21/03/2018

Um olhar sobre a saúde mental do negro no Brasil

 

Desconhecida da maioria das pessoas, inclusive dos profissionais de saúde mental, a psicóloga Neusa Santos escreveu a primeira referência sobre a questão racial na psicologia. O livro Tornar-se Negro (Graal, 1983) traz o estudo da autora sobre a vida emocional dos negros. Santos refletiu sobre como a negação da própria cultura e do próprio corpo atinge a subjetividade de pessoas negras.

Psicanalista lacaniana bem sucedida, negra nascida na Bahia, sua obra traz uma importante contribuição ao revelar a experiência coletiva com nuances individuais que marcam a existência negra pós-diáspora forçada do continente africano, pós-período de escravização e, por fim, numa sociedade desenvolvida por meio do racismo.

“Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas expectativas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas”, explicou logo nas primeiras páginas de seu livro. A psicóloga Maria Lucia da Silva, fundadora do Instituto Amma Psique e Negritude, dá pistas sobre o que consiste esse “tornar-se negro” citado por Santos. “Não nascemos negros, nos tornamos a medida que conseguimos fazer uma leitura da nossa trajetória por meio das experiências de discriminação vividas”, afirma.

“O racismo é algo que nos atravessa”, pontua a complementar que a existência do racismo contribui para constituição dos sujeitos negros. “Não há um sujeito negro que não seja atravessado pelo racismo e que de alguma maneira, consciente ou não, vá viver efeitos produzidos pelo racismo”, explica Maria Lucia.

O tornar-se negro tem uma dimensão política importante, segundo ela, quando negros e negras percebem que o lugar que ocupam na sociedade está fortemente ligado ao pertencimento de um grupo e não apenas a questões individuais.

Anos atrás, essa percepção entre o individual e o coletivo fez a diferença no tratamento de Adriana Barbosa, empreendedora e fundadora da Feira Preta, a maior feira afro da América Latina.

“Não há um sujeito negro que não seja atravessado pelo racismo e que, consciente ou não, vá viver efeitos produzidos pelo racismo”

Enquanto cursava Marketing na década de 90, Adriana apresentou dificuldade de se sentir pertencente ao ambiente universitário e tinha um relacionamento frágil com os colegas de classe. “Eu acreditava que tinha problemas por excesso de timidez e relação interpessoal ruim, mas a minha introspecção vinha na verdade da questão racial”, conta ela que era uma das únicas negras de uma universidade privada num bairro de elite da cidade de São Paulo.

Este ano Adriana completa 10 anos de terapia e consegue trabalhar questões trazidas pelas experiências racistas que vive não considerando apenas aspectos individuais, mas como um sujeito pertencente a um grupo étnico discriminado historicamente.

A exemplo do caso de Adriana, Maria Lucia conta que cada vez mais chegam aos consultórios pessoas negras com problemas ligados a aceitação da identidade, autoestima abalada, com dúvidas com relação a suas competências e talentos e que travam batalhas com o lugar de desvalorização em que negros são colocados. “O racismo gera ansiedade, insegurança e angústias profundas”, comenta.

Desde 1995 lidando com o tema de saúde mental e racismo, a psicóloga acredita que não há o reconhecimento da grande parte dos psicólogos de que o racismo produz sofrimento psíquico. Nos últimos cinco anos, no entanto, a pauta racial tem sido constante nas instituições de psicologia graças ao trabalho de psicólogos negros. “Quem vem buscar atendimento junto aos psicólogos do Amma tem um pedido muito explícito que é o querer trabalhar com alguém que possa compreender o lugar de fala das pessoas negras”, conta.

Após passar por diversos profissionais, a fundadora da Feira Preta optou por nos últimos três anos fazer terapia com profissionais negros. “Percebi que a terapia com os outros não dava conta das minhas subjetividades enquanto mulher negra. Houve até uma psicóloga branca que entrava mais na questão racial, mas via que ela não tinha bagagem para me fazer devolutivas nesse sentido”, lembra.

“Percebi que a terapia com os outros não dava conta das minhas subjetividades enquanto mulher negra”

Por realizar um grande evento com viés de afirmação da negritude no mundo corporativo, Adriana enfrentou diversas vezes o racismo institucional e só por meio da terapia começou a entender que as rejeições sofridas pelo projeto Feira Preta tinham essa carga histórica e não eram originadas por ela enquanto indivíduo. “Foi com profissionais negros que tive a dimensão do quanto os processos de racismo estrutural e institucional se misturavam com os meus dilemas e até interferiam no meu comportamento”, explica.

