18/03/2018

Como imigrantes japoneses recriaram pratos típicos na Amazônia

 

Os japoneses que imigraram para o Amazonas depois da Segunda Guerra Mundial apelaram à criatividade para conseguir fazer as tradicionais receitas de sua rica culinária. Ao chegar em um local estranho e distante da terra natal, substituíram a soja pela mandioca e transformaram o mamão em picles e saladas, por exemplo.

Os relatos dessas invenções culinárias foram coletados oralmente pela pesquisadora Linda Midori Tsuji Nishikido, da Universidade de São Paulo (USP), para sua dissertação de mestrado sobre os hábitos alimentares dos imigrantes japoneses no Amazonas entre 1957 e 1963. Ela ouviu seus próprios pais, parentes e amigos, que chegaram ao Brasil naquele época e, hoje, estão com idades entre 60 e 100 anos.

Linda chama essas receitas de "ressignificações de iguarias". "Embora tenha como base a culinária japonesa e nomeada como tal, na realidade são criações novas, com ingredientes próprios do lugar imigrado", explica. "Assim, na ausência de soja, recriaram o molho shoyu a base de tucupi (líquido extraído da mandioca) e reinventaram o miso (pasta de soja), usando de feijão de praia."

O mamão, por sua vez, normalmente consumido como fruta in natura ou como doce, para os japoneses do Amazonas, teve a função das verduras, já que haviam poucas opções delas na região.

Eles consumiam essa fruta ainda verde como refogado, como tsukemono (espécie de picles) e como sunomono (espécie de salada, normalmente feita com pepino e vinagre). Até as raízes de mamão foram aproveitadas para fazer o kinpira gobo (refogado à base de bardana - uma erva, cujas raízes são comestíveis, e as folhas, usadas em saladas).

A banana também passou por uma reinvenção criativa. "Ela bem madura, já em ponto de putrefação, serviu para fazer a pasta base para tsukemono (conserva de vegetais), dando a essa comida um sabor adocicado natural próprio da banana", conta Linda.

"Com a farinha, guarnição obrigatória para o consumo de peixe na região amazônica, os imigrantes elaboraram o dango, espécie de bolinho, como substituto do pão. Com os peixes dos rios, fez-se sashimi, kamaboko (massa de peixe) e o feijão verde ou feijão de metro serviu como recheio de makizushi (sushi enrolado)."

Registro da memória

Linda conta que uma de suas motivações para realizar a pesquisa estava no fato de que seus pais e a maioria dos amigos e parentes estavam com idade acima dos 60 anos. "Isso me levou à decisão emergencial de entrevistar mais imigrantes, a fim de que os dados guardados na memória fossem investigados e registrados", explica.

"Além disso, ser descendente de imigrantes - segunda geração (nissei) -, me levou a mergulhar no universo da imigração japonesa no pós-guerra no Amazonas, com o objetivo, dentre outros, de deixar um legado para posteridade escrito em português."

Ela diz ainda que a decisão de escolher os hábitos alimentares como tema da pesquisa repousa no conjunto de riqueza que eles carregam, sobretudo relacionados aos aspectos sociais e culturais.

"Comer envolve características inerentes à complexidade humana, como prazer, sensações, emoções, afetividades, isto é, se encontra impregnado de elementos simbólicos como tradição, rito, costumes, comportamentos que caracterizam a cultura de uma etnia."

Segundo Linda, o que seu trabalho traz de novo é a história da imigração japonesa no Amazonas por meio do olhar interno, ou seja, que tem como fonte primária os próprios imigrantes. "Eles revelaram pormenores, tais como as dificuldades, os desafios, o estranhamento com o novo país, que somente as pessoas que vivenciaram o fenômeno podem relatar", diz a pesquisadora.

Além disso, diz Linda, a temática "hábitos alimentares" faz despertar esse passado que parecia estar esquecido, ativando a memória e evocando uma sequência de fatos vividos. Falar sobre assuntos alimentares fez emergir nas lembranças dos imigrantes fatos dos seus momentos iniciais na Amazônia.

Entre eles, Linda cita a construção das primeiras casas de palha para a moradia, os obstáculos para se deslocar até a cidade de Manaus, as dificuldades para encontrar ingredientes próprios para a culinária japonesa, os estranhamentos relativos à alimentação dos brasileiros da região.

Diversidade da culinária no Brasil

"Deu para perceber na feição de cada entrevistado que as reminiscências do passado, mesmo os momentos difíceis, proporcionavam nostalgia, pois representava um tempo em que tudo era novidade, o espaço, as pessoas, a vida bem diferente ao se comparar com a de sua terra natal", conta a pesquisadora.

