20/02/2018

Família nordestina guardou séculos de romances medievais

 

  • Benedita Maria do Nascimento é a última de uma linhagem de romanceiros que mantém viva a tradição de cantar histórias, que chegou ao Brasil com colonizadores e se enraizou no Nordeste.

Ainda na infância, Benedita Maria do Nascimento, a caçula entre nove irmãs, aprendeu com o pai a arte de transformar cipó em cestas e balaios no sítio Oiteiros, em São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Natal, no Rio Grande do Norte.

Enquanto tecia as peças artesanais, debaixo de um pé de manga, seu Atanásio Salustino cantava o que aprendeu com os antepassados. Benedita escutava atenta. "Dom Jorge eu ouvi dizer que tu tavas pra casar. É verdade, Juliana, eu vim te desenganar. Esperai, Rei Dom Jorge, que eu vou lá no meu reinado, vou ver um copo de vinho que eu pra ti tenho guardado".

Benedita não sabia, mas as canções que ouvia de seu pai e guardava na memória eram romances ibéricos, histórias de conquistas que eram contadas e cantadas na era medieval. Herança trazida para o Brasil nas caravelas pelos colonizadores europeus.

"Chegou por livros e chegou na memória", é o que conta Maria Emília Monteiro Porto, professora de História Moderna e História do Brasil Colonial da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Segundo ela, o povo ibérico tinha um tradição de romances muito específica e particular, em razão da ocupação da região pelos árabes.

"Essa ocupação acontece entre o século 7 e só vai acabar no século 15, em 1453, e isso também provoca toda essa história de luta e heroísmo que vai ser a base desses romances, dessas histórias que são contadas. Inclusive, muitos temas do nosso cancioneiro nordestino vão lidar com essa briga entre mouros e cristãos".

Mas essa ideia de cantar as aventuras é ainda anterior à Idade Média. Remete ao mundo antigo. "Seja nas histórias de Heródoto, mas sobretudo Homero na Ilíada e na Odisseia. Ele (Homero) é um cantador. Exatamente um modelo do cantador que nós temos hoje, tanto aqui no Nordeste, quanto nos séculos 10, 11, 12, 13, 14, 15 na Europa", diz Monteiro Porto.

Mantendo o conhecimento vivo

Pelo menos até o século 15 a escrita circulava muito pouco. A ideia de cantar as histórias surgiu exatamente para manter o conhecimento vivo, geração após geração. "Os romances terminam com uma certa combinação pra ajudar o cantador a sempre recordar. A rima ajuda a memorização", diz a professora.

Foi dessa forma que as canções medievais se difundiram no Brasil. "Tem sempre um que sabe ler, que conta ou canta, e outro que memoriza e vai repetindo", explica Monteiro Porto. Como aconteceu com a romanceira Benedita, que reproduz hoje o que ouvia o pai cantar.

Durante décadas, esse saber ficou na escuridão do anonimato. Até que, segundo conta Benedita, há quase trinta anos foi convidada a dividir suas memórias com estudiosos, participar de debates sobre cultura popular e apresentar-se em eventos culturais. Integrante de uma família patriarcal, não teve a autorização do marido para alçar voo. Por ciúmes, ela confidencia que ele indicou a irmã para ir em seu lugar.

Benedita permaneceu desconhecida. Mas, aos 76 anos, nunca esqueceu as canções que embalaram sua infância. Parte do que entoa tem traços da cultura medieval como Juliana e Dom Jorge , outro tanto são canções romanceadas do Nordeste brasileiro, cantares que reúnem diversos gêneros como as toadas de boi, modinhas e cantos de romaria e cordel, como As quatro órfãs de Portuga l , do paraibano João Melchiades Ferreira, poeta do século 19.

É um romance longo que Benedita canta na íntegra. "Na cidade de Lisboa, havia uma união de quatro donzelas órfãs, sem pai, sem mãe, sem irmãos. Servia a moça mais velha como mãe de criação".

Em uma hora de entrevista para a BBC Brasil, Benedita canta vários romances. Muitas vezes, porém, o olhar parece se perder no tempo. É o mal de Alzheimer que se avizinha. Nenhum dos 11 filhos que teve, como também nenhum neto, se interessou em aprender os romances cantados pela romanceira.

Irmã famosa

Felizmente, graças às pesquisas realizadas pelo folclorista potiguar Deífilo Gurgel, que morreu em 2012, todo esse conhecimento foi gravado e está preservado na voz de Militana Salustino do Nascimento, a irmã de Benedita, que também tinha um acervo considerável e uma memória privilegiada. Ela ganhou fama, notoriedade e ficou conhecida como a maior romanceira do Brasil.

