23/02/2018

Três elementos para compreender as preferências políticas da classe média

 

Numa pesquisa sobre a intenção de votos para Presidente da República realizada pelo Instituto Datafolha, ainda em 2016, o deputado Jair Bolsonaro figurava como a escolha preferida da parcela mais rica da população. Igualmente, uma pesquisa feita em novembro de 2017 trouxe resultados alarmantes: o deputado Bolsonaro, que aparece em segundo lugar em quase todos os cenários simulados, disputaria o 2º turno se a eleição fosse hoje. A pesquisa mais recente do Instituto Datafolha, de janeiro de 2018, por sua vez, também apresentou resultados desalentadores: Bolsonaro mantém o 2º lugar na disputa e assume a liderança num cenário sem o ex-presidente Lula. O dado mais interessante das três pesquisas mencionadas, todavia, é o fato de que o deputado Bolsonaro figura como umas das escolhas preferidas dos segmentos mais ricos e com o maior nível de escolaridade. É importante lembrar que o sentimento de descrença com os processos políticos, que geralmente vem acompanhado pelo autoritarismo e a violência, é uma semente que costuma germinar em terrenos fertilizados pela insatisfação com a economia. Portanto, é curioso que Jair Bolsonaro, afamado pelas suas declarações controversas, esteja tão bem cotado nos segmentos sociais mais abastados e bem posicionados na sociedade, supostamente “esclarecidos”, como a alta classe média brasileira. É candente a discussão em torno das escolhas políticas da classe média brasileira. Destarte, cumpre ressaltar que o conservadorismo político da classe média é um tema assaz controverso, que costuma despertar acaloradas discussões entre os pesquisadores interessados no assunto. Todavia, as raízes de tais inclinações conservadoras, que carecem de um olhar mais cuidadoso, precisam de maiores esclarecimentos. Os fatores que explicam as preferências políticas da classe média por determinados partidos ou doutrinas específicas, portanto, merecem ser investigados.

Sob o ponto de vista da propriedade dos meios de produção, a classe média está situada no mesmo patamar que todos os integrantes da classe trabalhadora: vendem sua força de trabalho em troca de um salário e não possuem vínculo de renda com os resultados da produção. Portanto, é justo afirmar que, ainda que em intensidade diferente, a classe média também está sujeita às mais diversas aflições da classe trabalhadora: a diminuição dos salários, a queda de seu poder de compra e, a mais relevante, o desemprego. Um observador desatento poderia, à vista do parágrafo anterior, deduzir que os interesses da classe média deveriam convergir com os anseios da classe trabalhadora como um todo. No plano político, tal afinidade de interesses se expressaria num projeto de nação que almejasse uma relação menos conflituosa entre o capital e o trabalho, além de uma distribuição mais equitativa da produção social. Entretanto, não parece haver uma confluência entre os interesses da classe média e as demandas da massa trabalhadora. Surpreende o distanciamento que a classe média procura manter entre seu posicionamento político e a agenda dos movimentos trabalhistas. Seu apego ao status-quo e a sua afeição por políticas públicas voltadas ao benefício dos super ricos, por vezes, parece fazer crer que ela mesma é a detentora dos meios de produção. As motivações da alta classe média despertam inquietações: quais sãos os fundamentos de um voto numa figura política conservadora, tal como Bolsonaro? O conservadorismo da alta classe média fornece o alicerce político que viabiliza a candidatura de Bolsonaro? Seguem, portanto, três elementos que podem ajudar a compreender mais sobre o conservadorismo político da classe média brasileira. Evidentemente, não se pretende esgotar o assunto, mas apenas pincelar traços importantes para uma incursão preliminar no tema.

Contudo, antes de aprofundar nas escolhas políticas da classe média brasileira, será oportuno definir com mais clareza o que se entende por classe média. Tal como diversos outros termos da sociologia, o conceito de classe média é uma hidra de várias cabeças. Devemos ao Wright Mills, entretanto, uma definição mais clara do estrato social aqui investigado: mais especificamente, a nova classe média.

Na obra “A nova classe média (White Collar), Mills analisa o surgimento da nova classe média – em oposição à antiga classe média – tendo como pano de fundo as transformações socioeconômicas que atravessavam a sociedade Norte-americana, após a segunda revolução industrial. A nova classe média é formada por uma extensa gama de profissionais que surgem com o desenvolvimento das grandes empresas e burocracias modernas, públicas e privadas: profissionais de escritório, gerentes, contadores, advogados, médicos, secretárias, vendedores, professores. Seu traço marcante, símbolo que os diferencia do operariado comum, é o uso de roupas de passeio no trabalho, são os colarinhos brancos. De maneira brilhante, Mills reúne também alguns traços psicológicos da nova classe média Norte-Americana: A inquietação está profundamente enraizada entre os colarinhos brancos, pois a inexistência de qualquer ordem de crença os deixou moralmente indefesos como indivíduos, e politicamente impotentes como grupo. Criação recente de uma era cruel, o homem de colarinho branco não tem cultura própria, a não ser os conteúdos da sociedade de massas que o moldou, e procura aliená-lo. (…). Sua posição isolada faz dele um excelente material para a modelagem sintética da cultura popular, imprensa, cinema, rádio e televisão.

