18/03/2018

Assassinato de Marielle foi enorme perda para o Brasil e para o mundo

 

Costumo dizer que é difícil compreender a gravidade e a importância de um momento histórico enquanto você está vivendo ele. E estamos agora diante de um momento que preciso que vocês entendam. Na quarta-feira, em pleno Rio de Janeiro, uma importante líder de direitos civis foi morta por tiros que partiram de um carro. Seu nome era Marielle Franco. Como eu, ela tinha apenas 38 anos de idade. Ainda não sabemos quem assassinou Marielle e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, embora haja indícios preliminares de que a polícia pode estar envolvida. Foi informado que investigadores teriam concluído que as cápsulas de munição encontradas na cena do crime haviam sido compradas pela Polícia Federal em 2006. Cartuchos do mesmo lote foram usados em uma série de ataques brutais que deixaram pelo menos 17 mortos e sete feridos em uma noite de 2015, em São Paulo. Dois policiais e um guarda municipal foram condenados pela chacina. O que sabemos é que Marielle ameaçava um preocupante status quo no Brasil.

Nos Estados Unidos, cerca de 1.200 pessoas foram mortas por policiais em 2017. Essas mortes frequentemente destroem famílias, e mesmo os agentes envolvidos nos casos mais ultrajantes raramente são responsabilizados. Na maior parte das nações parceiras dos EUA, como o Canadá, a polícia mata em média 95% menos. Os policiais norte-americanos matam mais pessoas em poucos dias do que a polícia de vários países mata em um ano.

Foi a crise de brutalidade policial nos EUA, mais do que qualquer outro fator, que desencadeou o movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”). Mas vocês sabiam que o Brasil é provavelmente o grande campeão do mundo em violência policial? Embora tenha 120 milhões de habitantes a menos que os EUA, um assustador número de 4.224 brasileiros morreram nas mãos da polícia em 2016. Esse número representa um aumento de 26% em relação ao ano anterior. Isso é uma crise internacional de direitos humanos. É um escândalo. E o lugar que sofreu com maior intensidade a violência policial foi o Estado do Rio de Janeiro, onde a polícia assassinou mais de 1.124 pessoas em 2017 – uma disparada de 22% em relação ao ano anterior. Além de tudo isso, há uma intervenção militar em curso no Rio. Quer saber de polícia militarizada? As Forças Armadas literalmente assumiram o controle do aparato estatal de segurança.

Marielle Franco, líder brilhante com um coração enorme, era uma figura central no movimento contra a violência policial no Brasil.  Esse movimento se equipara para todos os fins ao Black Lives Matter – sem esse nome, mas com indiscutíveis semelhanças. E é por isso que dezenas de milhares de pessoas foram às ruas para protestar e chorar sua morte. Ela era uma mulher negra e queer lutando não apenas contra a violência policial, mas por uma igualdade mais ampla e pelo empoderamento das mulheres e das pessoas negras em todo o Brasil. Ela estava exatamente saindo de um evento voltado para o empoderamento das mulheres negras no Centro do Rio quando um carro parou ao lado do dela e alguém atirou quatro vezes em sua cabeça. Seu carro não foi roubado. Não levaram sua bolsa. Ela foi alvo de uma execução.

Recentemente eleita para a Câmara de Vereadores do Rio, em 2016, a voz e o poder de Marielle na política estavam crescendo. Ela era presidente da Comissão Permanente de Defesa da Mulher na Câmara e havia sido nomeada há menos de um mês relatora da comissão que fiscalizará a intervenção militar e a presença de forças policiais e de segurança nas favelas da cidade. Seu partido, o PSOL, estava planejando anunciá-la como candidata a vice-governadora do Estado nas eleições deste ano. Ela era uma sonhadora que dava esperança a todos ao seu redor. Num país e num mundo que confiam cada vez menos nos políticos, ela mostrava às pessoas que líderes corajosos poderiam ter princípios, ser progressistas e lutar pela mudança de dentro para fora. O assassinato de Marielle me lembra em vários aspectos o de Patrice Lumumba, o primeiro a ser escolhido primeiro-ministro do Congo independente. Cheio de esperança e de ideias, Lumumba tinha apenas 35 anos quando foi morto. Ele personificava a esperança e a mudança em um país que precisava desesperadamente de ambas.

