22/02/2018

Força eleitoral da intervenção é uma aposta, não um fato

 

Não há dúvidas de que decretar a intervenção militar na Segurança pública do Rio de Janeiro no Rio de Janeiro levou alguns filetes d’água ao moinho ressequido de Temer.

(Abro, antes de seguir, um parêntesis: o Exército está fazendo publicações para dizer que não é “militar” a intervenção, mas apenas um militar o interventor. O Exército pode até não entender assim, mas a nomeação do Comandante Militar de todas as tropas do Exército  no Rio – e MG e ES – para chefiá-la, sendo mantido também como  chefe do Comando regular desautoriza qualquer separação: outro interventor teria de ter acordo com o Exército para pô-lo a atuar, Braga Netto, não, pois manda em tudo). Essa irrigação, porém, não é um rio, nem mesmo um riacho, até agora.

Há um longo caminho a percorrer e é um roteiro que já seria difícil se houvesse um plano traçado e recursos disponíveis. Ou perspectiva de um engajamento maciço de todo o efetivo militar, o que parece não apenas de acontecer, mas antes disso, de ser o desejo das Forças Armadas.

O noticiário de incidentes criminosos tende a ficar mais forte e sua repetição tende a marcar como inócua a intervenção, que a percepção pública não alcança que esteja em fase de “planejamento” depois de ter sido decretada.

O general Braga Netto não tem como esperar sequer uma semana para criar “fatos” que mostrem que a intervenção começou, por mais que não deseje espalhafato.

E fatos de grande repercussão, nesta área, têm perigos tão grandes quanto os seus barulhos. Barreiras policial-militares nas vias de acesso ao Estado podem até ter alguma (reduzida) eficiência, mas não têm o “glamour” que os objetivos político-midáticos pedem da operação.

Aí está a grande “casca de banana” diante dos militares. Ontem, o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Roberto Itamar, disse que “intervenção não é o Exército na rua” e que “não vamos ter dez meses de tanque e militares na rua”.

Só que é esse tipo de intervenção que foi insinuada, despertou instintos guerreiros e é ansiada pelos que querem o Exército como “força de ocupação” da cidade.

E que o “general Temer” espera para dar-lhe munição eleitoral, como revelou hoje Bernardo de Mello Franco, em O Globo.

As colinas do “general” Temer

Os dias até o final  do mês serão esclarecedores sobre os problemas colocados diante dos planos, muito bem desenhados hoje por Bernardo  de Mello Franco, em O Globo, de fazer da intervenção federal no Rio de Janeiro, ao dizer que o marqueteiro presidencial pretende, com ela, “deixar os escândalos de corrupção para trás e vender o presidente como um político corajoso.

Como se apontou ontem aqui, ao resolver dedicar o mandato à seu sonho de afirmação, Temer entregou os fatos mais importantes de sua eventual campanha – a economia e a forma da própria intervenção na segurança, inteiramente nas mãos do “mercado” e dos militares. Um e outro, porém, têm suas próprias regras e conhecem seus próprios riscos.

No mercado, os players mais pesados operam com olhos sempre ligados no exterior, onde existe muitas dúvidas, exceto uma: os juros do Tesouro Americano vão (e já estão fazendo isso) subir e, desde que o mundo é mundo isso retira capitais dos “playgrounds” onde eles brincam do jogo sério de ganhar mais dinheiro.

Saem de acordo com seus cálculos nada imparciais de qual é o risco que se “paga” e ontem a Fitch e a Moody’s advertiram publicamente que devem logo seguir o que fez, antes, a Standard & Poor’s: rebaixar a “nota” brasileira. A ver qual será reação da “turma da bufunfa” aos avisos – seja o grosseiro de Rodrigo Maia ou o gentil de Eunício de Oliveira – de que nada ou quase nada das propostas econômicas governistas andará de agora até as eleições.

No lado militar, certamente não escapa a seu alto comando o que está explícito nos jornais. E a ideia de serem cabos-eleitorais de temer positivamente não lhes agrada – exceção ao general-ministro Sérgio Etchegoyen. O general interventor permanece mudo, mantendo o mínimo de atividade para que a tropa seja visível, mas fazendo vazar sinais de que reluta em espalhafatos.

Assim deve ser lida a nota em que o Tenente Brigadeiro Nivaldo Luiz  Rossato, comandante da Aeronáutica diz que é “equivocada” a ideia “de que as Forças Armadas teriam sido acionadas para intervir no Rio de Janeiro”, afirmando que não é militar, mas presidencial a intervenção. E, avançando, afirma que “não há previsão de emprego de efetivo das Forças Armadas além dos que já se encontram envolvidos na atual operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)” já em curso há sete meses.

O texto, não por acaso, foi publicado no  boletim oficial da Arma e reproduzido ontem, como artigo, em O Globo. Não o foi, certamente, sem diálogo com o General Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, e sem o conhecimento do interventor Braga Netto.