Para a orientadora de Linda, professora Leiko Matsubara Morales, do Departamento de Letras Orientais da USP, o trabalho de sua aluna tem o mérito de trazer uma história desconhecida, saindo do eixo São Paulo-Paraná.

"A pesquisa é importante não apenas porque a temática trata da alimentação, mas porque junto com ela traz a história das cidades e de suas peculiaridades, somando à área de Estudos Japoneses.", diz.

Segundo Leiko, o trabalho não apenas resgatou algo que estava submerso, mas atribuiu o devido valor cultural, reconhecendo a culinária daquela região como parte da diversidade dos hábitos alimentares do Brasil.

"A criatividade de que os japoneses lançaram mão nos mostra o quanto eles buscaram uma forma de vencer as adversidades impostas pela natureza, que não é apenas decorrência da diferença física, mas cultural e material", explica.

Leiko diz ainda que, ao levantar os dados, Linda conseguiu salvar várias informações que não se encontram em nenhum livro de imigração, pois a maioria foi escrita por aqueles que vivem nas regiões onde a comunidade nikkei é mais densa, como os estados de São Paulo e do Paraná.

"Apesar de ter ido um contingente razoável de imigrantes, descendentes e até mesmo de executivos japoneses para a Amazônia, devido à riqueza da zona franca de Manaus, há poucos trabalhos dessa natureza."

Os descendentes que preservaram no Brasil uma língua que quase não se fala mais no Japão

Quando a cantora japonesa Megumi Gushi começou a cantar na língua original de Okinawa, a província onde nasceu, no sul do Japão, foi ao Brasil que ela veio para estudar o idioma.

"Ela veio para estudar um pouco a pronúncia, melhorar a dicção. Ela falava que aqui que estava a verdadeira língua okinawana", explica Tério Uehara, presidente da Associação Okinawa de Vila Carrão, em São Paulo, uma das entidades que a recebeu por aqui. Megumi participou de diversos grupos folclóricos e conviveu com imigrantes idosos.

É que no Brasil a língua e a cultura do arquipélago se mantiveram vivas. Muitos dos imigrantes okinawanos conversam até hoje no idioma da região – considerado patrimônio cultural em perigo pela Unesco – e passaram a cultura para seus descendentes.

No Japão de hoje, a maior parte dos habitantes da província fala nihongo, o japonês do resto do país – já que a língua tradicional de Okinawa e seus dialetos foram proibidos durante muitos anos.

Originário de um reino independente (Reino de Ryukyu) e mais aberto ao contato com outros povos do que o Japão medieval, o arquipélago de Okinawa desenvolveu sua própria língua e cultura.

Anexada pelo Japão Imperial no século 19, ficou anos ocupada pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra, sendo reintegrada ao país oriental só em 1972, explica Eiki Shimabukuro, presidente da Associação Okinawa Kenjin do Brasil.

A perseguição praticada pelo Estado e sofrida durante anos pelos habitantes da região fez com que as particularidades da cultura local – incluindo a língua – fossem minguando. Nos últimos anos, no entanto, tem acontecido uma retomada e uma valorização, segundo Tério.

"Houve uma mudança de linha do Japão em relação a Okinawa", explica o historiador da USP Ricardo Sorgon Pires, que fez seu doutorado sobre a comunidade okinawana no Brasil. "O país começou a promover a região pelo turismo, mostrar uma Okinawa mais pop, com música e animes que se passavam na província. Isso se refletiu no Brasil. Muita gente começou a querer entender melhor suas origens."

Raízes espalhadas

Megumi não foi a única a vir ao Brasil para entender melhor o Japão. Diversos pesquisadores do país viajam para cá para estudar a língua e a cultura okinawanas.

"Também recebemos estudantes o tempo todo", diz Eiki, alguns minutos antes de receber duas universitárias.

Recém-chegadas de Okinawa, Mei Nakamura e Momoka Shimabukuro vieram para um intercâmbio no Brasil. Mei, que estuda pedagogia, quer entender como as comunidades de descendentes se organizaram e transmitiram a cultura fora de Okinawa.

Momoka, que estuda administração de empresas, veio por motivos pessoais. "Nasci e cresci em Kin, uma cidade pequena do interior. Meu objetivo é ter contato com um olhar de quem é de fora, para conseguir encontrar minha própria identidade. E talvez encontrar a felicidade nessa identidade, que não encontrei ainda, a partir desse olhar externo", diz ela.

As duas não falam okinawano, mas japonês. A língua tradicional não é ensinada no ensino fundamental nem muito usada no dia a dia por pessoas mais jovens - é possível aprendê-la em cursos universitários ou com professores de línguas.

Mesmo entre os mais velhos que preservam outras tradições, como a culinária e a religião, muitas vezes a língua foi esquecida.

