13/03/2018

Temer diz ter sido vítima de ‘grande montagem’

 

Michel Temer participou neste domingo da cerimônia de posse do presidente do Chile, Sebastián Piñera. Antes de viajar, concedeu entrevista ao jornal chileno ‘La Tercera’. Na conversa, veiculada neste sábado, apresentou-se como vítima de uma “grande montagem” supostamente urdida para retirá-lo da Presidência da República. “Até o ex-presidente Lula reconheceu, recentemente, que houve uma tentativa de golpe orquestrada contra mim, à qual tive a coragem de enfrentar e vencer”, disse Temer.

O presidente desqualificou as denúncias criminais formuladas contra ele. “O que houve foram denúncias inconsistentes”, declarou. “Comprovou-se uma grande montagem contra a Presidência da República e a maioria dos deputados viu isso.” Temer desancou Rodrigo Janot, signatário das duas denúncias que o alvejaram.

“A gestão do ex-procurador-geral da República, que apresentou as denúncias, chegou ao fim com a anulação sumária dos acordos de delação usados para tentar comprometer, em troca de imunidade total aos criminosos que hoje estão presos, o mandato presidencial.”

A entrevista foi concedida antes da decisão judicial que libertou, na última sexta-feira, Joesley Batista e Ricardo Saud, sócio e executivo da J&F, respectivamente. Ambos foram transferidos do xadrez para o conforto da prisão domiciliar —um benefício que já havia sido concedido a Wesley Batista, irmão do autor do grampo do Jaburu.

“Hoje, sabemos que as falsas provas foram produzidas contra a Constituição, com a participação ilegal de procuradores, que hoje estão sob investigação”, disse Temer. Foi nesse ponto que o presidente invocou o testemunho de Lula. Referia-se à entrevista que o grão-mestre do PT concedeu à Folha. Foi publica em 1º de março. Na declaração que Temer interpretou como redentora, o condenado Lula soou assim:

“É importante ter em conta que o Temer teve uma vitória quando derrubou o golpe que a TV Globo, o Janot e o Joesley tentaram dar nele. Aquele golpe tinha como pressuposto básico o Temer cair, o Rodrigo Maia [presidente da Câmara] assumir a Presidência e o Janot ter um terceiro mandato [na PGR]”.

  • Abra-se um parêntese para realçar o seguinte: a entrevista de Temer foi para chileno ver. Nela, o presidente cometeu pelo menos três empulhações historiográficas:

1. A expressão “grande montagem” não faz jus à encrenca que paralisou o Brasil por meio ano. O enredo é, em verdade, um quebra-cabeças que não teria sido montado sem a ajuda de Temer. Não haveria escândalo se o presidente não tivesse recepcionado ''um criminoso'' no Jaburu, à noite e fora da agenda. O grampo de Joesley seria um traque se o presidente do Brasil não tivesse mantido com ele uma conversa vadia.

2. É falaciosa a versão de que a Câmara isentou o presidente de culpa porque as acusações feitas contra ele baseavam-se em “provas falsas” e “a maioria dos deputados viu isso.” As denúncias contra Temer não sumiram. Foram congeladas. Remunerados com cargos, verbas e privilégios, os deputados proibiram o Supremo Tribunal Federal de abrir uma ação penal. Quando Temer deixar a Presidência, as denúncias serão retiradas do freezer. E o processo seguirá o seu curso.

3. A investigação da lambança que levou à “anulação sumária dos acordos de delação” da turma da JBS é indispensável. Aguarda-se com ansiedade o fim do inquérito contra Marcelo Miller, o ex-procurador que mantinha um pé na equipe de Rodrigo Janot e outro num escritório que zelava pelos interesses da JBS. Mas nada disse retira de cena o que há de factual contra Temer.

O grampo do Jaburu existe. A voz do presidente soa na fita. Temer indica o ex-assessor Rodrigo Rocha Loures como seu preposto junto a Joesley. Loures recebeu uma mala de Ricardo Saud, braço financeiro da JBS. Deu-se numa pizzaria de São Paulo. Dentro da mala havia propina de R$ 500 mil da JBS. A coisa foi filmada pela Polícia Federal. Não há, portanto, “provas falsas”. O que existe é uma investigação momentaneamente paralisada. Que será retomada. Anulou-se o prêmio dos delatores sem jogar o fruto das delações. Tudo conforme previsto na lei.  Fecha parênteses.

