16/02/2018

Quanto o câncer custa à economia do Brasil?

 

O impacto humano do câncer é bem conhecido: são mais de 225 mil mortes no Brasil a cada ano. Mas agora, um estudo inédito também mediu as perdas que esse mal impõe à economia, levando em conta o recuo na produtividade causado pelos 87 mil óbitos registrados na população economicamente ativa - ou seja, pessoas com idade entre 15 a 65 anos. A estimativa é de que o país sofra um prejuízo de US$ 4,6 bilhões anuais, o equivalente a R$ 15 bilhões e a 0,21% de toda a riqueza gerada.

O cálculo considera a renda média dos profissionais, quantos anos deixaram de ser trabalhados e com quanto eles poderiam ter contribuído economicamente por meio de salário e emprego até o final da carreira. Não foram incluídas crianças, pessoas que estavam em idade de aposentadoria e os gastos de saúde com os doentes. "Se fossemos abraçar tudo (prejuízo econômico mais gastos com internação e medicamentos), estimo que as perdas totais seriam pelo menos o dobro do que avaliamos", afirma Isabelle Soerjomataram, coautora da pesquisa e membro da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC, na sigla em inglês), órgão ligado às Nações Unidas.

O estudo analisa as perdas causadas pelo câncer à economia dos Brics (grupo de emergentes composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e foi divulgado neste mês pela publicação científica "Cancer Research Epidemiology". Foram usados dados equalizados de 2012, que permitiram analisar o impacto econômico da doença para além dos indicadores triviais de incidência, mortalidade e sobrevivência. Mais de dois terços dos 8,2 milhões de mortes anuais por câncer no mundo ocorrem em países de renda média e baixa - só os Brics concentram 42% desse total, ou seja, quatro em cada dez casos. Os prejuízos às economias desses países somam US$ 46,3 bilhões (aproximadamente R$ 150 bilhões) por ano, segundo os parâmetros da pesquisa.

Tabaco, obesidade e doenças infecciosas

A maior parte das perdas no Brasil ocorre por causa do câncer de pulmão, que tem o cigarro entre as principais causas. Só o custo das mortes por tabagismo foi estimado em US$ 402 milhões (R$ 1,3 bilhão) ao ano. A obesidade também eleva o número de casos. "Taxas de obesidade que crescem rapidamente correspondem no Brasil a 2% dos casos de câncer em homens e quase 4% em mulheres. Isso aplicado aos resultados indica até US$ 126 milhões (mais de R$ 400 milhões) em perdas de produtividade por ano", diz o estudo. Outra característica brasileira é o alto número de casos de origem infecciosa. "Em comparação com países desenvolvidos, temos uma alta incidência de tumores de origem infecciosa. É o caso do câncer de colo de útero por HPV, por exemplo", afirma a Marianna de Camargo Cancela, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que também participou do estudo. "Também temos incidência de cânceres típicos de países desenvolvidos. Essa transição é puxada pelo enriquecimento e envelhecimento da população", explica a pesquisadora. Com isso, no Brasil há "a coexistência de doenças típicas de países em desenvolvimento e de países desenvolvidos".

A diferença de participação entre homens e mulheres no mercado de trabalho também foi considerada no estudo, revelando diferenças nas perdas econômicas de acordo com o gênero. Na média, cada vida perdida por câncer no Brasil na população economicamente ativa gera uma perda média de US$ 53,3 mil (R$ 176 mil). Mas no caso das mulheres, são US$ 44 mil (R$ 145 mil), e no dos homens, US$ 60 mil (R$ 197 mil). "A diferença entre o custo de uma vida feminina e uma masculina não chegou a nos surpreender. Usamos dados como renda, desemprego, participação na força de trabalho. São indicadores tradicionalmente mais baixos para mulheres, especialmente em países em desenvolvimento", afirmou a coordenadora da pesquisa, Alisson Pearce, do Registro Nacional de Câncer da Irlanda.