Entre as diversas peculiaridades da nova classe média, o autor destaca que, apesar de sua marcante presença na sociedade, a classe média possui grande dificuldade para exercer sua voz política. Ademais, sua posição intermediária na estrutura social dificulta que uma plataforma política possa se referir a ela diretamente. Mills provoca: Quem tem medo do auxiliar de escritório?

Qual a direção política que a nova classe média tomaria? Para Wright Mills, esse é o menor dos problemas. A questão fundamental é, se, algum dia, a classe média seguirá realmente para alguma direção. Alicerçado numa noção de classe social que remete à Max Weber, a rica investigação de Wright Mills sobre a gênese da nova classe média apresenta uma primeira pista para melhor compreender as preferências políticas dos colarinhos brancos.

1) A classe média reúne características – status, prestígio e poder – que a distinguem da massa trabalhadora. Essa inserção privilegiada na estrutura social permite a definição de uma agenda de prioridades que atenda a seus interesses particulares: uma agenda de interesses que pode, ou não, coincidir com os anseios gerais da classe trabalhadora. Os integrantes da classe média possuem um padrão de vida distinto da massa trabalhadora: sua distinção social tem origem no status, prestígio e poder detidos pelos seus membros. Logo, a classe média possui objetivos, interesses e propósitos que lhes são próprios, o que abre margem para a definição de uma agenda de prioridades divergente das preferências da massa trabalhadora. Por sua vez, as posições políticas da classe média serão condizentes com a manutenção de seu padrão de vida, de seus privilégios e de sua diferenciação social.

Para simplificar o argumento: o fato de a classe média pertencer a uma classe social diferenciada, com qualidades e interesses específicos, leva a classe média a perseguir uma agenda de prioridades que atenda aos seus interesses particulares: mais especificamente, manter seu status, prestígio e poder. Por fim, ao votar conforme seus interesses particulares, a classe média poderá assumir posições políticas que não coadunam com um projeto de desenvolvimento caracterizado pela união e pela coesão da classe trabalhadora.

A obra de Henry Braverman, “Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX”, tangencia a questão da classe média e suas inclinações políticas. Ao investigar os efeitos do capitalismo nos processos de trabalho, o autor argumenta que a progressiva mecanização do trabalho levaria à massificação do trabalho nos escritórios: a racionalização das atividades laborais dos engravatados culminaria na “proletarização” da burocracia administrativa. A ascensão da nova classe média revelaria, algum tempo depois, um vasto proletariado sob uma nova forma.

Todavia, as previsões acerca da proletarização dos estratos sociais médios não se materializaram. A classe média ainda desfruta de uma posição privilegiada na estrutura social. Tanto a clivagem entre a massa trabalhadora e os colarinhos brancos permanece nítida, bem como seus posicionamentos políticos seguem divorciados, aparentemente, sem reconciliação em curto prazo. Por fim, discutir se as preferências políticas da classe média, que podem diferir dos anseios e das vontades da massa trabalhadora, são coerentes com um projeto de país mais inclusivo e benéfico para a classe trabalhadora como um todo, é uma questão espinhosa, de difícil trato, que ficará para outro momento.

2) O receio de perder posição para os estratos sociais inferiores torna a classe média avessa a rupturas drásticas no status-quo. Opções políticas conservadoras, ou autoritárias, que mantenham as desigualdades relativas, tornam-se atraentes. Rudolf Hilferding, austríaco conhecido por seus estudos do capital financeiro, já afirmava, em 1910, sobre a classe média: Sem a possibilidade de uma política própria de classe, a classe média converte-se em presa de toda demagogia (…). De adversária econômica dos operários, a classe média torna-se seu adversário político, vê na liberdade política, que ela mesma não pode utilizar, um favorecimento que leva ao fortalecimento do poder e, com isso, do poder econômico da classe operária. Torna-se politicamente reacionária e, quanto menor for o lugar que ocupa, tanto mais valor atribuirá ao agarrar-se a ele. Chama também pela intervenção severa do Governo e está disposta a apoiar qualquer política de força, quando dirigida contra os operários. (…). Com isso, favorece os negócios das classes imperialistas e torna-se também seu aliado mais precioso.

