10/04/2018

Ansiedade em excesso é uma doença; saiba os sintomas

 

Você sofre por antecipação? Acorda cansado? Sente um friozinho na barriga na véspera de eventos importantes? Tem dores de cabeça ou musculares? Se respondeu sim a alguma dessas questões é possível que sofra da Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Considerada pelos especialistas como o novo mal do século - suplantando a depressão - a ansiedade contínua acomete crianças e adultos. No Brasil, mais de 2 milhões de pessoas sofrem do distúrbio de saúde mental por ano.

Preocupar-se com o futuro não é uma coisa ruim - afinal, isso faz parte do nosso sistema de defesa. Fato é que todo mundo é ansioso em maior em menor ou maior grau. O problema é quando os sintomas aparecem sem motivo aparente e são constantes.

  • “A principal forma de saber se o seu nível de ansiedade é alto é se questionando quanto aos sinais que você apresenta. Analise se algum sintoma físico ou psicológico está diminuindo seu rendimento e atrapalhando sua vida de fluir com naturalidade”, explica a psicóloga Ana Lúcia Maranhão, que tem especialização em traumas.

O diagnóstico só pode ser feito por um especialista – clínico geral, psicólogo ou psiquiatra - mas saiba que medo, inquietação, taquicardia, falta de ar e aumento da pressão são alguns sinais de ansiedade patológica. “É quando o cérebro faz contato com uma imagem, não distingue se é real ou imaginação e começa a reagir à situação”, completa Ana Lúcia. Segundo ela, isso piora no caso dos jovens, pois além das pressões do mundo contemporâneo, boa parte está sentada na frente de algum aparelho eletrônico, enquanto o organismo está se preparando para lutar contra o perigo.

Além disso, o mundo globalizado e a sociedade moderna – consumista, rápida e estressante – alteram o ritmo das vidas gerando consequências sérias para a saúde emocional. “É difícil encontrar alguém que tenha saúde psíquica plena. Entre as causas da SPA estão o excesso de informação e de atividades, preocupação, cobrança, uso de celulares e de computadores. Adoecemos coletivamente”, garante o psiquiatra Augusto Cury, autor dos best-sellers Ansiedade - Como Enfrentar o Mal do Século e Ansiedade 2 - Autocontrole - Como Controlar o Estresse e Manter o Equilíbrio.

Para o médico, pensar demais é uma bomba contra a saúde psíquica: “Grande parte das pessoas de quase todas as idades é acometida em diferentes níveis por ela. Desacelerar nossos pensamentos e aprender a gerir nossa mente são tarefas fundamentais”. Entre os sintomas da síndrome, ele cita a mente agitada, insatisfação, cansaço físico, sofrimento por antecipação, flutuação emocional, impaciência e tédio. Também podem ser sinais a dificuldade de suportar frustrações, dores de cabeça e musculares e déficits de concentração, memória e insônia. Sintomas psicossomáticos, como queda de cabelo, taquicardia, aumento da pressão arterial, também se manifestam. “Ficamos angustiados por circunstâncias que ainda não aconteceram, mas que já estão desenhados em nossa mente. Seu Eu sabota sua tranquilidade”, resume Cury em seu primeiro livro.

Sintomas

O médico divide os portadores da SPA em seis níveis, variando de acordo com os sintomas e sequelas. Se a ansiedade for alta, as consequências podem ser grandes:

  • “Se não aprenderem técnicas para gerenciar seus pensamentos e proteger sua emoção, poderão desacelerar sua maturidade, se tornar irritadiços e sofrer de insatisfação crônica, além de ter o rendimento intelectual comprometido”.

Foi quando apresentou alguns desses sinais que o escritor baiano Matheus Rocha, 26 anos, percebeu que a ansiedade o prejudicava. “Tinha insônia, estava muito triste e sentia palpitações no coração. Não queria fazer nada e procurava justificativas para a vida e não encontrava. Isso tudo casou com o término de um relacionamento”, conta ele, que lançou no mês passado o livro Pressa de Ser Feliz. A obra reúne mais de 50 crônicas e ilustrações com frases inspiradoras que ajudam ansiosos a enfrentar os obstáculos que o nervosismo impõe.

“Achei que conseguiria lidar com tudo sozinho, mas não. Depois de conversar comigo mesmo, decidi que precisava da ajuda de um profissional. Foi assim que procurei a terapia e comecei a fazer tratamento”, lembra. Até hoje, as sessões são suas maiores aliadas: “Menosprezam nosso nervosismo, dizem que é normal e que vai passar. É difícil procurar ajuda porque não estamos preparados pra ouvir o que a gente precisa. Tratar ansiedade é um processo de autoconhecimento”.

Como no caso de Matheus, o tratamento para a maioria das pessoas inclui terapia e, em casos específicos, medicamentos receitados por médicos, incluindo antidepressivos. Para além disso, existem cuidados que ajudam a amenizar a ansiedade: evitar o consumo de álcool e de cafeína; manter uma alimentação saudável; praticar exercícios físicos ou atividades que reduzem o estresse, como ioga e exercícios aeróbicos; e fazer técnicas de relaxamento, como respiração profunda e meditação.

