10/02/2018

Tucanos cobram explicações de FHC sobre apoio a Huck

 

Aliados do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), cobraram explicações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre suas recentes manifestações favoráveis ao apresentador Luciano Huck, cotado para disputar a eleição presidencial deste ano. O grupo chegou a cogitar a divulgação de uma nota pública condenando a postura do ex-presidente, iniciativa abortada por Alckmin. Decidiram, então, encaminhar um e-mail questionando a posição de FH, o que foi feito nesta quarta-feira, dia 7.

Na tarde desta quinta-feira, dia 8, em meio à saia justa provocada no partido, o ex-presidente telefonou para Geraldo Alckmin e reafirmou apoio à sua candidatura ao Planalto. À noite, no entanto, ele jantaria com Luciano Huck. O governador de São Paulo pediu calma a apoiadores e concordou que uma mensagem privada menos agressiva fosse enviada a FH.

ELOGIOS

No e-mail, o líder tucano é questionado se continua apoiando Alckmin ou se prefere outro nome. A gota-d’água foi uma entrevista de Fernando Henrique na terça-feira, na qual afirmou que uma candidatura de Huck seria boa para o Brasil, poderia “arejar” as eleições e “botar em perigo a política tradicional”.

“É bom ter gente como o Luciano porque precisa arejar, botar em perigo a política tradicional, mesmo que seja do meu partido. É preciso que ela seja desafiada por pessoas portadoras de ideias e processos políticos novos para que o próprio partido possa avançar. Está havendo sinal nessa direção”,  disse FH à Jovem Pan.

Na quinta-feira, à “Folha de S.Paulo”, o ex-presidente voltou a elogiar o apresentador de televisão: “Ele (Huck) sempre foi muito próximo ao PSDB, o estilo dele é peessedebista”, disse. Após a declaração ser divulgada na internet, Fernando Henrique ligou para Alckmin “para que a intriga não prosperasse”, segundo informaram auxiliares do ex-presidente.

ESPECULAÇÕES

O estilo “morde e assopra” de FH tem causado constrangimento ao presidenciável do PSDB. A um mês de ser oficializado candidato ao Planalto — as prévias estão previstas para 11 de março —, Alckmin tem sua pré-campanha minada por especulações de que o apresentador poderia ser uma opção mais competitiva do que ele. Pesquisa Datafolha divulgada última semana mostrou os dois com desempenhos parecidos. Alckmin chegou a 11% das intenções de voto, e Huck registrou 8%.

O apresentador tem negado que disputará a eleição. Advogados dele entregaram esta semana ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) documento no qual dizem que Huck não pretende se candidatar. Entretanto, as declarações de FH e o encontro entre os dois em São Paulo reacenderam os rumores de uma candidatura do apresentador. Correligionários do governador paulista estão indignados, mas evitam fazer comentários em público.

AMIZADE

“Ele quer derrubar o Geraldo ou quer apenas aparecer e chamar atenção? Ninguém está entendendo o que ele está fazendo”, desabafou um dos integrantes do grupo do governador. No meio do tiroteio, Alckmin voltou, na quinta-feira, a relativizar os movimentos de FH. “O Fernando Henrique tem uma amizade pessoal com o Luciano e a família dele”,  disse à Rádio Bandeirantes.

O governador de São Paulo e o ex-presidente estiveram a sós há duas semanas. FH não demonstrou interesse em desembarcar do projeto eleitoral de Alckmin. Ao responder se havia sabotagem de FH, o governador reagiu: “Zero, zero”. Na mesma ocasião, ele queixou-se de “incivilidade política”: “Vivemos muita incivilidade na política. Você elogiar alguém já parece que você está lançando candidato. Política não é guerra. Não é mata-mata”.

Sobre uma candidatura de Huck, ele repetiu o discurso de que jovens são bem-vindos na política e terminou com um “é o povo quem decide”. Alckmin também disse, num recado que seria ao apresentador, que o país “não precisa de ‘showman’”.

