11/03/2018

Notícias falsas circulam 70% mais do que as verdadeiras

 

Notícias consideradas falsas se espalham mais facilmente na internet do que textos verdadeiros. A conclusão foi de um estudo realizado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), instituição de ensino reconhecida mundialmente pela qualidade de cursos de ciências exatas e de áreas vinculadas à tecnologia.

Os pesquisadores Soroush Vosoughi, Deb Roy e Sinan Aral analisaram 126 mil mensagens (não apenas notícias jornalísticas) divulgadas na rede social Twitter entre 2006 e 2017. No total, 3 milhões de pessoas publicaram ou compartilharam essas histórias 4,5 milhões de vezes. O caráter verdadeiro ou falso dos conteúdos foi definido a partir de análises realizadas por seis instituições profissionais de checagem de fatos.

Os autores estimaram que uma mensagem falsa tem 70% mais chances de ser retransmitida (retuitada, no jargão da rede social) do que uma verdadeira. As principais mensagens falsas analisadas chegaram a ser disseminadas com profundidade oito vezes maior do que as verdadeiras. O conceito de profundidade foi usado pelos autores para medir a difusão por meio dos retuítes (quando um usuário compartilha aquela publicação em sua rede).

O alcance também é maior. Enquanto os conteúdos verdadeiros em geral chegam a 1.000 pessoas, as principais mensagens falsas são lidas por até 100.000 pessoas. Esse aspecto faz com que a própria dinâmica de "viralização" seja mais potente, uma vez que a difusão é "pessoa a pessoa", e não por meio de menos fontes com mais seguidores (como matérias verdadeiras de contas de grandes veículos na Internet).

Motivos

Os pesquisadores investigaram o perfil dos usuários para saber se estaria aí o motivo do problema. Mas, para sua própria surpresa, descobriram que os promotores desses conteúdos não são aqueles com maior número de seguidores ou mais ativos. Ao contrário, em geral são pessoas com menos seguidores, que seguem menos pessoas, com pouca frequência no uso e com menos tempo na rede social.

Uma explicação apresentada no estudo seria a novidade das mensagens. As publicações falsas mais compartilhadas eram mais recentes do que as verdadeiras. Outra motivação destacada pelos autores foi a reação emocional provocada pelas mensagens. Analisando uma amostra de tuítes, perceberam que elas geravam mais sentimentos de surpresa e desgosto, enquanto os conteúdos verdadeiros inspiravam tristeza e confiança.

Política no centro

A pesquisa também examinou a disseminação por assunto. As mensagens sobre política circulam mais e mais rapidamente que as de outras temáticas. Esses tipos de conteúdos obtiveram um alto alcance (mais de 20 mil pessoas) três vezes mais rápido que as publicações de outros assuntos. Também ganharam visibilidade os tuítes sobre as chamadas "lendas urbanas" e sobre ciência.

"Conteúdos falsos circularam significantemente mais rapidamente, mais longe e mais profundamente do que os verdadeiros em todas as categorias de informação. E esses efeitos foram mais presentes nas notícias falsas sobre política do que naquelas sobre terrorismo, desastres naturais, lendas urbanas e finanças", constaram os autores.

Robôs

Os autores também examinaram a participação de robôs (bots, no jargão utilizado por especialistas) na disseminação dessas notícias. Diferentemente de teses apresentadas em outros estudos, os robôs avaliados compartilharam mensagens falsas e verdadeiras com a mesma intensidade. "Notícias falsas se espalham mais do que as corretas porque humanos, e não robôs, são mais suscetíveis a divulgá-las", sugere o artigo.

Notícias falsas ameaçam transformar pleito de 2018 em um vale-tudo eleitoral

Falso, falso e falso. Essas três manchetes, todas inverídicas, fizeram parte de avalanches de notícias falsas que caíram sobre Estados Unidos, Espanha e França com o objetivo de influenciar seus recentes processos eleitorais. A menos de um ano da próxima eleição no Brasil, o país já avista o mesmo fenômeno no horizonte, e até agora não demonstra ter capacidade de erguer barreiras capazes de contê-lo.

