18/02/2018

Brasil caminha para uma eleição sem "outsiders"

 

Após meses de especulação,  o apresentador Luciano Huck parece ter desistido de vez de concorrer ao Planalto. Dessa forma, as eleições de outubro perderam um de seus "outsiders" potencialmente mais promissores, que já registrava entre 6% a 8% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha, à frente de figuras como o governador tucano Geraldo Alckmin.

Para especialistas ouvidos pela DW Brasil, a desistência de Huck mostra que o repúdio à classe política ainda não foi suficiente para abrir uma avenida para figuras de fora do establishment, à semelhança de casos como Donald Trump, nos EUA, ou Emmanuel Macron, na França.

"Havia mercado para esse tipo de iniciativa para desafiar a velha polarização PT x PSDB, mas existe um alto custo para alguém conseguir entrar na disputa, tanto pessoal quanto político", afirma o cientista político Rafael Cortez, da Consultoria Tendências.

"O caso de Huck não foi trivial. Ele é um rosto conhecido. Não era preciso construir sua figura do zero entre os brasileiros. Ele já tinha um capital político grande. Mas até ele achou difícil fazer essa transição para a política", completa, apontando ainda que o sistema político brasileiro é desenhado para beneficiar o status quo partidário, dificultando qualquer iniciativa externa.

O apresentador já tinha sinalizado uma vez – em novembro – que não iria concorrer, mas voltou a prospectar a possibilidade de uma candidatura após a condenação em segunda instância do ex-presidente Lula, que ameaça tirar o petista das eleições e abrir o campo para que os adversários cortejem milhões de eleitores que podem ficar sem candidato.

Huck chegou a ouvir consultores de marketing político e procurar membros da elite brasileira. No início de fevereiro, foi encorajado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a concorrer. A iniciativa soou como uma benção do político veterano.

Só que no aspecto político, o apresentador se viu enfrentando as dificuldades que envolvem construir uma candidatura. Sem uma máquina própria, precisou prospectar partidos políticos tradicionais, que, mesmo rejeitados pela população, ainda possuem capilaridade, experiência e, sobretudo, recursos.

Inicialmente, chegou a flertar com o PPS. Depois, começou a conversar com o DEM, partido que reúne há décadas uma série de oligarcas regionais do Brasil, para depois voltar a especular com o PPS. Nenhuma iniciativa parece ter rendido frutos.

Segundo cientista político Oliver Stuenkel, da FGV-SP, o caso da desistência de Huck é sintomático das dificuldades dos outsiders, mesmo com a demanda por renovação.

"Ele agiu profissionalmente, procurou especialistas, analisou quais seriam suas chances. Mas, ao mesmo tempo, se deparou com as dificuldades que envolvem se viabilizar. Nenhum outro outsider trabalhou tanto para avaliar a possibilidade de uma candidatura, e mesmo assim ele avaliou que as circunstâncias não eram favoráveis", diz. "Sua entrada na corrida teria o efeito de incentivar candidaturas de outros outsiders. Sua saída, por outro lado, deve desestimular outras iniciativas."

Stuenkel também aponta que o sistema político brasileiro ainda é largamente desenhado para favorecer os quadros que já dominam a política e que a elite desse sistema é hostil a outsiders. Ele aponta como sintomático o fato de que partidos como MDB ou outras legendas grandes não terem cortejado o apresentador.

Além dos aspectos políticos, parecem ter pesado circunstâncias pessoais na decisão de Huck, O apresentador recebeu um ultimato da Rede Globo para se decidir logo pela candidatura – com a consequência de que ele perderia seu programa se decidisse enfim concorrer. A imprensa brasileira também apontou que a emissora deixou claro que sua mulher, a apresentadora Angélica, também seria desligada caso ele prosseguisse com suas ambições políticas. Consequências que teriam forte impacto financeiro para o casal.

Mesmo nunca tendo se lançado oficialmente como pré-candidato, Huck também teve uma amostra do que é se colocar na arena política. Na semana passada, um blog pró-petista revelou que o apresentador adquiriu um jato particular graças a um financiamento generoso do BNDES, com juros abaixo da inflação. Choveram críticas ao global, não raro acompanhadas de antigas fotos suas em que aparece acompanhado de figuras caídas em desgraça, como o senador Aécio Neves e o ex-governador Sérgio Cabral.

O apresentador também foi sócio do empresário Alexandre Accioly, que é investigado pela Operação Lava Jato no Rio de Janeiro. Amigos temiam que Huck sofresse desgaste caso essa associação fosse explorada por adversários.

Tanto Stuenckel quanto Cortez apontam que, agora, a eleição deste ano deve revolver em torno de nomes de partidos tradicionais.

"Existe um clamor por mudanças, surgiram movimentos, mas essa vontade de renovação normalmente não é necessariamente acompanhada de uma nova oferta de quadro viáveis, especialmente em uma eleição presidencial. Isso deve ainda demorar", avalia Cortez.

