10/02/2018

Brasil: EUA responde por 80% da importação de diesel

 

Se alguém quiser uma razão concreta para os Estados Unidos terem interferido na política brasileira, sobretudo através da influência sobre as operações judiciais que derrubaram a indústria nacional de óleo e gás, os números compilados pelo Cafezinho, com exclusividade, podem ser bastante úteis. O óleo diesel, como já dissemos em outros posts, é o principal produto importado pelo Brasil. Há uma razão histórica para isso. O Brasil concentrou toda infra-estrutura de escoamento de sua produção em caminhões movidos a diesel. Foi uma opção economicamente equivocada, especialmente quando consideramos o tipo de produto exportado pelo país: produtos extremamente pesados, como minérios, soja, café, que exigem grande quantidade de conteineres para serem embarcados.

Atualmente, todavia, os esforços para implementar ferrovias são sabotados pelos próprios latifundiários, porque estes se tornaram donos das frotas de caminhões. Segundo o sistema Alice, gerido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que monitora mensalmente os dados do comércio exterior, o Brasil importou mais de R$ 20 bilhões em óleo diesel nos últimos 12 meses até janeiro de 2018. Em dólar, este valor foi de US$ 6,09 bilhões, o que correspondeu a um aumento de 92% sobre o ano anterior.

Considerando todos os produtos, as importações brasileiras cresceram cerca de 10% nos 12 meses até janeiro, totalizando US$ 153 bilhões. O óleo diesel teve uma participação, portanto, de 4% sobre todos os produtos importados pelo Brasil. Em quantidade, a importação brasileira de oleo diesel nos últimos 12 meses totalizou 11,7 milhões de toneladas, um recorde histórico; deste total, os EUA forneceram 79% em 2017/18.

O brutal aumento da importação brasileira de óleo diesel apenas se explica pela decisão entreguista do governo Temer, sob pressão da Lava Jato, de paralisar a produção de nossas próprias refinarias. A bem da verdade, a paralisia do parque nacional de refino já vinha acontecendo desde 2014, com o início da operação Lava Jato, cujas ações, disseminando-se por todos os órgãos de controle, pareciam ter como objetivo exatamente esse: paralisar, suspender ou cancelar todos os projetos nacionais de ampliação da nossa capacidade de refino de petróleo.

O país fornecedor que mais se beneficiou, de longe, desse aumento da demanda brasileira por óleo diesel (e derivados de petróleo em geral) foi, naturalmente, os Estados Unidos.

Simultaneamente ao aumento da importação brasileira de óleo diesel, as refinarias norte-americanas começaram a aumentar, muito rapidamente, as suas vendas para o Brasil, ampliando seu market share.

A participação das refinarias norte-americanas na importação brasileira de oleo diesel passa de 42% há dois anos, antes do golpe, para quase 80%, nos últimos 12 meses.

As exportações norte-americanas de óleo diesel para o Brasil totalizaram 9,29 milhões de toneladas, nos últimos 12 meses, e geraram, para os EUA, quase US$ 5 bilhões, um aumento (em valor) de 101% sobre o ano anterior.

Sempre é bom lembrar que o juiz Sergio Moro, em 2015, rodava o país fazendo palestras em que dizia que os projetos de construção de refinaria no Brasil não eram uma boa ideia. Moro votava um ódio particular à Abreu e Lima, cuja construção a Lava Jato não conseguiu evitar, porque já estava adiantada quando a operação começou. A Lava Jato conseguiu apenas atrasar o máximo que pode o início de sua operacionalização. Em suas palestras, Moro dizia que delatores da Lava Jato lhe haviam dito que, segundo se comentava nos corredores da Petrobras, a Abreu e Lima “não se pagava”.

Bem, em cinco anos, o Brasil importou quase US$ 30 bilhões apenas em óleo diesel. Se somarmos o que gastamos na importação de gasolina, nafta, ureia e outros derivados de petróleo, esse número pode triplicar para US$ 90 bilhões, o que dava para construir uma dúzia de Abreus e Lima.

Somente as refinarias norte-americanas, e considerando somente a exportação de óleo diesel, ganharam cerca de 50 bilhões de reais do Brasil, nos últimos cinco anos.

A Petrobras e o sofá da porcentagem. Por Fernando Brito

Outro dia se mostrou aqui que os nossos irmãos portugueses andam fazendo “piada de brasileiro”. Não é para menos.

Ontem, o presidente-liquidante da Petrobras, Pedro Parente, reuniu um grupo de jornalistas para anunciar a “mudança na política de reajustes dos combustíveis” da empresa.

E vejam que genialidade: a companhia, agora, não vai mais divulgar o percentual de aumentos, mas apenas o valor em centavos de cada mudança.

