08/03/2018

Mulheres revelam histórias de assédio. Veja relatos

 

Psiu", "Gostosa", "Pego fácil", "Você é incapaz", "Não faz nada direito": o assédio tem várias vozes. Ele pode ser, inclusive, silencioso. Olhares intimidadores e toques indesejados também configuram o crime, que pode ser de cunho sexual, moral e até mesmo religioso.

Nenhuma mulher está livre de sofrer com o assédio. Confira abaixo alguns relatos que reforçam a necessidade de educar as pessoas para o fato de que assédio não é elogio. O combate pode ser feito através de denúncias no Disque 180, ou com registro de boletim de ocorrências nas Delegacias de Especiais de Atendimento à Mulher (Deam).

  • O que narram elas:

Margareth Menezes, cantora

"Com certeza todas nós, mulheres brasileiras, já sofremos algum tipo de assédio, principalmente assédio sexual. Algum tempo atrás, estava andando na rua e um cara passou e pegou no meu peito. É uma agressão inesperada e a reação que tive foi dar um tapa nele. É uma coisa muito assustadora, é muito ruim a falta de respeito, essa falta de educação básica. Me afetou muito ser assediada naquele momento, ficou aquela forte sensação de desrespeito. A partir desse momento, fiquei mais arisca com relação a esse tipo de coisa. Não permito que toquem em mim sem a minha permissão de maneira alguma".

Dadá, cozinheira

"Comigo aconteceu há muitos anos, com um ginecologista. Ele me colocou deitada, com as pernas abertas para fazer os procedimentos. Na hora de examinar, ele começou a se esfregar em minhas partes íntimas. Fiquei com medo na hora. Quando ele se afastou, me vesti e fui embora correndo. Como que um médico faz isso? É uma falta de respeito total. Hoje a gente fica atenta porque a gente vê exemplos de pais que fazem com crianças. Ele era cliente do meu restaurante e parou de frequentar depois disso. Esse caso mexeu muito comigo, fiquei traumatizada. Hoje, só me consulto com médica mulher, por medo".

Maíra Azevedo - Tia Má, jornalista e humorista

"Eu lembro de quando eu era estagiária. Tem sempre aquela brincadeira perversa, de tentar responsabilizar a pessoa que faz o estágio por todos os erros porque trata aquela pessoa como alguém de menos valia. Eu me lembro que isso me incomodava muito, até que houve uma vez em que eu fui chamada de 'primata', já que eu era estagiária. Eu era a 'base da pirâmide' dentro da empresa, e eu não gostei dessa brincadeira. Quando eu trabalhava em um jornal, as pessoas diziam sempre que eu deveria estar na capa, de uma forma sensual. Eu sempre dizia que, ser garota da capa não tinha problema algum, mas eu estava tentando produzir conteúdo porque eu era tão capaz ou até mais do que a maioria deles que estavam ali".

Tatiana Trad, baixista

"Já passei por várias situações... Que mulher que nunca né? Inclusive tem um episódio marcante onde eu estava no finado Rock in Rio no Aeroclube [antiga casa de shows em Salvador] e um cara tentou me beijar à força, mas eu fui mais rápida e dei um direto [soco] na cara dele (sempre fiz artes marciais, mas essa foi a primeira e única vez que usei como defesa pessoal). Eu bati e comecei a gritar. O cara não acreditou no que tava acontecendo porque o soco entrou forte bem no meio da cara e ele cambaleou. Chamei os seguranças, mas ninguém fez nada. O cara ficou me provocando depois e quem teve que sair do lugar fui eu. Meu irmão estava atrás de mim na hora do soco e ficou de cara [risos]. Esse foi um dos episódios de abuso...passei por outros...Quanto ao assédio verbal, passei por várias situações também”.

Ágatha Ferreira, publicitária

"O cara me deu 'psiu' e me chamou de gostosa. Revirei os olhos, super desconfortável e tentando ignorar. Aparentemente, na cabeça doida dele, o meu revirar de olhos foi um convite pra ele vir até mim e assim ele o fez. Pegou no meu braço e me disse que eu era “Gostosa pra C*". Retribuí o 'elogio' pedindo que ele me soltasse e que guardasse os machismos dele para ele porque a mim nada interessavam. Ele começou a gritar falando que as mulheres de agora não sabem mais nem receber um elogio, que somos todas 'mal amadas' e 'mal comidas'. De primeira fiquei chocada, só olhando ele esbravejar, não consegui nem me mexer e muito menos entender a situação toda".