Antes de serem assassinados, Malcom X e Martin Luther King Jr., então apenas um ano mais velhos que Marielle Franco, tinham chegado à conclusão de que era importante conectar nossas lutas pelos direitos civis e nossas prioridades às lutas pelos direitos civis e humanos em curso pelo mundo. E aqui estamos novamente. Devemos conectar nossas lutas nos EUA com as do Brasil. Marielle Franco era uma de nós. As prioridades dela são as nossas. Os sonhos dela são os nossos. As lutas dela são as nossas. Não é coincidência que os países com as duas maiores populações de descendentes africanos fora da África – o Brasil, com quase 56 milhões, e os Estados Unidos, com 46 milhões – estejam ambos enfrentando uma crise de violência policial. Isso acontece porque as vidas negras, seja no Rio ou em Ferguson, em São Paulo ou Baltimore, muitas vezes não importam para a polícia e para os políticos. Em nome da segurança, vidas humanas estão sendo tratadas como descartáveis. E isso nunca pode ser aceito. Saibam o nome de Marielle Franco. Não permitam que sua causa morra com ela. Mostrem ao mundo que é possível matar um homem ou uma mulher, mas não uma ideia.

A história dos três crimes que Marielle denunciou antes de morrer.

Os responsáveis por matar Marielle Franco não queriam se livrar de uma vereadora de 38 anos que dedicava seus dias ao expediente político. O desejo dos assassinos era o de silenciar uma ideia. Marielle foi morta à noite, em uma emboscada, sem poder de reação, o modo covarde como se mata nas favelas do Rio de Janeiro e do Brasil, lugares onde as cartas não chegam, a luz falha, a água é suja, as escolas fecham ao som de tiros e o Estado é um tanque de guerra com licença para matar o qual chamam de Caveirão. Dias antes de ser executada, Marielle Franco denunciou o assassinato de três homens – jovens e de periferia –, parte grande do estereótipo dos corpos que enchem os cemitérios do país. “Foi um recado”, era uma das frases que mais se ouvia entre as pessoas que, ainda estarrecidas, lotaram o Centro do Rio, na quinta-feira, em vigília e protesto. Mas que recado? O que queriam dizer os assassinos de Marielle? A quem eles se dirigiam? “Não ousem mexer nas estruturas”, eles sussurravam. Não se sabe ainda se a execução de Marielle foi motivada pelos crimes que ela denunciou – dois deles na área do 41º Batalhão de Polícia Militar e seu histórico de terror.

The Intercept Brasil formou um time de quatro jovens jornalistas – Bruna, Carolina, Juliana e Yuri – para contar as histórias de Eduardo, Matheus e Reginaldo. É irrelevante o que a conclusão policial dirá sobre a relação da morte de Marielle com sua pressão pela investigação desses casos. Porque esses assassinatos, tendo policiais como suspeitos, continuam sem solução. Marielle se foi, mas a pressão para que esses – e todos os outros jovens de periferia – tenham respostas não pode parar. A ideia de que é impossível enfrentar o crime organizado sem usar armas é errada. A ideia de que é impossível ter liberdade nos subúrbios do Brasil é velha e errada. Uma mulher, sozinha, talvez não possa peitar os senhores da guerra. Mas uma multidão pode.

MATHEUS MELO CASTRO, 23 ANOS – MORTO DIA 12 DE MARÇO

Era um trajeto curto e de rotina. Terminada a reunião da última segunda-feira na Igreja Evangélica Missão da Fé, em Manguinhos, Matheus, auxiliar do pastor, subiu em sua moto – comprada com o salário que ganhava como agente de coleta seletiva – e levou a namorada para casa, no Jacarezinho. As duas comunidades são separadas apenas por uma avenida. Eram cerca de 22h quando, ao voltar para casa, ele cruzou com uma patrulha da Polícia Militar. Vizinhos disseram que os policiais “revistavam menores de idade”. Segundo a família de Matheus, a patrulha não deu ordem de parada. Ele passou pela blitz, mas poucos metros à frente foi atingido por dois tiros, um no braço esquerdo, outro no tórax.

