14/03/2018

O curioso mundo religioso das prisões brasileiras

 

Junto com o amanhecer surgiu um pressentimento que o dia seria peculiar – e foi mesmo.

Depois de quase duas horas, rumo ao interior, chegamos ao estabelecimento prisional. Por fora um muro alto, um portão grande como em outras cadeias. Mas quando entramos percebi que teríamos o que contar depois daquela visita.

Na área de entrada, onde ficavam as salas administrativas, antes de um novo portão que dava acesso à área onde ficavam as pessoas presas, o letreiro em cima da porta chamava atenção: “Administração (Abnegação)”.

– Abnegação?! Essa é nova, pensei.

Após apresentações e conversas preliminares, vem a pergunta:

– Vocês querem entrar?

– Então, é para isso que viemos.

– É que não estamos com equipe de escolta.

– Não é necessário, vamos fazer uma visita de rotina. Mantenha o procedimento diário.

Senti o constrangimento no ar. Estava ficando evidente que não havia uma rotina de entrada e acompanhamento dos presos. Do segundo portão para dentro era tudo com eles, os presos. Então “entrar” não era um evento comum, demandava ponderar e mapear cenários.

Relativamente rápido, porque era importante não aparentar descontrole para um órgão fiscalizador federal, mas também porque o diretor era um sujeito de boa vontade, ouvimos um “tudo bem, aguardem só um minuto”. Ele vai até sua sala e volta com um 38 na cintura dizendo “podemos ir”.

Aí foi a minha vez de ser rápida. Digo para ele deixar essa arma aí ou deixo como está para não ter problemas para entrar?

A situação beirava o ridículo, todos os protocolos internacionais repudiam armas de fogo dentro do estabelecimento prisional, ambientes fechados requerem outras medidas, as pessoas já estão contidas.

Armas letais na prisão são um perigo imenso, ainda mais naquela prisão de 1300 homens, um diretor e sete agentes penitenciários. Quatro segundos depois, percebendo que aquilo era mais um código do que qualquer medida de segurança, foi minha vez de dizer, “sim, vamos”.

Encontramos uma área grande de terra, gramado e prédios em ruínas. “Pavilhão B (Esperança)”. “Pavilhão D (Renascer)”. “Pavilhão F (Misericórdia)” e assim por diante.

– Esperança, renascer, misericórdia?! Registrei em silêncio.

Entrando nos pavilhões, o diretor e dois agentes nos apresentavam e recuavam, a conversa era conosco. Toda sorte de precariedades. Parecia se tratar de homens saindo das cavernas, não pelas pessoas, mas pelas edificações que pouco lembravam a ideia um prédio do século XX, embora pintado de branco já meio desbotado.

Definitivamente manutenção não foi algo com que o Estado se preocupou naquele lugar.

Porém havia algumas construções que destoavam do cenário medieval, três edificações relativamente próximas, mais novas, com letreiros, uma com azulejo colorido na fachada, esteticamente brega, achei.

Chegando mais perto, lia-se Assembleia de Deus, Igreja Missionária Resgatando Vidas para Jesus e uma outra que não lembro. Uma quarta igreja, sem identificação, ornando mais com o ambiente desgastado dos pavilhões, era a católica.

 – Quatro igrejas em uma só prisão?! É isso mesmo, me perguntei.

Entre um pavilhão e outro, olho para trás e vejo um grupo de pessoas vindo em nossa direção na rua lateral. Isso me gerou preocupação. Havia percebido que o combinado era que os presos ficassem cada um no seu pavilhão, não por barreiras físicas, mas por aquilo que é muito mais forte e importante na prisão, a palavra.

Na mais serena aparência, minha mente cogitava: “Afinal, que diabos estão fazendo esses presos agora saindo dos pavilhões e se juntando em direção a nós? Talvez a decisão de entrar com o 38 não tenha sido a melhor”. E eles continuavam se aproximando.

Não tenho apreço por ficção, meu delírio é a experiência com coisas reais, como Belchior, mas o que aconteceu em seguida superou minha capacidade de inventividade.

A medida em que as três dezenas de pessoas iam chegando mais perto, via-se uma a frente com algo na mão. Mais perto ainda, era uma cruz. E um homem atrás usava uma batina. Era uma procissão! Era uma procissão na cadeia.  