A disseminação das chamadas fake news na internet trouxe temores ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão fiscalizador da disputa brasileira. Integrantes da Corte e o presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, vêm trocando informações com instituições públicas e privadas a fim de incluir, eventualmente, resoluções relacionadas ao problema e que regerão a eleição de 2018, daqui a 10 meses. Polícia Federal, Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e empresas de tecnologia como Facebook, Google e Twitter estão debatendo formas de atenuar o uso de robôs que espalham mentiras e big data (dados) que criam cenários irreais para influenciar diretamente o processo eleitoral.

Atores públicos até tentam, mas não encontraram uma forma eficaz e constitucional de combater a disseminação de informações inverídicas na internet. A última alternativa foi durante a votação da reforma política, no Congresso, mas escorregou nos excessos. Uma emenda ao texto principal apresentada pelo deputado Áureo Ribeiro (SD-RJ) exigia que, antes de qualquer determinação judicial, provedores de aplicativos e redes sociais suspendessem publicações denunciadas por informação falsa ou discurso de ódio. Aprovada pelos parlamentares, a proposta foi vetada pelo presidente Michel Temer a pedido do próprio autor, depois de pressão de entidades da imprensa, que classificaram a emenda como censura.

Outra iniciativa, um projeto de lei que tramita na Câmara e é assinado pelo deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), criminaliza a divulgação ou o compartilhamento de informação falsa ou incompleta que prejudique terceiros. A proposta, que ainda deve ser apreciada na Comissão de Ciência e Tecnologia, prevê detenção de dois a oito meses e pagamento de multa de R$ 1,5 mil a R$ 4 mil a quem desrespeitar a regra.

De acordo com o parlamentar, o texto é inspirado em projeto que virou lei na Alemanha e também impõe multa aos provedores que deixarem as informações inverídicas no ar. Não há previsão de votação desse projeto em plenário.

Hoje, para uma postagem ser retirada do ar, é necessário denunciar o conteúdo na própria rede social, que determina que ela seja ou não apagada. Caso o material não seja excluído ou tenha características de um crime contra a honra, é necessário levar a questão à Justiça para sanções ao responsável. O tempo para alguma decisão judicial pode variar. Se o tema envolver políticos em campanha eleitoral, a sentença costuma sair em menos de uma semana.

O grupo liderado pelo TSE rendeu críticas do também ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello.

— Não podemos ter um retrocesso em termos de liberdade e da busca do eleitor pelo conhecimento do perfil do candidato. Penso que, em pleno século 21, nós devemos elogiar um pouco mais a liberdade — disse o ministro durante um seminário sobre liberdade na era digital, em novembro. — Não sei se vai haver a iniciativa, não estou no TSE, mas, se lá estivesse, a minha visão seria aberta quanto a esse fenômeno.

Gilmar Mendes replicou:

— Não se tolera o abuso, especialmente no campo eleitoral. Cada momento tem suas peculiaridades, mas ninguém está pensando em estabelecer censura. O que precisamos é ter provimentos céleres, porque essas notícias se alastram com força.

Especialistas no assunto avaliam que uma eventual interferência legal provocada por magistrados ou parlamentares não surtiria efeito em populações politicamente divididas. Seria necessário, primeiro, acalmar os ânimos e equilibrar as visões apaixonadas por temas como o aborto, a questão de gênero e a legalização das drogas. Para o professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado, a disseminação de informação falsa na internet não é um problema técnico, mas sim do inflamado pensamento distribuído em polos diferentes:

— O Facebook erra muito e poderia fazer mais do que faz, mas a culpa não é dele. Resolver o problema passa necessariamente por a gente mudar a maneira como o campo político está constituído no Brasil hoje, não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, na Argentina e em vários lugares do mundo.

Direito, valores e fake News. Por Marco Antonio Campos

Legalweek foi o título mais amplo que a Legaltech ganhou em 2018. Realizado, na semana passada, em Nova York, para mais de 3 mil advogados, juízes, estudantes e profissionais da área de tecnologia, tinha, além de uma centena de palestras e workshops, 500 estandes de produtos e serviços ligados à atividade legal.

