13/03/2018

Campanha denuncia violência contra a mulher na música

 

 “Se te agarro com outro / te mato! / te mando algumas flores / E depois escapo", cantava Sidney Magal, nos anos 1980. Neste ano, MC Diguinho lançou uma música com o seguinte trecho: "Só surubinha de leve com essas filhas da puta / Taca bebida, depois taca a pica e abandona na rua".

Músicas como essas viraram alvo de uma campanha e de uma exposição da Prefeitura de São Leopoldo, cidade de 230 mil habitantes no Rio Grande do Sul. A ideia era mostrar como a música brasileira já tratou (e continua tratando) as mulheres de forma pejorativa e, muitas vezes, com incitações à violência.

A canção de MC Diguinho, por exemplo, foi alvo de acusações de apopologia ao estupro - depois, o músico lançou uma versão mais "light".

Em meados do mês passado, a cidade gaúcha começou a publicar imagens de mulheres segurando cartazes com trechos de músicas de teor machista. A iniciativa foi pensada por causa do Dia Internacional da Mulher, no dia 8 deste mês. Nessa semana, uma galeria com as fotografias viralizou nas redes sociais - foram mais de 50 mil compartilhamentos.

Uma em cada três mulheres sofreu algum tipo de violência em 2016, seja agressão física ou verbal. Os dados são de uma pesquisa do Datafolha e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgada no ano passado. Cerca de 503 mulheres brasileiras são vítimas de agressão a cada hora, de acordo com o levantamento.

Segundo Danusa Alhandra, secretária de Políticas para as Mulheres do município, a ideia da mostra surgiu depois da polêmica envolvendo "Surubinha de leve", de MC Diguinho. "Nos questionamos se esse tipo de letra existia apenas no funk", conta.| Foto: Thales Ferreira

Servidoras da pasta acabaram encontrando uma série de músicas com teor machista, sexista e de apologia à violência contra as mulheres. "Concluímos que não acontece apenas no funk. Está em toda a música brasileira: samba, rock, axé, música romântica, sertaneja. Até Noel Rosa", aponta a secretária.

No início do século 20, Noel Rosa compôs o samba "Mulher indigesta", que "merece um tijolo na testa" - essa letra também está na campanha de São Leopoldo.

Para Alhandra, dizer que apenas o funk é machista também é uma forma de aumentar o preconceito. "Se você diz que é só o funk, que é cantado nas favelas e na periferia, você está afirmando que apenas um segmento da sociedade é machista e violenta", explica ela. "E não é. Como está em todos os estilos musicais, a violência e a cultura de ver a mulher de forma submissa está em toda a sociedade, na classe média, na alta, na baixa."

Por isso, as fotos da campanha de São Leopoldo mostram de Noel Rosa à banda de rock Camisa de Vênus, passando por MC Livinho e Bezerra da Silva.

Alhandra diz que a campanha não pretende acusar ou criminalizar nenhum artista. "Foi uma ideia simples que a gente teve, para refletir sobre as músicas e sobre os discursos que a gente repete, não como acusação. A música é uma manifestação artística, que pode reproduzir um pensamento da sociedade".

Segundo ela, após o sucesso das primeiras imagens, servidoras da prefeitura e moradoras de São Leopoldo se ofereceram para posar para novas fotografias. A exposição fica em cartaz até o fim do mês, na sede da prefeitura de São Leopoldo e, depois, deve seguir para escolas municipais da cidade.

Projeto de músicos piauienses muda vida de crianças e adolescentes no interior do Brasil. Por Edjalma Borges

Apesar do descaso do poder público, um projeto musical no interior do Piauí tem levado oportunidade e aprendizado às crianças e adolescentes dos municípios de São Raimundo, São João do Piauí e Lagoa do Barro. A Associação Cultural Acordes do Campestre já ensinou e inseriu na música uma geração de jovens de regiões carentes.

A proposta começou em 2004, quando o empreendedor musical Salvador Nunes, músico e entusiasta cultural, desfez de seus únicos bens materiais, à época, para investir no futuro das crianças e jovens do pobre município de Dom Inocêncio, no sertão do Piauí, a 615 km de Teresina. Vendeu sua casa e um carro para comprar instrumentos musicais e levar adiante o sonho de crianças, que viram na música uma oportunidade de ter uma vida melhor.

Naquele ano, entre outras crianças, Sandro Dias – que ficou conhecido mais tarde como Sandrinho do Acordeom –, na época com 13 anos, filho de Salvador, também se juntou ao projeto e começou a tocar e ensinar às crianças a arte da sanfona e de outros instrumentos.

Após uma especialização na escola de música Pró-Arte, mantida pela Fundação Museu do Homem Americano (Fundham), Sandrinho foi morar com a família na periferia de São Raimundo Nonato, bairro Campestre onde em 2011 fundaram o projeto “Acordes do Campestre”. Por falta de espaço no local, as aulas de sanfona, flauta, baixo, violão, triângulo, zabumba e bateria são ministradas no terreiro da casa onde mora de segunda à sexta-feira.