Monique Evelle, jornalista

"Nos movimentos sociais de Salvador, eu comecei a trabalhar com pais que, aparentemente, tinham discurso e atitudes incoerentes. Eu lembro exatamente do dia que essa pessoa falou que queria se relacionar afetivamente comigo. Eu falei que não. Ele insistia, roubava beijos a força e eu ficava extremamente chateada. Sem contar que ele me disse que conseguia tudo e a qualquer momento, não importasse como. Aí me bateu medo porque achei que ele poderia me abusar [sexualmente]. Falei com minha mãe, ela me aconselhou a me afastar. Foi algo bem complexo".

Renata Laurentino, humorista

"A gente ensaiava para uma peça em um teatro, e aí ele me olhava estranho. Uma vez, depois de um ensaio, eu estava com as meninas usando o banheiro para tirar a maquiagem, e acabei ficando por último. Daí, nesse dia, ele entrou no banheiro e já veio me agarrando. Eu tomei um susto, pedi pra parar e ele dizendo que sempre quis ficar comigo. Ele era alto e bem mais forte que eu, e tentou me beijar. Eu comecei a falar firme com ele, pedindo pra ele me respeitar. Até que ele viu que eu estava brava, me soltou e saiu do banheiro. E aí foi um mix de sensações, eu fiquei chateada, envergonhada, com raiva. Hoje eu não faço mais teatro".

Odara Soares, rapper

"Sou mulher transexual afrolatina e sofro assédio pelo simples fato de existir. Frequentemente, me fazem propostas sexuais, com a maior naturalidade do mundo, como se eu estivesse aqui unicamente pra isso. No ambiente do rap, onde o machismo está enraizado, a maioria dos homens tenta me deslegitimar e anular o meu talento em público, rindo, fazendo piadas, ou me subestimando como pessoa. Uma vez, brincando de free style em uma rodinha de 'conhecidos', o cidadão me mandou chupar o membro dele e depois lavar a louça".

Dayane Oliveira, publicitária

"No ambiente corporativo acontece frequentemente, não só comigo, mas também com colegas. Alguns homens não aceitam a nossa presença no lugar e tentam calar a gente. É sempre uma tentativa de se mostrar mais entendido do assunto, cortando nossa fala. Quando não é assim, acontecem as situações de ficar repetidamente mencionando o quanto você está bonita, de uma forma que dá a entender que isso se sobrepõe à sua inteligência".

Fabíola Lopes, empresária

"No dia que aconteceu eu estava indo ao banco, dentro de um shopping. Eu sou uma mulher grande, tenho o quadril largo e isso acaba chamando atenção. Estava vestida 'comportadamente', quando um senhor que aparentava ter mais de 60 anos pegou no meu braço e disse no meu ouvido: 'gostosa'. Aquela palavra me feriu de uma forma, que só eu sei o que eu senti na hora. Esqueci que ele era um senhor, peguei ele pelo braço e comecei a xingá-lo e pedi respeito. Aí eu chamei o segurança, que me disse que não valia a pena dar queixa porque o shopping não queria dar alarde à situação".

Mulheres ganham menos que os homens em todos os cargos e áreas, diz pesquisa

mercado de trabalho brasileiro mostra que as mulheres ainda têm um longo caminho a percorrer para obter o mesmo reconhecimento que os homens. Pesquisa realizada pelo site de empregos Catho neste ano com quase 8 mil profissionais mostra que elas ganham menos que os colegas do sexo oposto em todos os cargos, áreas de atuação e níveis de escolaridade pesquisados – a diferença salarial chega a quase 53%. Além disso, mulheres ainda são minoria ocupando posições nos principais cargos de gestão, como diretoria, por exemplo. Para Kátia Garcia, gerente de relacionamento com cliente da Catho, apesar de ainda existir uma grande desigualdade entre homens e mulheres, houve um avanço, mesmo que tímido. E reconhece que levará tempo até que as condições sejam equiparadas. “Embora o cenário esteja longe do ideal, não podemos dizer que não há melhora. Aumentou a ocupação da mulher no mercado de um modo geral e também nos cargos de chefia”, diz.

Nível de escolaridade

A pesquisa mostra que as maiores diferenças salariais se dão entre os profissionais de nível superior e com MBA – as mulheres ganham quase a metade do salário dos homens. O percentual é atenuado conforme a escolaridade vai diminuindo, mas o salário dos homens é superior em todos os níveis de escolaridade. Kátia diz que essa diferença pode ser explicada pelo fato de as profissionais interromperem a vida profissional por causa da maternidade ou por mudarem de carreira e começarem do zero em outra com mais frequência que os homens. Segundo ela, estudo anterior feito pela Catho mostra que as mulheres interrompem a carreira seis vezes mais que os homens com a chegada dos filhos.