Em 2005, chegou a receber das mãos de Luís Inácio Lula da Silva, então presidente da República, a Ordem do Mérito Cultural, comenda máxima da cultura brasileira. Para o padre André Martins Melo, historiador que acompanhou de perto os passos de Militana, a comenda foi um marco. "Mudou o interesse das universidades em fazer um estudo sobre o luso-brasileiro, de conhecer historicamente", conta Martins Melo.

Militana morreu em 2010. Já a última guardiã de uma família que manteve viva a cultura mouro-ibérica, passa boa parte do dia deitada numa rede no alpendre da casa que mora recordando histórias galantes de amores, aventuras e tragédias.

"Todo o saber de Militana é o mesmo de Benedita. Ela canta o que cantava Dona Militana e o pai: histórias luso-brasileiras. De amor, de poder, de grandes brigas, de cristão com os mouros e assim por diante", diz o padre André.

Invasão estrangeira

Durante 15 anos Deífilo Gurgel estudou profundamente sobre o romanceiro no Rio Grande do Norte. Foi ele que descobriu o cantador de romances Atanásio Salustino, pai de Benedita e Militana. As pesquisas de Deífilo no Rio Grande do Norte resultaram em dois livros: O Romanceiro de Alcaçuz , publicado na década de 1990, e Romanceiro Potiguar , lançado em 2012, dois meses depois de sua morte.

No total, o folclorista coletou 300 romances, alguns deles inéditos no Brasil. "As primeiras questões da oralidade ibérica, os primeiros registros, as primeiras cantigas, vieram pra cá. Se o Rio Grande do Norte não é o maior está entre os maiores, sem dúvida alguma", pontua Alexandre Gurgel, jornalista e pesquisador, filho de Deífilo Gurgel.

Gurgel aponta a necessidade de dar continuidade aos estudos sobre o tema, sobretudo porque os detentores mais antigos desse conhecimento estão morrendo. "Vários já se foram e a gente vê uma invasão cada vez mais forte de culturas estrangeiras no nosso país e as novas gerações sem entenderem as suas raízes".

"Eu tenho medo de perguntar na minha sala de aula quem conhece Militana e ninguém conhecer. Me assusta a ideia", revela a professora universitária da UFRN. Ela defende que escolas e universidades explorem mais o tema de forma pedagógica.

Maria Emília reconhece, entretanto, que, em termos de cultura de massa, esse não é o tema, nem a música, que despertam interesse, já que são vistos como "mais sofisticados", embora tenham origem na cultura popular.

"Você falar de uma romanceira é mais ou menos como você falar: você escutou Brahms hoje? (Johannes Brahms, compositor alemão do século 19) Tá no campo da erudição, sendo popular, e deveria ser mais difundido nas escolas e na pesquisa também."

O suicídio praticado pela elite brasileira. Por Jorge Rubem Folena de Oliveira

Os primeiros grandes intérpretes do patrimonialismo brasileiro são os juristas Vitor Nunes Leal (em sua obra “Coronelismo, voto e enxada: o munícipio e o regime representativo no Brasil”) e Raymundo Faoro (“Os Donos do Poder: a formação do patronato político brasileiro”).

Ambos, ainda que a partir de pontos diferentes, conseguiram lançar as primeiras luzes sobre o funcionamento e a organização do poder no Brasil, mostrando que este sempre foi exercido por uma elite descompromissada com os interesses do desenvolvimento do País como nação, forjada na conveniência dos interesses pessoais, representada pela obra literária de Jorge Amado, como nos romances “São Jorge dos Ilhéus” e “Gabriela Gravo e Canela”.

Nunes Leal partiu da análise das relações de poder exercidas nos munícipios e grotões, microcosmos nos quais os interesses do mando constroem sua organização de poder e de onde dirigem sua influência na formação do Estado, instrumentalizada mediante o controle das instituições estatais por um grupo de correligionários.

Constitui-se assim uma grande família (expressão nossa) formada pelo laços do “filhotismo”, cujo mandamento principal é “para os amigos tudo, aos inimigos o rigor duro e cruel da lei”.

Faoro faz seu campo de observação a partir do processo de colonização portuguesa, que nos legou a forma de organização política estruturada no Brasil.