Yoko Gushiken, de 70 anos, que veio para o Brasil com dez, conta que sua irmã que ficou no Japão já não fala mais okinawano. "Fui visitá-la e fomos ao teatro. A peça era em okinawano. Eu entendia tudo, e ela não. Ele me falou: 'como pode você saber melhor que eu'?", conta a professora de Ryukyu Buyo, a dança folclórica tradicional.

"Quando éramos pequenas, se falássemos na escola, eramos castigadas. Mas em casa, escondido, eu falava. Aí vim para o Brasil com meu irmão mais velho e aqui podia falar, então mantive (o conhecimento)", conta ela.

Yoko é um exemplo de como a cultura da província se manteve viva no Brasil. Ela começou a dançar Ryukyu Buyo com 9 anos, ainda em sua terra natal, e continuou a praticar depois de imigrar para o Brasil. Depois de adulta, se formou como professora da dança tradicional e passou a ensinar a arte no Brasil.

"A dança é importante para passar a cultura para os descendentes. Tem que gostar muito, senão não faz. Trabalhar e ainda dar aula, cuidar dos filhos, do marido... Se a família não tem compreensão, você não consegue", afirma.

Sua história é parecida com a de suas colegas, como a da japonesa Kazue Shiroma, de 79 anos, que passou pela Bolívia antes de se estabelecer em São Paulo. Elas participam da competição de Ryukyu Buyo que existe há 36 anos do Brasil.

Diferentemente de Yoko, cujas alunas são todas mais velhas, Kazue tem diversas alunas crianças. Para Tério Uehara, atrair jovens é essencial para não deixar a tradição morrer.

Às vezes o interesse pelas raízes pula uma geração. A neta de imigrantes Dani Aragaki conta que começou a se interessar por sua raízes na adolescência, mas teve dificuldade para recuperar algumas das tradições. "A principal (dificuldade) foi com a religião, porque meus tios tinham jogado fora o butsudan (altar de reverência aos ancestrais) da família quando se tornaram evangélicos", conta.

O historiador Ricardo Sorgon Pires diz que as associações estão preocupadas com essa questão das pessoas se desfazendo dos altares domésticos.

É responsabilidade do filho mais velho cuidar do butsudan, que é muito importante pois reúne as cinzas de antigas orações.

A religião de Okinawa é diferente tanto do budismo quanto do xintoísmo que predominam no resto do Japão, mas mistura elementos de ambas as religiões, explica Shinji Yonamine, especialista em tradições de Okinawa. É baseada no culto aos ancestrais: isso é algo tão importante quando uma pessoa se muda para muito longe que é comum que leve junto os restos mortais da família para serem enterrados na nova localidade.

"A religião é um dos aspectos mais importantes da cultura", diz o historiador. "Também são a dança, a música, a língua e a comida."

A comida é considerada não apenas essencial ao sustenso, mas à saúde. Há até uma expressão típica sobre isso: nuchi gusui, que pode ser traduzida como "alimento é remédio". A culinária é baseada em carne de porco e leguminosas.

Esforço coletivo

Em São Paulo, um dos principais responsáveis por divulgar a música, a dança e a comida da região é o Okinawa Festival, organizado pela comunidade da Vila Carrão. O evento acontece há 15 anos e tem também apresentações de artes marciais – como o karatê, que é originário da província.

A associação do bairro é a maior das 44 associações okinawanas no Brasil – quase o mesmo número de entidades do resto do Japão, embora os imigrantes da província sejam 10% dos japoneses que vieram para o Brasil.

Segundo Ricardo, as associações tiveram um papel essencial para a manutenção das tradições.

Elas foram criadas, inicialmente, para ajudar os imigrantes na adaptação. Segundo o historiador, no início era comum que os imigrantes fossem 'japonisados', ou seja, aconselhados a esconder sua origem. Embora não sofressem uma perseguição do Estado específica por serem de Okinawa, havia o preconceito de outros imigrantes. "Eles eram aconselhados a evitar falar okinawano em público, evitar levar os filhos nas costas, tomar banho em público ou andar descalço", conta.

Mas rapidamente seu papel passou a ser o de preservação das tradições. É nas associações que hoje se ensinam a língua, a dança e como tocar o sanshin, o instrumento tradicional okinawano.

"Okinawanos são muito unidos, e precisaram se unir ainda mais quando foram para um país estrangeiro. Por isso temos tantas associações", diz Tério Uehara. "Em Okinawa se valoriza muito a origem, há uma relação próxima com sua terra. A maioria dos descendentes sabe de qual cidade e qual bairro sua família veio. Tem uma associação para cada região."

 

Fonte: BBC Brasil/Municipios Baianos

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