13/03/2018

A praia mais bonita do Brasil quer deixar de impactar o clima

 

Lar dos golfinhos rotadores, das tartarugas-verdes, das maiores colônias reprodutivas de aves marinhas do Atlântico Sul Tropical e da segunda praia mais bonita do mundo, de acordo com usuários do site TripAdvisor, o santuário ambiental de Fernando de Noronha também é um algoz da natureza. O arquipélago mais famoso do Brasil, localizado no Estado de Pernambuco, é um importante foco de emissões de poluentes devido, justamente, ao turismo. O pouso e decolagem de aeronaves e a produção de energia elétrica na ilha, bastante dependente do diesel, fazem com que a taxa de emissão de gases de efeito estufa por habitante ali seja equivalente a de países altamente industrializados. Porém, a ilha se impôs um desafio: o de mudar radicalmente nas próximas décadas.

O plano de Fernando de Noronha é reduzir pela metade suas emissões nos próximos 12 anos e se tornar o primeiro território neutro em carbono do Brasil até 2050. Com isso, ela deixará de impactar o planeta com a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera e, assim, evitará contribuir com o aquecimento global. Para chegar a isso, será preciso mudar radicalmente sua matriz energética, implementar uma frota de veículos elétricos e convencer as companhias aéreas que voam na ilha a adotarem combustíveis mais amigos da natureza.

"Fizemos um trabalho de inventário das emissões de gases no arquipélago em que identificamos três grandes grupos promotores da pegada ecológica. O transporte aéreo corresponde a 54,74% das emissões, o setor elétrico a 29,21% e o transporte interno na ilha a outros 8,73%", explica o secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, Carlos André Cavalcanti. O levantamento, divulgado em 2013, apontou que Fernando de Noronha havia emitido no ano anterior, por habitante, 9 tCO2e (toneladas de carbono equivalente, métrica usada para comparar as emissões de gases de efeito estufa). É um valor acima do número brasileiro médio (6,54, em 2010) e similar ao de países como Alemanha e Japão, aponta o estudo.

O trabalho, iniciado em 2014, começou com a substituição de parte da matriz energética. Por ser uma ilha, ela é um sistema de energia isolado, ou seja, deve produzir sua própria energia porque não tem conexão com a rede do continente. Por ano, eram usados 400.000 litros de diesel na usina termoelétrica da ilha. Esse combustível é levado por barco ao arquipélago, o que acrescenta um perigo ecológico adicional: o de que um acidente possa acabar despejando poluentes no mar. Há três anos, foram instaladas duas usinas fotovoltaicas no arquipélago, que absorvem a energia do sol e a transforma em corrente elétrica. Atualmente, elas são responsáveis por 10% do abastecimento e já evitaram o uso de 40.000 litros de diesel por ano. No combustível usado pela termoelétrica, acrescentou-se também mais biodiesel, o que ajudou a reduzir a poluição.

Nos próximos meses, a expectativa é que a participação da energia solar suba para 14%, com a inauguração de um espaço de armazenamento do que é captado no horário em que há luz do sol, entre 5h30 e 18h, explica David Martin Utrilla, superintendente de operações da CELPE/Neoenergia, companhia energética de Pernambuco. "O objetivo é tirar o maior proveito e aumentar o percentual de energia renovável na ilha. Estamos em um planeta em que, se continuarmos assim, vamos ter até 2050 mais dois graus de temperatura", ressalta ele. A empresa também implementou em fevereiro deste ano um projeto de redes elétricas inteligentes, que permitem que os moradores façam o acompanhamento em tempo real de seu consumo e estabeleçam metas por mês, para economizar. Foi o primeiro projeto do tipo no Nordeste. Segundo a Iberdrola, grupo espanhol que controla a Neoenergia, Fernando de Noronha se tornou o laboratório da empresa para energias renováveis. Se estuda também a geração de energia por meio de resíduos, outro problema da ilha, já que todo o lixo produzido ali tem que ser transportado para o continente.

A companhia energética também tem incentivado que os moradores e comerciantes colaborem com a transição para a energia limpa. Os que implementarem placas solares ou mini-geradores de energia eólica (a partir do vento) em suas propriedades conseguirão créditos em suas contas de luz todas as vezes que a geração de energia de seus aparelhos superar o consumo da propriedade. Essa energia excedente é disponibilizada na rede para o uso da ilha. Desde fevereiro, nove proprietários dentre os 3.000 habitantes fizeram a transição para a solar. Isso deve gerar uma economia de outros 12.000 litros de óleo dieselao ano.

Luiz Falcão Júnior, 66, também pretende aderir à mudança. Morador da ilha há 36 anos e proprietário do hotel Dolphin, ele tem vivenciado desde o início as dificuldades com a energia na ilha. "Quando chegamos aqui, a geração era por motores de trem, fazia um barulho insuportável. E a rede era instável. Às vezes dava uma descarga elétrica e a gente perdia tudo", conta. Ele já trocou todas as lâmpadas da propriedade por tipos mais econômicos e instalou placas solares de aquecimento de água, num investimento de 50.000 reais que garantiu uma economia de 70% de energia. "Queremos agora comprar painéis solares e aerogeradores para produzir energia eólica", afirma ele. "Precisamos pensar em alternativas para a nossa matriz energética e adotar carros elétricos", ressalta. A ilha possui um posto de abastecimento gratuito para este tipo de veículo, mas até agora existem apenas dois: um pertence à polícia e outro à companhia elétrica.

