07/03/2018

WhatsApp deve ser centro da disputa nas eleições

 

Lugar comum no cotidiano de qualquer brasileiro com um smartphone e acesso à internet, o WhatsApp deve ser crucial nas eleições deste ano. Alvo prioritário de marqueteiros políticos, a rede social tem diversas características que a tornam central para a disputa política: é amplamente disseminada; fechada e, portanto, com conteúdo de difícil verificação; e, ao contrário do Facebook, que comprou o WhatsApp em 2014, ainda não tem uma preocupação explícita com a disseminação de notícias falsas, as chamadas fake news.

O WhatsApp é um colosso no Brasil. Segundo o mais recente levantamento próprio da empresa, de maio de 2017, são 120 milhões de usuários. No último dia 22, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que 94,2% dos brasileiros entram na internet por telefones celulares e que 94,2% dos acessos têm como objetivo trocar mensagens de voz e imagens “por aplicativos diferentes de email”. Trata-se justamente das características do WhatsApp, o mais popular entre seus concorrentes. Uma pesquisa do Ibope publicada em junho do ano passado foi no mesmo sentido e revelou que o aplicativo é a principal rede social do Brasil, sendo utilizada por 91% dos internautas.

Com essa amplitude, o WhatsApp é visado pela classe política. O aplicativo é usado regularmente no setor pelo menos desde as eleições de 2014. Ele permite que, com pouco dinheiro (uma vez que a rede não tem a ferramenta de impulsionar publicações pagas), seja possível organizar apoiadores ativos de campanhas em grupos e encaminhar mensagens para pessoas de fora. “O Brasil é o país do WhatsApp”, diz o veterano marqueteiro político André Torretta. “Obviamente que a gente não consegue pegar 100% da população, mas pega um pedaço. Mas são pessoas mais aguerridas, pessoas com causa, que têm uma bandeira forte pra estar lá”, afirma.

Torretta recentemente se associou à Cambridge Analytica, empresa britânica conhecida por trabalhar para a campanha de Donald Trump, e criou a CA-Ponte. Ele avalia que o WhatsApp é estratégico, pois permite reunir e abastecer com informações esses apoiadores “aguerridos”, dispostos a compartilhar o conteúdo com outras pessoas, amplificando a capilaridade do WhatsApp. “A gente já está montando essas redes, de quem quer ouvir o que a gente quer falar.”

Torretta não revela seus clientes para 2018, mas afirma estar trabalhando em três campanhas estaduais. Segundo ele, todos os marqueteiros e todas as campanhas devem ter estratégias para agir no aplicativo. “Acho que todo mundo está usando nas campanhas, de uma forma ou de outra. Qualquer deputado hoje tem vários grupos no WhatsApp, tem todo um esquema pronto pra isso. Bem feito ou mal feito, mas tem. Já viu que não tem como não utilizar”, afirma.

O problema do uso do WhatsApp na política é que ele é terra fértil para a divulgação de notícias falsas. Em março de 2015, no início da crise que culminou com o impeachment de Dilma Rousseff, reportagem de CartaCapital mostrou que o aplicativo era muito efetivo como ferramenta de mobilização política (os panelaços foram organizados por ele), mas ao mesmo tempo  funcionava como uma máquina de boataria.

A realidade não mudou em três anos. O WhatsApp “leva vantagem” sobre as demais redes sociais na disseminação de boatos à medida que todo o seu conteúdo é compartilhado de maneira privada entre os usuários, o que traz maior sensação de confiança nas informações repassadas.

Por conta disso, o aplicativo também se tornou a principal ferramenta utilizada para espalhar golpes cibernéticos no Brasil. Somente no último trimestre de 2017, foram 44 milhões de ocorrências de links maliciosos na plataforma, segundo a empresa de segurança digital PSafe. “Eu diria que o WhatsApp é o maior canal de disseminação de notícias falsas hoje”, diz Márcio Vasconcelos, diretor do Instituto Tecnologia & Equidade (IT&E).