Os militares, até por formação, não se lançarão a ataques sem: 1) as garantias de que serão, senão blindados, ao menos cobertos contra ações do Judiciário que exponham suas tropas além do que consideram natural; 2) a segurança de que suas linhas de suprimento (leia-se recursos, já escassos) serão garantidas e abastecidas e 3) que aquele que lhes deu a ordem os vulnere com a exploração política (ainda) mais desavergonhada de seus objetivos.

O que a charge do Aroeira resume é mais do que percebido pelo comando militar e está no radar quando lhe exigem pressa.

O General Braga Netto está ciente de que está muito mais para Bernard Montgomery do que para George S. Patton. Será cobrado, como aquele, por lentidão, mas ciente de que a temeridade só é virtude quando a vitória é provável e não impossível.

Da mesma forma, há muita reflexão quanto a realizar uma razzia moralizadora na Polícia Militar, além de uma ou outra intervenção pontual. O suficiente, talvez, para inibir sabotagens maiores, mas não o que cause divisões e dissenções no “front” interno.

Temer é um comandante fraco e desmoralizado. É obedecido, mas não galvaniza as forças que estão com ele, por ambição ou disciplina. Aos primeiros, não dá certeza de ser capaz de entregar o butim. Aos segundos, o temor de que cheguem lá sendo vistos como se vestissem uniforme alemão.

Kotscho: Brasil de Temer está ficando ingovernável

Estamos caminhando celeremente para o caos institucional. Esta é a conclusão a que cheguei depois de ler o noticiário desta quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018. Ainda faltam 10 meses, longos 300 dias para acabar o mandato do atual presidente, e o Brasil de Temer ficou ingovernável. Desde o final da semana passada, como um piloto enlouquecido na cabine de comando, que perdeu todos os sinais de contato com a terra, Michel Temer abriu novas frentes de confronto.

Mesmo governando praticamente sem oposição, o presidente entrou num beco sem saída por excesso de esperteza dos seus marqueteiros.

Achou que tinha dado um golpe de mestre ao trocar a reforma da Previdência pela intervenção militar no Rio, com base em pesquisas de opinião, mas acabou afrontando sua própria base de apoio em setores da sociedade, no mercado, nos quartéis e no Congresso Nacional.

Com tanques nas ruas e soldados revistando mochilas de crianças nas favelas, enquanto ministros dormem em solenidade oficial ao lado de um presidente assustado, temos o retrato de um país à deriva, como mostram alguns fatos das últimas horas que, em seu conjunto, revelam a gravidade da situação:

No Congresso Nacional: revoltado por não ter sido consultado sobre a intervenção militar nem sobre o pacote de 15 medidas do “Plano B” da economia para compensar o sepultamento da reforma da Previdência, o antes dócil presidente da Câmara, Rodrigo Maia, declarou guerra ao Planalto. “Não li nem vou ler estas medidas. Quem faz a pauta da Câmara é o presidente da Câmara”. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, antes fiel aliado, foi na mesma linha. No mesmo dia, Maia, que tinha na questão da segurança a principal bandeira da sua improvável candidatura presidencial, resolveu colocar na pauta um pacote de projetos para “flexibilizar o estatuto do desarmamento”, com o objetivo de liberar o porte de armas, um projeto da poderosa “bancada da bala”.

Nos quartéis: a forma açodada e sem nenhum planejamento com que o presidente assinou o decreto da intervenção, também sem consulta prévia ao comando militar, está preocupando a cúpula das Forças Armadas que teme o uso político da medida de exceção, como registra Josias de Souza, em seu blog no UOL, ao ouvir um oficial sob o compromisso do anonimato: “Acionados nos termos da Constituição, estamos cumprindo nossa missão, como de hábito. As Forças Armadas se confundem com o próprio Estado. Não seria aceitável que fossem utilizadas para fins eleitorais. Com razão, costuma-se dizer que militar não deve se meter em política. Do mesmo modo, não convém politizar ações militares”.

Na sociedade: para quem ainda tinha alguma dúvida, a entrevista que Bernardo Mello Filho fez com o marqueteiro oficial de Temer, Elsinho Mouco, publicada no Globo, escancara o verdadeiro objetivo da intervenção: ressuscitar a imagem de Michel Temer e alavancar sua candidatura à reeleição. “Ele já é candidato. Viramos a agenda. Agora o momento é outro. Hoje a maior preocupação do brasileiro é com a segurança pública. A vela está sendo esticada. Agora está batendo um ventinho”, disse Mouco ao repórter, reconhecendo que a decisão foi tomada com base em pesquisas de opinião. Em entrevista à Rede Brasil Atual, Pedro Serrano, jurista e professor de Direito Constitucional na PUC/SP, teme uma tragédia: “Estão trazendo o caos para o Estado Brasileiro de forma irresponsável. Não tem jeito dessa farsa não terminar em tragédia. E nem de perto vai resolver o problema da segurança pública”.

