10/02/2018

Por que não existe um partido conservador no Brasil?

 

Embora registremos um número excessivo de partidos políticos, nenhum se apresenta ou pode ser definido como conservador. O fato surpreende por dois motivos. Primeiro porque o eleitorado que se diz conservador constitui parcela expressiva e crescente da sociedade brasileira. Segundo porque, no Império, tivemos um Partido Conservador cuja contraparte era o Partido Liberal. Apesar de haverem respondido pela estabilidade política do período, os dois foram extintos após a proclamação da República.

Ao longo dos anos, a cada eleição para o Congresso Nacional, torço pelo sucesso de candidatos comprometidos com aquilo que, para simplificar o entendimento, chamo de conservadorismo nos valores e de liberalismo nas concepções políticas e econômicas. No detalhe, não é bem assim, sei. Em ampla proporção, os conservadores são, também, liberais. O que os distingue não é o liberalismo dos liberais, mas o conservadorismo dos conservadores. É ele que deveria demarcar as fronteiras políticas de um partido conservador.

HÁ DÚVIDAS

No entanto, pergunto: serão realmente conservadores os conservadores brasileiros? O principal motivo da inexistência de um partido conservador no Brasil está, a meu ver, em que os conservadores convergem bastante bem sobre o que não querem mudar, mas isso é pouco para dar consistência e permanência à mobilização política. Conservadorismo não é estagnação, nem utopia, nem salto ao desconhecido, mas ação com memória do passado, pés no chão e olhos abertos.

Dado que o conservadorismo tampouco é uma doutrina, sendo-lhe impróprias quaisquer receitas de bolo ou vademécum, parece importante ressaltar que o adjetivo conservador, atribuído a uma pessoa, indica alguém que respeita o passado e a tradição, alguém que não anda às turras com a História cobrando contas ou amaldiçoando as próprias origens. Sublinhe-se: o passado que se respeita e a tradição tanto podem ser representados pelo que se aprendeu dos antigos na singela universalidade do ambiente familiar, quanto se aprofundando no saber dos clássicos, perenizado na linha do tempo.

Eis o ponto, enfim. O conservadorismo é incompatível com conceitos que dominam a cultura brasileira a respeito da identidade nacional. Um partido conservador não pode nascer entre os que pensam de si aquilo que os brasileiros pensam! O conservadorismo não combina com conceitos que saltitam diante dos meus olhos, cotidianamente, nas redes sociais. O complexo de vira-lata, a ideia de uma nação explorada, de riquezas exauridas, descoberta por acaso, povoada por gente da pior qualidade, de passado constrangedor e futuro incerto, nada, absolutamente nada tem a ver com o pensamento conservador!

BRASIL PARALELO

Entendido isso, talvez possamos compreender o motivo do sucesso do “Brasil Paralelo”, suas séries e entrevistas, mostrando que nossa história é indissociável da história de Portugal e não começa no século XV, mas no século XI; que, por isso, somos herdeiros de um idioma latino, de uma cultura ocidental e de uma religião universal; que nós estamos nos cantos de Camões e foram choradas por nós as lágrimas que, nos versos de Fernando Pessoa, deram sal ao mar de Portugal.

Milhares contam haver chorado de emoção ao assistirem esses vídeos. Descobriram, roçando as plantas daninhas da mentira e da ocultação da verdade, que têm raízes seculares, firmes e respeitáveis, lançadas em solo nobre, enriquecido por migrações que nos individualizam como nação, tornando-nos únicos em nossa pluralidade.

Sem essa percepção não haverá conservadorismo no Brasil. Com ela, entenderemos a existência das plantas daninhas e dessa depressiva ocultação da verdade que eficazmente o sufoca em nosso país.

ONDE ESTÁ O PARTIDO “CONSERVADOR” BRASILEIRO? Por Claudio Shikida

Nos últimos dias li e ouvi alguns bons acadêmicos que chamaram minha atenção para um fato importante da vida política nacional: não há debate. Digo, há, mas é entre a esquerda, a centro-esquerda, a esquerda festiva, a esquerda histórica, etc. No debate eleitoral, nenhum candidato teve a coragem de analisar, honestamente, a questão das privatizações. Bonés de estatais passaram da cabeça de um para o outro, num notável descaso pelo passado histórico recente.

Há um espaço político que pode ser ocupado. Mas será que há “conservadores”? Aliás, o que é um “conservador”? A esquerda costuma rotular todos os que a criticam de “conservadores” e também de “liberais”, gerando uma confusão que, claro, pode fazer parte da estratégia política: confundir sempre, esclarecer, jamais.

Para simplificar, vou me referir à esquerda como “não-liberais” ou “não-conservadores”, algo que certamente não agride membros destes grupos que estão sempre prontos a se distinguir de qualquer pensamento liberal (ou conservador). E esclareço: um conservador é um sujeito que não curte aborto. Ou o namoro de homossexuais. Adora o liberalismo econômico, mas não necessariamente as liberdades individuais. Um liberal é o cara que se parece com o conservador, mas gosta da diversidade social e valoriza a liberdade individual. Todo “beatnik” foi (ou é) um liberal. Claro, faltou falar dos libertários. Todo libertário é um liberal mais apegado aos seus direitos individuais. Todos acreditam mais nos indivíduos do que no Estado agindo em nome dos indivíduos.

Nem todos os liberais, conservadores ou libertários concordam que a liberação regulamentada das drogas seja uma boa forma de se diminuir a violência derivada de seu uso. O mesmo se observa quanto à sua opinião sobre o papel do governo na economia. Diferentes liberais, conservadores e libertários possuem diferentes graus de aversão ao poder do governo de lhes ditar o que devem fazer com suas vidas.

