16/03/2018

Acabar com o crime no Rio, uma antiga promessa

 

"O governo, que está tirando o país da maior recessão da sua história, agora vai tirar o Rio de Janeiro das mãos da violência”, indicou sem modéstia um anúncio do governo Michel Temer publicado no jornal O Globo em fevereiro, na esteira da intervenção na segurança pública do estado.

Tão persistentes quanto a violência crônica que assola o Rio há mais de três décadas são as promessas das autoridades locais e federais de solucionar o problema.

Em 1986, uma pesquisa Ibope apontou que o desemprego era a principal preocupação dos eleitores brasileiros. A segurança aparecia em quinto lugar. Só que no Rio, o tema ocupava o topo – visto como prioritário por 44% dos cidadãos fluminenses. À época, o estado sofria com sequestros, e o tráfico começava a exibir armamento de guerra.

Durante a campanha eleitoral daquele ano, o candidato Wellington Moreira Franco (PMDB) disse que iria "acabar com a violência no Rio em seis meses”.

Moreira foi eleito. Aumentou investimentos e ordenou que a "polícia subisse os morros”. Mas os índices de crimes continuaram a crescer, e o governador se tornou motivo de chacota. Deixou o cargo em 1991. Entre a posse e saída, a taxa de homicídios saltou 39%.

Moreira ainda teve que enfrentar um vexame adicional: seu preparador físico foi preso em 1990 por envolvimento no sequestro de Roberto Medina, o idealizador do Rock in Rio que também havia sido o marqueteiro da campanha do governador. Segundo Moreira, foi Medina que insistiu para ele prometer na TV que acabaria com a violência em poucos meses.

Hoje Moreira é ministro da Secretaria-Geral da Presidência e atua como um dos principais articuladores da  intervenção federal no Rio.

Brizola, Alencar e o Exército

O fracasso de Moreira nos anos 1980 não impediu que os sucessores fizessem promessas ambiciosas. Em 1991, Leonel Brizola (PDT), que já havia ocupado o governo entre 1983 e 1987, prometeu "enfrentar os bandidos” e ser "ainda mais vigoroso” contra policiais corruptos que participassem de grupos de extermínio.

No poder, Brizola voltou a adotar as políticas para reduzir abusos contra moradores de favelas por PMs do seu governo anterior. Criou uma delegacia antissequestro e o embrião do disque-denúncia. Mas a violência permaneceu alta, e grupos de extermínio continuaram a agir. Foi a época das chacinas da Candelária e de Vigário Geral, cometidas por PMs.

Brizola deixou o cargo no início de 1994, para concorrer à Presidência. Naquele ano, a taxa de homicídios alcançou 48,7 por cada 100 mil habitantes – 23% a mais do que em 1991.

O sucessor Nilo Batista, que ficou nove meses no cargo, não se saiu melhor. Em 1994, o Rio vivenciaria a Operação Rio I, que marcou a primeira de várias participações das Forças Armadas contra o crime no Rio. A ação foi imposta pelo presidente Itamar Franco contra a vontade do governador.

Desta vez, generais prometeram acabar com o poder de traficantes e policiais corruptos. "Os homens que não prestarem serão afastados”, disse o general Gilberto Serra, porta-voz da operação. A ação chegou ao fim sem diminuir a criminalidade e marcada por abusos, mas ajudou a campanha de Marcello Alencar (PSDB), apoiado por Itamar.

No governo, Alencar nomeou um general para chefiar a segurança e retomou a política de confronto nas favelas, rechaçada por Brizola.  "Os marginais que estão me ouvindo sabem que eu vou combatê-los, que eu sou intransigente", disse. Criou ainda uma bônus para PMs por desempenho contra criminosos. Apelidada de "gratificação faroeste”, foi um estímulo para a letalidade policial.

Alguns crimes, como sequestro, caíram, mas em 1995 o Rio veria a taxa de homicídios saltar para 61,9 para cada 100 mil habitantes, a mais alta já registrada.

O ciclo Garotinho-Benedita-Garotinho

Em 1998, com os homicídios batendo a marca de 55,3 por 100 mil habitantes (o dobro da média nacional), o candidato Anthony Garotinho (então no PDT), propôs um "serviço militar alternativo” para aproveitar jovens não selecionados pelo Exército. "Vamos recrutar a preço muito pequeno, como que o Exército paga pelo alistamento e aumentar o policiamento ostensivo”. O plano causou estranheza na imprensa e nunca avançou.