Uma das ações promovidas no âmbito de atuação do Amma é justamente auxiliar na formação de psicólogos brancos e negros para que a escuta com relação à questão racial seja afinada e não relativizada como é comum ainda hoje.

De acordo com Maria Lúcia, há um largo campo de intervenção política na formação e no campo da clínica que precisa ser feita para que dimensão histórica do racismo seja considerada. “É preciso pensar que a perspectiva da cura para quem sofre com os efeitos do racismo é psíquica e política e um atendimento clínico para essas pessoas só terá eficácia se levar esses pontos em consideração”, reflete.

Pensando nessa intervenção do ponto de vista do atendimento clínico para pessoas negras, em 2016, as psicoterapeutas Laura Augusta Almeida e Tainã Vieira criam em Salvador/BA a Rede Dandaras, um espaço de promoção de saúde para mulheres negras. “Percebemos que as demandas das mulheres negras não estavam contempladas na fragmentação de raça e gênero proposta pelos atendimentos”, conta Laura Augusta.

Ainda em fase de coleta de dados, o mapeamento já revelou a existência de mais de 500 profissionais de saúde negras que trabalham com a promoção da saúde mental considerando os efeitos nocivos do racismo. “O intuito é conectar mulheres negras com profissionais negras que reconheçam a necessidade de haver  interseccionalidade na sua atuação” , afirma Laura, que também coordena o Grupo de Trabalho de Psicologia e Relações Raciais do Conselho Regional de Psicologia da Bahia. Para ela, não ter marcadores de classe, raça e etnia impossibilita a oferta de um atendimento de qualidade.

“Percebemos que as demandas das mulheres negras não estavam contempladas na fragmentação de raça e gênero proposta pelos atendimentos”

De acordo com Maria Lucia, do Amma, o exercício de uma Psicologia que leve em consideração essa opressão social seria benéfico para toda a sociedade já que o racismo produz efeitos para todos. Assim, não seria possível falar em racismo sem considerar a herança da escravidão não só para negros, mas para pessoas brancas. “A diferença é que para os brancos o racismo cria um sistema de privilégios e para negros de opressão”, concluiu.

Enquanto o berço europeu das teorias de psicologia não concebe a opressão racial como causadora do sofrimento psíquico, o racismo segue provando sua letalidade que pode ser lenta e silenciosa como os inúmeros casos de depressão até devastadora e brutal como os casos de suicídio.

O livro de Neusa Santos citado no inicio deste texto voltado a discutir essa psicologia possível está disponível ao público desde de 1983 e, mesmo assim, continua sendo literatura desconhecida para muitos profissionais da área. Coincidência ou não, a trágica história de sua autora, que com cerca de 60 anos suicidou-se em 2008 sem jamais ter dado sinais de depressão segundo relatos de amigos, é uma alusão triste à perversidade perpetuada pelo silêncio em torno dos efeitos do racismo para a psique humana.

Segundo a OMS, a insônia já afeta 40% dos brasileiros. Por Priscila Carvalho

Dormir uma noite inteira e por pelo menos oito horas diárias tornou-se uma tarefa quase impossível para grande parte dos brasileiros. A rotina agitada, o acesso permanente aos celulares e redes sociais e o estresse diário são fatores que estão piorando a qualidade do sono e ocasionando cada vez mais insônia. O número é alarmante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 40% da população sofre com o problema.

O distúrbio ocorre com mais frequência em mulheres e pode piorar após a menopausa. Além disso, as mudanças no comportamento da sociedade estão acontecendo cada vez mais cedo, não há rotina na hora de ir para a cama e trocar o dia pela noite está virando um hábito. “Há muitos estímulos. Contas a pagar, compromissos de trabalho. As pessoas ficam em alerta o tempo todo”, explica a médica Dalva Poyares, especialista em tratamentos de distúrbios do sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O problema é que, mesmo assim, muita gente protela a busca de ajuda. A demora é um dos principais fatores que favorecem o uso excessivo de remédios para pegar no sono. Mais de 11 milhões de brasileiros, o equivalente a 7,6% da população, usam medicamentos para dormir.