Mesmo com as dificuldades, o projeto tem alcançado muitas crianças e adolescentes. As famílias que apostam na proposta veem a oportunidade de seus filhos escaparem da marginalidade por meio da projeto que dá acesso à cultura, possibilitando tornar muitos desses jovens em profissionais na área da música, abrindo assim as portas do mercado de trabalho. Não fosse o descaso do poder público e a falta de apoio da maioria dos prefeitos, um número ainda maior de crianças e adolescentes poderiam ter suas vidas transformadas por meio do proposta.

A transmissão do conhecimento da música é voluntária. As crianças e jovens precisam apenas estar matriculadas na escola. “A criança precisa ter no mínimo seis anos de idade e estar matriculada em uma escola, ter bom comportamento lá, aqui e em qualquer lugar”, ressalta Sandrinho, hoje com 24 anos.

O Acordes do Campestre, atualmente Associação Cultural Acordes do Campestre, já ensinou e inseriu na música uma geração de jovens que, hoje, conta Sandrinho, estão tocando em bandas e ganhando seu próprio dinheiro. “Muitos ex-alunos hoje tocam em bandas da região. Há também outros que já foram premiados em festivais. Todos os anos nossos alunos participam de um festival realizado pela Rádio Rural de Petrolina (PE) e sempre trazem prêmio. Nossa missão aqui é formar cidadãos através da música. Ela é uma ferramenta para fazermos esse trabalho”, conta.

Diante dos resultados do projeto, um dos sonhos de Sandrinho é expandir a iniciativa e dar oportunidades às crianças e jovens de outros municípios da região. O sonho ainda não está completo, mas, atualmente, já está implantado, além de São Raimundo, em outros dois municípios vizinhos: São João do Piauí e Lagoa do Barro. Em breve, a cidade de Capitão Gervásio Oliveira também contará com o projeto.

A expansão aconteceu depois que Sandrinho se apresentou no programa Caldeirão do Huck, na TV Globo. Lá, o músico tocou ao lado de cantores famosos como Zezé di Camargo e Luciano.

“No Caldeirão do Huck ganhamos vários instrumentos. Só sanfona foram 10″, conta entusiasmado. “Ganhamos também um transporte. Depois do programa surgiu a ideia de aumentar o projeto. Foi aí que criamos as extensões do Acorde do Campestre nos municípios vizinhos”, informou.

Nas extensões, nos municípios, as prefeituras pagam pelas aulas e também pela logística dos monitores, que se deslocam da sede em São Raimundo até estes locais. “É um trabalho de incentivo que já deu muito resultado positivo, porque além de ensinar a tocar instrumentos, trabalhamos a parte social, para que eles sejam cidadãos de bem”, conta Salvador Nunes ao afirmar que o projeto está desenvolvendo seus próprios instrumentos como triângulo e zabumba.

Responsável por incluir os jovens da região no mundo da música, só em 2017 o projeto atendeu cerca de 400 crianças. Para este ano o Acordes do Campestre está com turmas de cerca de 40 alunos na sede em São Raimundo e nas extensões, nos municípios.

Apoio

Sandrinho, suas irmãs Redija Nunes e Paloma Nunes e demais monitores do projeto não ganham pelas aulas e acabam custeando para manter o trabalho. Com exceção das extensões, que são custeadas pelas prefeituras dos municípios que as sediam. O cachê arrecadado nos shows de Sandrinho e banda é dividido aos integrantes da banda e com a manutenção do projeto, que tem recebido apoio e ajuda dos amigos e visitantes do Museu do Homem Americano, localizado próximo à casa do músico.

“O apoio maior sempre foi dos amigos e de alguns turistas que mandaram instrumentos. Temos instrumentos vindos de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras cidades. Nas extensões temos apoio das prefeituras. Nossa intenção era atender a maioria dos municípios da região. Mas para isso é preciso ter o apoio das prefeituras e vemos que a cultura tem ficado no último plano para os políticos da região, que infelizmente não aproveita o potencial que a região tem, pois aqui é conhecido Brasil a fora como a terra do forró, dos sanfoneiros”, lamenta Sandrinho.

Segundo Salvador Nunes, para este ano a Secretaria de Cultura do Piauí prometeu apoiar o projeto. “Acredito que diante de tantas conquistas e resultados positivos em breve teremos apoio, não para nós, mas para a comunidade”, espera Salvador.

Em reconhecimento ao trabalho voluntario desenvolvido por Sandrinho, em 2014 a Câmara de Vereadores de São Raimundo lhe concedeu o Título de Cidadão Sanraimundense. O jovem sanfoneiro e professor de sanfona também já foi homenageado na Procissão dos Sanfoneiros de Teresina e conquistou três vezes o Festival de Sanfoneiros de Petrolina.

 

Fonte: BBC Brasil/Congresso em Foco/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!