07/02/2018

Famílias postiças contra a sigilosa epidemia da solidão

 

Rosa enviuvou em agosto e desde então carrega nos ombros um pesado silêncio. Só o telefonema de uma amiga todos os dias às nove da noite diminui um pouco o seu vazio. Rosa vive na Galícia, uma região chuvosa no norte da Espanha, onde impera o caráter introspectivo e estoico. Além disso, ela mora em uma aldeia, em Betanzos (província de A Coruña) que há anos não para de perder população. Esse telefonema é praticamente o único momento em que se comunica com alguém. “Conversamos durante meia hora. Não criticamos ninguém, mas comentamos coisas e a faço rir”, conta Pilar, a voz amiga de Rosa e uma das colaboradoras do projeto de iniciativa da ordem religiosa dos franciscanos na Galícia para combater a epidemia silenciosa da solidão, que se estende sem freio nos lares ocidentais.

Enquanto no Reino Unido o Governo acaba de criar uma Secretaria de Estado contra a Solidão, em Betanzos foi colocado à disposição o convento de San Francisco de Betanzos – sem vida desde que há dois anos as últimas freiras residentes cruzaram a porta – para criar uma família com pessoas “que estejam ou se sintam sozinhas”. Os participantes passariam o dia nas instalações, tomando café da manhã, almoçando e jantando, compartilhando a lavanderia e os gastos, fazendo companhia uns aos outros.

“Não se trata de uma unidade de atendimento à terceira idade nem de beneficência, nem de um local social, mas de um espaço de autogestão que não se financia com subvenções e no qual queremos imitar o ambiente de uma família qualquer, com liberdade para entrar e sair sem compromisso e sem exigências de vínculo religioso”, explica o frei Enrique Roberto Lista sobre um projeto aberto a moradores de qualquer prefeitura e cujos responsáveis gostariam de estender no futuro a outros edifícios eclesiásticos vazios, como as casas sacerdotais das paróquias.

Adela, de 80 anos, passava o tempo “fechadinha num canto” em sua casa, “chorando sozinha”, mas agora deu o passo de entrar no projeto: “Estou há 15 anos sem minha mãe e 38 sem meu pai. Participar deste projeto me encanta, porque nos faz trabalhar e nos distrai. Estou com companheiros que passam pelo mesmo que eu”.

Se no Brasil o número de pessoas que vivem sós duplicou entre 2005 e 2015, sobretudo entre as com mais de 60 anos, segundo o IBGE, na Espanha a situação não é melhor. Ali vivem sozinhas cerca de 4,5 milhões de pessoas, segundo os dados apresentados pelos franciscanos. Mais de 70% das almas que habitam esses lares sofrem de solidão, um mal que afeta igualmente mais da metade de quem tem companhia em suas casas.

O projeto começou a ser posto em prática em Betanzos com nove mulheres e, conforme explica a trabalhadora social Antía Leira, vem enfrentando dificuldades para superar “o estigma da solidão, a vergonha”. “É difícil para as pessoas que a sofrem reconhecer a situação e até mesmo identificá-la porque muitas vezes convivem com alguém”, afirma Leira. “É uma necessidade oculta: todo mundo admite o problema, e as notícias de idosos que morrem sem que ninguém fique sabendo se multiplicam, mas custa dar o passo para combatê-la.”

Uma solidão mais uma solidão é companhia, o remédio para o problema está nas pessoas que sofrem esse mal”, observa o frei Lista, criador do projeto, enquanto no refeitório deste convento do século XIV os primeiros membros passam um ao outro a cafeteira e as bandejas de biscoitos e bolos. A amiga de Pilar que se sente tão sozinha ainda não deu o passo para se integrar a essa família postiça: “É desconfiada e retraída, e isso lhe custa, mas eu lhe digo que isto seria fantástico para ela se oxigenar.”

Entre os sofredores de solidão, o que preocupa é o grupo dos homens recém-divorciados, especialmente refratários a pedir ajuda. Ramón, de 67 anos, enfrentou há cinco anos seu terceiro rompimento matrimonial e desde então luta diariamente para preencher o tempo livre de modo a se esquivar do vazio. “Os humanos foram pensados para viver em sociedade, precisamos de alguém a quem dar afeto. Mas ao mesmo tempo relutam em compartilhar experiências como esta porque acreditam que não têm por que contar sua vida aos outros”, afirma.