Claro que contam com a “mídia amiga” para dizer que a gasolina subiu dois centavos nas refinarias, em lugar de dizer que aumentou 1%. Vamos ajudar o Dr. Parente, então.

Em maio de 2016, quando foi feito o impeachment, a média nacional do preço do litro de gasolina era de R$ 3,674. Agora, é R$ 4,222. Portanto, subiu ‘apenas” 55 centavos por litro. Não digo a percentagem para não fazer o jogo dos inimigos do Temer, certo?

Lembra a velha e conhecida piada do “tirar o sofá da sala” para acabar com as peraltices juvenis.

E nem é novidade, porque quando foi Ministro do “Apagão” de Fernando Henrique inventou outras semelhantes para fugir do nome de “racionamento” para a falta de energia.

Como é que um sujeito com essa “genialidade” pode dirigir a maior empresa brasileira?

Financeirização e desintegração vertical da Petrobrás: quem ganha com isso? Por Eduardo Costa Pinto

A Petrobrás, desde a sua criação no governo de Getúlio até a descoberta do pré-sal durante o governo Lula, sempre esteve no centro da política desenvolvimento do setor de petróleo e gás brasileiro, bem como do próprio projeto de desenvolvimento nacional.

A centralidade da Petrobrás foi e é fruto de sua capacidade de coordenar e induzir o setor em virtude de sua: constituição histórica, escala produtiva (verticalização – do poço ao poste), capacidade de acumulação de capital e de desenvolver tecnologia.

Essas capacidades são o reflexo da dupla função (duas faces) que a Petrobrás exerce como setor produtivo estatal. Por um lado, uma “face estatal – orientada para a realização de objetivos políticos [projeto nacional] e de ordem macroeconômico [inflação, balança comercial, etc.]” e, por outro, uma “face empresarial – orientada para a realização de objetivos de natureza estritamente microeconômica [acumulação de capital, endividamento, fluxo de caixa, etc.]”¹.

Cabe observar que essas duas faces estão sempre em tensão latente em virtude das dificuldades de conciliação entre os interesses estatal/público – já que proprietário majoritário dessa empresa é o Estado que representa os interesses da população brasileira – e empresarial/privado dessa empresa que necessita acumular capital para desenvolver seus projetos e investimentos. Apesar das dificuldades é sim possível integrar os ganhos empresariais com os benefícios sociais e as estratégias nacionais, ainda mais no setor de exploração e produção de petróleo que é caracterizado pela elevada geração de excedente econômico ainda mais com a descoberta do pré-sal em que a Petrobrás possui elevada expertise exploratória.

No entanto, a atual gestão da Petrobrás tem buscado desarticular essa dupla face da empresa por meio da redução a sua capacidade de atuação em diversos mercados com a venda de ativos (que tem provocado a redução do seu market share no mercado de derivados e na distribuição) para focar na exploração e produção de Petróleo. A questão que está posta é: a redução da face estatal não implicou em ganhos na face empresarial da empresa. Por que isso está acontecendo? Quem está ganhando com essa estratégia da empresa?

A estratégia atual da Petrobrás de concentrar de suas atividades na área de produção e exploração em detrimento do refino (fragmentação e desintegração vertical), aumenta a exposição da empresa a variáveis que ela não controla, como câmbio e preço do petróleo, e reduz suas margens no segmento do refino aumento seus custos e riscos em virtude das características especificas desse setor. Abrindo assim espaço para novos entrantes internacionais, inclusive na exploração do pré-sal.

Daniel Yergin, em seu livro clássico O Petróleo: uma história de ganância, dinheiro e poder, nos mostrou que a história do Petróleo é a trajetória da configuração da formação dos grandes conglomerados empresariais (Standard Oil fundada pela família Rockefeller que tem a ExxonMobil como principal herdeira, Shell, etc.) que para atuar nesse segmento precisaram realizar o processo de integração vertical. As grandes empresas desse segmento continuam adotando essa estratégia.

Não é por acaso que a atual estratégia da gestão da Petrobrás não tem gerado os lucros esperados². Na verdade, isso reflete uma terceira face da empresa que entra em choque com as duas últimas apresentadas. É a face da financeirização que não apresenta apenas uma dimensão macroeconômica, pois tem também uma forma microeconômica.

Os segmentos financeiros impõem sua capacidade de influenciar a Petrobrás tanto de fora para dentro como de dentro para fora em virtude dos espaços decisórios da empresa ocupados por indivíduos com laços pregressos com as finanças.

Isso fica expresso no desembolso de cerca de R$ 145 bilhões, entre o 4º trimestre de 2016 e o 3º trimestre de 2017, com pagamento de juros e do principal da dívida da Petrobrás. Desse total, cerca de R$ 75 bilhões foi para pagamento de banco públicos nacionais e o restante (R$ 70 bilhões) para instituições financeiras internacionais.