No poder, Garotinho tentou uma abordagem mista, convidou pesquisadores a elaborar planos para lidar com a criminalidade e reformar a polícia. Ao mesmo tempo, nomeou um general linha-dura para comandar a segurança.

"Você vai sentir uma mudança de conceito. O policiamento ostensivo vai ser maior. Nós vamos tombar gradativamente todos os itens da criminalidade”, disse Garotinho à época.

Por alguns meses, parecia que a abordagem dos especialistas estava vencendo, mas logo surgiram disputas com a linha-dura, que acabou prevalecendo. Em abril de 2002, Garotinho deixou o cargo e se candidatou à Presidência, sem diminuir a maior parte doas ocorrências.

O governo ficou para a vice, Benedita da Silva (PT), que prometeu uma nova abordagem. "Até então só se apagou incêndio”, disse ela.

Benedita logo passou a enfrentar motins em presídios e, em junho, a prefeitura do Rio foi metralhada. O governo federal prometeu ajudar. "Vamos definir algo efetivo, que não seja demagógico, algo para valer, porque não dá mais para aguentar tanta violência'', disse o presidente Fernando Henrique.

Não houve nova abordagem. Benedita acabou apostando no combate aberto contra facções. A polícia passou a matar mais: foram 900 mortes em 2002, contra 397 em 1998.No final de 2002, a taxa de homicídios alcançou 56,5 por 100 mil habitantes, ainda o dobro da média nacional.

Em 2003, Rosinha Matheus (então no PSB), mulher do ex-governador Garotinho, assumiu o governo. "Não vamos negociar com bandido”, disse. "Essa questão não terá meias palavras nem muita conversa.” Temendo uma intervenção federal, nomeou o marido, que tinha bom trânsito em Brasília, para chefiar a Secretaria de Segurança.

Os índices de violência não retrocederam e uma nova força começou a se expandir no Rio: milícias formadas por PMs, bombeiros e ex-policiais. Em 2004, seis comunidades do Rio eram dominadas pelos grupos. Em 2014, o total passava de 148. O próprio sucessor de Garotinho na pasta da Segurança, Marcelo Itagiba, foi acusado de ligação com milicianos.

As promessas de Cabral

Em 2007, Sérgio Cabral (PMDB) assumiu o governo. "Nosso governo não vai se intimidar, não vai tergiversar para garantir tranquilidade e segurança ao povo. Esses facínoras, esses covardes terão a resposta de um governo sério. Vamos ganhar a guerra contra os criminosos", disse na posse.

No início daquele ano, o presidente Lula, aliado de Cabral, comparou a violência no Rio a ações terroristas. "Essa barbaridade que aconteceu no Rio não pode ser tratada como crime comum. Isso é terrorismo e tem que ser combatido com uma polícia forte e com a mão forte do Estado brasileiro”.

O governador lançou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que previam uma polícia comunitária permanente nas favelas. Inicialmente, pareceu funcionar. Ocorrências caíram e ações violentas de bandidos foram encaradas como reação desesperada ao sucesso do programa. Cabral também investiu no enfrentamento. Em 2007, policiais mataram 1.330 pessoas.

Lula – e posteriormente Dilma – também disponibilizaram homens das Forças Armadas. Entre 2008 e 2015, militares foram acionados no Rio em oito ocasiões. Em 2012, o índice de homicídios caiu para 25,1 por 100 mil habitantes, abaixo da média nacional.

Mas as UPPs começaram a mostrar falhas. O programa previa uma segunda fase que iria dotar as favelas de serviços públicos de qualidade, mas essa etapa nunca se concretizou. No poder, o grupo de Cabral saqueou os cofres do estado. A corrupção, aliada aos problemas econômicos, acabou travando investimentos. A partir de 2013, os homicídios voltaram a crescer. Policiais passaram a morrer mais. Em 2017, 134 foram assassinados – maior número em 15 anos.

Cabral ainda conseguiu eleger um sucessor, Luiz Fernando Pezão. "Não vai faltar dinheiro para a segurança pública e para nenhuma política pública", disse o novo governador em 2015.

Mas sem recursos, Pezão recorreu ao Planalto. "O governo dará respostas duras, firmes e adotará todas as providências necessárias para enfrentar e derrotar o crime organizado e as quadrilhas”, disse Michel Temer ao assinar o decreto de intervenção.