Perguntou-se a Temer o que pode acontecer na sucessão de 2018 se a candidatura de Lula for barrada pela Justiça. No começo da resposta, o entrevistado soou como se esquecesse sua condição de advogado. Defendeu a tese segundo a qual todos podem “exercer o direito político de ser julgado nas urnas pelo povo.” Súbito, o doutor se recordou de que há no Brasil uma legislação e um Judiciário.

“Temos leis e às vezes elas impõem restrições e geram controvérsias. Quem interpreta e aplica as leis é o Poder Judiciário”, declarou Temer. “Creio que os advogados do ex-presidente Lula levaram e levarão os recursos às cortes mais altas. Então, devemos esperar que os juízes se pronunciem, inclusive o Supremo Tribunal Federal. Como chefe do Poder Executivo, respeito a independência dos poderes e prefiro não especular. O Brasil está maduro para enfrentar os desafios da democracia.”

O que está em jogo nas eleições presidenciais?, perguntou-se a Temer. E ele: “O que está em jogo é a qualidade do futuro imediato dos brasileiros. Se o Brasil vai continuar no caminho da recuperação econômica, da responsabilidade fiscal e social, ou retrocederá ao tempo das medidas populistas, equivocadas, que mnos levaram a uma recessão brutal, que superamos com sacrifício e esforço. Creio que a crise amadureceu os brasileiros e não vamos querer voltar atrás. Os eleitores têm capacidade de avaliar e exigir que os políticos tenham responsabilidade com a coisa pública. […] Implantamos as condições para que o crescimento se consolide. O próximo governante tem que manter o Brasil nesse rumo e acelerar.”

Os chilenos que tiveram a oportunidade de ler os autoelogios de Temer terão dificuldades para entender por que um governante tão extraordinário é reprovado por sete em cada dez brasileiros. O presidente se vangloriou de ter retomado “o diálogo que havia sido interrompido com o Congresso” na gestão de Dilma. Absteve-se de mencionar que o combustível para o diálogo é o fisiologismo. Jactou-se de ter aprovado um teto para os gastos públicos e uma reforma do ensino médio. Omitiu que o derretimento de sua base congressual converteu em fiasco a tentativa de reformar a Previdência.

Sobre Previdência, aliás, Temer disse meias verdades. E privilegiou a metade que é mentirosa. Lamentou que a intervenção federal na segurança do Rio tenha impedido a votação da reforma previdenciária. Explicou que a Constituição brasileira impede que a Constituição seja modificada enquanto vigora a intervenção num Estado. Em verdade, a Previdência não foi votada porque o governo não dispunha dos 308 votos que necessitava para prevalecer na Câmara.

Temer chamou de “irresponsável” o pedaço da oposição que critica a invervenção no Rio: “Estão cometendo o erro de politizar e ideologizar até o risco de vida que sofre a população do Rio, sobretudo os mais pobres, que vivem em áreas afetadas, sob o domínio de traficantes e milícias. É uma atitude, eu diria, irresponsável. Estão confundindo intervenção civil sobre segurança com militarismo e autoritarismo, em um apelo a tristes lembranças do passado. É uma comparação inoportuna.”

O presidente reconheceu que a intervenção está escorada em pesquisas. Disse que “mais de 80%” dos fluminenses e dos brasileiros apoiam a providência. Repetiu que não será candidato à reeleição. “Sou candidato a entregar um país melhor a meu sucessor. Por isso fizemos as reformas, trabalhamos para recuperar o crescimento e, assim, diminuir o altíssimo desemprego que herdamos.”

Candidatura do MDB divide núcleo de Temer

Amigo do presidente Michel Temer desde os anos 1990, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Wellington Moreira Franco, é hoje um dos principais defensores, no Palácio do Planalto, da candidatura do chefe a um novo mandato.

