18/02/2018

Le Monde: Temer causa perplexidade e medo

 

A menos de um ano do término do mandato, alguns veem essa escolha como "uma manobra visando apagar a incapacidade do governo de votar a reforma da Previdência, um elemento crucial" da gestão Temer. "Outros criticam uma medida condenada ao fracasso num estado falido, onde a violência extrema compete com a indigência dos serviços públicos", informa Le Monde.

A correspondente em São Paulo, Claire Gatinois, questiona se o Carnaval extremamente politizado este ano não teve influência sobre a decisão de Temer. "O desfile da Beija-Flor, campeã de 2018, retratou a tragédia que se abate sobre a antiga capital do país, fazendo desfilar a corrupção, a morte, os policiais assassinados e a indecência dos políticos."

Na opinião do cientista político Mathias Alencastro, ouvido pela publicação, "esse Carnaval de conteúdo político reforçou a ideia de que o Rio de Janeiro estava em uma situação de anarquia".

Depois de apresentar um breve resumo com os números da violência no Rio, Le Monde elenca críticas feitas à intervenção do Exército.

"Apenas em 2017, o estado registrou 6.731 mortes violentas, duas a cada três horas. Diariamente, os jornais brasileiros relatam tiroteios e tragédias absurdas de famílias atingidas por balas perdidas ou vítimas de agressões. Em 6 de fevereiro, a população se emocionou com a morte de uma garota de 3 anos, Emily, atingida no carro de seus pais por ladrões em pânico. No mesmo dia, Jeremias, 13, morreu com uma bala no peito quando jogava futebol na favela Complexo da Maré. De acordo com a organização não governamental Rio de Paz, 44 crianças morreram de balas perdidas desde 2007."

"Este decreto não atende às necessidades do Rio. Não conseguimos paz militarizando a polícia. O resultado será uma escalada de violência", adverte Adilson Paes de Souza, ex-tenente-coronel do Exército e autor de um livro sobre o mal-estar da polícia brasileira.

"Construamos escolas e fecharemos prisões", diz Francisco Chao, diretor do Sindicato da Polícia Civil do Rio de Janeiro, parafraseando o escritor francês Victor Hugo."

Lembranças da ditadura

Em um país onde a memória da ditadura militar (1964-1985) permanece nas mentes, a demonstração de firmeza de Temer causa arrepios, explica Le Monde, acrescentando que o ministro da Defesa tentou atenuar os temores. "A democracia exige ordem. Esta medida visa fortalecer a democracia. Não haverá restrição de direitos", tentou tranquilizar na sexta-feira Raul Jungmann, o ministro da Defesa.

O diário francês conta que "as redes sociais foram invadidas por memes de Temer imitando o marechal Castelo Branco, principal arquiteto do golpe de 1964". Na avaliação de Mathias de Alencastro, "o governo sabe que não deixará marcas e, numa última tentativa de golpe, busca satisfazer o eleitorado mais extremista, que vê a salvação apenas na intervenção militar", resume o especialista.

DCM: dados oficiais mostram que Temer e Globo mentiram sobre “caos” no Carnaval

"Para justificar a presepada da intervenção no Rio de Janeiro, Michel Temer declarou que 'as cenas do Carnaval revelaram uma agressividade muito grande e uma desorganização social e até moral muito acentuada. As pessoas lá não têm mais limites'", escreve o jornalista Kiko Nogueira, no Diario do Centro do Mundo.

"De acordo com o Jornal Nacional, as imagens (do próprio JN, acrescente-se) de'arrastões e saques, a ausência do prefeito Marcelo Crivella nesse período e a declaração do governador de que havia perdido o controle da situação foram determinantes para o Palácio do Planalto concluir que era preciso intervir'", lembra o blogueiro. "É mentira. Manipulação grosseira".

"No total de ocorrências: 9062 contra 5865. Em dezembro de 2017 foram registradas 66 vítimas a menos de letalidade violenta (soma de homicídio doloso, homicídio decorrente de oposição à intervenção policial, latrocínio e lesão corporal seguida de morte), uma queda de 10,9% em relação ao mesmo mês de 2016", continua.

Segundo Nogueira, "o Rio de Janeiro foi humilhado". "Exército sairá desmoralizado da aventura", acrescenta.

  • Leia o artigo:

Intervenção no RJ: dados oficiais mostram que Temer e Globo mentiram sobre “caos” no Carnaval. Por Kiko Nogueira

Na sexta, dia 16, o Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgou dados sobre a criminalidade no estado durante o feriado.

