10/04/2018

Descoberto possível alvo terapêutico contra o câncer mais mortal

 

Não existe atualmente praticamente nenhuma alternativa terapêutica para lidar com um diagnóstico de câncer de pâncreas. O tumor é fugidio, sabe camuflar os sintomas até que a doença alcance um estado muito avançado e, além disso, cria ao seu redor uma espécie de muro que impede a ação do sistema imunológico e dos medicamentos quimioterápicos. Entretanto, pesquisadores do Instituto Hospital do Mar de Pesquisas Médicas (IMIM, na sigla em catalão), de Barcelona, encontraram agora um facho de luz no fim do túnel, um possível fio da meada que permita melhorar o prognóstico e a evolução desse tipo de tumor. Os cientistas provaram com sucesso em ratos que, ao inibir a proteína Galectina-1 (Gal1), relacionada com a proliferação das células tumorais, reduz-se a agressividade e se freia o crescimento desse câncer. Esses estudos pré-clínicos ainda precisam ser reproduzidos em um ensaio com pacientes humanos, mas em princípio essa descoberta abre caminho para um possível alvo terapêutico que melhore a sobrevivência.

O tipo de câncer de pâncreas mais comum, o adenocarcinoma ductal pancreático (85% dos casos detectados), tem um dos piores prognósticos: a sobrevivência após cinco anos mal chega a 5%. “É muito maligno. Detecta-se em fases muito avançadas, quando já não se pode fazer cirurgia para extirpar o tumor. A sintomatologia inespecífica e a localização do órgão dificultam o diagnóstico precoce. Não há métodos de varredura e, além disso, respondem muito mal aos tratamentos, porque tem uma barreira física que impede os fármacos de chegarem ao tumor”, enumera a médica Pilar Navarro, pesquisadora do IMIM e autora do estudo.

A “barreira física” a que Navarro se refere se chama estroma e funciona como uma espécie de muralha que evita que as células tumorais se exponham aos fármacos e ao próprio sistema imunológico. Os artífices desse muro são os fibroblastos, um tipo de células que secreta proteínas e outras substâncias que favorecem a proliferação do câncer. Nesse ecossistema tão peculiar, os pesquisadores voltaram seu foco para uma dessas proteínas que geram os fibroblastos: a Galectina-1, moléculas que participam ativamente na tarefa de despistar o sistema imunológico. “Já tínhamos observado que no pâncreas saudável essa proteína não se expressa, e que no câncer está expressa de forma elevada, então sabíamos que tinha a ver com o crescimento do tumor: essa proteína promove a vascularização do tumor [novos vasos sanguíneos que permitem ao câncer se alimentar e disseminar] e que as metástases cresçam mais”, observa Navarro.

Sobre essas premissas, os pesquisadores se propuseram eliminar essa proteína para ver como o tumor atuava. “No pâncreas saudável já não há expressão dessa proteína na idade adulta. Suas funções são as de bloquear reações autoimunes, então se você a bloqueia não tem por que acontecer nada, porque sua função também é feita por outras proteínas”, explica a médica. Assim, os cientistas testaram a resposta das células tumorais de várias maneiras: primeiro, em ratos tratados geneticamente para que tivessem a Gal-1 inibida; depois com células de pacientes com câncer in vitro no laboratório e in vivo em ratos; e, finalmente, através de estudos moleculares genéticos em grande escala. O resultado foi claro: “Validamos que inibir a proteína Gal-1 tem um efeito multidireccional porque desacelera o crescimento do tumor, freia as metástases e recupera a resposta imunológica”, resume a pesquisadora, que publicou a descoberta na revista científica PNAS.

Suas conclusões estabelecem as bases do que poderia ser uma via de tratamento no futuro. Os pesquisadores se mostram otimistas, mas também cautelosos: trata-se de estudos pré-clínicos, e ainda falta um longo caminho até que isto se traduza de forma efetiva em pacientes reais. As pesquisas continuam seu curso, e o próximo passo é inibir a proteína farmacologicamente – pois nesse estudo foi bloqueada geneticamente. “Já geramos anticorpos para a Gal1 e também há outros inibidores químicos que poderiam funcionar. Primeiro vamos tratar o rato com esses anticorpos, e depois, se tudo correr bem, vamos transferir isso para ensaios clínicos. Sendo otimistas, serão necessários 10 anos para vê-lo em pacientes”, diz a pesquisadora do IMIM.