Em público, ele desconversa, mas, nos bastidores, não apenas tem simpatia pela ideia como trabalha com afinco para que o projeto se concretize.

A proximidade do ministro com o presidente causa ciúmes dentro e fora do Planalto. O gabinete de Moreira fica no quarto andar do Planalto. Na outra ponta, no mesmo andar, fica o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. Os dois integram a direção do MDB, fazem parte do grupo de Temer e, ao lado do presidente, são alvo de inquérito aberto para apurar repasses de R$ 10 milhões da Odebrecht para o partido, em 2014. Mesmo assim, Moreira e Padilha têm um relacionamento protocolar e não é raro protagonizarem divergências.

Conhecido por fazer planilhas certeiras com o placar de votações no Congresso, Padilha, por sua vez, parece mais pragmático em relação à sucessão presidencial. O chefe da Casa Civil tem a mesma opinião do presidente do MDB, senador Romero Jucá (RR), para quem o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, reúne credenciais para unir o centro político e ser o candidato do governo, migrando do PSD para o MDB.

Diante dos holofotes, porém, Padilha diz apenas que a base do governo, liderada pelo MDB, deve ter um único concorrente ao Planalto. "Meirelles faz uma justa postulação, mas nós temos de ter a competência de chegar em junho e verificar quem possui melhores perspectivas para ser candidato", disse Padilha ao Estado.

A discussão sobre a candidatura de Temer à reeleição ganhou força após o governo decretar a intervenção na segurança pública no Rio, no mês passado.

Mesmo com o alto índice de rejeição do presidente e 1% nas pesquisas de intenção de voto, auxiliares diretos, como o marqueteiro Elsinho Mouco, dizem acreditar numa "mudança de vento" com o foco do governo na segurança pública.

Moreira foi um dos que aconselharam Temer a convocar as Forças Armadas para a intervenção federal no Rio.

A agenda negativa, porém, voltou a rondar o Palácio do Planalto após novos reveses no Judiciário. No início do mês, Temer foi incluído em inquérito que apura o repasse da Odebrecht - no qual já figuram Moreira e Padilha - e, na semana passada, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a quebra de seu sigilo bancário na investigação sobre irregularidades envolvendo o chamado Decreto dos Portos, editado em maio do ano passado.

Na lista dos conselheiros de Temer figura ainda o ex-presidente José Sarney (MDB). Em recente conversa com ele e Moreira, Sarney afirmou que o MDB precisava ter um candidato para chamar de seu na campanha e impedir o governo de ser espancado na arena eleitoral.

Disse que seu maior arrependimento, naquela época, foi não ter apoiado ninguém. "Precisava de um candidato para defender o meu legado", insistiu o ex-presidente, que aconselhou Temer a não repetir o "erro" quase três décadas depois.

Até no Planalto, porém, o MDB é chamado de "franquia" política, que pode ter um palanque diferente em cada Estado.

O recado de Sarney tem como pano de fundo a tentativa de pré-candidatos de partidos que integram a base aliada de se afastarem da imagem do governo.

Além do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se lançou na disputa presidencial na semana passada com o discurso de independência em relação à atual gestão. "A obrigação de defender o legado é do governo, não da minha candidatura. Para defender o legado do governo, não estou disposto", disse ele ao ter seu nome oficializado na corrida eleitoral, na quinta-feira passada, em Brasília.

Para aliados na Câmara, como o líder do governo, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), mesmo que a ação no Rio renda frutos à imagem do presidente, uma candidatura dependerá ainda de outros fatores.

"Se o governo conseguir, não é nem só fazer dar certo, mas que essa percepção seja transformada em um fortalecimento da imagem do presidente, evidentemente que ele vai ter uma outra posição, mas ele tem dito que não é candidato. Se isso se configurar, ele no mínimo será um grande eleitor", disse.

"Na política, a percepção do eleitor é imprevisível. Você pode ter aí uma reação que pode mudar isso. Vamos aguardar os fatos. Nada em política é irreversível." Segundo o deputado do PP, uma candidatura única do centro vai depender da capacidade e do altruísmo dos líderes dos partidos. "O que a gente tem visto na política é que as pessoas têm se preocupado às vezes com os projetos pessoais", afirmou Ribeiro.

