01/03/2018

O que há de mudanças climáticas na onda de frio na Europa?

 

A Alemanha viveu na madrugada desta quarta-feira (28/02) a noite mais fria do inverno: ao nível do mar, os termômetros chegaram a -20 graus em Lübeck, no norte do país; nas montanhas, passaram da marca dos - 40 graus, nos Alpes bávaros.

A onda de frio chamada de “beste do leste” levou temperaturas árticas a várias partes da Europa e gerou raras nevascas em regiões não tão acostumadas a paisagens brancas, como Roma, Côte d'Azur e o sul da Espanha.

Já na região polar, onde realmente deveria estar frio, a situação é outra: a parte mais ao norte da Groenlândia registrou 6 graus no último domingo. E esteve sempre acima de zero ao longo da última quinzena. O gelo marinho do Ártico também recuou a taxas recordes.

"É realmente marcante para fevereiro, quando está escuro permanentemente", diz Ruth Mottram, cientista climática do Instituto Meteorológico Dinamarquês, que vem registrando as temperaturas médias no extremo norte do Ártico. "Nunca foi tão alta nesta época do ano. Nunca foi tão quente. É realmente sem precedentes."

Sobrevoando a região polar, nota-se que um terço do gelo que cobre o Mar de Bering ao oeste do Alasca também desapareceu. Mas esse não foi um processo gradual: o gelo recuou durante impressionantes oito dias em meados de fevereiro, de acordo com uma reportagem do site de notícias sobre o clima InsideClimate News.

Numa época em que o oceano deveria, supostamente, registrar o pico do crescimento do gelo de inverno, a cobertura no Mar de Bering está agora 60% abaixo de sua média entre 1981 a 2010.

Especialistas expressaram consternação diante do nível do aquecimento do Ártico. Robert Rohde, cientista-chefe da Berkeley Earth, uma consultoria em ciência do clima na Califórnia, ilustrou graficamente o aumento da temperatura do extremo Norte nas redes sociais.

"O tempo maluco continua com força e persistência assustadoras", escreveu no Twitter Wright Kaleschke, professor de detecção remota de gelo marinho na Universidade de Hamburgo. Ele diz que não nunca havia visto tais temperaturas em seus 25 anos de pesquisa.

Mas o que está causando o calor bizarro do Ártico? E como isso se relaciona com o frio europeu?

A teoria predominante gira em torno de um enfraquecimento do chamado vórtice polar – ou seja, a massa de ar congelante confinada acima do Ártico durante o inverno. Isso também é regulado pelos jatos polares (correntes de ar formadas na atmosfera), que se tornaram irregulares provavelmente devido – ao menos parcialmente – às mudanças climáticas.

"Os sistemas de alta pressão sobre a Groenlândia e o continente europeu estão canalizando o ar mais quente e de baixa pressão para o norte, em direção ao Polo Norte", explica Kathryn Adamson, professora titular em Geografia Física, na Universidade Metropolitana de Manchester.

Isso faz com que o vórtice polar se rompa e se divida, resultando numa massa de ar frio movendo-se para o Sul, em direção à Europa e à América do Norte. Mas tais eventos estão ocorrendo com frequência crescente, diz Adamson. E eles estão, segundo a especialista, ligados ao aumento das temperaturas e à redução da cobertura do gelo marinho.

"Existe agora um forte e amplo conjunto de provas de que as principais transformações que estamos observando estão ligadas às mudanças climáticas", explica Adamson. "Mudanças em uma parte do sistema oceano-atmosfera podem ter impactos importantes em outra."

Mottram é da mesma opinião. Segundo a cientista climática do Instituto Meteorológico Dinamarquês, enquanto a divisão do vórtice polar é, até certo ponto, um evento meteorológico normal, as recentes tempestades que trazem ar quente para o leste e o oeste da costa da Groenlândia estão sendo bombeadas, provavelmente, pelas mudanças climáticas.

A atmosfera mais quente está contribuindo para o aumento da frequência dessas tempestades e para o enfraquecimento consistente do vórtice polar.

Impactos de grande alcance

Devido ao calor extraordinário, a cobertura atual do gelo marinho no Ártico está no nível mais baixo já registrado para esta época do ano. Além disso, há áreas de águas abertas ao norte da Groenlândia, onde antes havia uma cobertura antiga e espessa de gelo. "Isso é extraordinário e acontece muito, muito raramente", aponta Mottran.