Além desse desembolso, a Petrobrás vem adotando recentemente (no último trimestre de 2017) a estratégia de adiantar o pagamento de dívidas junto aos seus credores emitindo novos títulos com prazo mais alongado e com certa redução do custo médio das dívidas. Dentre esses pagamentos recentes, cabe destacar os destinados aos bancos chineses (US$ 4 bilhões) e ao banco de investimento norte-americano JPMorgan Chase & Co. (US$ 2,5 bilhões). Este último havia recomendado, em fevereiro de 2017 (segundo matéria do Valor Econômico), a retomada das compras das ações da Petrobrás em virtude da alta dos preços do petróleo e da política de desinvestimentos.

É preciso observar a possibilidade de existência de interesses cruzados entre os bancos internacionais credores da Petrobrás e as grandes petroleiras internacionais concorrentes da mesma. JPMorgan Chase & Co. e a ExxonMobil podem ser um exemplo disso, uma vez que essas duas empresas têm as mesmas três instituições (Vanguard Group, Inc., Blackrock Inc., State Street Corporation) como seus principais acionistas que detém cerca de 18% de suas ações. No caso da China, há uma articulação explícita e coordenada pelo Estado entre as estratégias financeiras de seus bancos e a busca pela obtenção de reservas e produção de petróleo por parte de suas petroleiras. Esse tipo de articulação explícita, no exemplo da China, e implícita, no caso dos Estados Unidos, aumenta a pressão externa tanto para a financeirização da Petrobrás como para a redução de sua atuação na exploração do pré-sal e nas áreas de refino e distribuição. 

Essa estratégia reduzirá o pagamento de juros, mas mantém o processo de financeirização da empresa com a nova emissão de novos títulos (e todos seus efeitos dos riscos cambiais, etc.) e com a busca pela meta de desalavancagem prevista em seu Plano de Negócios e Gestão 2017-2021 (relação dívida líquida/LTM EBITDA de 2,5 em 2018) que implica necessariamente numa política de desinvestimento e de desintegração vertical. Com isso, a pressão externa é reforçada (e vice-versa) pelo atual PNG 2017-2021 da Petrobrás. 

Como a elevação recente do preço do petróleo e com as variações positivas na taxa de câmbio, os desafios financeiros de curto prazo da Petrobrás estão sendo revertidos. Isso permitiria agora a Petrobrás, associado com os possíveis ganhos vindouros da exploração do pré-sal, configurar uma estratégia que articulasse as suas faces estatal e empresarial. No entanto, não há sinais que isso possa acontecer na atual gestão mantendo uma estratégia que não resulta nem em ganhos privados (caso esses ocorram dependem fortemente da mudança do preço do petróleo) nem sociais.

Quem está ganhando com a atual estratégia (financeirização e desintegração vertical) são, por um lado, os segmentos financeiros nacionais e, sobretudo, os internacionais; e, por outro, as grandes empresas petrolíferas integradas (Shell, BP, ExxonMobil, Total, CNOOC, CNODC, etc.)  com a exploração do pré-sal e a abertura de novos mercados no refino/importações de derivados e da distribuição coma redução do papel da Petrobrás.

Quem perde, com isso, é a própria Petrobrás que reduz sua capacidade de acumular em termo empresariais em decorrência de sua desintegração vertical. Alveal 1994, p. 89) deixa isso muito claro ao afirmar que: “Razões de ordem econômica mais do que técnica exigem a integração vertical para realizar o elevado potencial de acumulação da indústria petrolífera, dado os riscos e custos financeiros associados a cada segmento da cadeia produtiva são diferentes”. Não é por acaso que a atual política de preços da empresa (atrelado ao mercado internacional) não aumentou as suas receitas, mas implicou em maiores custos para a sociedade com o aumento dos preços dos combustíveis e do botijão de gás, num contexto em que a nossa produção de petróleo bate recordes. Como explicar isso para a população!  

Perde ainda a sociedade quando a Petrobrás deixa de exercer a sua face estatal reduzindo a capacidade de estimular a geração de renda, emprego e desenvolvimento tecnológico, aumento assim os seus custos sociais.

O pré-sal que poderia ser uma benção, mas está se tornando uma maldição para o Brasil em virtude da atual estratégia da Petrobrás e dos segmentos governamentais responsáveis pelo setor de petróleo e gás que estão muito mais preocupados com interesses das grandes petroleiras (mudança dos índices de conteúdo local e subsídios tributários) do que com os interesses nacionais.     