Matheus caiu. Os policiais o observaram à distância como se fosse uma caça abatida. Não prestaram socorro. Ferido mas ainda vivo, ele foi amparado por usuários de crack que frequentam ruas próximas. Confusos, eles decidiram colocar o estranho em um carrinho de mão e sair em disparada pela movimentada Avenida Dom Hélder Câmara até chegar à Unidade de Pronto Atendimento de Manguinhos. A cena foi vista por motoristas que passavam pela via naquela noite. A notícia se espalhou e, entre amigos e familiares, mais de cem pessoas se amontoaram em frente à UPA para uma vigília. Muitos deles eram do grupo de moças e rapazes que havia se reunido na igreja minutos antes para cantar e rezar. O “refúgio jovem”, como são chamados esses encontros, foi liderado por ele naquela noite. Matheus Melo Castro chegou a ser atendido, mas não resistiu.

“Foi cruel. Ele passou e eles metralharam”, disse uma de suas tias. “O pior é que não socorreram. Quem socorreu foram os ‘crackeiros’ que estavam ali perto e o carregaram para a UPA. Se ele fosse bandido os PMs teriam capturado e feito a segurança no hospital. Mas como era qualquer um, atiraram e foram embora como se fosse ninguém”, desabafou uma prima. Todos têm medo de falar. Uma desculpa oficial e corriqueira da Polícia em casos como esse, emitida sempre em notas curtas à imprensa e que por regra não dizem nada, é que são mortes colaterais, vítimas azaradas da troca eterna de tiros entre mocinhos e bandidos. Moradores de Manguinhos disseram que no momento da execução de Matheus não havia confronto na comunidade. Horas depois, entretanto, foi possível ouvir disparos.

Familiares garantem que o tiroteio tardio foi uma tentativa de justificar a morte de Matheus como mais uma vítima de bala perdida. Uma cortina de fumaça. A polícia disse que a base da Unidade de Polícia Pacificadora do bairro foi “atacada por criminosos”, por isso o revide. De madrugada, um ônibus foi incendiado na Avenida dos Democráticos, via que dá acesso à comunidade. Tudo ocorreu a poucos metros da Cidade da Polícia, localizada exatamente na Avenida Dom Hélder Câmara, entre Manguinhos e Jacarezinho. O incêndio, assim como as circunstâncias da morte de Matheus, permanecem em uma das tantas “investigações sob sigilo” que adormecem nas delegacias do Rio. A família se sente ameaçada e, aconselhada por vizinhos, cogita sumir do bairro. Matheus era conhecido da comunidade e não tinha nenhuma ligação com o crime. Uma vítima incômoda com uma família determinada nos calcanhares de seus assassinos: apesar do medo, eles pretendem processar o Governo do Estado e já começaram uma investigação paralela para descobrir quem deu os tiros.

Junto com advogados, querem buscar as câmeras de trânsito do Centro de Operações da Prefeitura para tentar encontrar os últimos minutos de Matheus com vida e seu assassino. O sistema de segurança da Sociedade União Internacional Protetora dos Animais, localizada na rua, também pode ajudar. Questionada sobre o estado das investigações, a assessoria da Polícia Civil afirmou às 10h21 da manhã de quinta, via e-mail, que “estão em andamento e, no momento, não há novidades para divulgar sobre o caso.” A Coordenadoria de Polícia Pacificadora disse que abriu “uma averiguação sumária” para descobrir se os assassinos são policiais de alguma UPP. Por telefone, nos disse que a sindicância interna, sigilosa, teve início no dia seguinte ao crime. Não confirmou se havia, de fato, uma viatura no local em que Matheus foi morto. “Ainda que tivesse, não necessariamente era de UPP. Poderia ser de um batalhão da PM ou da Polícia Civil”, disse, no jogo de empurra-empurra. O procedimento é apenas uma averiguação, não um inquérito. Portanto, não resulta em acusações.

“Mais um homicídio de um jovem pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, twittou a vereadora Marielle Franco, na terça-feira. No dia seguinte, sob hinos de louvor e gritos por justiça, ele foi enterrado no Memorial do Carmo, no Caju, Zona Portuária. Horas depois, Marielle foi assassinada.