No mercado: “A falta da reforma previdenciária pode levar ao caos a economia brasileira”, afirmou um analista da Capital Economics à rádio BBC, citado na coluna de Nelson de Sá, na Folha. Segundo o colunista, “o abandono da reforma previdenciária por Michel Temer, já com reação ameaçadora das agências de classificação de risco, repercutiu negativamente por, entre outros veículos, Financial Times, BBC e a agência chinesa Xinhua”. O Financial Times avisou aos investidores em mercados emergentes que eles devem “segurar os seus chapéus”, depois de destacar que “impopularidade e acusações de corrupção descarrilharam sua agenda, que tinha na reforma sua peça central”.

O melhor retrato do desgoverno que assola o país foi feito por Ricardo Moraes, da agência Reuters, mostrando os ministros Eliseu Padilha, da Casa Civil, e Henrique Meirelles, da Fazenda, nos braços de Morfeu, com o presidente Michel Temer olhando para outro lado, durante uma cerimonia oficial em Itaguaí, no litoral fluminense.

Eles não devem estar dormindo direito. As consequências da intervenção militar no Rio foram retratadas por Leo Correa, da Associated Press: crianças assustadas olhando para soldados armados com pesadas metralhadores que inspecionam suas mochilas numa favela da zona norte. São as imagens deste fim de feira trágico, na semana seguinte à grande festa do Carnaval. E ainda não se passaram dois anos desde que Dilma Rousseff foi afastada da Presidência da República sob a alegação de que tinha perdido a governabilidade.

Expurgo geral na Polícia? Isso acabaria com a intervenção

O Poder360 anuncia que o plano do general Braga Netto, interventor federal na Segurança Pública do Rio de janeiro, seria o de expurgar “todos aqueles com alguma ligação com o tráfico, as milícias e a corrupção em geral. Desde o alto comando das polícias civil e militar e do corpo de bombeiros até os soldados rasos”.

É óbvio que algo se fará – e a indicação de que “muitos comandantes dos batalhões da PM são sócios do crime” feita pelo Ministro Torquato Jardim é a prova de que o comando militar já tem informações importantes.

Mas duvido que um comandante experiente vá ter a pretensão de fazer uma limpeza completa, ampla e irrestrita em corporações onde a corrupção está espalhada muito além de qualquer imaginação. Para isso, seria preciso afastar e expulsar, sem qualquer exagero, milhares de homens.

Além da óbvia dificuldade em fazer isso por processos legais – administrativos ou judiciais – e regulares, para onde iriam estes milhares?  Vender Herbalife? Virar camelôs?  É evidente que isso seria um reforço imediato nas fileiras do crime, e reforço treinado e armado, porque não têm só as armas das corporações. Ou as milícias não estão lotadas de ex-policiais, bombeiros e agentes penitenciários?

Os cariocas mais antigos certamente se recordam das cerimônias humilhantes que o coronel Nílton Cerqueira, no governo (corruptíssimo, aliás)  Chagas Freitas fazia, arrancando as divisas, diante da tropa formada, dos soldados “indignos”, que saíam dali direto para os grupos de extermínio.

Mais recentemente, é bom não esquecer, houve a vingança policial da chacina de Vigário Geral e  a reação monstruosa  a um comandante de batalhão que desagradou grupos de policiais que, como represália,  jogaram uma cabeça humana dentro de um batalhão.

Na PM, especialmente, por se tratar de uma corporação, o general sabe dos elos de fidelidade e de cumplicidade que se estabelecem entre alta e baixa oficialidades e a soldadesca.  Muitos se acoelharão, é certo, mas outros farão uma peneira do sigilo das operações, com graves prejuízos para seus resultados.

Combate à corrupção feito de forma espalhafatosa e com objetivos de “marketing moralista” leva à paralisia da máquina, à imobilidade amedrontada e à inadmissível sabotagem interna, ainda mais quando se lida com homens armados.  Além, claro, da contradição de que isso se faria às ordens de um Governo infestado de suspeitos e processados pela mesma corrupção.

O general Braga Netto, claro, cortará algumas cabeças, a começar por aquelas que não se recolham diante da nova situação.  Mas não creio que vá fazer um “Estado Islâmico”, não só pelas dificuldades objetivas de fazê-lo dentro da legalidade administrativa quanto pelo resultado político, que abalaria sua operação.

E por aquilo que nós, no Governo Brizola, sofremos quando começamos a combater a “banda podre” das instituições policiais, o discurso de que “não deixa a polícia trabalhar”.

 

Fonte: Por Fernando Brito, no Tijolaço/Balaio do Kptscho/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!