Envelhecimento e prevenção

De acordo com os pesquisadores, a abordagem mais inteligente para lidar com o problema é a prevenção. "Por isso estamos focando em recomendar investimentos nessa área", diz Soerjomataram. As tendências de mudanças no Brasil no longo prazo dependem do tipo de câncer. "A incidência de câncer de pulmão, por exemplo, tem diminuído, o que é um reflexo de políticas bem-sucedidas de controle do tabagismo. Então podemos dizer que no Brasil, em relação ao câncer por tabagismo, a tendência é melhorar", avalia Pearce. "Por outro lado, com o envelhecimento da população, a incidência geral de câncer aumenta. Daí a necessidade de investir em políticas públicas que atendam à população como um todo", afirma. "O Brasil está transacionando para um perfil de país rico. Por isso, eu imagino que o problema do câncer não vai diminuir no futuro. Se nada for feito, na verdade, o problema vai aumentar. O que estamos vendo é apenas o começo em termos de perdas. Elas certamente crescerão", complementa Soerjomataram. Uma pesquisa do Inca prevê que 1,2 milhão de novos casos da doença devem surgir no Brasil no período 2018-2019.

Como o progresso impacta os casos de câncer

Os US$ 46,3 bilhões perdidos anualmente pelos Brics por causa da doença correspondem a 0,33% de seu Produto Interno Bruto somado. Nos países desenvolvidos, porém, as perdas são ainda maiores - chegam a 1% do PIB nos EUA, por exemplo. Assim como o Brasil, os demais emergentes passam por uma transição epidemiológica, fase em que os tipos mais comuns de câncer deixam de ser predominantemente associados a causas inflamatórias e infecciosas, o que é típico dos países em desenvolvimento, e passam a ser causados por estilos de vida nocivos como o sedentarismo, sobrepeso e tabagismo, o que é característico dos países desenvolvidos. "Quando ocorre uma transição econômica, em diversos países se observa um aumento nos casos de câncer que estão correlacionados aos fatores de padrão de vida. Há uma forte redução no número de casos de câncer causados por infecções. Essa mudança se observa em um ritmo acelerado nos emergentes, assim como é acelerado o crescimento econômico deles", explica Soerjomataram.

Apesar de apresentarem semelhanças, cada país do bloco emergente tem suas particularidades na área da saúde. "As diferenças entre os Brics foram a coisa mais surpreendente que observamos. Apesar de terem perfis econômicos parecidos, sofrem com tipos de câncer distintos. Isso destaca a importância de desenvolver estratégias específicas para os problemas locais", diz Pearce. Na Rússia e na África do Sul, as maiores perdas econômicas são causadas pelo câncer de pulmão - o mesmo caso do Brasil. Já na China, o câncer que gera mais perdas por mortes é o de fígado, enquanto que na Índia são os tumores relacionados à cavidade oral.

'Em 15 ou 20 anos, o câncer deverá ser uma doença controlada, como a Aids', diz pesquisador do Inca

Nas décadas de 1980 e 1990, um mal pouco conhecido passou a assombrar o mundo e intrigar os cientistas: a Aids, causada pelo vírus HIV. Altamente letal à época, a nova doença se tornou um pesadelo. O filósofo Michel Foucault, o ator Rock Hudson, o cantor brasileiro Cazuza e o lendário roqueiro Freddie Mercury foram apenas algumas das celebridades que morreram em decorrência dela. Mas três décadas depois do surto inicial, as perspectivas de vida de um portador do vírus do HIV são bem diferentes das daqueles tempos. A eficiência dos coquetéis antirretrovirais é comprovada pelos números - no Brasil, o índice de mortalidade caiu mais de 42% nos últimos 20 anos, e a epidemia é considerada estabilizada. Hoje, a doença que mais assusta os brasileiros não é mais a Aids - e sim o câncer.