EDUARDO FERREIRA, 39 ANOS, E REGINALDO SANTOS BATISTA, IDADE DESCONHECIDA – MORTOS DIA 5 DE MARÇO

Moradores ouviram disparos pouco depois do nascer do sol. Naquela primeira segunda-feira de março, assim cedo, todos estranharam. Não parecia haver troca de tiros com traficantes, as bocas de fumo sequer estavam abertas. Depois que os fuzis silenciaram, um pequeno grupo de vizinhos decidiu investigar. Encontraram dois corpos em uma zona de mata rala próxima ao Rio Acari. O primeiro estava de bruços, bermuda e camisa, os olhos fechados. Os moradores decidiram puxá-lo pelas pernas e resgatá-lo de um leve declive até posicioná-lo de modo que pudesse ser reconhecido. Nessas horas ninguém espera pela perícia, que pode levar horas, para ver se o morto é um conhecido ou um parente. Mais tarde se soube que era Eduardo Ferreira, de 39 anos. O outro estava alguns metros adiante, em uma descida um pouco mais íngreme. Reginaldo Santos Batista, que não teve a idade descoberta, precisou ser içado pelo grupo. “Aqui desde criança a gente aprende a içar um corpo. Vocês sabem o que é isso? Acho que não, né?”, disse uma das pessoas. A Delegacia de Homicídios só o recolheu por volta das 19h, já noite, com a ficha de identificação: homem negro, forte, de feições marcadas e cabelo raspado.

As circunstâncias das duas mortes ainda são misteriosas. Testemunhas oculares contaram que um grupo de policiais estava escondido na mata da favela e que teria abandonado os corpos antes de desaparecer. No Facebook do 41º, o mais letal da cidade, nada. O batalhão posta diariamente sobre suas ações, mas não há postagens sobre ocorrências no dia 5. Somente nos dias 4 e 6. No twitter da PMERJ também não há registros sobre a Favela do Acari.

Eduardo tinha uma companheira e era morador de Acari desde pequeno. Deixou dois filhos. Sua família – mãe, irmãos e primos – são todos evangélicos e todo mundo é de Acari. Era um trabalhador autônomo, que, dizem os amigos, “estava sempre trocando ideia” com os moradores da região. “Ele era muito na dele. Meio tímido. Lembro que ele falava para eu tomar cuidado pela região. Se preocupava com os moradores”,  disse uma moradora.

Sobre Reginaldo, pouco se sabe. Ninguém reclamou publicamente o corpo.

Questionada, a Polícia alegou que não estava sabendo de operação no momento. Algumas horas depois, mandou uma nota por e-mail na qual dizia que os policiais do 41º BPM estavam em patrulhamento para “coibir o comércio de drogas, roubo de veículos e prender criminosos”. Disse também que tinha prendido um bandido, apelidado de Timbau, que estaria com um rádio transmissor. Depois daquele dia, durante toda a semana, houve tiroteio todos os dias.

No sábado seguinte, uma moradora estava indo buscar doações perto da região de Piracambu, onde fica a associação de moradores da favela Acari, quando ouviu disparos. Olhou para os lados para ver se tinha algum traficante em confronto ou alguma boca de fumo aberta, mas era cedo e estavam todas fechadas. Os policiais, segundo ela, estavam “atirando a esmo, fora da viatura”. ”Me escondi junto com outra moradora. Olhava para os lados e não entendia porque eles estavam atirando. Não tinha nada. Só morador na rua”, falou. Eram 8h da manhã. ”Quando deu umas 13h, voltei lá no mesmo local e a quantidade de policiais tinha aumentado e eles continuavam atirando. Foi quando dois caveirões da Polícia entraram na favela”, contou. Outros moradores mandaram mensagens de áudios para alertar quem estava pela favela. ”Meu deus, muito tiro aqui. muito tiro”, disse um. Outra, quase chorando, disse: “Gente, eu tô com muito medo. Medo mesmo. Eles estão na frente da minha casa”. “Os caras estão esculachando morador. É muito tiro na casa dos outros. Isso não está certo. Em pleno sábado?”, respondeu outro.