Stuenkel, por sua vez, opina que a eleição deve ser pulverizada, semelhante a 1989, com uma ampla oferta de candidatos, mas com os nomes mais viáveis ainda partindo do atual espectro político. "Apesar da demanda pelo novo, pelo de fora, esta eleição deve ser entre nomes já conhecidos da politica", diz.

Bolsonaro come pelas beiradas

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que assinou um termo de compromisso com o nanico Partido Social Liberal (PSL) para se candidatar à Presidência, está ganhando cada vez mais apoio de seus colegas de parlamento. Com uma intenção de voto de 18 pontos percentuais na corrida eleitoral, Bolsonaro tem seduzido deputados de todas as siglas. “Já contamos com uma base de apoio de 44 deputados federais”, diz o deputado Onyx Lorenzoni (foto abaixo), um dos líderes desse movimento iniciado em outubro do ano passado. “Estamos construindo uma aliança suprapartidária para dar apoio a ele.”

Quase três MDBs?

Os parlamentares têm se encontrado com frequência para discutir como aumentar a base de apoio. “Ainda não estamos falando sobre plano de governo”, diz Lorenzoni. A meta é chegar a 100 deputados até maio e a 150 até as eleições de outubro. Detalhe: o partido com a maior bancada na Câmara é o MDB com 59 parlamentares. “Cada deputado vai ajudá-lo no palanque em menor ou maior grau.” Indagado se isso não pode ser classificado como uma traição partidária, Lorenzoni (DEM-RS) vai direto ao ponto. “Nem todos os partidos terão candidatos próprios e, mesmo naqueles que terão, eles são escolhidos pela cúpula. E nem todos estão sintonizados com as cúpulas. Isso faz parte da cultura da política brasileira.”

Poder de atração

São vários os motivos que têm atraído os parlamentares para a “base informal” de Bolsonaro. De acordo com Lorenzoni, há três fatores cruciais. O primeiro é a popularidade do candidato. “Ele é um fenômeno, tem apelo, e isso é um atrativo importante.” O segundo seria a sua guinada mais à direita, “um anseio da população”, e o terceiro ponto é a sua posição mais conservadora em relação à família e as declarações que tem feito sobre segurança pública. “As pessoas têm medo de sair nas ruas”, diz Lorenzoni.

Intervenção devia mirar a bandidagem do governo Temer, afirma Bolsonaro

Único militar na disputa presidencial, o capitão da reserva e deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) criticou duramente o anúncio do governo de uma intervenção federal no Rio de Janeiro. Segundo colocado nas pesquisas eleitorais, Bolsonaro é uma espécie de porta-voz de parte dos militares na política e tem na segurança pública sua principal bandeira. Para o deputado, a decisão do governo é política e Temer usa as Forças Armadas para tentar melhorar sua popularidade.  “É um decreto político por parte do presidente Temer, que usa as Forças Armadas em causa própria”, disse Bolsonaro, que classificou a iniciativa como uma piada.

Bolsonaro disse ainda que intervenção mesmo Temer deveria fazer em seu governo.  “A verdadeira intervenção tem que começar no governo Temer. E tira  a bandidagem que está do lado dele. Deviam sair todos de lá e descer para comer feijão com arroz.”

SEM ILICITUDE

E complementou: “Um intervenção desse tipo sem uma causa de excludente de ilicitude (estado de necessidade) é piada” – afirmou. “No Haiti, você podia atirar. Aqui como vai ser?”

Disse, ainda, que o número de eleitores que querem votar nulo ou em branco explica tudo: “Com esta maneira nojenta, podre e estúpida de fazer política, quem sério e honesto pode participar? Mais de um terço vai deixar de votar. Estão errados? Não. Este um treço é consciente demais para escolher o menos ruim. Estou começando a pensar qual o melhor uso para um título de eleitor no Brasil. Confesso que, pelo pequeno tamanho e valor irrisório, colá-lo na parte interna de um banheiro de rodoviária não passa a ser uma ideia desprezível”.

PASSAR VERGONHA

Um dos coordenadores da Bancada da Bala, o deputado Alberto Fraga (DEM-DF), que é coronel reformado da Polícia Militar, afirmou que os militares correm o risco de passar vergonha no Rio. Ele é contra o uso dos militares nessa função, mas disse que votará a favor do decreto de Michel Teme

“Sou contra isso. O militar não foi treinado para essa missão, que é da Polícia Militar e Polícia Civil, que conhecem esses meandros. Militar é treinado para ficar lá, esperando uma guerra que nunca vem. Quero ver quando o primeiro soldado disparar um tiro de fuzil e atingir uma pessoa que não tem nada a ver com a história”, disse Fraga.

 

Fonte: Deutsche Welle/IstoÉ Dinheiro/Gazeta do Povo//Municipios Baianos

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