Complicado, né? Isto porque, tal como no grupo dos não-liberais, há diversidade.

É difícil ver um partido destes no Brasil porque os liberais possuem uma rejeição natural ao uso de mecanismos políticos como forma de alocar recursos na sociedade. Qual seria a agenda positiva de um partido conservador (ou uma confederação de liberais, conservadores e libertários)?

Em princípio, é necessário defender o Estado eficiente (que é, sim, menor do que este que temos hoje) e as liberdades individuais (incluindo a de imprensa e a religiosa). Mas há que se atentar para um problema que, creio, é fundamental: muitas pessoas acham justo usar do dinheiro alheio, através do governo, para se beneficiar. Explica-se isto porque o sujeito raciocina com uma dicotomia entre a liberdade individual (”tenho o direito de beber cerveja…”) e a liberdade econômica (”… às suas custas”.).

Quando esta dicotomia assume proporções notáveis, você vê, por exemplo, um empresário pedir subsídios, enquanto até defende seu direito de ir e vir. Ou então você vê um estudante que defende o vale-transporte para si, mas nem liga para a responsabilidade fiscal no setor público. Quem paga o subsídio? Quem paga o vale-transporte? Não importa.

Se você quer começar um partido conservador tem que pensar em todos estes problemas. Bom, ninguém disse que seria fácil…

Por que o Brasil Não Tem Um Único Partido de Direita? Por Stephen Kanitz

Segundo o Prof. da USP André Singer, um grande apoiador de partidos de esquerda, escrevendo em “Direita e Esquerda” constata que 50% dos brasileiros adotam valores conservadores. Isto coincide com os Estados Unidos onde 50% são republicanos, e a Inglaterra onde 50% nas últimas eleições votaram para os conservadores.

No Brasil, PT, PSDB, PSOL, PCdoB, são todos de esquerda, o PMDB de centro esquerda. Mesmo assim muitos brasileiros estão indignados e perguntam por que os partidos de direita e conservadores do Brasil não fazem uma oposição efetiva ao desmantelamento das nossas instituições.

A pergunta correta seria “Por que a direita conservadora não reage à altura, por que não mente descaradamente, por que não usa dinheiro da Petrobras para as suas campanhas, por que não coopta jornalistas com anúncios de estatais?”

Simples de explicar:

90% das pessoas acham que os conservadores querem conservar é o “status quo”, o imobilismo, os privilégios. A Dilma disse isto textualmente na ONU.

Não é bem assim.

Uma das coisas que o conservadorismo quer “conservar” são os valores morais de uma sociedade construído ao longo do anos.

Uma das coisas que conservadores querem “conservar” são os princípios básicos de uma civilização e de cooperação humana, como “não mentirás”, “não dormirás com a mulher de seu companheiro”, “não colocarás sua ambição na frente da sua ética”.

Uma sociedade que começa a perder a sua ética perde tudo.

“Abaixar o nível” não é do feitio dos conservadores, especialmente da direita religiosa que tem milhares exemplos de Santos que se sacrificaram ao invés de se submeter a uma inversão de seus valores.

É por isto que o Partido Republicano americano se opõe ao aborto.

Não porque isto poderia prejudicar o “capitalismo” ou a “manutenção do status quo”, mas por uma questão ética.

“Se pretendemos resgatar a ética e moralidade deste país, como poderíamos nos eleger jogando sujo, mentindo, prometendo falsidades, usando dinheiro ilegal?

Estaríamos nos rebaixando e minando o nosso próprio futuro e objetivos do governo.”

Todo administrador aprende logo na vida que conquistar o poder jogando sujo é o caminho certo para perder a liderança e respeito dos liderados, tão necessário para a governabilidade.

Ninguém tem mais respeito pela Dilma, isto é tão claro, que custa crer que ela não perceba. Ela tem obediência não por liderança, mas porque todos os seus subordinados têm medo.

Se você é um dos que acredita que o PSDB é um partido de direita, infelizmente também é vítima do jogo sujo que o PSDB fez com você. O PSDB não é de direita, nem de perto, e a maior prova disto é que FHC criou o imposto sobre grandes fortunas. Que partido de direita faria isto?

Agora você sabe por que Brasil não tem um único partido de direita. Não é por falta de eleitores. É por falta de pessoas de bem, dispostas a serem políticos. Nenhuma mãe conservadora e de direita desejaria ou apoiaria seu filho a ser político, e com razão. Partidos de esquerda pelo contrário não têm limites éticos, apesar de dizer justamente o contrário, mais uma tática suja.

Seguem “os fins justificam os meios”, a estratégia delineada por Leon Trotsky, que aprendeu de Machiavel. “Os fins justificam os meios” já causou milhares de mortes e assassinatos, todos sabem disto.

Portanto, a crise política no Brasil não é o Partido dos Trabalhadores, é muito mais ampla. Envolve todos os partidos que estão aí. Todos de esquerda sejam Bolivariana, Castrista, Maoísta, Trotskista, Stalinista ou Marxista.

Sem 50% de partidos conservadores, liberais, libertários e de direita, temo que não conseguiremos resgatar a ética neste país. E sem resgatar a ética, não teremos partidos conservadores, liberais, libertários e de direita. Algo para se pensar.

 

Fonte: Por Percival Puggina, na Tribuna da Internet/Instituo Milenium/Municipios Baianos

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