Em agosto último, Adamson escreveu sobre o maior incêndio registrado na Groenlândia, um evento que ela atribuiu em parte às mudanças climáticas. Como 80% da Groenlândia é coberta de gelo, isso também ajuda a moderar as temperaturas globais ao refletir a radiação do Sol.

Enquanto o Ártico se aquece duas vezes mais que o resto do planeta, o permafrost (solo congelado) está se descongelando – o que poderia desencadear um circuito de feedback.

Recém-expostas e secas, a turfa e a biomassa do permafrost descongelado liberam uma grande quantidade de carbono indutor das mudanças climáticas, especialmente quando entra em combustão.

Esta é uma das inúmeras consequências em torno de um aquecimento do Ártico. A redução do gelo marinho também resulta na perda de habitat e presas para animais, como ursos polares e focas.

Muitos também temem que menos gelo deixe o Polo Norte vulnerável ao crescimento do transporte marítimo e, por consequência, ao aumento da mineração e da pesca.

Com a circulação e os padrões climáticos no Ártico "indo quase na direção contrária", de acordo com Mottram, é um momento premente – embora preocupante – para pesquisadores na linha de frente das mudanças climáticas.

"É muito interessante ser uma cientista do Ártico no momento", diz Mottram. "Mas, às vezes, deseja-se realmente um pouco mais de monotonia".

Onda de frio na Europa mata ao menos 41 pessoas

As temperaturas quebraram recordes negativos para esta época do ano nos últimos dias na Europa. Entre sexta-feira e esta quarta-feira (28/02), a onda de frio siberiano matou pelo menos 41 pessoas no continente, principalmente pessoas sem teto. Escolas e aeroportos chegaram a ser fechados devido às condições climáticas.

A madrugada de segunda para terça-feira foi a mais fria do inverno na Alemanha. No sul da Baviera ou no norte de Hessen foram medidas temperaturas mínimas de até 17 graus negativos.

O frio rigoroso registrado nos últimos dias é incomum para o final de fevereiro, segundo o Serviço Meteorológico da Alemanha (DWD). No alto da montanha Zugspitze, no sul do país, os termômetros marcaram -30,5 graus, a menor temperatura já registrada para um fim de fevereiro.

Até o início meteorológico da primavera, nesta quinta-feira, o frio deve permanecer castigando a Alemanha, onde o inverno, até então, vinha sendo considerado suave. Em dezembro, janeiro e fevereiro, o DWD registrou um "inverno suave, chuvoso e ensolarado", com temperaturas médias de 1,6 grau – 1,4 grau acima do valor de referência internacionalmente válido no período de 1961 a 1990.

O frio intenso aumentou o perigo para pessoas que não têm teto. Várias cidades, incluindo Berlim e Roma, forneceram camas adicionais em abrigos de emergência e ampliaram o período de funcionamento desses lugares, que funcionam normalmente só no período noturno, também para o dia. A Cruz Vermelha enviou ajudantes e instou as pessoas a cuidarem de vizinhos e parentes idosos. Algumas cidades belgas pediram à polícia que detenha as pessoas sem-teto que se recusam a aceitar refúgio.

Escolas foram fechadas no Kosovo, no oeste da Bósnia, na Albânia, assim como em regiões do Reino Unido, da Itália e de Portugal.

Desde sexta-feira, 18 pessoas morreram na Polônia, cinco só na madrugada de segunda para terça-feira, quando, em Varsóvia, a temperatura caiu para 16 graus negativos. Quatro pessoas congelaram até a morte na França, quatro na Eslováquia, seis na República Tcheca, cinco na Lituânia, duas na Romênia e uma na Itália.

Também o Mediterrâneo permaneceu inusitadamente invernal. A baía de Ajaccio, na Córsega, teve neve nesta terça-feira, e também a ilha italiana de Capri ficou com uma camada de neve.

Neve e gelo também levaram a obstruções no tráfego aéreo. Devido a uma nevasca na Inglaterra, a empresa aérea British Airways cancelou 60 voos no aeroporto londrino de Heathrow. Na Croácia, o serviço de trens entre Zagreb e Split foi interrompido. Na Romênia, três portos foram fechados no Mar Negro. O frio também causou o fechamento do aeroporto de Varna, na Bulgária.

Enquanto os europeus aumentam a utilização de seus aparelhos de aquecimento, a empresa russa de energia Gazprom registra consumo recorde de gás. Durante seis dias consecutivos, as exportações do grupo quebraram recordes, segundo a empresa.