CANDIDATURA

Fora do radar nacional, um outro desfecho para Huck tem entrado nas rodas de conversa política. Uma candidatura dele ao governo do Rio de Janeiro pelo PSDB já foi mencionada por FH a interlocutores como um “bom negócio para todo mundo”. Entre políticos, a avaliação é que a participação do apresentador numa disputa no Rio não encontraria tanta resistência como ocorre com uma postulação à Presidência da República. Por enquanto, o PSDB não tem candidato à sucessão fluminense.

Depois de causar grande desconforto dentro do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso agora diz que apoia – e sempre apoiou – Alckmin. Nos bastidores, continua a declarar-se a favor da eventual pré-candidatura de Huck. E há que diga que FHC não está sozinho. O padrasto de Luciano é o economista Andrea Calabi, que tem tentado vencer a resistência dos tucanos, além de alguns nomes da comunidade judaica paulistana que querem ver o apresentador seguindo na empreitada. Arminio Fraga, ex-BC, inclusive, estaria disposto a organizar a plataforma econômica de Huck em uma possível campanha. A questão persiste, mas estaria Luciano disposto a enfrentar esta briga sob o risco de um desgaste que nunca experimentou antes?

O jantar de FHC e Huck azedou

Protocolarmente, Fernando Henrique amanheceu hoje dizendo que Luciano Huck ainda “está considerando se será candidato” a Presidente e que “não bateu o martelo” sobre o assunto.

Pode ser, mas os sinais de que foi meio azedo o gosto do jantar, ontem, são muito claros.

O primeiro, e maior deles, foram as juras de fidelidade feitas a Geraldo Alckmin, que antes só levava pontapés, com aquela história de “surgir um candidato capaz de unir o centro” e outras conversas do gênero.

Agora, diz que não importa que Huck  “tenha boas ideias e empatia da população”, seu candidato será Alckmin: Quando Geraldo Alckmin foi designado para ser presidente do PSDB, eu apoiei. Eu sabia e não sou uma pessoa ingênua, que isso seria uma pré-condição para ele ser candidato. Então, eu apoiei com consciência isso. Claro que eu apoio Geraldo”, afirmou e, entrevista à Rádio Guaíba (RS), reproduzida pelo Estadão..

Outro sinal foi a menção expressa aos problemas financeiros que a aventura trará a Huck: “ele trabalha na Globo, tem um contrato e tem que pesar essas coisas todas”.

Com as declarações, FHC tira o previsível discurso de Huck no caso de voltar atrás e resolver assumir a candidatura, depois de te-la negado e reiterado a negativa perante o TSE. Já não pode dizer que atendeu “aos apelos”  do ex-presidente.

Parece que, no final do jantar, o café que foi servido estava frio e amargo.

Fernando é mais “Huckista” que o próprio Huck

Neste final de semana, Luciano Huck começa a passar pelo inferno astral que ele próprio desejou.

Seus negócios começarão a ser devassados e os 15 CNPJs que ele controla diretamente ou em sociedade com o pai e a mulher -sem contar as propriedades cruzadas que têm através  destas empresas – começarão a ser esquadrinhados.

Até agora, Huck está “no lucro”.

Passou de um showman primário para um “notável” da República.

Tem de escolher entre este ganho, realizado, e o risco de ser  uma invenção ridicularizada. Se os 5 a 8% que tem nas pesquisas  não quadruplicarem, vira um escárnio.

Nem precisa o Caldeirão que não mais terá.

É isso o que se precisa para entender as entrevistas após entrevistas de Fernando Henrique Cardoso defendendo a candidatura de Huck.

Não é apoio, é pressão.

Fernando Henrique é mais realista que o rei,  ou, neste caso, aquele que pretende seja seu delfim.

Não tem nada a perder, mas tem um Governo a ganhar.

Huck é o contrário: já ganhou e ganha muito.

Daqui pra frente, só tem a perder aquilo de que ele realmente gosta: dinheiro.

Vai colocar tudo no pano nada verde e incerto de uma eleição presidencial?

 

 

Fonte: O Globo/Tijolaço/Municipios Baianos

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