Cargos

O levantamento mostra que quando as mulheres ocupam cargos de presidente e diretor recebem em média 32% a menos que os homens. No cargo de consultor, a diferença chega a quase 39%. As menores diferenças estão nos cargos de auxiliar/assistente e estagiário/trainee. Kátia considera que o contexto histórico explica tantas diferenças reveladas pela pesquisa. “O fato de a mulher ter entrado no mercado mais tarde, ter tido acesso a escolaridade mais tarde, ter atribuição principal sobre a maternidade, tudo isso contribui para que o processo de carreira seja mais lento e existam essas diferenças”, explica.

Quanto mais alto cargo, maior a desigualdade

Já em relação à distribuição das mulheres entre cargos de gestão pesquisados, houve uma pequena melhora desde 2011, mas as desigualdades ainda aparecem e aumentam à medida que o nível hierárquico sobe. O cargo de presidente é o que tem a menor proporção de mulheres – 25,85% em 2017 - e apresenta o menor crescimento em comparação a 2011 - aumento de 2,94 pontos percentuais. Já o cargo de encarregado, o mais baixo entre os pesquisados em nível de gestão, tem a maior proporção de mulheres – 61,57%. Kátia considera que a questão da maternidade pode desacelerar a carreira das mulheres, o que pode explicar tamanha desproporção e o fato de elas terem maior participação nos cargos mais baixos da hierarquia.

Áreas de atuação

A pesquisa da Catho mostra que em todas as áreas de atuação pesquisadas, as mulheres ganham menos que os homens, até mesmo nas que há predominância feminina, como na de saúde. A maior diferença está na área jurídica – as mulheres recebem menos da metade da remuneração dos homens (52,7% a menos). “A verdade é que estamos longe da equiparação salarial, em especial quando percebemos que elas ainda ganham menos que eles em todas as áreas de atuação consultadas”, diz Kátia. Segundo ela, as empresas costumam avaliar a disponibilidade que a profissional mulher tem para contratá-la ou promovê-la. “Se o filho fica doente é a mãe que sai para socorrer. Para uma promoção por exemplo isso pesa”, diz.

Cenário promissor

Kátia ressalta que tem havido um aumento das promoções para as mulheres, incluindo mudanças de cargos e reajustes de salários, e que existe uma tendência para que as desigualdades sejam reduzidas.

Entre os fatores, ela cita a tendência de muitas empresas de permitirem o home office (trabalho remoto), que ajuda principalmente as profissionais com filhos a terem um horário de trabalho flexível. “É positivo para o mercado as profissionais que cuidam da casa e entregam bons resultados dentro do trabalho. Isso equaciona a maternidade e a carreira para as mulheres e propicia uma igualdade de salários um pouco maior”, afirma Kátia.

Kátia se diz otimista com o futuro. Para ela, uma série de mudanças já começaram a contribuir para mudar o cenário de desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. “Os homens estão ajudando as mulheres em casa, hoje em dia as famílias estão menores, há muitas famílias que optam por não ter filhos, a possibilidade de trabalhar em casa por causa da internet, tudo isso já está ajudando”, diz.

'Ele a matou pelo fato de ela ser mulher', diz mãe de vítima de feminicídio em SP

ais de seis meses após perder a filha, morta com um tiro na cabeça na Grande São Paulo, uma dona de casa só pensa em uma coisa nesta quinta-feira (8), quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher. "Eu quero justiça", afirma ao G1 Marlene Maria dos Santos, mãe de Laniele Santos Duques da Silva, encontrada morta em 23 de agosto de 2017 em Mauá, no quarto da casa onde morava com o marido e a filha pequena. Para a mulher de 46 anos, justiça será condenar Marcelo da Silva Azevedo, seu genro, pelo assassinato de Laniele. Apesar de negar o crime, o calceteiro (que trabalha na pavimentação de calçadas) de 26 anos é acusado de feminicídio contra a balconista de 20. Ele responde ao processo preso preventivamente. No próximo dia 27, ocorrerá a audiência de instrução do caso no Fórum de Mauá. Essa etapa serve para a Justiça decidir se ele irá ou não a júri popular pelo crime. “Ele matou ela pelo fato de ela ser uma mulher”, reforça Marlene, sobre o feminicídio, que é uma qualificadora do homicídio doloso, no qual há a intenção de se matar.

O feminicídio foi sancionado em 2015 por uma lei federal, que transformou em hediondo o assassinato de mulher motivado justamente por sua condição de gênero, no caso o feminino.

Numa eventual condenação, por exemplo, o feminicídio acarreta um aumento da pena, que pode ser de 12 a 30 anos de prisão, a mesma do homicídio doloso por qualquer outra qualificadora. Somente no homicídio simples a pena é menor: de 6 a 20 anos de detenção. "Eu quero que ele pague na prisão", pede Marlene, que tem mais quatro filhos. Laniele era a caçula, trabalhava numa pizzaria e em um depósito de gás da Vila Magini, periferia da cidade.

