15/03/2018

Criminalização da ciência no ataque às universidades

 

Estamos vivendo momentos de muita agitação e que têm nos levado à comoção, e agora os holofotes se voltam às universidades e a à ciência. A era do ataque às universidades e à ciência recomeçou no ano passado (havíamos visto isso na década de 1990). Primeiro vieram notícias de degradação, de distorção do fazer e do trabalho desenvolvido nas universidades públicas, na saúde pública, na pesquisa e na ciência em prol do desenvolvimento do país.

Depois, um relatório do Banco Mundial que pretende realizar uma análise sobre o gasto público do Brasil e identificar alternativas para a redução do déficit fiscal, mas desconhece a realidade brasileira, o perfil sócio econômico dos atuais estudantes e o custo do aluno em uma universidade que tem pós-graduação e extensão.

Surpreendidos e bastante chocados, recebemos a notícia da prisão humilhante do reitor da UFSC, sem provas, e que o levou ao suicídio. Passados vários meses, nada se provou contra o reitor, que perdeu a vida para não perder a honra. Algumas semanas depois, outro reitor, o da UFMG, juntamente com vários outros ex-reitores, foi levado coercitivamente para depor sobre algo que ele poderia ter falado sem qualquer problema ou impedimento. Bastava chamar.

Agora inauguramos mais uma etapa: a da criminalização de cientistas. Esses seres ilibados, que vivem para estudar, que deixam de lado o descanso, a família, o sono e que muitas vezes passam a vida de maneira simples, apesar do esmero intelectual.

Não raro são professores que formaram muitos profissionais que se tornaram importantes e ricos. Estudam e pensam para conseguir entender os princípios da vida ou formar novos conceitos, ou descobrir o que pode trazer o bem para alguém, o alívio para uma doença, a descoberta de um novo método de diagnóstico, de uma nova vacina, de uma nova forma de construção de casas, de um novo aparelho para a comunicação, de novas tecnologias para a indústria, para a pesca, para a agricultura, que fazem cálculos, descobrem teoremas ou que pensam como se organiza o universo.

O caso das recentes acusações feitas ao Prof. Elisaldo Carlini nos assustou e nos indignou. Professor emérito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), Carlini é um dos pioneiros da Farmacologia do nosso país. Infelizmente, vem sendo criminalizado em razão de sua pesquisa sobre drogas medicinais à base de cannabis sativa (princípio ativo da maconha), pelo qual é internacionalmente reconhecido.  Foi intimado a depor à polícia de São Paulo no dia 21/2, sob a acusação de fazer apologia ao crime, devido à sua pesquisa.

O Prof. Elisaldo Carlini formou-se em Medicina pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) em 1956 e é um dos maiores especialistas em entorpecentes do Brasil, um dos mais respeitados internacionalmente, tendo estudado os efeitos da maconha e de outras drogas em nível experimental durante toda sua vida profissional.

Ao longo dos seus 88 anos, foi condecorado duas vezes pela Presidência da República por seu trabalho como pesquisador, citado 12 mil vezes em pesquisas científicas nacionais e internacionais. Foi presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e membro do Conselho Econômico Social das Nações Unidas (Ecosoc/ONU).

Doutor honoris causa de inúmeras universidades e instituições dentro e fora do país, Carlini também é diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), está no sétimo mandato como membro do Expert Advisory Panel on Drug Dependence and Alcohol Problems, da Organização Mundial da Saúde (OMS). E continua ativamente debruçado em suas pesquisas experimentais, bem como na formação de doutores nessa área. Sua carreira e sua trajetória como intelectual e cientista demonstram claramente que o Prof. Carlini vive uma vida acadêmica em dedicação exclusiva. Sem nenhum outro sentido a não ser o desenvolvimento da ciência.

Os fatos ocorridos com Carlini não nos desanimam, simplesmente nos mostram o quão importante é defendermos o nosso legado, o nosso país. O quanto queremos fazer ciência e produzir conhecimento e não simplesmente comprar conhecimento a um alto preço. Em um momento em que as universidades públicas, que desenvolvem pesquisa de qualidade, lutam para continuar realizando ciência e formar profissionais, além de projetos sociais, torna-se ainda mais importante defender a vida e a obra do Prof. Elisaldo Carlini, um símbolo no qual devemos nos espelhar.

Desde então, inúmeros atos têm sido realizados em seu favor, cartas de apoio foram escritas e um abaixo-assinado, iniciado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Academia Brasileira de Ciência (ABC), já recebeu milhares de assinaturas.

