18/03/2018

Bolsonaro não diz o que pensa porque o que pensa não se diz

 

Bolsonaro não disse até agora o que pensa do assassinato de Marielle, que aconteceu na sua cidade, cujos cidadãos representa na Câmara dos Deputados, e que é assunto comentado no mundo todo, provavelmente porque se disser o que pensa vai pegar mal mesmo para o seu eleitorado.

Ele não diz o que pensa porque o que pensa não se diz.

A julgar por suas frases mais conhecidas, tais como “não te estupro porque você não merece” ou “precisa metralhar Fernando Henrique e mais uns 30 mil brasileiros” não deve ter ficado com pena da vítima indefesa em desabafos entre quatro paredes, com certeza, mas se os transformasse em palavras as consequências eleitorais poderiam ser altamente negativas. Só por isso ele silenciou em vez de proferir novas grosserias e insultos.

Ainda que não diga nada, seu silêncio é eloquente. Denuncia a sua incapacidade e repulsa a se solidarizar com quem é mulher, negra, jovem, pobre, favelada, política e, ainda por cima, de esquerda, o que é assustador.

Bolsonaro é incapaz de expressar algum sentimento caloroso em relação a uma brasileira brutalmente assassinada em meio a uma intervenção militar por ela ser o que é: uma brasileira.

Imaginar que alguém com esse perfil tem condições de solucionar a enorme crise brasileira na cadeira de presidente da República é flertar com o abismo. 

Em breve, você será cobrado a se posicionar sobre Bolsonaro. Por André Zanardo

Com o assassinato de Marielle Franco e a nítida polarização de opiniões, que beiram ao escárnio humanitário por parte de alguns, pra mim uma coisa está bem evidente: chegou o momento de resolvermos questões inflamadas no pós 2013, quando o véu das elites começou a cair.

Infelizmente, apesar de desvelado, ainda não estamos avançando de forma progressista na política, mas resistindo. Creio pelo menos que de alguns anos para cá as pessoas passaram a entender que a política é importante e que devemos nos posicionar para que a democracia possa acontecer.

Aprendemos muito como atuar nos últimos anos, seja através de movimentos sociais, redes de pessoas, partidos e até mesmo estruturas como a do Justificando, ou Mídia Ninja, por exemplo. Passaremos todos por um grande teste do que aprendemos neste caos.

Os discursos que antes eram velados, saltam os olhos, o racismo, o machismo, as estruturas de poderes, os privilégios, ainda que não o suficiente eles dão cada vez mais a tônica das nossas discussões na sociedade (isso é um avanço).

Claro que esquerda e direita farão interpretações distintas dos mesmos fatos, mas existe uma linha humanitária que qualquer sociedade moderna não pode deixar ultrapassar. Essa linha é o respeito aos direitos humanos, que deve ser garantia respeitada pelos dois lados. Isto é tema superado entre teóricos conservadores e progressistas, faz século.

Até o final do ano você vai ter que se posicionar entre Bolsonaro e sociedade civilizada. Não existirá a possibilidade de você ser indiferente a isso, já estamos em guerra declarada! Ainda bem!

E que alertemos cada vez mais as pessoas ao nosso lado que reflitam enquanto é tempo, antes que o caldeirão das emoções das eleições dificultem uma interpretação também racional.

Não adiantará se esconder, ou se omitir, a guerra projetada entre PSDB/PT ainda se disfarçava de política democrática e ainda havia uma tentativa de se forjar uma certa normalidade, até mesmo na forma em que os golpes políticos se consolidaram e se fazem presente. Com Bolsonaro não existem limites e disfarces, é um processo abertamente autoritário.

Infelizmente nós descemos ainda mais o nível, mas tenho certeza que isto é necessário para que superemos os fascismos cotidianos que até a pouco eram colocados de forma inconsciente por boa parte da população.

É hora de levantar a poeira que está escondida debaixo do tapete, aniquilar com os discursos de ódio e encarar de vez que estamos num processo de amadurecimento psíquico da sociedade.

Que Bolsonaro sirva ao menos como alvo daquilo que não queremos ver jamais, nem como síndico do prédio, nem como militar, nem em qualquer posição de gestão que seja necessário olhar para o outro com humanidade.

Do outro lado, Marielle Franco, Malcom-X, Rosa Parks, Dorothy Stang, Zumbi, Marighella, Chico Mendes, Luther King, bem como muitos ativistas que morreram na história, simbolizam tudo aquilo que Bolsonaro não é capaz de ser: a personificação da luta por um mundo mais humano e igualitário.

Eu escolhi um lado faz tempo, mas a sua hora de escolher está com dias contados, a vida cobrará e eu também.

Para que avancemos ainda precisamos enfrentar o básico, enfrentar os discursos, acabar com piadas racistas, machistas, xenofóbicas e sempre lembrar que não passarão. Bolsonaro simboliza tudo isso aí, e ele está no seu trabalho, na sua rua, na sua casa, em todos os lugares. A fala e os discursos são e devem ser o lugar principal de disputa de poder nestes tempos, caso contrário será no pau e na pedra.