Segundo pesquisa do instituto Datafolha, esse é o diagnóstico que 76% das pessoas mais temem ouvir - é visto por elas praticamente como uma "sentença de morte". Só entre o ano passado e o atual, a estimativa era de que 600 mil novos casos surgissem no Brasil. Mas diferentemente do senso comum, os tratamentos já evoluíram bastante, a ponto de João Viola, pesquisador do Inca (Instituto Nacional do Câncer) desde 1998 e chefe da divisão de pesquisa experimental e translacional do órgão, dizer que "a grande maioria dos cânceres são curáveis". "Hoje a gente tem capacidade de curar doentes. Esse estigma, a gente tem que combater", afirma. Por outro lado, ressalta ser difícil poder falar em "cura definitiva" quando se trata da doença, já que ela pode ser extinta em um órgão e voltar em outro. Até por isso, os cientistas trabalham para torná-la "controlável" - assim como é a infecção pelo HIV hoje. "É muito difícil falar em cura porque, uma vez que você tem, precisa estar sempre em vigilância. Mas o que a gente está prevendo é que, em 15 ou 20 anos, o câncer vai ser a mesma coisa que a Aids. O paciente fica em tratamento-controle por muito tempo, e aí vira uma doença crônica. Isso é bem plausível, bem possível.

Cientistas identificam quantas mutações geram cada tipo de câncer

Cientistas britânicos decifraram quantas mutações são necessárias para transformar uma célula saudável em cancerosa: entre uma e dez, dependendo do tipo de tumor. As descobertas foram feitas por pesquisadores do Welcome Trust Sanger Institute e publicadas na revista científica Cell. O assunto foi, por décadas, alvo de debates calorosos entre cientistas que trabalham com pesquisas sobre o câncer. Segundo os pesquisadores, as descobertas podem aprimorar o tratamento contra a doença. Quando se compara uma célula saudável com uma cancerosa, é possível encontrar dezenas de milhares de diferenças - ou mutações - no DNA. Algumas dessas mutações fazem o câncer desenvolver, enquanto outras não têm qualquer impacto em seu desenvolvimento. Então quais delas são importantes?

Raiz do problema

Os pesquisadores analisaram o DNA de 7.664 tumores, para encontrar as mutações perigosas, que transformam células saudáveis em cancerosas.

Eles descobriram que:

-Uma única mutação é capaz de gerar câncer de tireoide e de testículo

-Quatro mutações provocam câncer de mama e fígado.

-Dez mutações geram câncer colorretal

"Nós tínhamos, há décadas, conhecimento sobre as bases genéticas do câncer, mas a discussão sobre quantas mutações são responsáveis pela transformação em célula cancerosa era controversa", diz Peter Campbell, um dos pesquisadores envolvidos no estudo. "O que conseguimos nesta pesquisa foi fornecer os primeiros dados objetivos. Das milhares de mutações no genoma do câncer, só uma pequena porção é responsável por ditar o comportamento da célula, o que a torna cancerosa", explica. Metade das mutações identificadas ocorreu em conjuntos de genes que nunca haviam sido associados ao câncer antes.

Tratamentos

O objetivo a longo prazo é promover tratamentos mais precisos contra o câncer. Se souberem quais mutações, dentre milhares, estão fazendo o tumor avançar, os médicos poderão determinar os medicamentos mais eficazes para combater especificamente determinada mutação. Drogas como o herceptin e os inibidores BRAF já são usadas para atacar mutações em tumores. A identificação das mutações capazes de transformar uma célula em cancerosa foi possível graças ao uso da teoria evolucionista de Charles Darwin.

Em essência, essas mutações deveriam aparecer com mais frequência nos tumores do que em mutações "neutras" - aquelas que não transformam células saudáveis em cancerosas.

Segundo os cientistas, isso ocorre porque as forças da seleção natural garantem uma vantagem evolutiva às mutações que ajudam as células a crescerem e se dividirem mais rapidamente. No entanto, Nicholas McGranahan, do Instituto de Pesquisa do Câncer do Reino Unido e do Instituto do Câncer da Universidade College London (UCL), faz ressalvas ao alcance da descoberta. "O câncer é uma doença que se desenvolve e muda o tempo todo. Faz sentido usar essas ideias de evolução das espécies para analisar falhas genéticas que permitem o crescimento do tumor, mas esse estudo foca em uma parte da evolução do câncer", pondera. "Ele só ajuda a resolver parte do quebra-cabeça", completa. Segundo ele, outros componentes do DNA acondicionados nos cromossomos também são peças-chave na identificação das causas de surgimento do câncer e precisam ser analisados para permitir uma resposta clara sobre a evolução da doença.

 

Fonte: BBC Brasil/Municipios Baianos

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