Apesar disso, a plataforma ainda não instituiu um mecanismo de combate às notícias falsas que são compartilhadas em conversas. Uma fonte interna da empresa confirmou a CartaCapital haver “movimentações a respeito disso” na empresa. A política contra as notícias falsas estaria ligada a uma ferramenta, ainda em fase de testes, que avisaria os usuários de que uma mensagem foi replicada várias vezes e seria, portanto, um spam ou uma corrente.

Para Vasconcelos, a iniciativa anti-spam do WhatsApp é positiva, mas ainda é só o início. “Em algum momento, ele também vai [precisar] ter a capacidade de eliminar da plataforma algumas mensagens, com base em checagens e denúncias confiáveis”, afirma. “A plataforma sinalizar que algo é uma corrente não elimina o poder dela. É muito comum que boatos voltem a circular depois de seis meses porque as pessoas continuam tendo acesso àquilo”, diz.

Vasconcelos critica a falta de abertura do WhatsApp para que sejam feitos estudos em sua rede. O Facebook e Twitter, em contrapartida, divulgam métricas sobre como as pessoas estão usando as redes. “O WhatsApp é muito fechado. Hoje em dia, a única forma que existe de fazer um estudo [lá] é criar uma conta, entrar dentro de um grupo e tirar informações de dentro dele. Mas só assim, e isso é uma fração do que acontece no aplicativo”, diz. “No WhatsApp, tem um bloqueio muito forte de informações, mas existe esse meio. Ele pode gerar propostas de melhora no médio prazo.”

Questões legais

O WhatsApp é o meio de comunicação digital mais difícil de monitorar devido à criptografia de ponta-a-ponta, uma tecnologia de segurança do aplicativo que “fecha” as mensagens dos usuários contra terceiros. A própria diz não ter a capacidade de acessar a conversa privada de duas pessoas. Trata-se de uma afirmação contestada.

“Como tem conteúdos que só circulam no WhatsApp e não são divulgados em locais externos [na internet], fica mais difícil de encontrar o indivíduo que primeiro divulgou essa notícia falsa”, afirma Gisele Truzzi, advogada especializada em direito digital. “Você precisa fazer um caminho reverso até chegar o mais próximo possível dessa pessoa, o que é bem complexo e detalhado.”

Legalmente, o Facebook é a empresa que responde toda vez que alguém entra em ação contra um conteúdo circulante no WhatsApp, por ser detentor do aplicativo de mensagens. Se o recorrente do processo pedir para que determinada mensagem, seja de texto, foto, áudio ou vídeo, seja removida do aplicativo, há uma disputa jurídica que esbarra em questões técnicas — que, segundo Truzzi, ainda não foram totalmente esclarecidas.

A empresa costuma alegar, nesses processos, que a criptografia a impediria de ter acesso a mensagens trocadas entre seus usuários, e, consequentemente, deletar conteúdos potencialmente prejudiciais. Nos termos de uso do WhatsApp, o aplicativo afirma, no entanto, poder retirar de circulação conteúdos que violam direitos autorais. “Se o WhatsApp fala que consegue identificar conteúdo violador da propriedade intelectual e eventualmente barrar esse material, ele por analogia conseguiria barrar todo o material circulante”, diz a advogada.

Além do arcabouço jurídico incipiente, a central de boataria do WhatsApp nas eleições deve contar com a falta de uma estratégia específica para o aplicativo por parte das autoridades brasileiras.

Preocupado com as possíveis consequências eleitorais das fake news, o Tribunal Superior Eleitoral criou um conselho consultivo e um grupo de trabalho para lidar com o problema. O tribunal ainda se reuniu com representantes das três principais redes sociais no início do ano. O aplicativo de conversa deve ser tratado de forma genérica, no entanto. “O WhatsApp tem o potencial de disseminar informação de forma muito mais rápida, então isso é uma preocupação”, afirma Eugênio Ricas, chefe da diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal. “Mas a forma como vai se dar a disseminação independe para a gente apurar o crime”, afirma.

No dia 5 de março, o TSE deve apresentar a redação final das normativas deliberadas a partir das discussões desses grupos.