A tristeza pelo isolamento social não é um achaque só da idade. “Há pessoas muito jovens que também estão sós”, diz Adriana García, colaboradora do projeto. “Esta sociedade te empurra para a solidão. Há menos filhos, a família se dispersa, por um lado as tecnologias te conectam, mas por outro te levam a se fechar... E há jornadas de trabalho que não te deixam tempo para a amizade e a família. Racionalizar os horários seria uma grande contribuição para combater este mal.”

Reino Unido cria secretaria de Estado contra “epidemia” de solidão

A solidão no Reino Unido é uma questão de Estado. Este mal, que afeta nove milhões de britânicos, segundo um estudo recente, terá sua própria Secretaria no Governo. E Tracey Crouch, deputada conservadora de 42 anos, será a secretária de Estado para a solidão. A primeira ministra, Theresa May, anunciou nesta quarta-feira, dia 17 de janeiro, a nomeação de Crouch, que estará à frente de um departamento com responsabilidade pelas políticas relacionadas à solidão.

“Para muita gente, a solidão é a triste realidade da vida moderna”, disse May. “Quero confrontar esse desafio de nossa sociedade e que todos nós comecemos a agir para abordar a solidão de que sofrem os mais velhos, os cuidadores, aqueles que perderam seus entes queridos, pessoas que não têm ninguém com quem conversar ou compartilhar seus pensamentos e experiências.”

O relatório conclui que a solidão costuma estar associada a doenças cardiovasculares, demência, depressão e ansiedade, e pode ser tão prejudicial para a saúde quanto fumar 15 cigarros por dia. Cerca 200.000 pessoas idosas no Reino Unido não tiveram uma conversa com um amigo ou familiar em mais de um mês. O Governo sozinho, adverte o relatório, não pode resolver um problema que exige uma “ação coordenada”. “Os empregadores, as empresas, as organizações da sociedade civil, as famílias, as comunidades e os indivíduos têm um papel a desempenhar”, acrescenta.

A medida responde a um exaustivo relatório de uma comissão parlamentar que dá continuidade ao trabalho de Jo Cox, a jovem deputada trabalhista assassinada por um ativista de extrema direita na reta final da campanha do referendo do Brexit. A solidão é um dos temas aos quais Cox dedicou sua carreira política.

A criação da secretaria de Estado faz parte de uma estratégia mais ampla do Governo que, seguindo as recomendações da Comissão de Jo Cox, compilará estatísticas, trabalhará em um método para medir a solidão e financiará coletivos que trabalhem com a integração entre as pessoas. “Estou segura de que, com a ajuda de voluntários, ativistas, empresas e meus colegas de parlamento, poderemos alcançar progresso suficiente no combate à solidão”, disse Crouch.

A “epidemia” de solidão tem a ver, explica a Comissão, com o enfraquecimento de uma série de instituições que tradicionalmente teciam conexões entre as pessoas, como sindicatos, igreja, família, pubs e centros de trabalho. Inclusive os caixas dos supermercados, um dos últimos bastiões de conversas para pessoas idosas, estão sendo substituídos por máquinas automáticas.

“Quando a cultura e as comunidades que antes nos conectavam uns com outros desaparecem, podemos ficar abandonados e excluídos da sociedade”, explicou a deputada trabalhista Rachel Reeves, presidenta da Comissão de Jo Cox, em dezembro passado. “Nas últimas décadas, a solidão passou de desgraça pessoal a epidemia social. Cada vez mais pessoas vivem sozinhas. Trabalhamos em casa. Passamos mais tempo do dia sozinhos do que há 10 anos. Às vezes parece que nosso melhor amigo é o celular.” Reeves se aventurou a dizer que William Beveridge, um dos pais do Estado de bem-estar britânico, teria acrescentado, se vivesse agora, a solidão como o sexto dos “grandes males da sociedade”, junto com a indigência, a doença, a ignorância, a sujeira e a ociosidade.

A solidão, além disso, tem um custo econômico para o Estado. Dez anos de solidão de uma pessoa idosa, segundo estudo recente da London School of Economics, representam para os cofres públicos um custo econômico extra de 6.000 libras (mais de 26 mil reais), em saúde e pressão aos serviços públicos locais. Afirmam que o Estado deverá contemplar a solidão como assunto de saúde pública, assim como a obesidade e o tabagismo. O estudo chama a combater o estigma da solidão e conclui que preveni-la é um bom negócio: cada euro investido em prevenir a solidão, indicam os especialistas, gera três euros de economia.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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