O que é a 'Besta do Leste', fenômeno sem precedentes que deixou a Europa em alerta por onda de frio

Uma massa de ar fria vinda da Sibéria e da Escandinávia levou nevascas a diferentes cidades da Europa. Até o centro de Londres, onde normalmente os flocos de gelo derretem rapidamente, amanheceu coberto de neve.

Apesar de ser responsável por belas paisagens, a frente fria está sendo chamada de "Besta do Leste" pelos jornais britânicos.

Além de ter impactos nas estradas, voos e serviços ferroviários e de fechar escolas, o fenômeno já matou pelo menos dez pessoas nos últimos três dias em diferentes cidades da Europa. E deixou o continente em estado de alerta.

Na Polônia, cinco pessoas morreram na segunda-feira, quando a temperatura em Varsóvia chegou a -16°C. Na França, foram pelo menos duas mortes.

Há uma grande preocupação com os moradores de rua.

A Organização Mundial de Meteorologia já havia advertido que a temperatura mínima diária para essa semana estaria abaixo dos 0°C até no sul da Europa, e que isso poderia representar "um risco para a vida das pessoas vulneráveis expostas ao frio".

Em Bruxelas, na Bélgica, o condado de Etterbeek determinou a detenção forçada dos sem-teto que se recusarem a ir a abrigos para, assim, evitar potenciais mortes por temperaturas abaixo dos -15ºC

A "Besta do Leste" não apenas derrubou a temperatura ao longo da semana - foi também responsável por recordes de frio em várias partes da Europa.

"É provável que partes da Inglaterra e do País de Gales registrem o período mais frio desde 2013 e, talvez, desde 1991", informou o chefe do serviço meteorológico britânico, Frank Saunders.

Para o Reino Unido, a previsão é de mais neve para os próximos dias.

Na Itália, Roma amanheceu na segunda-feira coberta de neve, algo que não acontecia desde fevereiro de 2012. A capital italiana registrou temperaturas de até -8°C.

Na Bulgária, por sua vez, o serviço meteorológico pediu que a população evitasse viagens - as temperaturas chegaram a -7°C em Sofia.

A "besta" tem causado vários transtornos. Com a nevasca, o Reino Unido tem registrado acidentes em estradas, atraso de voos e trens e interrupção de serviços. Na Escócia, mais de 400 escolas e creches não abriram nesta quarta-feira, e outras centenas ficaram fechadas na Inglaterra.

Na Eslovênia, ventos gelados de mais de 100km/h obrigaram as autoridades locais a fechar a rodovia que liga a capital, Liubliana, ao porto de Koper. Na Rússia, os serviços meteorológicos estão advertindo que as temperaturas estarão mais frias que o normal, oscilando entre -14°C de dia e -24°C à noite.

Mais calor no Ártico, mais frio na Europa

O frio extremo na Europa contrasta com a situação no Ártico, que está experimentando um período excepcionalmente quente em uma época do ano em que o sol nem aparece no horizonte.

Nesta semana, o Ártico está experimentando uma grande onda de calor, segundo a União Europeia de Geociências. Em algumas partes da região, estão sendo registradas temperaturas acima do ponto de congelamento, surpreendendo muitos especialistas.

Segundo o jornal britânico The Guardian, especialistas estão usando termos como "maluco", "estranho" ou "simplesmente chocante" para descrever o fenômeno. Mas segundo com a OMM, trata-se de "um momento raro, mas não sem precedentes".

A organização explicou que o fenômeno está relacionado a padrões de circulação atmosférica em grande escala, chamados de "evento de aquecimento estratosférico repentino" e registrados na estratosfera, a uns 30 quilômetros acima do Polo Norte.

"O evento de aquecimento estratosférico provocou uma divisão no vórtice polar, que é uma área de baixa pressão na atmosfera superior, com redemoinhos de vento do oeste que circulam ao seu redor", esclareceu a OMM.

Essa divisão dos ventos teria provocado os ventos frios que vêm da Sibéria e têm influenciado a queda da temperatura na Europa.

De acordo com o Guardian, os picos de calor no Ártico são comuns, mas estão se tornando cada vez mais frequentes e de longa duração. O que está em debate no momento é o que está provocando isso, de acordo com a publicação britânica.

"Apesar de poder ser considerado como um evento anômalo, a maior preocupação é que o aquecimento global esteja comprometendo o vértice polar, o vento poderoso que ficava isolado no gelado norte", diz a publicação.

 

Fonte: Deutsche Welle/BBC Brasil/Municipios Baianos

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