Desta forma, os atuais donos do poder são os descendentes de portugueses, que introduziram um modo de pensar e um agir político influenciados pela cultura latina, na qual as relações de proximidade pessoal serviram de base para a formação do Estado patrimonialista brasileiro, que tem como característica a condução do País por uma elite desinteressada do desenvolvimento nacional e sem nenhuma preocupação com o destino da maioria da sua gente.

Independentemente das diversas críticas às duas interpretações acima apresentadas, como fez recentemente Jessé de Souza (em “A tolice da Inteligência Brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite”), que questionou principalmente a obra de Faoro, pode-se afirmar que o pensamento dos dois juristas continua atual no Brasil de hoje, tomado pelo ódio de uma manipulada luta de classes que joga brasileiros pobres e explorados uns contra os outros.

Não queremos, com isto, negar a existência de luta de classes no Brasil, onde a exploração do capital pelo trabalho, como em todo o mundo, aumenta cada vez mais, tendo em vista a concentração exponencial da renda nas mãos de um número cada vez menor de indivíduos, que se tornam cada vez mais ricas.

Com efeito, quando me refiro à manipulação da luta de classes no Brasil, tenho em mente que tanto os trabalhadores brasileiros (dos mais miseráveis aos da classe média) quanto os empresários (industriais, comerciantes, prestadores de serviço, agricultores e microempreendedores) sofrem um contínuo e duríssimo processo de exploração de sua força de trabalho e de seu capital, que lhes retira inteiramente a capacidade de resistência política, social e econômica, uma vez que as forças produtivas tem sido apropriadas pelo capital especulativo internacional.

Como escrevi anteriormente, não são apenas os trabalhadores condenados com a retirada de direitos fundamentais e essenciais, decorrente do corte dos investimentos em saúde, educação, direitos trabalhistas e previdenciários, mas afetados também os empresários brasileiros, muitos dos quais estão se deparando com a necessidade de vender a preços baixos suas fábricas e terras, enquanto outros são diariamente forçados a fechar lojas, empresas e estabelecimentos diversos.

A elite brasileira parece não ter a capacidade de compreender que o projeto político e econômico em curso, por ela apoiado cegamente, está retirando de si mesma a capacidade de comando político (certo ou errado, não importa neste momento a análise), construída ao longo de séculos, como observado por Nunes Leal e Faoro.

Ao ser determinada a destruição de todo o complexo industrial de engenharia nacional, como se fez por meio da estranhíssima “Operação Lava Jato”, retirou-se das empresas brasileiras o imenso mercado de obras públicas no Brasil, então entregue a empresas estrangeiras e, em consequência, passou-se a utilizar aqui a mão de obra vinda de outros países.

Além disso, os equipamentos e insumos necessários às atividades passaram a ser comprados em outros lugares, trazendo ainda maiores dificuldades às empresas conectadas de alguma forma com aquela cadeia produtiva. O mesmo acontece ao se permitir o desmonte da Petrobras. As petroleiras estrangeiras irão dominar com exclusividade a exploração do nosso petróleo, que doravante só trará benefícios para elas, que, inclusive, não precisarão pagar qualquer tributo, conforme a lei aprovada pela elite que compõe o atual governo e o Congresso Nacional.

Nossos campos tem sido dominados por estrangeiros, que compram barato as nossas terras e utilizam mão-de-obra estrangeira e máquinas, tecnologia e insumos agrícolas produzidos em seus respectivos países. O mesmo tem ocorrido no campo da educação, no qual escolas e universidades, antes de propriedade de brasileiros, estão hoje sob o controle de fundos de investimento estrangeiros, se assenhorando também dos segmentos de saúde, segurança, comunicação social, previdência privada, finanças, transportes, infraestrutura, informática, livrarias etc.

É o maior processo de desnacionalização visto em tempos recentes, a partir do qual a elite brasileira perde o controle de seus negócios e em breve perderá completamente o poder de influência política interna, quando será finalmente relegada a um papel inexpressivo, limitado à mera repressão, a ser executada por uma burocracia judicial sem qualquer capacidade de compreensão da sua função, da mesma forma que foi delegada no passado pela elite brasileira aos capitães do mato.

Assim, por culpa exclusiva de sua elite, que comete suicídio, ao Brasil e ao povo brasileiro é imposta a mais dura subserviência colonial, que poderá nos condenar por décadas a uma posição de subalternidade, a exemplo do que ocorreu com a China após a derrota nas Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860).

 

Fonte: BBC Brasil/CartaCapital/Municipios Baianos

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