Roubos a pedestres tiveram o menor índice em três anos. Foram 1062 casos em 2018, contra 1485 em 2015, 1739 em 2016 e 1178 em 2017.

Também houve redução no furto a pedestres, quatro vezes menos do que em 2015. Em 2018 foram 584, contra 2144 de três anos atrás.

Lesão corporal dolosa foi de 1808 para 1297.

O furto de celulares — que foi de 711, 644, 506, respectivamente nos últimos anos — chegou a 394.

No total de ocorrências: 9062 contra 5865.

Em dezembro de 2017 foram registradas 66 vítimas a menos de letalidade violenta (soma de homicídio doloso, homicídio decorrente de oposição à intervenção policial, latrocínio e lesão corporal seguida de morte), uma queda de 10,9% em relação ao mesmo mês de 2016.

Ao longo dos dias da chamada folia de momo, a Globo mostrou cenas de assaltos, assassinatos e tragédias diversas de maneira ininterrupta.

A colunista Hildegard Angel lembra que a emissora “fomentou, através de seus veículos, esse clima de horror e insegurança na população do Rio de Janeiro, onde não parece que houve carnaval. Só crimes.”

O general Walter Braga Netto, nomeado interventor, afirmou que a situação da violência “não está tão ruim”.

Em entrevista coletiva, ao lado dos ministros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Sérgio Etchegoyen, e da Defesa, Raul Jungmann, ele disse que a impressão de descontrole era resultado de “muita mídia”.

Batata.

O Rio de Janeiro foi humilhado. O Exército sairá desmoralizado da aventura.

Os maiores responsáveis pela palhaçada trágica — Globo e Temer — lavarão as mãos.

Na Globonews, especialista em segurança bate duro no decreto de Temer

A professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Jaqueline Muniz, especialista em Segurança Pública, criticou duramente, na GloboNews, o decreto que prevê a intervenção federal na segurança pública do estado do Rio de Janeiro.

"Temos assistido é a substituição do feijão com arroz, o dia-a-adia dos policiamentos, por operações policiais, pela teatralidade operacional, que tem rendimento político, eleitoral, mas pouco efeito no cotidiano", disse ela.

De acordo coma  estudiosa, "se é para combater o crime organizado, não será este efeito espanta barata, com o sobe e desce dos morros". "A impressão é a de que o comando militar chegou ao Rio para passar o Carnaval, gostou e resolveu governar", acrescentou ela. "Tem uma articulação política por trás".

Segundo a especialista, não existe crime organizado sem conivência com setores do governo. "É através do dinheiro do crime que se faz caixa 2 de campanha e que crime é esse: mercadorias ilegais, que vai da banda larga às drogas".

Luis Felipe Miguel: aposta de Temer aponta sua aposta na direção do aprofundamento do golpe

Ainda não há muita clareza quanto ao objetivo de Temer com a intervenção no Rio. O que está bem estabelecido, até agora, é que ela é inconstitucional, já de partida por não ter cumprido o rito da consulta ao Conselho da República. Também restam poucas dúvidas de que ela não cumprirá seu objetivo declarado de pôr fim ao estado caótico da segurança pública no Estado. Dos principais especialistas no assunto ao jornal popular Meia Hora de Notícias, em sua histórica capa de hoje, há consenso de que colocar tropa para combater crime organizado não é solução.

Mas o que quer Temer? Talvez ele mesmo não saiba ao certo. Às vezes, quando o jogo parece perdido, o jeito é embaralhar as peças meio às cegas para ver o que sai. De qualquer jeito, sua aposta, mesmo que confusa, aponta na direção do aprofundamento do golpe. No momento em que a insatisfação popular com seu governo se torna mais vocal, o chamamento às forças armadas serve tanto para reaproximar as franjas mais conservadoras da classe média, sempre prontas a bradar por "lei e ordem", quanto para intimidar os grupos que eventualmente pudessem se engajar em ações mais organizadas de resistência.

Temer pode estar num de seus momentos delirantes, pensando que, com a dificuldade da direita encontrar um nome, ele pode se impor como sucessor de si mesmo. A intervenção seria uma demonstração de "firmeza", no momento em que está perceptível que ele não conseguirá forçar a aprovação da reforma da Previdência.

Ou Temer pode estar pavimentando o caminho para uma nova virada de mesa, menos ou mais maquiada, que implique o fechamento ainda maior do regime. É significativo o timing: no momento em que os escândalos chamuscam os juízes, os militares são chamados a salvar a pátria.