A visita no pavilhão evangélico não deixou dúvidas da aceitabilidade institucional das regras religiosas.

Pintadas na parede, as normas:

1. Proibido usar celular;

2. Proibido usar bermuda e camiseta;

3. Proibido comprar, vender ou alugar barraco;

4. Proibido comprar coisas na correria;

5. Proibido fazer barulho depois das 21h;

6. Proibido discutir;

7. Proibido assistir outro canal de TV que não seja o canal 14, DVD evangélico repórter e canal educativo.

OBS: Obedecer a todos os líderes.

A flagrância da realidade nas prisões sempre me dá vergonha alheia do Estado. Seja numa cadeia de intenso controle estatal ou não, há elementos da organização interna que devem ser trabalhados pelos funcionários, mas que geralmente são ignorados ou reprimidos, culminando em avaliações e decisões pouco inteligentes.

Será mais efetiva a lei que proíbe a entrada de celular nas prisões ou a regra imposta nesse pavilhão evangélico? O uso de crack na prisão é de fato evitado pelo Estado ou por determinada facção nas “suas” cadeias? Não precisa responder.

Aquele lugar era realmente diferente

Não pelas imensas dificuldades de sobrevivência (só para exemplificar, considere que encontramos um homem com mais de 60 anos cego por glaucoma há mais de um ano que não deveria estar preso, muito menos cego) ou porque as pessoas tinham algum grau de autonomia para participar de uma procissão, mas porque havia uma explícita possibilidade organizativa a partir das religiões.

Não era uma cadeia de gestão das facções, mas das igrejas.

Esse fenômeno tem muitas facetas. Não é de hoje que a prisão é um ambiente frequentado pelas igrejas, mas alguns grupos religiosos com características mais proselitistas têm investido fortemente em ocupar esses espaços.

Disputam pátio de visita com familiares, participam de melhorias nas instalações e emprestam prestígio aos fiéis presos que lhe rendem benesses. Em geral, espíritas e as religiões de matriz africana não têm a mesma abertura institucional e, reconheça-se, nem a mesma insistência em visitar as prisões.

Por sua vez, a administração que deve permitir a assistência religiosa também vê vantagens nessa movimentação, embora dê algum trabalho, coloca uma parte das pessoas presas num modus operandi mais previsível e comportado. 

A privação de liberdade é evento de múltiplas consequências pessoais

Sem dúvida a religião aplaca solidão, incertezas e sofrimentos, traz explicações, desenvolve sentidos e objetivos. Nessa dimensão se parecem com os grupos criminais, as chamadas facções, ambas dão uma identidade e certa proteção, isso é muita coisa para quem está isolado.

Enfim, não se trata de enganar as pessoas presas. Não as subestimemos. Tem a ver com trazer um pouco de perspectiva na ausência de possibilidades.

As pessoas caminham melhor quando sabem para onde vão. As pessoas se sentem melhor quando tem seu nome dito com respeito.

Estado, inove, ofereça uma realidade melhor, não só material, existencial também; aí avaliaremos quem está enganando quem.

Vila Kennedy: o palco irônico do fracasso do ‘gueto’

As sucessivas operações militares na Vila Kennedy e  o episódio de sexta-de, em que o Exército prestou cobertura a uma ação monstruosa da Prefeitura, derrubando com tratores as barracas de gente pobre, que se defendia na vida vendendo bugigangas ou pastéis, levaram para conjunto habitacional e a favela que se desenvolveu em torno dele para o noticiário nacional.

O local que leva o nome do presidente norte-americano assassinado como marca de batismo e que se tornou a vitrine da intervenção militar tem uma história que encarna o fracasso das políticas de segregação espacial

Nos anos 60, o Rio de Janeiro que se modernizava e assumia ares de “cidade do mundo” tinha uma grande preocupação: esconder as chagas da pobreza que marcavam a cidade e realçar as belezas que a natureza nos dera. Talvez não haja cena mais emblemática disso que a colocação de outdoors ao longo da Avenida Brasil na visita da Rainha Elizabeth II para ocultar da vista as favelas.

Era era das remoções de favelas e a Vila Kennedy foi erguida como  um conjunto de 5 mil casas – imenso, para a época – construído com dinheiro da “Aliança para o Progresso”, um programa de “aproximação” do Governo Kennedy, na visão caritativa que dava, então e ainda hoje, “preocupação social” aos mecanismos de dominação.