Diretor de Associação de Engenheiros da Petrobras denuncia política de preços da estatal. Por Ricardo Maranhão

Procurando justificar a política de preços para os derivados de petróleo, adotada por sua administração, que implica na paridade com preços internacionais, o atual presidente da PETROBRÁS fez, tempos atrás, comparação esdrúxula do petróleo com o trigo.

Deu explicação simplória, reducionista: quando os preços do trigo sobem no exterior, é necessário reajustar o valor do pão.

A afirmação pode convencer incautos, cidadãos desavisados, consumidores desinformados.

Na realidade esta política de preços, de orientação entreguista, está prejudicando não apenas a REVENDA, constituída por milhares de empresários brasileiros, segmento fundamental de nossa economia, mas, também, milhões de consumidores. A PETROBRÁS e a economia do país, também são sacrificadas.

Os preços elevados desgastam a imagem da PETROBRÁS. A quase totalidade da população não sabe que a Companhia recebe menos de 25% do valor pago pelo consumidor, que inclui mais de 50% de tributos. Ocorrem, em todo o país, justos protestos contra esta política, com bloqueios nas estradas, greves de caminhoneiros, cercos às bases de distribuição da PETOBRÁS.

Aponto alguns aspectos negativos desta política, que somente favorece as grandes distribuidoras privadas, importadores de derivados e fornecedores estrangeiros, notadamente os norte-americanos. Cerca de 82% das importações brasileiras de diesel são provenientes dos Estados Unidos. Por isto o Corpo Técnico da PETROBRÁS classifica esta política como “AMÉRICA FIRST”.

Em 2017 foram nada menos de 127 alterações nos preços nas refinarias, desorganizando o mercado, confundindo revendedores e consumidores. As distribuidoras se aproveitam das freqüentes mudanças de preços para aumentar seus lucros, com prejuízos para a REVENDA.

Esta política, todos sabem, é uma velha aspiração das companhias multinacionais, que desejam globalizar os preços do petróleo, derivados e gás natural, desconsiderando as peculiaridades de cada país;

Será razoável submeter os consumidores e a economia brasileira aos preços internacionais, sabidamente voláteis, sensíveis a fatores múltiplos sobre os quais não temos qualquer controle?

Por que preços internacionais, se não temos salários, renda per capita, IDH nivelados aos dos países ricos?

O que tem o consumidor brasileiro a ver com as tensões no Oriente Médio, os furacões no Caribe e nos USA, as disputas internas na Arábia Saudita, as bravatas e escaramuças do presidente TRUMP com o líder norte coreano? Temos, no Brasil, invernos severos, nevascas, temperaturas de até 50 graus negativos? Devemos punir os consumidores brasileiros pelas elevações de preços decorrentes de crescimentos sazonais da demanda?

O Brasil é um grande produtor de petróleo, a custos inferiores aos vigentes no mercado internacional e pode se aproveitar deste fato, dando competitividade à sua economia, beneficiando os consumidores e remunerando, adequadamente, a PETROBRÁS e demais agentes da cadeia; Preços muito elevados da energia – e o petróleo é a maior fonte de energia primária no Brasil – tiram a competitividade da economia brasileira, já tão sacrificada, por juros extorsivos, pesada carga tributária, graves deficiências de logística dentre outros inconvenientes. Ademais, reduzem a demanda, já impactada negativamente por forte recessão.

Decorrido pouco mais de um ano desta política, insensata e impatriótica, o que vemos é a maciça importação de diesel e gasolina, combinada com o absurdo, ainda maior, de uma ociosidade de mais de 25% no parque de refino nacional; Além disso as exportações de óleo cru dispararam, deixando o país de se beneficiar com o valor agregado proporcionado pelo refino.

No período de janeiro a novembro de 2017, as importações de gasolina e as de diesel explodiram, chegando ao absurdo de mais de 200 milhões de barris, nível jamais alcançado, nem mesmo quando nossa economia apresentava bom desempenho.

Esta brincadeira de mau gosto custou ao país, nos últimos doze meses pelo menos uns US$ 8,00 bilhões em importações.

Sendo o revendedor o último elo de uma cadeia que inclui, também, importadores, refinadores, formuladores, transportadores e distribuidoras, ele é, ainda, acusado de ser o VILÃO desta política, ditada pelos que hoje comandam a PETROBRÁS.

Os dados da ANP mostram que os preços da gasolina aumentaram 9,40% em 2017, quatro vezes mais do que a inflação (2,07% pelo INPC). No GLP, produto de amplo consumo pela população mais pobre, o sacrifício é ainda maior, traduzido em uma majoração superior a 16,30%, já descontada a inflação. A maior majoração dos últimos 15 anos.

É hora de rever esta insensata política, sem prejudicar a PETROBRÁS – e isto é possível – em benefício de nossa economia.

 

Fonte: O Cafezinho/Tijolaço/Jornal GGN/Municipios Baianos

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