03/04/2018

Escolas da Bahia se adaptam a crianças com autismo

 

Uma em cada 68 crianças nasce com autismo no Brasil, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Estima-se que 220 mil baianos tenham nascido com o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). A ONU classifica o distúrbio como uma questão de saúde pública mundial. São milhares de pessoas com especificidades diferentes que precisam de acesso a serviços básicos, cenário que atrai atenção especial neste 2 de abril, quando se comemora o Dia Mundial de Conscientização do Autismo.

"Atualmente utilizamos a sigla TEA, que se refere a um grupo de transtornos caracterizados por prejuízos na interação social e de comunicação, associados a comportamentos repetitivos e interesses restritos", esclarece a terapeuta ocupacional Dayane Sanches de Castro, que integra o Grupo São Cristóvão Saúde. .

O processo de alfabetização de crianças com TEA é bastante variado porque o transtorno se manifesta de formas diferentes. A educação precisa da adaptação de recursos, além de um plano de desenvolvimento personalizado..

"Quando temos cadeirante na escola, precisamos de um processo de acessibilidade; quando temos um deficiente visual, fazemos uso do braile; quando temos um deficiente auditivo, usamos a Libras; e quando temos uma pessoa com autismo precisamos adaptar a realidade dos recursos para que ela possa compreender o universo que a circunda", argumenta Rita Valéria Brasil, pedagoga, orientadora educacional e presidente da Associação de Amigos dos Autistas da Bahia (AMA-BA).

Maria Cândida Muzzio, diretora pedagógica do ensino fundamental do Colégio Miró, comenta a necessidade do trabalho diferenciado. "Precisamos entender qual é a condição da criança de fazer tarefas, como é a interação dela com os iguais, com os adultos e com o espaço. Depois desenvolvemos uma rotina específica para essa criança. Temos um programa diferente para cada uma", conta.

A escola defende que é importante que a criança com TEA possa ter contato com a vida escolar "típica". O mesmo acontece na Escola Girassol, que acolhe jovens com diversas necessidades especiais, entre elas, crianças com o espectro autista, paralisia cerebral, síndrome de down e cadeirantes.

"Elas são colocadas na mesma sala porque, além do processo cognitivo da aprendizagem, elas precisam ter um convívio social com os seus iguais. Nós passamos algumas atividades diferentes dentro das necessidades de cada aluno 'especial', e os outros colegas entendem e ajudam. Observamos que a convivência para eles é natural", explica Rosa Silvany, diretora da escola.

A terapeuta ocupacional Dayane alerta sobre a necessidade de promover melhoria na qualidade de vida, ampliando a perspectiva da autonomia, independência, linguagem, socialização e capacidades cognitivas.

Adriana Nogueira é jornalista, baiana e mãe de um adolescente que nasceu dentro do espectro autista. "A alfabetização foi o ano mais difícil. A escola estava disposta a construir junto, mas naquela época os professores não tinham muito conhecimento sobre o tema. Tive que arregaçar as mangas e buscar modelos que funcionavam para ele. O fato de trazer assuntos relacionados ao interesse dele facilitou muito", relata.

Para a jornalista, quanto mais experiências a criança tiver, melhor, desde que respeite a individualidade. "É importante que as crianças sejam valorizadas naquilo que elas podem dar. Se tiver uma prova muito além da compreensão, ela ficará desestimulada", alega.

Brasil tem 488 alunos com autismo nas universidades

Entre os mais de 8 milhões de alunos matriculados em universidades brasileiras, 488 têm o transtorno do espectro autista (TEA). Desses, 212 estão em instituições de ensino públicas e 276, em privadas. Um dos representantes do grupo é Junior do Nascimento, de 25 anos, que foi aprovado em ciência da computação em 2018.

No Dia da Conscientização do Autismo, o jovem conta como é ter dificuldades de socialização e, ainda assim, conseguir chegar ao ensino superior – em salas de aula cheias e barulhentas, tão incômodas a alguém com TEA. Ele relata que a terapia, os professores da escola e a família fizeram com que não enxergasse o transtorno como um impedimento para ter uma profissão.

