ocorreu em 2013, quando um homem chamado Eric Loomis foi condenado a sete anos de prisão por fugir da polícia e dirigir um carro sem a permissão do dono no Estado de Wisconsin.

Antes de a sentença ser proferida, autoridades apresentaram uma avaliação, feita com base em uma entrevista com Loomis e informações fornecidas pelo algoritmo sobre sua probabilidade de reincidência - o resultado indicava que ele tinha um "alto risco de cometer novos crimes".

Seus advogados questionaram a condenação usando vários argumentos, entre eles que o COMPAS foi criado por uma empresa privada e que informações sobre o algoritmo não foram reveladas. Também afirmaram que os direitos de Loomis foram violados, porque a avaliação levava em conta fatores como gênero e raça.

De fato, uma análise de mais de 10 mil casos na Flórida ao longo de dois anos, publicado em 2016 pela ONG ProPublic, mostrou que a previsão de alto risco de reincidência era mais comum para negros do que para brancos.

9. Eles podem influenciar seu dinheiro

Esqueça as imagens de pessoas gritando na bolsa de valores com telefones nos ouvidos. Transações no mercado de ações estão se tornando cada vez mais um produto de cálculos feitos por algoritmos, que são mais rápidos do que qualquer humano e compram e vendem papéis em questão de segundos.

Defensores desta tecnologia afirmam que uma máquina é imune à volatilidade emocional do mercado e investe mais racionalmente. Isso, no entanto, foi questionado em 2010, quando algoritmos foram apontados como os culpados pelo crash que fez desaparecer temporariamente do mercado de ações americano US$ 1 trilhão.

Um relatório do banco JP Morgan estimou que, em 2017, investimentos com base em algoritmos ou fórmulas computacionais responderam por quase 90% do volume de transações com ações nos Estados Unidos.

O que são algoritmos?

Algoritmos estão em toda a parte. Eles operam no mercado de ações, decidem se você pode contratar um financiamento imobiliário e um dia poderão dirigir o seu carro. Eles fazem buscas na internet, mostram anúncios cuidadosamente escolhidos nos sites que você visita e decidem quais os preços mostrar em lojas on-line. Eles podem ser objeto de argumentos legais, causam preocupações regulatórias (no início deste mês, um grupo de especialistas pediu a proibição de algoritmos em robôs de guerra projetados para matar pessoas). Alguns algoritmos, como o que alimenta os resultados de pesquisa do Google, fez com que seus inventores ficassem muito ricos. Os algoritmos podem até afetar a forma como os cidadãos votam, alterando o resultado de uma eleição. Mas o que exatamente são algoritmos e o que os torna tão poderosos? Foi o que este post da revista The Economist  explicou.

Um algoritmo é, essencialmente, uma forma sem cérebro de fazer coisas inteligentes. É um conjunto de etapas precisas que não precisam de grande esforço mental para serem seguidas, mas que, se obedecidas exatamente e mecanicamente, levarão ao resultado desejado. O método de adição por colunas (em que você separa as unidades das dezenas das centenas) é um exemplos com o qual todos estão familiarizados - se você seguir o procedimento corretamente, chegará à resposta correta. Assim como a estratégia, redescoberta milhares de vezes por estudantes entediados, para ganhar sempre o jogo da velha. A chave é: cada passo deve ser o mais simples possível, sem deixar espaço para ambiguidades ou dúvidas. Cozinhar e dirigir, por exemplo, são tipos de algoritmos. Mas as instruções como "cozinhas a carne até que fique macia" ou "siga em frente por alguns quilômetros" são muito vagas para serem seguidas sem, pelo menos, alguma interpretação.

Algoritmos estão frequentemente associados a computadores e códigos. Mas não precisam ser. Alan Turing, um matemático britânico que fez um grande trabalho pioneiro sobre como tratar algoritmos com rigor matemático, criou um algoritmo bastante complicado para se jogar xadrez. Ele testou o método em uma partida contra um amigo, seguindo a lista de instruções a cada movimento e fazendo o que suas instruções lhe disseram. Mas, como o oponente de Turing percebeu, os humanos geralmente acham o trabalho repetitivo chato e frustrante (havia tanta aritmética que eles levavam cerca de meia hora para jogar cada movimento). Os computadores, no entanto, são excelentes em realizar rapidamente tarefas repetitivas, como "somar esses dois números", "decidir se esse número é maior que aquele" e "armazenar a resposta ". É, de fato, a única coisa que eles são capazes de fazer.