Quarta unidade de conservação mais visitada do Brasil, Noronha recebe por dia em média de cerca de 250 visitantes, que chegam e saem do arquipélago em três voos comerciais diários. São estas aeronaves que produzem o maior impacto ambiental, de acordo com o inventário realizado pela Secretaria de Meio Ambiente. E aqui está o maior desafio do projeto de carbono zero. "Começamos a fazer um trabalho de mobilização de grandes parceiros da aviação para que adicionem nas aeronaves bioquerosene", destaca o secretário. O combustível é menos poluente porque é produzido com produtos como cana-de-açúcar, por exemplo. Mas o produto é caro, o que cria uma barreira. "Também há uma questão burocrática que dificulta isso", explica ele. "Esse combustível é produzido em Brotas, no interior de São Paulo, e há uma dificuldade logística para que ele chegue até aqui. E isso nos faz ser provocados a iniciar uma produção local", ressalta o secretário, que destaca que o Governo estadual busca agora parceiros no setor sucroalcooleiro que queiram fazer o investimento.

O esforço é urgente, ressalta Rafael Ferraz de Mello, analista de conservação da ONG WWF, que trabalha na ilha. "Especialmente por ser uma unidade de conservação ambiental, Fernando de Noronha tem um nível de emissões muito alto. A elevação da temperatura do planeta acaba causando um impacto importante, por exemplo, na população de tartarugas", conta ele. Em temperaturas mais elevadas, nascem mais tartarugas fêmeas, ameaçando o futuro das espécies. "O ciclo de vida desses animais é longo, de 35 anos. Ou seja, o impacto é a longo prazo, o que é um desastre."

Degradação ameaça memória da Guerra

Prédios e construções que serviram de apoio às tropas brasileiras na Guerra do Paraguai, que terminou há 148 anos, correm o risco de desabar por falta de conservação, no interior paulista. O prédio que abrigou o comando de tropas nacionais durante o enfrentamento ao ditador paraguaio Solano Lopez, está em ruínas, em Itapura, extremo oeste paulista. Em Iperó, região de Sorocaba, instalações da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, que produziu armas e munição para as tropas em combate no cone sul, estão escoradas para não ruírem.

Conhecido como Palácio do Imperador, por ter sido construído a mando de dom Pedro II, o prédio de dois pavimentos, em Itapura, em nada lembra o passado de glórias, como a festa que celebrou a vitória na guerra. O imóvel tombado pelo patrimônio histórico estadual está em ruínas: tem portas e janelas arrancadas, madeira do forro e estrutura do teto apodrecidas e as paredes pichadas. O palácio foi erguido em 1858 após o avanço das tropas de Solano pelo atual Mato Grosso do Sul.

Preocupado em fortalecer a defesa do País, o imperador criou uma colônia na região, instalando no prédio, estrategicamente entre os Rios Tietê e Paraná, o comando da base naval. Na época, o sobrado ficou conhecido como Forte de Itapura. Nele, eram planejadas táticas de combate. Alguns historiadores dizem que dom Pedro II se hospedou no local quando inspecionava as tropas brasileiras.

Em 1969, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (Condephaat) tombou o prédio e seu entorno, com base em relatório sobre sua “importância para a história e a cultura do local, da região e do País”.

Moradores se mobilizam pelo restauro, sem sucesso. “Poderia ser uma ferramenta importante para o turismo da região, mas está ruindo e ninguém se importa”, diz a dentista aposentada Guiomar Tavares, que frequenta o local desde criança.

A professora Andressa Ferrari desenvolveu, em 2016, com alunos de Direito de uma faculdade em Ilha Solteira, um projeto de mobilização para restaurar o prédio. Os alunos foram ao local, mas não puderam entrar no casarão por falta de segurança. Conforme relatos da época, o prédios estava com portas e janelas fechadas de improviso, com madeiras compensadas – algumas arrancadas. Parte das paredes perdeu o reboco e as escadas estavam podres.

O Palácio do Imperador, remanescente das instalações da colônia militar desativada em 1896, tinha o pavimento superior ocupado pela casa do comandante e, no térreo, pelo setor administrativo. O local abrigou repartições municipais, até 1989, quando foi desocupado. Desde então, sucederam-se vários projetos de restauro, mas esbarraram na falta de verba.

“O prédio está caindo

O problema é que não podemos mexer em nada sem autorização do Condephaat”, afirma o prefeito Fábio Dourado (PP). Ele diz que a cidade, com 4,7 mil habitantes e orçamento de R$ 20 milhões, não tem como bancar a obra, de cerca de R$ 3 milhões.

O Condephaat disse ter analisado projeto para restauro, em 2014, mas as intervenções serão de responsabilidade do proprietário: a prefeitura de Itapura.

Armas

Em Iperó, remanescentes da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, onde foram produzidos sabres, facões e outras armas usadas por soldados brasileiros, também estão deteriorados. A fábrica, criada em 1810, foi a primeira siderúrgica do País e produzia ainda arados, pregos e enxadas. Em 1871, a princesa Isabel e seu marido, Conde d’Eu, foram à fábrica para agradecer aos operários pela fabricação de armas e munição.

O conjunto é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O núcleo histórico, na Floresta Nacional de Ipanema, é gerido pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio) e aberto a visitas.

A Casa das Armas Brancas, prédio mais imponente do conjunto, está com séria infiltração por causa do mau estado da represa que produzia força hidráulica para máquinas da época. Já a 3.ª Oficina de Refino do ferro foi escorada a pedido do Iphan pelo risco de desabar. A construção está interditada para visitação.

O Iphan disse que não há no momento projeto em análise para recuperar o patrimônio de Iperó. Uma parte dos bens históricos, diz o ICMBio, foi restaurada entre 2006 e 2013, mas não há verba prevista para o resto.

 

Fonte: El País/Agencia Estado/Municipios Baianos

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