Combate às fake news”: ética ou espetáculo? Por Sérgio Amadeu

“Eliminar a mentira da política é possível? A informação distorcida e quase inverossímil, a informação duvidosa deve ser criminalizada no debate político? É viável determinar qual o grau de exagero seria aceitável na disputa eleitoral? Se qualquer uma das respostas for sim, então uma das primeiras providências a adotar é proibir o marketing e as técnicas de publicidade nas eleições. A propaganda, seja comercial ou política, seleciona elementos positivos de um candidato ou produto e os superdimensiona ou os contextualiza de modo a atrair as atenções para algo que não é efetivamente encontrado na realidade. Dito de outro modo, ela exagera, superdimensiona, distorce.

Os governos e governantes só falam a verdade? A resposta é não. Os Estados convivem até mesmo com legislações que protegem ações obscuras alegando defender a sociedade. São as razões de Estado. Para citar um único exemplo, relembro as denúncias de Edward Snowden.  O governo Temer só fala a verdade? Parece que não. Apesar dessas óbvias constatações, a Justiça Eleitoral quer barrar a disseminação de mentira na disputa eleitoral de 2018.

Seguindo a espetacularização que tornou-se norma em nossa sociedade, algumas autoridades resolveram seguir o ritmo da política norte-americana e declararam guerra às chamadas “fake news” ou notícias falsas. Não conseguiram eliminar as inverdades, os exageros e as distorções do plenário da Câmara, mas querem eliminá-los na Internet. Dizem que os chineses possuem exércitos prontos a teclar e a postar inúmeras mentiras e notícias falsas para alterar o resultado das eleições. Uau! Quem será beneficiado pelas fake news? Qualquer um que contrate os chineses, a máfia russa, as empresas de negócios escusos na rede. Logo, a propaganda paga, impulsionada ou não, deveria ter sido proibida na Internet, porque ela nunca será transparente diante das mediações algorítmicas das rede.

Alguns até pensam em modelar um algoritmo que consiga detectar automaticamente as postagens “fakes” nas plataformas sociais. Imagine os parâmetros desse algoritmo de aprendizado de máquina que irá bloquear e excluir as postagens. Seus desenvolvedores deveriam ganhar a premiação máxima da Filosofia, Sociologia, Antropologia e demais ciências humanas, pois conseguiram definir de modo objetivo, algorítmico, o que é a verdade. Desse modo, conseguirão detectar e excluir as inverdades, as adulterações e deformações dos fatos, suas causas e consequências.

Como bem alertou Manuel Castells, no livro O Poder da Comunicação [Paz e Terra, 2015], a crise da democracia representativa abriu espaço para a política do escândalo como o principal modo de luta pelo poder. O escândalo é uma das faces da espetacularização que tudo simplifica para melhor atrair as atenções. Nada é mais “fake” do que o combate às fake news nas eleições. Na verdade, os riscos de censura e de perseguição política dos discursos não alinhados com o poder vigilante é demasiadamente grande. Empiricamente, constato que a democracia convive com grandes mentiras, mas não sobrevive à censura. Basta ver os Estados Unidos: eles sobreviveram à Era Bush e sua desastrosa invasão do Iraque em busca de armas químicas baseada em fake news.

Foucault nos convidou a observar que não há poder institucionalizado sem regimes de verdade, sem os elementos constitutivos daquilo que é aceito como verdadeiro. O poder sempre se apresenta como portador da verdade. Essa constatação não exige nossa adesão ao relativismo ou não implica na inexistência da mentira. É possível definir acontecimentos que ocorreram e os que não ocorreram. As disputas mais importantes, em geral, são sobre por que algo ocorreu e quais as suas consequências. Elas são muitas vezes repletas de torções e excessos. É possível denunciar se um fato ocorreu ou não, mas em geral não é isso que alimenta a disseminação de notícias falsas. A observação das redes mostra que é o ódio e a intolerância. Por isso, para reduzir o compartilhamento de fake news, o policiamento das redes só gerará distorções e a censura seletiva de exageros. As notícias falsas serão reduzidas se não aceitarmos a lógica dos fins que justificam os meios, se desaprovarmos veementemente nossas conhecidas e conhecidos que destilam o ódio, o racismo, a homofobia, a misoginia, o sexismo e o fundamentalismo religioso.

 

Fonte: Por Laura Castanho, na CartaCapital/Outras Palavras/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!