A pesquisa contou com a colaboração do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas da Espanha (CNIO) e de grupos de pesquisa dos Estados Unidos e Argentina. Foi financiada também através de bolsas da Associação Espanhola da Pancreatologia e da Associação Câncer de Pâncreas.

Encontrado o ‘grid de largada’ do câncer mais letal

Se a vida é um passeio pela selva, o câncer de pâncreas é um tigre. É extremamente sigiloso e, quando a pessoa nota sua presença, geralmente já é tarde demais. Enquanto a sobrevivência ao câncer aumenta em todo o mundo, o golpe contra o pâncreas costuma ser letal. Menos de 5% dos pacientes sobrevivem ao tumor pancreático mais habitual, o adenocarcinoma ductal.

Paco Real, nascido em Barcelona em 1957, é um caçador de tigres. Sua equipe do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas (CNIO) de Madri procura sinais que alertem para a chegada desse inimigo invisível. “Cerca de 80% dos pacientes são diagnosticados quando a enfermidade já está muito avançada”, explica. “Portanto, só 20% podem ser tratados com cirurgia. E, por outro lado, é um tumor que responde insuficientemente ao tratamento”, lamenta o pesquisador.

Uma equipe internacional liderada por Real acaba de descobrir em ratos o “grid de largada” do câncer pancreático: um estado pré-inflamatório desse órgão com forma de pera alongada, localizado entre o estômago e a coluna vertebral. A descoberta, publicada nesta quinta-feira na revista Nature, poderia servir num futuro ainda longínquo para “identificar pessoas que têm um maior risco de desenvolver um câncer de pâncreas, para que sejam diagnosticadas antes”, segundo Real.

“A inflamação é uma faca de dois gumes. É um mecanismo protetor que foi selecionado durante a evolução para responder a agressões externas. Mas, quando a inflamação persiste, tem um efeito negativo sobre a saúde e pode favorecer o desenvolvimento de tumores”, aponta o oncologista.

Seu novo estudo revela que a inflamação não é uma resposta defensiva que começa do zero diante de um ataque, e sim uma ferramenta que está sempre em stand-by nos tecidos saudáveis do pâncreas, para o caso de precisar agir. Para Real, trata-se de “uma mudança de paradigma”. O interruptor da inflamação é um gene, o NR5A2, envolvido na atividade normal do pâncreas, mas que ao mesmo tempo reprime os fenômenos inflamatórios.

“É um estado de pré-inflamação genética”, descreve Isidoro Cobo (Cádiz, 1987), pesquisador do CNIO e primeiro signatário do estudo. “O patologista pode ver um pâncreas normal, quando não é normal”, alerta. Em ratos, quando há níveis normais da proteína NR5A2, codificada pelo gene, não há inflamação. Mas, quando os níveis de NR5A2 caem, os programas inflamatórios se ativam e aumenta o risco de desenvolver câncer de pâncreas. Além disso, observou-se que as pessoas com determinadas variantes deste gene são mais propensas a sofrer um tumor pancreático.

O patologista Michael Karin, da Universidade de Califórnia em San Diego (EUA), aplaude o novo estudo, “importante e inovador”, do qual não participou. Entretanto, salienta que o trabalho ainda “não nos diz como proteger ou tratar o câncer pancreático”, embora confirme que o tumor “é muito dependente de lesões crônicas”.

A oncologista italiana Paola Martinelli, pesquisadora da Universidade Médica de Viena e coautora do trabalho, é mais otimista: “Uma vez que sejam identificados pacientes com a mutação do gene NR5A2, talvez possam receber um tratamento com anti-inflamatórios para diminuir o risco de câncer. Agora se pode pensar em uma terapia preventiva”.

 

Fonte: El País/Municipios Baianos

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