Autismo: um mundo de extremos

A nomenclatura mais moderna, de acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, é mesmo a sigla “TEA”. “É um imenso guarda-chuva que inclui pessoas em diferentes condições. Em um extremo, há pacientes com desenvolvimento avançado, mas com dificuldades de interação social, e em outro, aqueles que podem não desenvolver a fala, por exemplo”, explica o professor Celso Goyos, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

•        Dos alunos de universidades brasileiras com TEA, 255 deles têm sintomas do chamado “autismo clássico”, que costuma ser diagnosticado por volta dos 3 anos de idade. Entre os sinais mais comuns desse quadro, podem estar:

1.       dificuldade em interação social, como não olhar para o interlocutor ou manter uma distância grande dele;

2.       não compartilhar interesses e experiências com os outros;

3.       não reagir a emoções, como por exemplo a criança que vê que a mãe se machucou, mas não faz carícias ou dá beijo para consolá-la;

4.       fazer movimentos repetitivos;

5.       não desenvolver a linguagem oral ou apenas repetir frases ouvidas;

6.       necessitar de uma rotina muito inflexível, sem mudanças em caminhos para a escola ou ordem de compromissos na semana.

No outro extremo, chamado Síndrome de Asperger, estão 233 alunos – dentre eles, Junior. Nesses casos, o desenvolvimento da linguagem pode até ser equivalente ao da média das crianças. Mas há sinais como:

1.       desinteresse em compartilhar interesses;

2.       dificuldade em socialização;

3.       falta de empatia ou de ter reações em grupo;

4.       interesse por assuntos muito específicos;

5.       comportamento repetitivo;

6.       sensibilidade alta ou baixa nos 5 sentidos (como irritação em ambientes barulhentos).

O professor da Ufscar explica que nem todos os alunos com TEA têm condições de chegar ao ensino superior. Mas que é possível dirigir esforços para isso. “O espectro é muito amplo. Mesmo sabendo que um paciente talvez não consiga ir à universidade, precisamos dar a condição de ele atingir seu desempenho máximo”, explica.

“Sabemos que há tratamentos eficazes e terapias precoces. Tudo deve começar assim que os primeiros sintomas forem percebidos. Se a criança for submetida a uma intervenção de qualidade, com profissionais qualificados, pode ter bons resultados”, explica. Ele complementa dizendo que, além da terapia, é importante também que a escola e família estejam presentes na busca pela inclusão.

•        ‘Eu vejo as pessoas como computadores. Só assim consigo entendê-las’

Junior conta que tem dificuldades em interação social. “Quando estou com uma pessoa apenas, consigo colocar minhas ideias em ordem. Mas em grupo, tenho mais problemas”, diz. “Com anos de terapia, consigo conversar olhando nos olhos de alguém. Eu ficava observando meus colegas na escola para entender como eles funcionavam. Tento decifrar os gestos dos seres humanos de forma técnica, como se a gente fosse um algoritmo”, conclui.

O jovem relata que nunca conseguiu fazer amigos – apenas laços de amizade provisórios, de acordo com o ciclo social que está frequentando. “Eu achava que era frieza minha. Mas vejo hoje que não sei ler a linguagem corporal das pessoas e que isso não é um problema. Se eu fosse ator, tudo bem, me atrapalharia. Mas não vou ficar focando no que não é da minha natureza. Vou me dedicar ao que sou bom”, diz.

E ele é bom em informática, em programação, em cálculos. Estudou em escola pública no interior do Paraná e depois, morando no Rio de Janeiro, foi aprovado em arquitetura na PUC-Rio e na Universidade Santa Úrsula.

Ainda perseguindo o sonho de atuar na área da informática, Junior pesquisou sobre o mercado de trabalho e descobriu que não haveria profissionais capacitados para atender à demanda. “Decidi que ciência da computação tinha tudo a ver comigo. Entrei no cursinho, mas quase não fui às aulas. Paguei o curso para o ter material. Aí preferia fazer aulas particulares em casa. As salas lotadas e barulhentas me incomodavam”, lembra.

‘Não me acostumei ainda’

Junior foi aprovado, no início de 2018, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, instituição de ensino privada em São Paulo. Ele preferiu não declarar, no vestibular, que tem TEA. “Não fico comentando com as pessoas porque não tenho nenhum prejuízo cognitivo. Mas já conversei com um professor porque tenho dificuldade de fazer trabalho em grupo. Prefiro fazer sozinho”, conta.