Em sua defesa, Marcelo alegou que Laniele se matou sozinha ao brincar de roleta russa com um revólver calibre 38. Mas como a Polícia Militar não encontrou a arma do crime, o deteve enquanto ele bebia num bar da comunidade onde morava. Posteriormente, a perícia da Polícia Técnico-Científica descartou a possibilidade de morte acidental. A vítima era destra e o tiro atingiu a têmpora esquerda.

Violência doméstica e feminicídio

Na delegacia de Mauá, Marcelo foi indiciado por feminicídio. "Ouvimos testemunhas, ouvimos parentes, e tudo indicava ter havido nesse caso realmente um feminicídio", conta o delegado José Carlos de Melo, titular do 1º Distrito Policial de Mauá. "A violência doméstica colocando a condição do gênero de mulher, passando por uma espécie de tortura psíquica, física, que se desenrolou por algum tempo." Posteriormente, o Ministério Público (MP) manteve esse entendimento da polícia e o denunciou pelo crime. A Justiça aceitou a denúncia e o tornou réu no processo. "Concluída a audiência, eventualmente, se decidir se será submetida ou não ao plenário do júri para que os jurados decidam pela condenação ou não", diz o promotor Vinicius Bonesso Guillen sobre Marcelo, que está detido em uma unidade prisional não revelada.

O acusado estava casado havia três anos com a vítima numa relação de idas e vindas. Para a polícia, ele matou Laniele porque não queria que ela se separasse dele novamente. E apesar de a vítima nunca ter registrado queixa contra o marido, pessoas que conheciam a rotina do casal relataram ciúmes e agressões constantes por parte dele. "Ele judiava muito dela. Uma vez minha sobrinha contou que eles foram para o cinema e lá mesmo ele bateu nela. Ele não escolhia lugar para machucar, bater. Um monstro", relata Marlene, que acusa Marcelo de causar um aborto na filha após uma agressão. “Aí ficou grávida dele. Ele espancou ela, ela perdeu o nenê", diz a sogra do acusado de matar sua filha.

Mãe defende o acusado

Foi uma vizinha quem chamou a PM após ter escutado tiros na casa de Laniele e de Marcelo, que fugiu da residência com a filha do casal, na época com 1 ano. Ele deixou a criança na casa da avó paterna. "Ele entrou com a menininha no colo e falou que tinha acontecido um acidente lá na casa dele, que tinha tido um disparo, que ela [Laniele] estaria brincando com a arma e teria tido esse disparo", lembra a também dona de casa Angela Marida da Silva Azevedo, de 45 anos, mãe de Marcelo. “Ele estava muito nervoso, muito desesperado, chorando e saiu.” Angela prefere não acreditar na conclusão da polícia e do MP, que acusam seu filho de matar a nora. "Acredito que tenha sido um disparo acidental", diz a mãe de Marcelo, que, no entanto, também se prepara para alguma punição ao filho. "Espero que, se foi ele realmente, que ele pague o que ele fez. Se a Justiça provar que foi ele, que se faça justiça."

Ela pede para a equipe de reportagem reforçar que Marcelo sempre foi educado a respeitar as mulheres. "Sempre eduquei e falei: 'Se você está num relacionamento que não dá certo, você separa, cada um para o seu lado, porque é o certo'", recorda. "Esse relacionamento do Marcelo com a Laniele é um relacionamento que, desde o começo, deu problemas." A guarda da filha do casal, que tem agora 2 anos de idade, é disputada pela avó materna e a paterna. Marlene está com a menina provisoriamente, e Angela entrou na Justiça com pedido para cuidar da criança. A decisão judicial ainda não foi tomada. Segundo a mãe de Laniele, a neta presenciou o crime, tem pesadelos e lembra do pai atirando na mãe. "Eu acho que tava no colo dela [Laniele]. Eu acho que ela tava mamando porque... Não cheguei a ver, mas ela [bebê] tava toda cheia de sangue."

Enquanto brinca na sala durante a entrevista, a avó se emociona ao contar que a neta chegou a pedir que a mãe voltasse. "Aí teve uma vez que ela pegou o controle da televisão, fingiu que era celular e pediu para ela voltar. Ela falou: 'Mamãe, volta'", diz. "Acabou com a minha vida. Acabou com uma família."

Essa não é a primeira vez que Marcelo é preso. Ele já havia cumprido pena por tráfico de drogas. "Quando ele bebia, usava droga, ele falava que ia comprar um revólver e ia estourar a cabeça dela. Do mesmo jeito que ele falou, ele cumpriu", afirma Marlene. 

 

Fonte: G1/Municipios Baianos

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