Por essa razão, os computadores permitiram que os humanos construíssem e executassem construções algorítmicas cada vez maiores e mais complexas. Ao acumular instruções simples, é possível criar coisas muito mais intrincadas e interessantes. Qualquer programa de computador – do seu navegador aos jogos mais complexos e modelos de clima – é, na sua raiz, nada mais do que uma grande pilha de algoritmos sendo executados em alta velocidade. Alguns dos algoritmos mais avançados não são sequer escritos por seres humanos, mas por outros algoritmos. O aprendizado de máquinas é uma técnica de inteligência artificial moderna usada para ensinar aos computadores a fazer coisas que as pessoas podem fazer, como decodificar a fala ou reconhecer rostos, mas que os seres humanos não podem explicar de forma suficientemente algorítmica. Então, um algoritmo de aprendizagem em máquina faz uma tradução para a linguagem de computadores. Ele mostra muitos exemplos daquele assunto em questão – linguagem falada ou imagens de rostos, por exemplo – que já foram rotulados por humanos. Em seguida, produz outro algoritmo que os reconhece de forma confiável. Em outras palavras, a falta de cérebro não é impedimento para a inteligência.

Afinal, o que é um algoritmo e o que isso tem a ver com computação? Por Victoria Thibes

Suponha que você perguntou ao seu colega como chegar à padaria saindo de seu trabalho. Ele te responde assim:

1- Siga reto;

2- Quando chegar na rua A, vire à direita;

3- Se o sinal estiver aberto, siga reto. Caso contrário, vire à esquerda;

4- Se você seguiu reto, vire à esquerda na segunda rua;

5- Se você seguiu à esquerda, vire à direita na terceira rua;

6- Siga reto e você chega lá.

Você entendeu essas instruções? Seria capaz de seguí-las? Então parabéns, você fez exatamente o que um software faz o tempo todo enquanto seu computador, celular e outros gadgets estão ligados: você seguiu um algoritmo.

Na matemática e na computação, um algoritmo é definido como uma série de instruções passo-a-passo que descrevem explicitamente várias operações. No caso do seu carro, as operações eram "siga reto", "vire à esquerda" ou "vire à direita". Em dados momentos, você teve condições a seguir: se o sinal estivesse aberto, deveria "ir reto". Senão, deveria "virar à esquerda". Seu computador faz isso o tempo todo e de forma tão rápida que às vezes nem percebemos.

Pense na forma como você está lendo este site agora mesmo. Clique com o mouse em algum ponto de seu navegador. Se esse ponto for um hiperlink, abrirá uma nova janela. Se for um botão, seguirá as instruções desse botão. Se não for nenhum deles, não fará nada. Tudo o que o seu computador faz é executar diversas operações baseadas em certas informações fornecidas a ele. Essas informações são as entradas.

Uma entrada é o dado inicial que será utilizado para seguir uma operação. No primeiro algoritmo de que falamos, as entradas seriam as condições em que você estava: você estava no trabalho; você estava de carro. Baseado nessas entradas, você foi capaz de seguir as operações que lhe foram disponibilizadas: vire à esquerda, siga reto, vire à direita.

No meio do percurso, havia uma situação que poderia ter duas condições possíveis: o sinal poderia estar aberto ou fechado. Nesse caso, consideramos que o sinal é uma variável. Afinal, ele varia, correto? Ele pode estar com diferentes valores, pode ser verde, amarelo, vermelho ou até azul! O que você faria nesse caso? Talvez nada, porque não foi programado para agir numa situação dessas. O seu programa poderia dar erro, talvez até fechar sem que o usuário tivesse mandado. Isso soa familiar? Pois são essas situações, em que o programa não prevê todas as situações possíveis, que ocorre a famosa tela azul do Windows, o jogo travado ou o browser que parou de responder.

Mas não pense que apenas o sinal é uma variável. A sua posição é uma variável. Ela inclusive faz parte dos dados sobre você. Os seus dados, digamos, são esses: você é fulano, trabalha na "Ciclaninho LTDA". No momento, está na posição A1. Ao final da operação de "ir à padaria", a sua posição será outra, será, digamos, B2. Ela variou. Portanto, sua posição e até você mesmo são variáveis desse simples algoritmo.

Tem-se, neste momento, uma entrada e algumas variáveis. Mas qual é a saída? É exatamente o objetivo do algoritmo: você na padaria!

Agora pense no seu navegador, no seu sistema operacional, no seu jogo. Quais são as entradas e saídas? Elas são a posição do seu mouse, o seu clique, as teclas que você pressiona. Ao final das operações, você tem o editor de texto aberto, o personagem batendo no monstro ou o navegador aberto no Canaltech.

O conceito de algoritmos é um dos mais básicos da computação, algo que rege a maior parte dos eletrônicos que utilizamos no dia-a-dia. Você tem dúvidas? (Não -> "Texto finalizado com sucesso" / Sim -> "Consulte o material abaixo").

Há uma infinidade de material sobre algortimos disponível na Internet. Se você deseja começar a programar e não sabe como, indicamos o site Coursera, que disponibiliza aulas de diversas universidades renomadas. Tudo gratuito e frequentemente atualizado.

 

Fonte: BBC Brasil/Época/Cana, Tech/Municipios Baiamos

 

 

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