Apesar de ainda não ter procurado por especialistas, há pelo menos cinco anos, a produtora cultural Carla Galrão, 26, percebeu que o nervosismo a impedia de fazer muitas coisas. “Sempre fui ansiosa e achava que era normal, que todo mundo tinha isso. Sentia vontade de vomitar toda vez que alguém falava que queria falar algo comigo, meu coração batia rápido... Foi quando uma pessoa me disse que precisava me contar algo e fiquei muito nervosa. Liguei 27 vezes para ela e vi que isso não me fazia bem”, lembra.

Suas crises de ansiedade – que surgem geralmente quando ela tem que tomar alguma decisão ou quando espera respostas decisivas - já chegaram a durar uma semana e evoluir a ponto de serem similares a ataques de pânico.

  • “Não consigo dormir, meu cabelo começa a cair. Às vezes, minha cabeça enche de casca e tiro todas as peles próximas até sangrar. Às vezes, como muito e outras vezes não quero comer nada. Começo a imaginar coisas e crio um monstro na minha própria cabeça. Penso que vai dar tudo errado e que não tenho nem que tentar certas coisas. Eu mesma me negligencio e coloco outras prioridades na frente”, conta ela, que também é social media e fotógrafa.

Com o tempo, Carla desenvolveu estratégias que ajudam a controlar os pensamentos ruins: “Primeiro tento me acalmar. Depois, leio livros e textos na internet sobre empoderamento, autoajuda... A partir daí, externo o que estou sentindo porque sei que é bom para mim e para outras pessoas verem que não estão sozinhas”. Uma das formas de expressar o turbilhão de sentimentos em uma crise foi através de um ensaio fotográfico com autorretratos “Estava me sentindo vazia por dentro, como se não fosse ninguém. O ensaio se chama Chuva porque é uma coisa que vem e passa”.

Redes sociais e web aumentam ansiedade

Após uma crise de ansiedade, ao sair de um emprego, a produtora Carla Galrão resolveu compartilhar seus sentimentos com os seguidores no seu perfil do Instagram @gordaroupa - onde dá dicas de garimpos para mulheres gordas. Por lá, uma surpresa: muitos responderam dizendo que as vezes sentiam o mesmo diante de tantas pressões da sociedade. “Falar sobre saúde mental é muito complicado, ainda mais nas internet, onde a gente fica mais nua. Sumi das redes por 10 dias e, quando voltei, resolvi falar da minha crise de ansiedade e do que passou pela minha cabeça nesses dias. Muitas pessoas responderam e acabei tendo conversas profundas e sinceras, o que humanizou meu contato com eles”, revela.

Se, por um lado, as redes sociais são uma boa alternativa para compartilhar seus sentimentos e para gerar identificação com pessoas similares e ajudar a lidar com a ansiedade, também são determinantes para que a ansiedade entre jovens aumente. “Alguns influenciadores mostram sua vida linda e perfeita. Mas, nas redes sociais, as pessoas exibem uma vida editada. Isso faz a gente se sentir mal. Nas minhas redes, faço questão de mostrar meus dias ruins também, porque a vida é assim”, revela Carla.

Além dos filtros, o escritor Matheus Rocha, autor do blog Neologismo e que soma mais de 800 mil seguidores nas redes sociais, destaca que existe uma pressão da sociedade pelo sucesso do jovem ainda cedo. “A ansiedade dos jovens tem muito da pressão pra ser bem sucedido. Existe uma pressão não só do vestibular, da faculdade. As referências dos jovens estão ganhando bilhões de reais com vídeos no Youtube. As redes sociais são os principais gatilhos para ansiedade. Enquanto isso, a gente segue influenciadores com corpos ‘perfeitos’, que compram casa na Disney, e com realidades que não conseguimos acessar”, explica Matheus, que tem um texto no seu livro sobre ansiedade com a seguinte dica: “Não more na internet”.

Muitos especialistas defendem que a ansiedade alta afasta as pessoas do convívio social e aí vive-se em solidão, e viver em solidão piora a ansiedade. Daí, se lança mão das mídias sociais para obter algum alívio e “compensação” da ansiedade e solidão desagradáveis. “As redes nos mostram imagens que nos remetem a situações de perigo. Também tem muita gente que hoje busca ajuda por conta do aumento dos perigos urbanos”, comenta a psicóloga Ana Lúcia Maranhão.

Paradoxalmente, a web foi um dos locais que mais confortou Matheus em momentos de nervosismo. “Conversei com leitores e foi muito legal. Quando você conversa com alguém que realmente te entende - que muitas vezes não sabe nem como ajudar, mas está ali para ouvir - você não se sente sozinho no mundo e entende que tudo bem passar por isso. É como receber um abraço caloroso”, relata ele.

  • Atividades que ajudam a relaxar

Ioga

Meditação

Pilates

Vivências

  • Três aplicativos gratuitos que vão ajudar a controlar a sua ansiedade

QueridaAnsiedade: Aplicativo (app) não substitui a psicoterapia, mas informa, esclarece e proporciona formas mais saudáveis de conviver com a ansiedade

Cíngulo: Resultado de 10 anos de pesquisa, o aplicativo tem conteúdos, técnicas e exercícios para o usuário fortalecer a sua autoestima

Calm: O aplicativo em inglês propõe um minuto de calma e meditação no seu dia para relaxar e melhorar seu humor. Sessões vão de 2 a 20 minutos

 

Fonte: Correio/Municipios Baianos

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