Hilferding argumenta que as inclinações para o autoritarismo político, verificadas na classe média, estariam calcadas num sentimento de impotência para defender seus interesses, bem como num medo do fortalecimento da classe operária. O autor associa a propensão conservadora da classe média com a percepção de sua debilidade política na sociedade. Ao amargar uma sensação de fraqueza perante um possível fortalecimento dos operários, a classe média revelaria preferências políticas que coadunam com o autoritarismo. Para mais, essas características conformariam um estrato social de fácil influência eleitoral, pronto para atuar como um forte aliado aos interesses do capital. O autor apresenta, portanto, um segundo elemento para compreender o conservadorismo político das classes médias. A hostilidade que essa classe social carrega contra as demandas da massa trabalhadora pode ser identificada num receio de perder posição para os estratos sociais inferiores, situados na base da pirâmide ocupacional. Opções políticas conservadoras, que mantenham o status-quo social intacto, podem evitar rupturas drásticas na relação de forças da sociedade, garantindo a permanência das desigualdades relativas contra os estratos inferiores. Por derradeiro, um exemplo atualíssimo de como determinadas políticas públicas podem ameaçar as desigualdades relativas existentes na sociedade: a recente expansão do ensino superior e as políticas de cotas. A maior diversidade e a quantidade de diplomados pode aumentar a concorrência no mercado de trabalho, minando a exclusividade que a alta classe média possuía de disputar os empregos bem remunerados. O duplo efeito das cotas, ao retirar uma reserva de mercado tanto nas universidades, bem como nos empregos da classe média, perturba a “normalidade meritocrática”, como bem aponta o professor Sávio Cavalcante. Um elemento que pode despertar sentimento de revolta.

3) Há um conflito de interesses entre a elevação dos salários da massa trabalhadora e a manutenção do padrão de vida da classe média brasileira. Os baixos salários permitem que a classe média usufrua de serviços baratos, que confortam o seu dia a dia. Mais especificamente, trata-se de um conflito distributivo. No Brasil, o professor Waldir Quadros demonstrou que momento decisivo para o surgimento da nova classe média se deu no “milagre econômico”, período de acelerado crescimento econômico e urbanização, que transformou de maneira radical a estrutura de emprego e renda do país. Neste processo, a multiplicação de cargos de colarinhos brancos, viabilizada pelos novos negócios e pela dilatação das funções estatais, promoveu o surgimento da nova classe média.  Contudo, o “milagre econômico” se revelou altamente excludente, à medida que as desigualdades sociais se ampliavam. O péssimo encaminhamento da questão agrária; a incapacidade de absorver adequadamente a população migrante nas cidades e no mercado de trabalho e, por fim; a adoção de políticas públicas que privilegiaram os estratos sociais do topo são fatores que concorreram para perpetuar a pobreza no Brasil vii. Ao mesmo tempo, o regime militar buscou o desmanche das organizações trabalhistas, a obstrução da representação coletiva e o esvaziamento sindical .

Para a massa trabalhadora, abandonada à informalidade e aos baixos salários, restou defender-se pelas migalhas geradas no núcleo capitalista. Os baixos salários e a heterogeneidade do mercado de trabalho criaram uma legião de serviçais mal remunerados para atender às preocupações do corpo e da mente dos endinheirados: babá, faxineira, empregada doméstica, jardineiro, limpador de piscinas, garçom particular, motoristas particulares, manicure, prostituição de luxo e outros serviços confortam a vida da classe média brasileira. Assim, o surgimento da nova classe média brasileira acontece em um mercado de trabalho marcado pela desigualdade e pela oferta abundante de serviços baratos. Rodeada de serviçais mal remunerados, a classe média desfruta de mordomias que inexistem para os estratos médios nos países avançados. A nova classe média brasileira, que não conhece o Estado de bem-estar social europeu, tampouco a elevada renda per capita dos Norte-americanos, pode usufruir da farta mão de obra barata no mercado de serviços.

É cristalino, por fim, que existe uma incompatibilidade de interesses entre a elevação dos salários da massa trabalhadora e a manutenção do padrão de vida que caracteriza a vida da classe média. Políticas públicas que aumentem o salário mínimo, por exemplo, podem exacerbar este conflito distributivo, ao contrariar os interesses da classe média. Por conseguinte, parte do conservadorismo político da classe média é explicado pelo conflito distributivo aqui descrito. Evidentemente, existem diversos outros elementos que explicam as preferências políticas da classe média. Discorrer sobre um fenômeno tão complexo exigiria um trabalho de grande fôlego, que foge ao escopo do breve exercício aqui realizado, de tentar compreender melhor as opções políticas de um estrato social que é alvo de tanta controvérsia. Os escândalos recentes de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores, o poder da grande mídia em influenciar as decisões dos eleitores e a indignação seletiva de movimentos sociais como o MBL ou o Movimento Vem pra Rua, por exemplo, são elementos que merecem uma análise cuidadosa, pois renderiam páginas de discussão. Contudo, tal desafio ficará para outros pesquisadores mais versados e capacitados no tema, aptos para continuar essa empreitada.