Alckmin e Rodrigo Maia já se afastaram de Temer, e Meirelles deve ser o próximo

Diz-se que os últimos meses de um presidente da República que não disputa a reeleição costumam ser tão solitários que até café frio lhe servem. Quando lhe servem café. No caso do presidente Michel Temer não se pode nem dizer que ele não será candidato à própria sucessão, porque ele prefere manter um calculado mistério sobre o assunto. Mas que o isolamento de Temer já começou, já começou.

Primeiro, foi o governador Geraldo Alckmin que, na presidência do PSDB e pré-candidato à Presidência da República, pulou fora do barco do governo chefiado por Temer. Agora, foi o mais fiel aliado de Temer do início do governo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pré-candidato pelo DEM, que também deu um jeito de se afastar.

A PALAVRA-CHAVE

“Defender o legado (do governo) eu não estou disposto”, anunciou Maia na convenção do DEM realizada quinta-feira, quando foi lançado à Presidência.

Note-se que Maia utilizou o substantivo legado, o qual merece especial atenção de Michel Temer. Há meses o presidente condiciona o apoio do Palácio do Planalto ao candidato que defender o legado do governo. Pois Maia poderia ter utilizado qualquer palavra para dizer que é candidato de uma nova geração, como disse; que é o candidato do futuro, como disse; que é a novidade da eleição, como disse. Mas ele preferiu meter o legado lá no meio do que falou porque sabe, e sabe muito, que se trata de algo caro a Temer.

Pela disposição de Alckmin e de Maia, pode-se dizer que, nesse momento, eles não estão dispostos a se empenhar na defesa do legado de Temer. E não estão porque Temer encontra-se novamente em baixa, enquanto eles lutam desesperadamente para se agarrar em alguma coisa que os aproxime mais do eleitor do que um presidente impopular, que não melhorou substancialmente sua imagem nem com a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro.

ISOLAMENTO

Experiente na política como é, Temer sabia que começaria a ficar isolado. Tanto é que há pelo menos três meses ele começou a dizer que só apoiaria para a Presidência aquele que se comprometesse a defender o legado de seu governo – olha aí a palavra, de novo. Mas esse alguém não veio. Temer, então, passou a alimentar a ideia de ele mesmo se tornar candidato. Poderia ter, assim, condição de defender as reformas feitas pelo governo e também sua honra.

Ao acenar com a possibilidade de se candidatar à própria sucessão, Temer arrumou confusão no MDB. Acontece que boa parte dos deputados e dos senadores do partido não gostou da ideia da candidatura própria. Viram nela uma ameaça à cota do fundo eleitoral a que terão direito.

Com uma eleição presidencial, é claro que uma parte do dinheiro que iria para a campanha dos deputados será drenada para ela. E o MDB, como se sabe, não é um partido dado a chegar à Presidência pela via eleitoral. Prefere ocupar o poder em parceria, como fez nos governos de Lula e de Dilma Rousseff.

MEIRELLES DE FORA

Diante dessa realidade, perdeu força, pelo menos por enquanto, a possibilidade de o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, transferir-se para o MDB e ganhar o direito de ser candidato. Não só por causa da questão do fundo eleitoral, mas também porque Temer sabe que, se entregar o MDB a Meirelles, no dia seguinte o ministro sai em campanha e o deixa só, como já o fizeram Geraldo Alckmin e Rodrigo Maia.

Para tentar evitar que o temível isolamento se aprofunde, a ideia defendida por Temer é manter até julho o mistério sobre a possibilidade de se candidatar. Nesse mês, acredita ele, o País estará envolvido nas convenções partidárias que escolherão os candidatos. A depender da ebulição política, Temer então dirá se vai ou não concorrer. Ou se vai oferecer o apoio do MDB a um candidato que, no desespero da conquista de votos, prometer enfim fazer a defesa do seu legado.

 

 

Fonte: BlogdoJosias/Agencia Estado/Municipios Baianos

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