Marielle denunciou a ação da Polícia naquele mesmo sábado. Escreveu no Facebook: “Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior. Compartilhem essa imagem nas suas linhas do tempo e na capa do perfil!”

Ex – vereador miliciano indiciado por CPI na qual Marielle trabalhou esteve na Câmara

Os computadores que registram a chegada de visitantes na Câmara de Vereadores do Rio marcavam 12h09 na quarta-feira, 7 de março, quando Cristiano Girão Matias entrou por uma porta lateral. No passado, entre janeiro e dezembro de 2009, a Casa chegou a fazer parte da sua rotina. Até ele ser preso, sob a acusação de chefiar uma milícia em Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade. Em outubro de 2010, após quase um ano atrás das grades, a mesa diretora cassou o seu mandato – não pelos crimes dos quais é acusado, mas por excesso de faltas. E não houve mais notícia de que ele tivesse aparecido de novo na sede do Legislativo carioca.

The Intercept Brasil teve acesso à imagem que mostra o rosto de Girão no momento em que ele entrou no prédio na última semana. Na recepção, o destino informado pelo visitante – condenado por formação de quadrilha – foi o gabinete da Presidência da Câmara. O ex-vereador, porém, ainda esteve no sétimo andar, onde ficam as salas do pessolista David Miranda e de Zico Bacana (PHS) e Chiquinho Brazão (MDB) – este último irmão do ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Domingos Brazão, preso pela Operação Quinto do Ouro, em março do ano passado. A presença de Girão na Câmara é especialmente emblemática diante do assassinato de Marielle Franco. Em 2008, a combativa vereadora morta brutalmente nesta quarta-feira trabalhou ativamente na CPI das Milícias, como assessora do deputado Marcelo Freixo. A Comissão indiciou 226 pessoas – entre elas Cristiano Girão. Freixo ainda se desloca com seguranças por causa daquele período. Enquanto a Casa perdia uma guerreira contra os paramilitares, o miliciano ressurgia das cinzas e voltava a circular nos corredores e gabinetes.

Outro desafeto do miliciano morto na mesma noite

Na mesma noite em que Marielle foi morta, outro personagem ligado a Girão foi assassinado. A ex-mulher do miliciano – a funkeira Samantha Miranda – e seu marido, Marcelo Diotti da Mata, foram alvejados por tiros de fuzil no estacionamento de um restaurante na Barra da Tijuca. Há nove meses, o casal já havia sofrido uma tentativa de homicídio na mesma região. Samantha, então, acusou o ex-vereador de ter contratado um homem para matá-los.

Marcelo da Mata desta vez não escapou. O empresário levou dois tiros e morreu no local. A mulher conseguiu fugir. Pela segunda vez em depoimento à Divisão de Homicídios, ela voltou a acusar o ex-marido miliciano. Sob intervenção federal, as investigações na DH seguem em sigilo.

Contactado por WhatsApp, o deputado Marcelo Freixo disse saber que o miliciano estava em liberdade, mas demonstrou surpresa com sua volta ao Rio. Da primeira vez em que foi solto, Girão foi impedido de retornar ao Estado por causa das ameaças que fazia a seus desafetos locais. O advogado Leandro de Andrade Meuser, que representa Girão, não foi localizado para falar sobre o benefício concedido a seu cliente e para dizer o que fazia o ex-vereador na noite de quarta-feira enquanto Marielle e Marcelo da Mata eram executados.

Ei, Al Capone

Além de ter sido condenado por formação de quadrilha armada e lavagem de dinheiro, o ex-vereador ainda responde, na Justiça Federal, a um processo de execução fiscal por sonegação de impostos desde 2015. A Receita tenta recuperar cerca de R$ 1,1 milhão. Cumprindo pena em liberdade, o réu é obrigado a fornecer endereço à Justiça. Mas um documento de 8 de novembro do ano passado mostra que Girão não foi encontrado para ser citado no processo. O andamento foi suspenso por um ano. Se ele não for localizado, segundo a decisão, o caso será arquivado. Será que a Justiça vai procurá-lo na Câmara?

 

Fonte: Por Shaun King - Tradução: Deborah Leão, no The Intercept/Municipios Baianos

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