Movimentos de massas e suas leis. Por Reginaldo Moraes

“Existem poucas forças mais poderosas na política do que a mobilidade para baixo, a desapropriação daqueles antes privilegiados (…), a tarefa mais difícil que um ativista enfrenta quando organiza os pobres ou a classe trabalhadora é convencê-los de que eles têm direito a algo melhor, que podem apresentar suas próprias reivindicações e que elas serão levadas a sério. A classe média alta da América não precisa de tal provocação. Deveríamos pensar seriamente na “lei” da teoria dos movimentos sociais – para julgar sua pertinência, seus limites, as condições em que se aplica. E o que dela se deduz como orientação para quem quer mudar o mundo, não fazê-lo repetir sua trajetória. Na verdade, há várias “leis” nessa lei geral. Ou dois lados da lei. Uma delas se aplica aos indivíduos dos andares de cima da sociedade – a mobilização resultante da queda ou da ameaça percebida da queda. A outra ao lado de baixo: a organização e a mobilização desses segmentos exigem quase que uma revolução nos seus sentimentos, na sua percepção da “ordem das coisas”.

Agora vejamos o Brasil recente e o que essas “leis” podem sugerir. Entre as classes médias, recentemente, vimos uma enorme mobilização de massas – ainda que fortemente inflada pela mídia orquestrante, claro. Essas classes médias tiveram perdas nesses 13 anos? Aqui e ali, esta ou aquela parcela desse grupo talvez tenha tido estagnação. Perda? Sim, houve pelo menos uma, grande, para a escala de preferências desse grupo social: perdeu a distinção. Algo que não se mede em absolutos, mas em relativos, em posicionais. Como? Perdeu aquilo que a punha acima da ralé. Aos poucos, a massa cheirosa de dona Cantanhede foi percebendo a vizinhança incômoda da plebe. Nos aeroportos – “isto aqui está parecendo a rodoviária”. Nas universidades – “isto aqui não é entidade assistencial”, diz o reitor da USP. Nos shopping centers, a praia de cimento e vidro reservada aos bons – “os mano e as mina resolveram dar um rolê nessa praia”. A primeira lei, portanto, parece ter evidenciado seu vigor. Isso, porém, nos deveria fazer refletir sobre o que pode acontecer agora, em 2018. Uma outra perda, desta vez em absolutos, parece chegar às classes médias – com uma recessão deliberadamente aprofundada, um “enxugamento” de empregos e rendas, um “liberou geral” para planos de saúde, mensalidades escolares e outros bens e serviços relevantes para tal segmento. O que acontecerá com essa classe média? Para que lado vai pender? Juntar-se-á a demandas dos de baixo ou constituirá, como muitas vezes ocorreu, a massa de manobra de uma direita do ressentimento?

A queda do tabu e o reconhecimento ao ídolo

E o segundo vetor da lei, aquele que diz respeito aos de baixo? A lei diz que é difícil convencê-los de que têm direito a algo melhor e que podem conseguir esse algo melhor. É isto o que podemos tirar da “lei” que Hayes enunciou. Mas podemos tirar mais, no contexto em que estamos. Vivemos um momento em que os andares de baixo de nossa sociedade – os trabalhadores sindicalizados do sudeste, mas também as massas mais desprovidas e abandonadas do nordeste e dos rincões – tiveram um gosto, um pequeno gosto de conquistas antes sequer visualizáveis. Não apenas o acesso ao avião e à universidade. Algo mais elementar. Comer três vezes ao dia, para milhões. Cisternas e “luz para todos”, crédito, muitas e muitos gostinhos de uma vida antes inimaginável.  Nesse mundo – em que algumas coisas deixaram de ser objetivos irreais e entraram na conta do viável e, até, do direito – é compreensível que a figura identificada com esses avanços seja venerada como o líder na conquista do campeonato. Abriu uma porta e por aí mais coisa pode passar. Ou, mais importante: precisa passar. O tabu foi quebrado. É esse o quadro que temos diante de nós. É apenas um quadro tosco, cheio de lacunas e incertezas. Exageros, detalhes mal desenhados. Não me iludo sobre a precisão dos traços. Apenas sugiro que pensemos nele como esboço. Precisamos resolver esses enigmas.

 

Fonte: Tomás Rigoletto Pernías, no Le Monde Diplomatique Brasil/Municipios Baianos

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