Ao nos solidarizarmos com Carlini, reafirmamos o quão fundamental é o desenvolvimento científico, sem o qual não se pode conquistar a evolução da condição humana. Só assim atuaremos por um conhecimento universal, pela ciência e, principalmente, pela liberdade.

"Universidade é espaço de crítica", diz professor da disciplina sobre golpe na UFBA

Há cerca de duas semanas o professor Luís Felipe Miguel inaugurou na Universidade de Brasília (UnB) a disciplina “O Golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”. A repercussão foi grande - incluindo um pedido do Ministério da Educação de apuração sobre a possibilidade de seus criadores terem cometido “improbidade administrativa” - e pelo menos 20 instituições passaram a oferecer a disciplina em suas grades. Uma delas é a Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Carlos Zacarias, professor do departamento de História da UFBA, é responsável pelo curso com mesmo nome e proposta. As aulas começarão no dia 5 de abril e será ministrado por 23 docentes de várias áreas. O curso está sendo oferecido na disciplina Tópicos Especiais em História, sob a responsabilidade de Zacarias, inspirado na disciplina homônima da UnB.

Segundo o professor, a ideia do curso surgiu da solidariedade ao professor Luís Felipe Miguel, que foi ameaçado pelo ministro da Educação, Mendonça Filho. "O ministro do governo Temer disse que ia acionar os órgãos controladores para verificar se não existiriam improbidade administrativa, mau uso do dinheiro público. Na compreensão de Mendonça Filho, a universidade não tem o direito de oferecer um curso falando do golpe de 2016”, explica o professor.

Para Zacarias, a atitude de Mendonça Filho demonstra a necessidade de discutir a democracia e seu futuro, além de pensar os riscos quando um governo que assumiu o Brasil em 2016 "a partir de um golpe, na compreensão da maioria das pessoas que integram a universidade".

O docente avalia também que o Brasil caminha para um momento de muita tensão, de muita preocupação dos setores democráticos da sociedade. "Já são mais de duas dezenas de universidades que resolveram oferecer o curso, com o mesmo título, a mesma ementa e quase todos têm o mesmo programa”, disse.

Militantes x intelectuais

Sobre as críticas de que estes cursos preparam militantes e não intelectuais e de que a universidade brasileira carece de diversidade ideológica, ele se posiciona: “esta crítica não faz nenhum sentido. Se a universidade fosse composta pela quantidade de militantes que ela é acusada de ser composta a gente não estaria vivendo esta situação".

Zacarias reforça que a universidade é formada por pesquisadores, cientistas e intelectuais que passaram por um concurso público. "A Universidade precisa ter aquilo que está disposto no artigo 207 da Constituição, que diz que ela goza autonomia didático-científica e pedagógica para desenvolver as suas funções. Então não tem nenhum sentido dizer que é um curso formado por militantes”, rebate.

“Eu pergunto a quem faz esta crítica: quando poderemos falar do golpe de 2016? Quando este governo acabar? Se só pudermos falar quando este governo acabar, significará que este governo tem disposições autoritárias que impedem a gente de discutir aquilo que é compreensão nossa. Já há uma literatura razoável, que foi produzida desde o golpe de 2016, e já há um razoável consenso”, afirma.

Apesar de consenso, o professor afirma não haver um pensamento unânime. Para ele nas Ciências Humanas, na História, na Ciência Política e na Sociologia não há unanimidade sobre absolutamente nada, mas há um razoável consenso sobre o que constituiu o golpe de 2016 e sobre os riscos qua a democracia vem correndo no País. "Estamos neste momento com um dos principais Estados do país com intervenção federal e a presença de tropas das Forças Armadas nas ruas. Então isso é um elemento de preocupação e também se conjuga à necessidade de oferta do curso”, defende.

O curso é optativo e conta com 120 vagas, sendo 70 para alunos matriculados na UFBA e 50 para alunos de extensão universitária. "Eu tinha pensado em montar um curso sobre o golpe de 1964 e a ditadura que se seguiu, até 1985, só que diante da repercussão dos fatos em Brasília e da minha indignação e destes outros professores todos, eu montei um curso sobre o golpe de 2016”, disse.

Sobre a diversidade de docentes, vindos das mais diversas áreas, incluindo Direito, Química, Psicologia e Educação, ele conta que os professores mostraram interesse durante a concepção do curso e a ideia é adaptá-lo à realidade local.

Zacarias explica ainda que os professores que se associaram ao curso são altamente qualificados, com produção científica sólida, e que de alguma maneira refletem sobre o assunto, ainda que de perspectivas diversas. "Nossa disposição é abrigar toda a diversidade, todas as possibilidades de pensar o golpe, com várias abordagens.”