Ainda dá tempo de se posicionar. Bolsonaro e fascistas não passarão, em nome de todos aqueles que morreram para que pudéssemos ter o mínimo de humanidade.

#MariellePresente

Bolsonaro pode ressuscitar o voto útil. Por José Antônio Severo

O prefeito de São Paulo, João Doria, está fazendo os últimos movimentos para a renúncia, compondo alianças e dando tratos à sua imagem, para lançar candidato ao governo do Estado. No campo político, ele já se acertou com Gilberto Kassab, do PSD. Agora precisa convencer o eleitorado de que não deixando a Prefeitura não traiu sua votação de há dois anos. É um passo perigoso.

Ele é a única possibilidade de tucanos e vertente conservadora tradicional marcharem unidos na sucessão estadual e, mais ainda, de levantarem um palanque consistente para o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. Sem uma vitória avassaladora em São Paulo o, o tucano não teria muitas chances de chegar ao segundo turno. A batalha final será decisiva na sucessão presidencial.

O prefeito de São Paulo, João Doria, procura uma aliança à direita enquanto seu padrinho político, o governador Geraldo Alckmin, busca um candidato a vice com paladar deglutível para eleitores do campo esquerdista; os tucanos de São Paulo enlouqueceram? Nada disso, eles estão se mexendo para buscar o velho e esquecido voto útil, que adoçou candidaturas intragáveis no passado. É o segundo turno chegando.

O prefeito já resolveu seu problema: sua chapa repete a fórmula eleitoral vitoriosa de José Serra para a Prefeitura da capital, em 2004, com o atual ministro de Dilma e Temer, o então deputado Gilberto Kassab, que, ainda no DEM, convalidou a guinada tucana à direita como grande expressão da vertente política paulista originária das classes empresariais. Neste ano. num segundo turno contra algum petista, a dupla Dória/Kassab vai unir todas as forças conservadoras para enfrentar o petismo e, de forma mais ampla, às esquerdas atreladas a movimentos sociais e demais segmentos anticapitalistas.

Esta aliança seria imprópria para chamar-se de voto útil, que é o nome de uma articulação histórica do campo da esquerda. Entretanto, não deixa de ser o famoso esquema para votar contra e não a favor.

Pois é aí, no perigo de enfrentar dividido o bicho papão Jair Bolsonaro, que o antigo “campo democrático” dos anos 1970 começa a se movimentar nos bastidores. Num segundo turno contra o capitão, essa vertente precisará voltar aos idos de 1978 (os atuais PMDB, PSDB, PT e PDT formaram juntos a candidatura de Franco Montoro, inclusive Lula e FHC) e voltar às urnas no segundo turno para conter à direta hidrófoba. O nome será o que chegar à frente: Aí estão Lula (ou seu preposto), Ciro Gomes e… Geraldo Alckmin.

É esta possibilidade concreta que explica os afagos ainda tímidos das grandes lideranças dos partidos da antiga “vertente democrática”. E mais ainda: em caso de segundo turno contra Bolsonaro, o próprio LMDB terá de atender às vozes ancestrais de seus numistutelares, Ulisses, Tancredo, Montoro e tantos mais. Esse clamor da tradição histórica é que explica as frases condescendentes de Lula a Michel Temer. O atual presidente será, assim, um ator no processo. Quem diria!

A última eleição com “voto útil “explícito foi quando Fernando Collor venceu, no segundo turno, a frente integrada por PT, PSDB, PDT e outros que se uniram em torno da candidatura do petista Luiz Inácio Lula da Silva. Daí em diante essa fórmula perdeu utilidade, pois nas eleições seguintes os segundos turnos se deram dentro do mesmo campo: Fernando Henrique venceu no primeiro turno e as disputas subsequentes foram entre petistas e tucanos. Tudo em casa.

A volta do voto útil. As novas gerações de eleitores do chamado campo progressista do eleitorado, liderado pelo PT, não tiveram o dissabor de ir às urnas tapando o nariz para depositar a cédula (ainda era no papel) com o então denominado “voto útil”. Nessa fórmula, as forças políticas se compõem numa aliança eleitoral precária, válida apenas para o segundo turno com o objetivo de impedir a vitória do candidato da direita. Isto correu em muitos casos antes da dupla PT/PSDB assumir a hegemonia.

No caso de São Paulo o grande espantalho era o atual deputado prisioneiro Paulo Salim Maluf. Assim mesmo, ele derrotou as forças progressistas, inclusive com seu “poste” Celso Pitta. Em vários estados (e capitais, depois que se restabeleceram as eleições para prefeitos) isto se repetiu nas eleições de 1978 para cá. Hoje esta configuração está extinta, menos em São Paulo, onde a dicotomia esquerda/direita se mantém.

Fernando Henrique, Lula e Temer no mesmo palanque? Quem duvida que esta está por vir?

 

Fonte: Por Alex Solnik, no Brasil 247/Justificando/ Os Divergentes/Municipios Baianos

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