Na cerimônia de assinatura estava o ministro e ex-governador Moreira Franco, que 32 anos antes prometera acabar com a violência no Rio em seis meses.

Intervenção militar no Rio é 'ilusão fascista'

Moradora da Favela do Acari, na zona norte do Rio, Buba Aguiar diz que perdeu as contas do número de vezes em que teve a sua casa invadida pelas forças policiais nos últimos anos. Longe do asfalto, a repressão é a regra, e agora ainda mais intensa a partir da intervenção militar decretada como medida espetacular pelo governo Michel Temer, sedento por apoio.

Ela destacou que essa política repressiva é voltada "para um determinado povo", que são aqueles que vivem nas favelas. "O tanque do Exército não está aqui na frente do Oi Casa Grande", casa de espetáculos na zona sul da capital fluminense, que foi palco do debate Intervenção – Precisamos falar sobre o Fascismo, ocorrido nesta terça-feira (13).

"Se vocês forem nas favelas – obviamente quando não está tendo operação –, vocês vão ver como é bom. A gente é muito feliz, é muito colorido, a gente é muito vivo, tem muita cultura. A gente é muito inteligente. Por que é que querem tanto matar a gente, acabar com a gente?", questionou Buba, que também participa do Coletivo Fala Akari.

O ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão ressaltou que a lógica militar visa a debelar o inimigo com o uso da força total, enquanto a lógica da segurança pública usa o mínimo de força necessária para garantir os direitos individuais.

"São lógicas completamente opostas. A gente vê que há uma enorme ilusão sendo vendida à população em relação a isso. É uma ilusão que é fascista", frisou Aragão.

"O Estado nunca invadiu a favela com R$ 1 milhão por dia em cultura, saneamento e educação", afirmou Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, fazendo referência aos gastos realizados durante a ocupação da Favela da Maré, em 2014, que durou 15 meses e consumiu mais de R$ 550 milhões.

"Fascismo é o silêncio num momento onde se exige posição. Há um avanço dessas pessoas ditas fascistas, que estão com coragem de se expor. O silêncio fortalece essas pessoas. É hora de se posicionar", cobrou ele.

Morte de vereadora do Rio tem repercussão mundial

O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (Psol), famosa por ser ativista do movimento negro e crítica da violência policial do Rio de Janeiro, na noite dessa quarta-feira (14) teve repercussão nos principais jornais do mundo.

O caso, mais um registrado na onda de violência no Rio, foi divulgado em publicações norte-americanas como o The New York Times , The Washington Post e a rede ABC News. Além disso, a televisão estatal com sede na Venezuela, Televisión del Sur, e o jornal britânico The Guardian noticiaram a morte da política.

A matéria original foi produzida pela agência de notícias Associated Press e distribuída aos veículos dos EUA. "Um membro do conselho da cidade e seu motorista foram mortos a tiros por dois assaltantes não identificados em uma rua no centro, no Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, onde militares foram convocados há um mês após uma onda de violência", diz o texto.

O site da TV venezuelana noticiou que "a proeminente ativista brasileira de direitos humanos e a vereadora de esquerda Marielle Franco foi assassinada no Rio de Janeiro". Segundo a reportagem, ela "faz parte de uma geração de jovens brasileiros negros que estão se tornando cada vez mais vocais dentro e fora de casas de estado. Franco foi eleito para a Câmara em 2016".

Já o The Guardian ressalta que Marielle era ativista e especialista na análise de violência da PM. Além disso, o jornal reforça que a vereadora chegou a acusar os policiais de serem agressivos ao abordar os moradores das favelas do Rio. "Marielle Franco, vereadora e crítica da polícia, é executada a tiros no Rio", diz o título da matéria. O News Deeply , de Nova York, também destacou o assassinato de Marielle com o título: "Das favelas a vereadora, lutando pelos direitos das mulheres no Rio".

O jornal peruano El Comercio , por sua vez, relatou o crime e ressaltou que a vereadora era crítica da intervenção federal na Segurança Pública do estado.

Marielle, 38 anos, estava dentro de um carro no bairro de Estácio, centro da capital fluminense, quando criminosos emparelharam o veículo e abriram fogo. O motorista do automóvel onde estava a carioca, Anderson Pedro Gomes, também morreu. O caso está sendo investigado pelas autoridades locais.

 

Fonte: Deutsche Welle/RBA/Ansa/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!