Para a Vila Kennedy foram levados “favelados” removidos do Morro do Pasmado, onde ficam o túnel que separa Botafogo da entrada de Copacabana, da Praia do Pinto, da Lagoa Rodrigo de Freitas, outro cartão postal da cidade. Também da Favela do Esqueleto, hoje o campus da Universidade do Estado e das palafitas da Favela de Maria Angu, onde hoje fica o “Piscinão de Ramos”.

Conheço esta história desde o início. No prédio em que eu morava, no Méier, vivia o cidadão de classe média, lacerdista, que funcionava como administrador do conjunto, e sua mulher, reacionaríssima, era debochada pela molecada como a “primeira-dama de Vila Kennedy”.

O conjunto era uma espécie de símbolo da crueldade social com que, dos anos 60 e até os 80 (quando este ciclo se fechou, com a Vila do João, na Maré), que procurava alojar em locais distantes e segregados os pobres que se alojavam nas frestas e encostas da cidade. As “remoções” como eram conhecidas eram verdadeiras tragédias, com pessoas sendo arrancadas dos locais onde viviam há décadas, em nome da ordem urbana e, não raro, com enfrentamentos com a polícia, e incêndios mais do que suspeitos, que preparavam a retirada de comunidades como as da Catacumba e da Praia do Pinto, na Lagoa Rodrigo de Freitas, área nobre do Rio.

Ao contrário do que ocorreu com os bairros operários criados nos anos 40 com os conjuntos dos “IAPs” – hoje também precarizados pelas décadas sem política habitacional que pudesse evitar os “puxadinhos” e segundas ou terceiras lajes – não eram construções de boa qualidade, tinham parca estrutura urbana e sobretudo, ofereciam um suplício no deslocamento para o trabalho, pois não foram, como aqueles, criados tendo as linhas férreas como artérias.

Começou-se, nos anos 80, a tentar saldar esta dívida, com os processos de urbanização destas comunidades, mas nunca com os recursos e a escala necessários. Era já a “década perdida”, com os estados e prefeituras em estado de penúria financeira, mesmo quando tinham boa-vontade e se dispunham a trocar o embelezamento urbano nas áreas mais ricas e centrais, pouco fizeram para integrar às cidades o que havia sido concebido como gueto.

Nos últimos anos isto praticamente reduziu-se, aqui no Rio, à instalação das UPP, como se a paz pudesse ser obtida com polícia. Não pode, como não poderá ser obtida com exército, não pode ser obtida com tratores e britadeiras que retirem as barricadas postas ali pelo que inevitavelmente brota da pobreza e da segregação, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

Quem duvidar, procure saber como eram o Harlem e o Bronx, em Nova York, nos anos em que, aqui, quis-se criar o bairro que leva o nome de Kennedy, com direito até a uma miniatura da Estátua da Liberdade, posta ali entre grades na Praça Miami, irônico batismo do lugar onde se deu a monstruosa demolição das barracas e quiosques dos camelôs.

O interventor que é prisioneiro da demagogia

Estamos em vias de completar um mês da intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, decretada no dia 16 de fevereiro.

De resultados práticos, claro, não é preciso falar: o noticiário policial tão farto e chocante quanto era antes encarrega-se de mostrar que não existem.

Na revista Piauí, o repórter Fábio Victor conta, sem meias-palavras, que o general interventor era contrário à intervenção e pediu para não ocupar o cargo.

Hoje, entrevistado por e-mail pela Folha,  Braga Netto diz   apenas que o “objetivo da intervenção é recuperar a chamada ‘capacidade operativa das polícias’ por meio de investimentos em frota, armamentos e mão de obra. E fortalecer as corregedorias que tratam dos desvios policiais.

O interventor, ao que parece, segue prisioneiro de uma intervenção sem objetivos, sem planos, sem meios.

Tudo indica, portanto, que a situação continuará a ser tocada assim, com ações pontuais e esporádicas,  reduzindo riscos e impactos de ações mais ousadas, embora os perigos, quando se trata de tropas com armas embaladas, estejam sempre presentes.

O Exército, sobretudo, pagará a conta do uso demagógico que dele fez Michel Temer.

 

Fonte: Por Valdirene Daufemback, no Justificando/Tijolaço/Municipios Baianos

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