Foi o caso da coordenadora administrativa Keitch Gonçalves, 41 anos. Ela recorria a relaxantes musculares (um de seus efeitos colaterais é dar sono) para tentar ter algumas noites de descanso. No dia seguinte, os efeitos: dor de cabeça, irritação, cansaço. Durante uma semana, ela chegou a dormir apenas uma hora por noite. “Tinha medo de ir para cama. Olhava e ia ficando nervosa”, diz.

Há um mês, Keitch procurou o Instituto do Sono da Unifesp. Ela já voltou a dormir sete horas todas noites. Seu tratamento é baseado em terapia cognitivo-comportamental, na qual o indivíduo é estimulado a mudar comportamentos. No caso da insônia, o objetivo é eliminar rotinas como assistir TV ou ficar no celular antes de dormir e diminuir o uso de cafeína ao longo do dia, entre outras.

Em alguns casos, como o de Keitch, indica-se ainda o uso da melatonina (hormônio que regula o ciclo circadiano e que tem por finalidade sinalizar ao cérebro que é necessário diminuir a atividade física e mental). Nesse campo, a novidade é a autorização, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, da produção da ramelteona. A medicação estimula o sistema nervoso central a produzir mais melatonina. O remédio, já usado nos Estados Unidos e na Europa, tem ação rápida. “Ele é muito potente”, afirma a médica Andrea Bacelar, presidente da Associação Brasileira do Sono. Espera-se que a droga esteja disponível até o fim do ano.

Polícia italiana desmantela seita macrobiótica que escravizava fiéis

A Polícia da Itália diz ter desmantelado uma "seita psicótica", que escravizava seus seguidores, forçando-os a aderir a uma rigorosa dieta macrobiótica e a se isolar do mundo exterior. Cinco pessoas são investigadas por diversos crimes envolvendo a seita, como maus-tratos e evasão de impostos.

Entre os suspeitos, está o empresário e fundador do grupo, o magnata Mario Pianesi. Ele é acusado de manipular seguidores da dieta que criou. Pianesi teria dito a eles que a "Ma-Pi", nome dado ao regime alimentar rigoroso que ele criou, proporcionaria curas milagrosas.

A investigação começou em 2013, depois de uma jovem deixar a seita e denunciar seu idealizador à polícia. Foi descoberto que, além de ter que pagar pela dieta e fazer doações, os membros eram coagidos a trabalhar longas horas sem receber praticamente nenhum pagamento.

Pianesi, um famoso empresário do ramo da macrobiótica na Itália, é conhecido por fazer longos discursos defendendo a doutrina de sua dieta. A Polícia diz que ele realizava lavagem cerebral em seus seguidores.

Uma mulher chegou a pesar apenas 35 kg como resultado da adesão ao seu regime rígido, segundo a imprensa local.

Investigadores disseram que líderes da seita manipularam pessoas com problemas de saúde mental, persuadindo-as a se afastarem da medicina tradicional. As alegações da acusação são de que a seita era uma organização criminosa com o objetivo de conduzir pessoas à escravidão. O acusado não respondeu publicamente.

O que é a dieta macrobiótica?

Desenvolvida na década de 1920 pelo filósofo japonês George Ohsawa, a dieta estabelece a redução do consumo de produtos de origem animal e preconiza o consumo de alimentos orgânicos, cultivados localmente e sazonais. Ohsawa baseou-se em conceitos do budismo para formulá-la.

Alguns adeptos só comem grãos integrais, derivados do feijão, além de frutas e vegetais frescos. Outros têm uma abordagem mais relaxada e comem pequenas quantidades de carne, peixe e oleaginosas.

A dieta macrobiótica também inclui recomendações de estilo de vida, como apenas comer quando estiver com fome e beber só quando tiver sede, além de evitar o preparo dos alimentos em fornos de microondas e fogões elétricos. Bebidas aromatizadas, com cafeína ou alcoólicas devem ser evitadas.

Partidários da dieta defendem que ela pode ajudar a tratar ou curar câncer. No entanto, a Cancer Research UK, ONG britânica dedicada ao combate da doença, afirma não haver evidências disso.

 

 

Fonte: Por Juliana Gonçalves, na Revista Trip/ Medicina & Bem – Estar/BBC Brasil/Municipios Baianos

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