Ele conta que está animado com o curso, apesar dos desafios. “Gosto muito de tecnologia e computação é o futuro. Posso trabalhar em qualquer lugar se souber programar. E é algo totalmente lógico. Tenho dificuldade de entender o que é mais abstrato”, diz.

Um passo de cada vez’

Ele ainda não conseguiu estabelecer uma rotina na universidade – o espaço é amplo e ele quer escolher sempre o mesmo portão por onde entrar.

Quando chega em casa, onde mora sozinho, pode seguir seu ritual. Almoça – em geral, o mesmo prato durante um mês. À tarde, Junior trabalha como analista de inteligência de mercado na empresa do pai. Depois, vai à academia e à terapia. “À noite, medito. Aprendi na internet", diz.

Nos intervalos, o jovem estuda assuntos específicos com profundidade – uma das características da Síndrome de Asperger. “Por um mês, leio tudo o que é possível sobre o tema do momento. Já fiz isso sobre a Bíblia, sobre os egípcios. Agora é sobre cosmologia”, conta.

Ele sonha em se formar e abrir uma empresa de educação que use a tecnologia como pilar do ensino. “Mas é um passo de cada vez.”

‘Conselhos? Não sou péssimo’

Junior diz que é péssimo em dar conselhos. Mas se contradiz ao saber exatamente o que dizer a famílias de pessoas com autismo. “Pesquisem o que é o transtorno e vejam a pessoa como alguém que pode vencer obstáculos. Precisa ver o outro lado da moeda. Não dá para enxergar o autismo e esquecer que tem um ser humano ali”, diz. “Veja o quanto ela pode aprender. Só ver defeitos dificulta muito a evolução.”

27% dos jovens entre 15 e 17 anos estão fora das escolas no Brasil

No começo, as faltas são esporádicas. Depois, passam a ser semanais e por fim, ir à escola passa a não ser mais parte da rotina. Essa é a realidade de muitos alunos, o que acaba tornando a evasão escolar uma realidade muito comum nas escolas brasileiras.

Ao lado dos baixos níveis de aprendizagem, a evasão escolar constitui uma das maiores dificuldades do Ensino Médio. E implica em prejuízo econômico de R$ 35 bilhões por ano aos cofres públicos. Segundo uma pesquisa do Instituto Ayrton Senna e pelo Instituto de Ensino e pesquisa (Insper), quando o aluno abandona a escola, o valor do custo sobe, porque o jovem fica mais suscetível a problemas com violência e saúde quando está fora do ambiente escolar.

Ainda segundo a pesquisa, 2,8 milhões de jovens – com idades entre 15 e 17 anos - não se matricularam no início do ano letivo de 2018. Esse dado corresponde a 27% de possíveis alunos, entre os 10 milhões de jovens nessa faixa etária que deveriam estar frequentando a escola. O estudo também identifica algumas razões para o desengajamento dos estudantes. Entre os fatores estão: falta de interesse, baixa qualidade do ensino, clima do ambiente escolar e a baixa resiliência emocional.

Com uma didática adequada e com a parceria entre família e escola, a evasão escolar pode diminuir. “A estratégia que nós temos para diminuir essa saída é estar cada vez mais perto da família porque, na maioria das vezes, problemas externos podem contribuir para o abandono”, explica Sheila Melo Araújo, coordenadora da Escola Iupe, umas das 18 mil instituições de ensino parceiras do Educa Mais Brasil.

Para reverter o quadro, o estudo propõe a criação de políticas públicas para diminuir o desengajamento como a garantia de acesso às escolas, principalmente para aqueles que vivem em áreas rurais ou que têm alguma deficiência, um sistema de aconselhamento, flexibilização dos horários das aulas e do modelo de avaliação.

Bolsas de estudo como alternativa

Para quem deseja oferecer aos filhos uma educação de melhor qualidade ou quer mantê-los em escolas particulares mas não pode pagar mensalidade integral, o Educa Mais Brasil oferece bolsas de bolsas de estudo para Educação Básica, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Para mais informações, você pode acessar o site https://www.educamaisbrasil.com.br/correio e saber se as instituições de seu interesse estão entre as mais de 18 mil parceiras em todo o Brasil. A inscrição é gratuita.

 

Fonte: A Tarde/BBC Brasil/Municipios Baianos

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