Apoiado no princípio de autonomia universitária, Zacarias defende a universidade como o espaço ideal para o pensamento crítico, já que entre os próprios professores há pontos de vista inteiramente distintos sobre o que foi o golpe e sobre quando ele se desencadeia.

"Com boa parte dos professores, tive a oportunidade de debater, de divergir sobre muitas coisas. Se entre nós há muitas divergências, como não haveria entre aqueles que vão assistir ao curso? A universidade é um espaço democrático onde é assegurado o direito de crítica, o direito de divergir, o direito de expor sua divergência da maneira adequada", conclui.

O Projeto que pretende mudar a educação pública no Brasil

Vinícius de Andrade estuda na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, mas chegar ao ensino superior foi um passo corajoso para ele. Primeiro porque ia na contramão da trilha seguida por sua família, em que todos trabalham desde cedo, segundo porque ele não sabia como tornar esse sonho possível — um problema que descobriu mais tarde ser muito comum entre os jovens.

Ao concluir o ensino médio, ele tinha um desejo, mas lhe faltavam referências. "Eu não sabia o que queria estudar, e nem como faria isso. Eu não tinha informação. Eu não sabia das oportunidades, ou como funcionava o Enem ou a Fuvest", relata. Foi então que, com o empurrão de um amigo, ele se matriculou num curso pré-vestibular e teve acesso a informações que nunca havia recebido antes.

Andrade nasceu e cresceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, e passou parte da vida escolar em colégios públicos. Foi aprovado no curso de Economia da USP após dois anos tentando, mas então sentiu que não bastava estar ali sozinho – seus colegas e vizinhos não estavam usufruindo do mesmo privilégio. Sua inquietude serviu como semente para a criação do projeto Salvaguarda, que visa mostrar aos estudantes da rede pública que a graduação é uma realidade possível para eles. "Como vamos de escola em escola e entramos nas salas de aula, nós atingimos todos os alunos, dos mais decididos àqueles que não sabem nada. Se eles querem fazer faculdade, nós ajudamos. Se eles não querem, saberão pelo menos que têm direito a isso", explica o idealizador.

O projeto surgiu a partir de um trabalho para a faculdade no primeiro semestre de 2016, quando Andrade visitou quatro escolas públicas de Ribeirão Preto e aplicou um questionário para descobrir o nível de informação e interesse na graduação entre os alunos do último ano do ensino médio. Dos 193 entrevistados, apenas 13 conheciam o vestibular da Fuvest, que dá acesso à USP. "Foi impactante. Os alunos pareciam interessados, mas ninguém estava inscrito no Enem, ninguém sabia o que era redação", conta o universitário. Aos poucos, ele conseguiu reunir dezenas de voluntários e promover uma parceria intensa e contínua com escolas públicas da região, bem como com cursos pré-vestibular, que hoje oferecem bolsas a alunos envolvidos no projeto.

Problema se estende

A falta de informação acerca do ensino superior não é um problema que se limita a Ribeirão Preto, mas é grave em todo o Brasil – assim concluiu uma pesquisa realizada pelo Salvaguarda em 2017 envolvendo 1.645 alunos da rede pública em 25 cidades de 19 estados. O levantamento foi ponto de partida para o desejo de Andrade de, no futuro, expandir o projeto para outras partes do país. A pesquisa mostrou que, enquanto 90% dos alunos conheciam o Enem, quase metade não sabia seu significado ou utilidade. Cerca de 70% dos entrevistados disseram já terem ouvido falar do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), mas menos de 20% sabiam dizer para que ele serve. O mesmo acontece com os programas de bolsa e financiamento oferecidos pelo governo para o estudo em faculdades privadas. Enquanto cerca de 80% dos alunos já ouviram falar de Fies e Prouni, menos de 40% sabem para que serve o primeiro, e apenas 20% sabem a utilidade do segundo. Em Ribeirão Preto, 52% dos alunos não sabiam que há uma universidade pública em sua cidade. Esse mesmo índice é de 45% em Teresina, 39% em Manaus e 37% em Porto Alegre – capitais estaduais que possuem três ou mais instituições públicas de ensino superior.