Na abertura, o secretário de Homeland Security do governo Obama, Jeh Johnson, afirmou que o cyberterrorismo é a maior ameaça aos EUA. Durante sua fala, o ex-homem forte da segurança interna garantiu que centenas de ataques estavam ocorrendo a órgãos de governo, infraestrutura e empresas privadas.

Entre tantos temas interessantes, a mesa-redonda sobre Fake News e Liberdade de Expressão na Era Digital foi a mais fascinante. "Você tem um telefone, você é um publisher", foi a frase que iniciou o debate.

"Fake news é vinho velho em garrafa nova", afirmou um dos advogados, porque sempre existiu. Mudaram os meios e a velocidade de propagação. Uma professora de Media Law expôs que existem pelo menos seis tipos de fake news, da desinformação involuntária até a notícia falsa, plantada e divulgada intencionalmente para prejudicar. Por que as pessoas divulgam notícias que sabem falsas (ou ao menos duvidosas), sem checar a fonte? Busca de prestígio na bolha de pessoas que as leem? Irresponsabilidade com relação aos enfocados na notícia falsa?

Examine toda notícia que você recebe antes de passá-la adiante: Tem a fonte identificada? Existe o contato com o responsável pela notícia? As fotos estão creditadas? É imperativo ético e legal não divulgar o que você não sabe se é verdadeiro.

O Facebook e o Google não querem ser editores de notícias, pelos ônus daí decorrentes. Comparam-se a livrarias, em cujas prateleiras todos os tipos de ideias circulam livremente.

Foi citado o falecido senador Daniel P. Moynihan (mencionado por Obama em entrevista a David Letterman): "Todo mundo tem direito a sua própria opinião, mas não a seus próprios fatos".

As empresas de mídia tradicional têm responsabilidade e credibilidade para aferir a veracidade de uma notícia. Mas bons profissionais custam dinheiro, raro em época de queda vertiginosa de receitas de publicidade e circulação.

Foi unânime a posição de que uma solução regulatória vinda do Estado dificilmente vai deixar de ferir a liberdade de expressão. Está posto um dos desafios do nosso tempo. Como evitar as fake news sem sacrificar o valor maior da plena liberdade de expressão?

Universidade cria jogo sobre fake news para combater a desinformação

Um jogo lançado pela Universidade de Cambridge permite divulgar teorias da conspiração, notícias falsas e propaganda para entrar na pele dos criadores da desinformação e combatê-los de modo mais eficiente.

A ferramenta foi criada por pesquisadores da universidade inglesa em colaboração com o grupo de jornalistas holandeses DROG.

Disponível na página fakenewsgame.org, o jogo convida os usuários a criar um meio de comunicação fictício na internet e divulgar notícias falsas, com o objetivo de atrair uma grande audiência.

Os jogadores podem recorrer a um exército de contas falsas nas redes sociais, alterar imagens ou difundir artigos pouco rigorosos para alcançar seus objetivos.

— Se você sabe como é estar na pele de uma pessoa que tenta ativamente te enganar, sua capacidade de perceber e resistir a tais técnicas aumenta — afirmou em um comunicado Sander van del Linden, diretor do Laboratório de Tomada de Decisões da Universidade de Cambridge, que trabalha com a "teoria da da inoculação".

— Nós queremos ajudar a desenvolver "anticorpos mentais" que possam fornecer alguma imunidade contra a difusão rápida de informações falsas — completou.

Quase 100 adolescentes holandeses de uma escola do ensino médio participaram de um estudo com o jogo e aqueles que compreenderam as técnicas passaram a dar menos credibilidade às "fake news".

— Uma vacina biológica administra uma pequena dose da doença para construir imunidade — disse Van Der Linden. — De modo similar, a teoria da inoculação sugere que a exposição a uma versão fraca ou desmistificada de um argumento torna mais fácil refutar quando você é confrontado com alegações mais persuasivas.

 

Fonte: Agencia Brasil/GauchaZH/AFP/Municipios Baianos

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