Temer aposta alto e assume desfile na Sapucaí. Por Ricardo Cappelli

Nada do que está acontecendo no Rio é novidade. O Estado já vinha num processo crescente de desintegração, política, econômica e social. O carnaval apenas expôs para o mundo uma realidade dramática.

Além do belo e ousado desfile da Tuiuti, de uma festa grandiosa nas ruas da cidade, a grave crise social enviou recados contundentes. Aconteceram arrastões em ruas da zona sul. Saquearam um supermercado no Leblon, reduto da burguesia carioca. Traficantes da Rocinha enviaram uma “singela carta” para todos os edifícios de São Conrado, endereço de famosos vizinho à comunidade, exigindo uma “semanada” de quatro mil reais por prédio para “manter a tranqüilidade no bairro”. Faixas de apoio à Lula foram estendidas em algumas favelas com os dizeres: “STF: se prender Lula, o morro vai descer.”

A situação fiscal dos estados, com poucas e honrosas exceções, é gravíssima. Receitas caindo, custeio subindo e um verdadeiro drama previdenciário. Os tímidos sinais de melhora na economia devem dar algum oxigênio. Nada que reverta a crise estrutural que vai conduzindo boa parte para uma situação parecida com a do Rio. Não há alternativa. Sem a retomada de um projeto nacional que aposte no desenvolvimento, o neoliberalismo tardio e anacrônico levará todos para o fundo do poço.

Neste quadro, a intervenção federal no Rio parece natural. Será? O general Villas Boas recentemente se posicionou contra estas operações. Temer está jogando xadrez e usando o exército como peça. Não tem autoridade sobre os militares. Aceitam seu comando apenas por falta de alternativa e estrito respeito à hierarquia formal. Bater nos militares neste momento é erro grosseiro.

Ao intervir no Rio o presidente aposta alto. Numa jogada só escanteia Rodrigo Maia, pego de surpresa, abafa a derrota certa na previdência e tenta retomar o protagonismo com uma agenda de forte apelo popular. Mostra para todos que não está morto e ainda tem nas mãos uma caneta poderosa.

Deverá colher apoios no curto prazo. Se der errado perde o que já não tem. Se der certo, se fortalece no leito do discurso da ordem, viés onde Bolsonaro reina soberano. Aliás, se funcionar, será o candidato militar o maior beneficiário. Terá uma demonstração prática de sua tese para expor.

Se a intervenção se estender para outros estados teremos o exército nas ruas a partir de agora, e durante todo o processo eleitoral. Nossa democracia está em frangalhos e o ex-presidente mais popular da história pode ser preso a qualquer momento. As forças armadas assumiriam um protagonismo “desconfortável” no país.

Circulam boatos em Brasília que a Lava jato prepara uma entrada triunfal em São Paulo. Faria no estado algo semelhante ao que fez no Rio. Estaria insustentável perseguir apenas Lula. Cabeças coroadas do PSDB seriam entregues. Serra já estaria à base de antidepressivos. Alckmin seria gravemente ferido. Estaria composto um cenário de devastação propício à prisão de Lula.

Os mesmos boatos dizem que este é o motivo para FHC, de posse desta informação, estar desesperadamente à procura de um “nome novidade”. Já foi Huck e agora está atrás do dono das Lojas Riachuelo. Estaria antecipando, fazendo movimentos de olho no mercado futuro.

Seria o triunfo da devastação da política, uma vitória da “Aliança do Coliseu” formada pela Globo com setores antinacionais da burocracia estatal na constituição de um novo projeto de poder no país.

Parcela da burguesia continua no projeto Tucano de poder, é verdade. Outra parcela parece decidida a apostar na “pós-política.”

Intervenções federais, exército nas ruas, Lula preso, a política sendo devastada, abrindo caminho para algum aventureiro. O fortalecimento de um discurso de ordem e força, ódio e medo, o sonho de consumo do Capitão Fascista. Temer se recolocando no jogo sonhando em ser protagonista ou um eleitor de valor numa saída conservadora que lhe preserve a pele no futuro.

É impossível não enxergar as digitais do “Anjo Mau” Moreira Franco, velho e experiente quadro formado na AP, nestes movimentos.

Por enquanto, algumas informações, muito exercício e especulação. Mas os sinais são preocupantes. É bom ficar de olho.

 

Fonte: RFI/Brasil 247/DCM/Municipios Baianos

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