Mais que informar, empoderar

O objetivo do Salvaguarda vai além de apenas informar alunos sobre provas e universidades. "É mais completo. Envolve empoderamento, despertar senso crítico. O importante é que eles tenham a rédea da vida deles, e é isso que a gente quer promover. Queremos dar liberdade, porque infelizmente eles ainda não são livres. E é justamente pela falta de informação", conta Andrade. Em 2017, o projeto alcançou diretamente 1.375 alunos em 11 escolas de Ribeirão Preto e região. Deles, mais de mil se inscreveram no Enem, e seis foram aprovados na USP. Uma delas é a estudante Maria Eduarda Almeida, que está no primeiro semestre do curso de Farmácia. "Sempre foi meu sonho fazer faculdade, mas eu tinha muita dificuldade pelo fato de a escola pública ser bem deficitária", afirma ela. "O Salvaguarda foi muito bom para o meu crescimento e experiência. Ele me proporcionou cursos que me ajudaram nos meus estudos para o vestibular e me colocou em contato com universitários da área que eu queria seguir."

O projeto conta hoje com mais de 300 voluntários, todos universitários, que se dividem entre visitas às escolas, oficinas de redação e monitoramento de grupos de Whatsapp – onde os alunos mantêm contato constante com os integrantes do projeto, pedindo dicas e informações. As escolas parceiras do Salvaguarda – que em 2018 já são 14, atingindo mais de 3 mil alunos do segundo e terceiro ano no ensino médio – recebem visitas de voluntários mensalmente. Eles auxiliam os estudantes em suas inscrições no Enem e outros vestibulares, dão informações sobre cursos e universidades e contam suas próprias histórias de superação. Estudantes de diversas áreas, do direito à biologia, também vão às salas de aula para falar sobre seus cursos.

Andrade conta que, certa vez, disse à coordenadora de uma das escolas que gostaria de levar um estudante de Medicina para conversar com os alunos, mas ouviu a seguinte resposta: "É melhor alguém de Pedagogia ou Enfermagem, porque Medicina é sonhar alto demais para eles". "Ou seja, existe uma limitação dentro dos próprios agentes da escola", diz o futuro economista, que enxerga o projeto como um corpo complementar necessário nesse espaço escolar. "O corpo docente da rede pública, infelizmente, não dá conta desse trabalho. Conheço professor que é bartender e mototaxista. Já ouvi professor dizendo que é proibido fazer Enem depois de sair da escola."

A primeira vez na USP

O Salvaguarda, que conta com apoio da iniciativa privada, promove ainda passeios gratuitos pelo campus da USP em Ribeirão Preto, com o objetivo de apresentar aos alunos a estrutura da universidade e aproximá-los daquela realidade. "A visita foi incrível para mim", conta Matheus Conti, um dos 900 alunos do ensino médio que já participaram do passeio. "Foi a primeira vez que eu entrei na USP. Gostei de tudo lá: da organização, dos laboratórios, da estrutura. Eu me surpreendi demais quando cheguei."

O adolescente de 17 anos conheceu o Salvaguarda no ano passado, durante o trabalho promovido pelo projeto em sua escola, na cidade de Jardinópolis, região metropolitana de Ribeirão Preto. Desde então, ele mantém fixa a ideia de estudar na USP. "Sempre pensei em fazer uma faculdade, e gostava de biologia, mas eu tinha muitas dúvidas sobre onde fazer. Eles me apresentaram várias opções e me explicaram como me inscrever. Eu também não sabia como fazer uma redação, e eles me ensinaram. O projeto foi muito importante nesse processo de decisão e abriu várias oportunidades para mim e para os meus amigos", afirma.

Segundo Conti, a situação entre seus colegas de classe era ainda mais complicada. "Vários não sabiam que a USP é uma universidade pública. Eles não sabiam o que é Fuvest, o que é Unesp. Hoje, muitos deles estão tentando entrar na faculdade."

Andrade lembra o caso de um estudante da Bahia que trabalha como lavrador. Os pais, também lavradores, estudaram até a quarta série e hoje ganham menos de mil reais por mês. No questionário, o garoto disse ter muito interesse em fazer uma faculdade e justificou: "Quero estruturar minha vida". No entanto, ele nunca ouviu falar de Sisu, Prouni ou Fies.

Segundo Andrade, se a informação não chegar a esse jovem enquanto ele estiver na escola, a chance de ela vir depois é muito baixa. "E ele vai continuar sendo um lavrador. Não estou diminuindo a profissão, mas o que me preocupa é que esses alunos nem sempre escolhem essas profissões. Eles estão sendo empurrados. Há uma grande falta de perspectiva."

A atual situação da educação pública no país constitui um problema gravíssimo, observa o idealizador do Salvaguarda. "Eu acredito que, se a escola for diferente, os alunos podem se tornar pessoas diferentes. Com o projeto, desejo realmente mudar a educação pública no Brasil. Sei que é complexo, mas não ao ponto de eu não poder tentar. Nada se muda sozinho, nunca."

 

Fonte: por Soraya S. Smaili, na CartaCapital/RFI/Deutsche Welle/Municipuis Baianos

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